Síndrome de Stendhal: A síndrome do choque no espírito

Síndrome de Stendhal ocorre quando uma pessoa tem um violento choque ao contemplar a arte de qualidade, em grande profusão

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Entre as doenças e condições clínicas mais estranhas que eu já vi, estão algumas muito loucas, como a doença da decepção em Paris, a Síndrome do Gargamel (O nome é “alucinação liliputiana“, onde você vê smurfs), a doença da “dança macabra” e até mesmo a síndrome do sono brutal. Mas entre elas, existe uma outra síndrome muito, muito doida, que é basicamente “um choque no espírito”.

Síndrome de Stendhal: O choque no espírito

Piripaque do Chaves
Síndrome de Stendhal não é muito diferente do Piripaque do Chaves.

O nome correto é “Síndrome de Stendhal”. Mas o que essa síndrome significa? Significa um choque no seu espírito que ocorre ao ver uma obra de arte literalmente acachapante.

Florença, com sua riqueza incomparável de arte renascentista, não é apenas um paraíso para amantes da cultura, mas também o palco de um fenômeno curioso e perturbador: a Síndrome de Stendhal. Essa condição, que afeta turistas de forma inesperada, é marcada por reações emocionais e físicas extremas diante da grandiosidade artística da cidade. Para alguns, o impacto é tão avassalador que leva a colapsos psicológicos e até problemas médicos graves.

Quando a Arte Tira o Fôlego – Literalmente

Florença, a Disneylândia da arte, onde ocorre a Síndrome de Stendhal
Florença, a Disneylândia da arte

Imagine-se na Galeria Uffizi, diante da Adoração dos Magos de Leonardo da Vinci. Seu coração acelera, suas mãos suam e seus joelhos quase cedem. É exatamente isso que muitos visitantes relatam. Não se trata de intoxicação alimentar ou cansaço da viagem – para alguns, é o peso psicológico de estar cercado por tanta arte sublime.

Síndrome de Stendhal diante da arte em Uffizi
Alguns quadros em Florença causam o piripaque

A síndrome leva o nome de Stendhal, pseudônimo do escritor francês Marie-Henri Beyle. Em 1817, ao visitar Florença, ele descreveu sua experiência com termos quase poéticos:

“Eu estava em uma espécie de êxtase… tomado por uma palpitação feroz do coração. A fonte da vida parecia secar dentro de mim.”

Em 1989, a psiquiatra italiana Graziella Magherini estudou o fenômeno e relatou 106 casos em turistas que exibiam sintomas como tonturas, palpitações e alucinações ao admirar obras-primas de Michelangelo ou Botticelli. Segundo ela, essas reações eram causadas pelo impacto emocional e psicológico de estar diante de arte tão imponente, amplificado pela exaustão da viagem.

Florença: Ataques de Pânico ou Êxtase?

Hoje, a síndrome ainda é relatada, especialmente por turistas extremamente sensíveis que passam anos sonhando com uma visita à Toscana. Para muitos, o Nascimento de Vênus, de Botticelli, parece ser um dos maiores gatilhos.

O diretor da Galeria Uffizi, Eike Schmidt, já viu de tudo: lágrimas, ataques epiléticos e até um ataque cardíaco – como o de Carlo Olmastroni, que caiu duro ao admirar a obra em 2018.

Embora a mídia rapidamente tenha atribuído o episódio à Síndrome de Stendhal, Olmastroni esclareceu mais tarde que o real motivo foi uma oclusão de artérias coronárias.

“Talvez, ao olhar para Vênus, minhas artérias decidiram que nada mais valia a pena ser visto e se contraíram permanentemente!”, brincou ele.

Síndrome de Stendhal ocorre quando uma pessoa tem um violento choque ao contemplar a arte de qualidade
Síndrome de Stendhal: A overdose de beleza em Florença

Um Diagnóstico Disputado

Embora fascinante, a síndrome não é reconhecida oficialmente como um transtorno psiquiátrico. Segundo a psicoterapeuta Cristina di Loreto, reações emocionais à arte não são suficientes para justificar um diagnóstico. Para ela, muitos casos atribuídos à síndrome podem ser explicados por outros fatores, como agorafobia, fadiga ou desidratação, comuns entre turistas em espaços lotados como o Uffizi.

Essa ideia de “profecia autorrealizável” também pode desempenhar um papel. Di Loreto sugere que as expectativas dos visitantes, alimentadas por imagens midiáticas e descrições românticas de Florença, contribuem para criar uma experiência quase transcendental que, em alguns casos, resulta em reações exageradas.

A Arte Como Terapia ou Sobrecarga?

Enquanto uns veem Florença como um templo da beleza, outros, como o psicoterapeuta Paolo Molino, têm uma visão mais crítica. Ele compara a cidade à “Disneylândia da arte“, cheia de turistas que transformam um lugar historicamente vibrante em um espaço de comercialismo e multidões sufocantes. Diz:

“Florença é linda, mas eu prefiro os lugares vividos, onde posso passear sem ter que abrir caminho pela massa de gente”

Ainda assim, é importante lembrar que a arte sempre teve um papel transformador. Durante a Renascença, os Médici usaram obras-primas para consolidar seu poder e riqueza. Hoje, essas mesmas obras continuam a influenciar, mas em um contexto totalmente novo – como símbolos de um ideal de beleza e inspiração que transcende séculos.

Síndrome de Stendhal: Um Fenômeno Universal?

Embora a Síndrome de Stendhal esteja intimamente ligada a Florença, muitos acreditam que fenômenos semelhantes podem ocorrer em outros lugares ricos em história e arte, como Veneza, Paris ou Jerusalém e até mesmo no carnaval do Rio.

Esses episódios, no entanto, reforçam um ponto importante: a arte, na maioria das vezes, não é um risco à saúde. Pelo contrário, é uma fonte de renovação para a mente e o espírito.

Como Schmidt, diretor do Uffizi, coloca:
“A arte, geralmente, é boa para você – para o coração e para a mente.”

Portanto, ao visitar Florença ou outro lugar repleto de maravilhas artísticas, esteja preparado. Talvez você se emocione, talvez sinta um arrepio, ou quem sabe até uma palpitação mais forte. Mas uma coisa é certa: a arte sempre nos desafia a sentir, refletir e – no melhor dos casos – a sermos transformados.

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