Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on email
Email
Share on whatsapp
WhatsApp

Enquanto dirigia para casa, Renato foi pensando no velho. No início sentia muita raiva. Nunca antes havia sido tão esculachado num tão exíguo espaço de tempo.

-Velho escroto. – Gemeu, enquanto passava a quarta.

No caminho, seus pensamentos migraram da raiva ao conteúdo de sua conversa no restaurante. O tal Leonard era um grosso, mas parecia saber do que estava falando. Um demônio preso na cadeira era também o que Renato sentia que havia naquele estranho móvel. Sua mente fazia sucessivos mergulhos em lembranças. Lembrava da casa de Seraph e da belíssima mulher que o acompanhava. Ele não conseguia entender como era possível três delas e lembrou-se que  Leonard havia ficado surpreso com o relato dele ter visto três delas e não duas como ele esperava.  Renato ficou cada vez mais intrigado com a ávida curiosidade do velho, que havia feito com que ele contasse em detalhes, não só o que havia visto dentro da casa, mas como eram as pessoas, os detalhes. O velho queria saber tudo, até a cor das paredes. A mesma cor que ele viu e que não estava lá quando invadiram a mansão.

Era inconcebível para ele que uma casa pudesse ser atrelada no tempo e espaço, mudando de lugar de acordo com a hora, mas tudo levava a crer que era isso mesmo, já que o tal Seraph havia sido exigente com o horário. Não era só uma frescuragem de um esnobe riquíssimo. Se ele chegasse antes, ou depois, a casa não estaria lá.

Leonard não foi claro com ele sobre a razão pelo qual o tal Seraph fugia dele e muito menos porque Leonard queria matar o careca rico. Aliás, a julgar pela conta do restaurante, estava claro que aquela era uma ação entre inimigos, mas inimigos bem ricos. Só era estranho que um homem tão rico e sofisticado quanto Leonard fosse tão grosso, e se vestisse tão mal. Aquele paleotó de tweed parecia tirado de um lixão.

Se Leonard desprezava a imagem, não se podia dizer o mesmo de seu inimigo. O tal Seraph estava metido numa roupa muito bem cortada e certamente os sapatos eram italianos a julgar pelo brilho. Um homem sóbrio e elegante, desfilando num Rolls Royce preto e com uma bela mulher de branco a acompanhá-lo. Bom gosto ele tinha.

Renato rememorou algumas das falas de Leonard. O velho de vez em quando engrenava a falar e falava muito, com um certo e irritante ar professoral. Muita coisa do que ele disse, Renato não guardou na hora. Não deu para absorver tudo. Até porque a maldita cerveja era forte.

Renato estacionou a caminhonete numa rua lateral de sua casa. Estava decidido. Iria seguir pelo menos uma das dicas do velho. Iria dar no pé de Curitiba. Talvez fosse para Salvador. Talvez o melhor mesmo fosse retornar a Munique e tocar a vida. Mas a ideia de não ter Mark junto lhe produzia uma verdadeira dor física na boca do estômago. O que ele iria dizer a Daisy? “Olha, seu marido sumiu… Uns caras do mal pegaram o Mark para encarnar um demônio nele!”

Iria parecer loucura, e era. Tudo aquilo, desde o princípio, era pura loucura. Renato ainda podia sentir o aperto na garganta que o monstro quase havia separado do corpo dele. Apesar de soar como pura loucura, os efeitos eram bem visíveis. Tudo parecia um pesadelo do qual era impossível acordar.

Renato subiu até o apartamento. Estava resolvido. Ia pegar as coisas e se mandar. Compraria a primeira passagem no guichê do aeroporto para a Europa. E de lá daria um jeito de ir pra Munique.

Logo ao meter a chave na fechadura, notou algo errado. A porta estava aberta , embora ele tivesse certeza de ter trancado.

Renato teve um ímpeto de recuar. Seu coração disparou e ele sentiu a adrenalina correndo em suas veias. Reuniu o resto de coragem que ainda lhe restava e abriu a porta. Olhou por uma estreita greta antes de acender a luz.

Diante dele estava a sala, ainda bagunçada, com guimbas de cigarro e latas de cerveja espalhadas por todos os lados.

Renato entrou, cauteloso.

Andou pela casa até o quarto. Não havia ninguém no apartamento.

-Porra, será que eu me esqueci de fechar essa merda? – Pensou.

Foi até o quarto, juntou algumas roupas e enfiou tudo do jeito que deu na mochila de acampar. Depois, pegou sua toalha e foi tomar um banho.

Enquanto tomava banho, se lembrou de Lílian. Por um breve segundo congelado no tempo, sentiu o perfume dela e o gosto de seu corpo.

Minutos depois do  banho, quando chegava no quarto só de cueca, Renato teve um choque. Havia um homem sentado na cama dele. Um homem que ele nunca tinha visto em sua vida.

-Ê punheteiro do caralho! – Disse o homem, sorrindo maliciosamente. – Quase acaba com a água do planeta no banho.

-Quem é você? – Renato perguntou, com os olhos arregalados.

-Que importa? Tenho muitos nomes. Um aqui, outro lá… Nomes não interessam, meu rapaz.

Renato ficou sem ação. Apenas olhava aquele homem, que parecia um pouco interessado na decoração do quarto.

-Bem espartano para um antiquário.  – Ele disse. – Eu esperava mais… Opulência. – Disse como quem procura as palavras certas.

Talvez, mais estranho que um homem no seu quarto era a maneira com o qual ele estava vestido. Não era um homem feio, mas não era belo. Vestia um terno antigo, daqueles com ombreiras e uma camisa berrante laranja com golas grandes. Ele tinha um grande lenço no bolso esquerdo, também laranja. O terno era de finas riscas de giz, quase invisíveis. Seu corte de cabelo era grande e volumoso, um cabelo saído dos anos 60 ou setenta. Setenta, com certeza, a julgar pela altura das mechas pegando no colarinho. O homem tinha um nariz proeminente e uma barba mediana. O rosto era magro, com duas covas laterais, que ressaltavam grandemente as maçãs do rosto. As calças dele eram completamente cafonas. Era um modelo boca de sino e ele usava umas botas antigas, pretas com ziper lateral. A testa tinha marcas de expressão, e uma parte dela era coberta com a franja que parecia cuidadosamente colocada para ocultar o princípio da calvície. O nariz era levemente aquilino e o homem parecia um pouco queimado de sol.

-Meu amigo, eu não sei como que você entrou aqui, mas acho que você se enganou de apartamento.

-Não, não. É com você mesmo que eu quero falar. – Disse o homem de roupas cafonas, sem se levantar da cama dele.

-Pois então fale.

-Seu amigo mandou eu te procurar.

-Quem?

-Seu amigo Mark.

-Mark? Você sabe onde ele está?

-Sei.

-Onde?

-Eu não posso dizer onde, mas eu posso levar você lá. Quer ir? – Ele perguntou, colocando-se de pé.

Renato sentiu algo estranho. O homem era alto. Era como se o estranho visitante conseguisse ver através da alma dele.

-Eu, eu, eu não-não posso. – Disse Renato gaguejando enquanto enfiava as calças.

-Sei que você vendeu uma cadeira antiga para um bom amigo meu.

-Sim, sim senhor. Vendi. E me arrependo.

-Se arrepende?

-Sim… A cadeira… A cadeira…

-O que tem a cadeira, Renato?

-Eu não lhe disse meu nome.

-Não? É mesmo?

-Tenho certeza.

-Ah, sim, foi meu amigo que comprou a cadeira, que me disse seu nome, obviamente.

-Pois então?

-Então, eu gostaria muito que você fosse comigo até a casa dele, para que pudesse me mostrar uma coisa na cadeira. Tenho certeza que você dá garantias dos móveis que vende, correto?

-Há algum problema com ela?

-Parece que sim, mas eu não sei dizer. É algo no encosto. Ele me disse. Você tem que sentar lá para sentir que ela espeta…

-Sentar?

-Sim, acho que você vai ter que sentar para ver o que estamos falando. Ele esta querendo o dinheiro de volta.

Diante daquela afirmação, Renato teve a certeza de que havia mesmo algo errado. A invasão na casa, a aparente intimidade do homem desconhecido, sem nome e que queria que ele sentasse na cadeira demoníaca eram fortes indícios. Diante de tudo aquilo, a mente de Renato só teve uma saída:

-Tudo bem. Vamos lá. Eu vou sentar para ver qual é.

-Perfeito. Explêndido. Seu amigo vai querer mesmo que vocês consertem. Ele disse isso antes de eu vir aqui. Ele parece bem apegado ao dinheiro.

-Sei como ele é. – Falou Renato, colocando um casaco. E emendou: -Só um minuto que vou pegar o outro par de tênis.

-Perfeitamente.

Renato saiu do quarto e foi até a cozinha. Sorrateiramente, abriu a fechadura da porta dos fundos e saiu pisando leve. Pretendia descer correndo pelas escadas. Encostou a porta com cuidado para não fazer barulho. Então desceu correndo feito um luco pelas escadas do prédio, até dar de cara com o mesmo homem no quarto andar. Ele fumava um cigarro.

-Devia ter colocado a porra do calçado antes de fugir feito uma gazela, trouxa.

Renato tentou partir para cima do homem de roupas antiquadas, mas uma força pareceu congelar suas pernas. Subitamente, ele não conseguia se mover. Estava congelado.

Ficou vendo o homem acabar de fumar, pacientemente. Renato tentava balbuciar alguma coisa, mas nada saía senão fracos grunhidos. Mal conseguia respirar. Todos os seus músculos pareciam travados.

O homem fumou um cigarro completo e jogou a guimba no chão da escada. Com a ponta da bota ele pisou e apagou a brasa.

Foi até Renato e quando se aproximou, Renato notou que o homem estava ficando embaçado. Lentamente a figura foi se desfazendo numa neblina de cor indefinida. E agora, diante dele estava Seraph. O careca de cavanhaque, vestido no terno preto.

Se pudesse se mover, Renato teria arregalado os olhos de pavor. O cara tinha mudado de forma diante dele.

Seraph agarrou Renato pelo braço e começou a subir as escadas. Ele gradualmente começou a sentir as pernas, embora não conseguisse mover os braços. Foi sendo arrastado de volta ao apartamento pelo careca.

Seraph entrou com ele pela sala e o jogou no sofá.

Renato caiu como um boneco de louça. Bateu no sofá, quicou e caiu no chão de barriga para cima. Sua cabeça bateu violentamente contra o piso, com um som de coco.

Do chão, ele via Seraph de pé em frente a ele. Daquele ângulo ele pareci ainda mais ameaçador. Seraph passou sobre ele,  jogou uma lata de cerveja no chão e sentou-se numa das poltronas.

-Quer dizer então que o senhor ia fugir de mim?

Renato percebeu que estava começando a conseguir se mover, apesar da dor que dava.

-Cadê… o… Mark?

Seraph deu uma gargalhada.

-Seu amigo morreu.

-Morreu?

-A cadeira o rejeitou. – Ele disse, pegando outro cigarro no estojo de prata que trazia no paletó do belo terno.

-Como assim?

-Não se faz de bobo, rapaz. Você sabe que essa não é uma simples cadeira, não sabe?

-Sei. – Disse ele, laconicamente.

-Sabe, quando seu amigo foi colocado na cadeira e as coisas não funcionaram como planejado, ficamos sem entender. Mas agora eu sei. A cadeira te escolheu. Ela te escolheu desde o início… Foi burrice nossa, eu admito.  Custamos a perceber isso. Pensamos que ele escolheria um homem mais velho. Foi uma surpresa para nós que ele tivesse escolhido logo um vira bosta, como você.

-Eu… Eu não quero.

-E desde quando você tem algum querer, meu caro?

-Onde está o corpo do meu amigo?

-Já foi devidamente desovado…

-Desovado?

-Sim, desovado. Demos uns tiros para parecer assalto. Ele ta num matagal na estrada. Mas vamos falar de você. É você que interessa aqui. Eu acho que a cadeira quer você.

-Pode falar o português claro, seu maldito. Eu sei que não é a cadeira. Sei que tem um demônio nela!

-Sabe é?

-Sei!

-Sabe o que mais?

-Eu… Eu não vou falar nada.

-Agora eu fiquei curioso.  Vamos desembuchar! Quem te falou isso?

-Não.

-Tudo bem. Você que sabe.  – Disse ele, dando uma profunda tragada no cigarro. A brasa ardeu vermelha na ponta. Seraph colocou a brasa com lentidão sobre o rosto de Renato, queimando sua bochecha. O cigarro queimava, a dor era lancinante e Renato gritava, enquanto via a expressão de prazer de Seraph com sua dor. Aspirou com volúpia o cheiro da carne queimada… – Valentão, hein? Deve ser por isso que a cadeira quer você. Seu amigo gordinho chorou como uma putinha indefesa.

-Desgraçado.

-Vamos lá, garoto. Você consegue mais do que isso?

-O que você vai fazer comigo?

-Algo me diz que você já sabe o que vai rolar. Nós vamos dar um passeio agora. Você vai rever a cadeira.

-…E você vai colocar o demônio que está nela em mim!

-Tá sabendo bem, garoto. Olha o lado bom… Isso vai te dar poderes que você não pode imaginar.

-Mas… Mas você… O senhor acha que eu sou o escolhido pela cadeira…

-Acho.

– E se eu não for?

-Há lugar para mais um corpo no matagal.

A porta do apartamento se abriu. Entraram as três mulheres. Elas eram rigorosamente iguais.

Cada uma pegou Renato por um lado e o levantaram com facilidade. Uma delas ficou ao lado de Seraph, em silêncio, apenas olhando.

A aparição daquelas três mulheres iguais dava uma sensação de medo nele. Apesar de lindas, havia uma clara sensação de que algo não estava certo.

-Vamos levá-lo. – Disse ele.

Renato ainda conseguiu ver que era quase meia noite quando Seraph fechou a porta do apartamento atrás deles.

Desceram ate a garagem do prédio, onde o carro preto estava esperando. Renato foi jogado no banco de trás, ainda paralizado.

-Chega pra lá, porra! – Disse o homem.

Seraph sentou-se ao lado de Renato. Do outro lado, sentou uma das versões de Esplendor.

-Toca pro Acácia. – Disse o Careca.

Renato testemunhou com desespero que havia um homem completamente carcomido no banco do motorista. Era quase que um cadáver em decomposição, com a cabeça cheia de pústulas de onde escorria uma gosma purulenta. Uma visão horrível.

-Você vai gostar, Renato. – Disse ele, quase sussurrando, enquanto acendia mais um cigarro.

Renato percebeu que estava realmente ferrado.

CONTINUA

 

A cadeira obscura – Parte 18

Comments

comments

Enquanto dirigia para casa, Renato foi pensando no velho. No início sentia muita raiva. Nunca antes havia sido tão esculachado num tão exíguo espaço de tempo.

-Velho escroto. – Gemeu, enquanto passava a quarta.

No caminho, seus pensamentos migraram da raiva ao conteúdo de sua conversa no restaurante. O tal Leonard era um grosso, mas parecia saber do que estava falando. Um demônio preso na cadeira era também o que Renato sentia que havia naquele estranho móvel. Sua mente fazia sucessivos mergulhos em lembranças. Lembrava da casa de Seraph e da belíssima mulher que o acompanhava. Ele não conseguia entender como era possível três delas e lembrou-se que  Leonard havia ficado surpreso com o relato dele ter visto três delas e não duas como ele esperava.  Renato ficou cada vez mais intrigado com a ávida curiosidade do velho, que havia feito com que ele contasse em detalhes, não só o que havia visto dentro da casa, mas como eram as pessoas, os detalhes. O velho queria saber tudo, até a cor das paredes. A mesma cor que ele viu e que não estava lá quando invadiram a mansão.

Era inconcebível para ele que uma casa pudesse ser atrelada no tempo e espaço, mudando de lugar de acordo com a hora, mas tudo levava a crer que era isso mesmo, já que o tal Seraph havia sido exigente com o horário. Não era só uma frescuragem de um esnobe riquíssimo. Se ele chegasse antes, ou depois, a casa não estaria lá.

Leonard não foi claro com ele sobre a razão pelo qual o tal Seraph fugia dele e muito menos porque Leonard queria matar o careca rico. Aliás, a julgar pela conta do restaurante, estava claro que aquela era uma ação entre inimigos, mas inimigos bem ricos. Só era estranho que um homem tão rico e sofisticado quanto Leonard fosse tão grosso, e se vestisse tão mal. Aquele paleotó de tweed parecia tirado de um lixão.

Se Leonard desprezava a imagem, não se podia dizer o mesmo de seu inimigo. O tal Seraph estava metido numa roupa muito bem cortada e certamente os sapatos eram italianos a julgar pelo brilho. Um homem sóbrio e elegante, desfilando num Rolls Royce preto e com uma bela mulher de branco a acompanhá-lo. Bom gosto ele tinha.

Renato rememorou algumas das falas de Leonard. O velho de vez em quando engrenava a falar e falava muito, com um certo e irritante ar professoral. Muita coisa do que ele disse, Renato não guardou na hora. Não deu para absorver tudo. Até porque a maldita cerveja era forte.

Renato estacionou a caminhonete numa rua lateral de sua casa. Estava decidido. Iria seguir pelo menos uma das dicas do velho. Iria dar no pé de Curitiba. Talvez fosse para Salvador. Talvez o melhor mesmo fosse retornar a Munique e tocar a vida. Mas a ideia de não ter Mark junto lhe produzia uma verdadeira dor física na boca do estômago. O que ele iria dizer a Daisy? “Olha, seu marido sumiu… Uns caras do mal pegaram o Mark para encarnar um demônio nele!”

Iria parecer loucura, e era. Tudo aquilo, desde o princípio, era pura loucura. Renato ainda podia sentir o aperto na garganta que o monstro quase havia separado do corpo dele. Apesar de soar como pura loucura, os efeitos eram bem visíveis. Tudo parecia um pesadelo do qual era impossível acordar.

Renato subiu até o apartamento. Estava resolvido. Ia pegar as coisas e se mandar. Compraria a primeira passagem no guichê do aeroporto para a Europa. E de lá daria um jeito de ir pra Munique.

Logo ao meter a chave na fechadura, notou algo errado. A porta estava aberta , embora ele tivesse certeza de ter trancado.

Renato teve um ímpeto de recuar. Seu coração disparou e ele sentiu a adrenalina correndo em suas veias. Reuniu o resto de coragem que ainda lhe restava e abriu a porta. Olhou por uma estreita greta antes de acender a luz.

Diante dele estava a sala, ainda bagunçada, com guimbas de cigarro e latas de cerveja espalhadas por todos os lados.

Renato entrou, cauteloso.

Andou pela casa até o quarto. Não havia ninguém no apartamento.

-Porra, será que eu me esqueci de fechar essa merda? – Pensou.

Foi até o quarto, juntou algumas roupas e enfiou tudo do jeito que deu na mochila de acampar. Depois, pegou sua toalha e foi tomar um banho.

Enquanto tomava banho, se lembrou de Lílian. Por um breve segundo congelado no tempo, sentiu o perfume dela e o gosto de seu corpo.

Minutos depois do  banho, quando chegava no quarto só de cueca, Renato teve um choque. Havia um homem sentado na cama dele. Um homem que ele nunca tinha visto em sua vida.

-Ê punheteiro do caralho! – Disse o homem, sorrindo maliciosamente. – Quase acaba com a água do planeta no banho.

-Quem é você? – Renato perguntou, com os olhos arregalados.

-Que importa? Tenho muitos nomes. Um aqui, outro lá… Nomes não interessam, meu rapaz.

Renato ficou sem ação. Apenas olhava aquele homem, que parecia um pouco interessado na decoração do quarto.

-Bem espartano para um antiquário.  – Ele disse. – Eu esperava mais… Opulência. – Disse como quem procura as palavras certas.

Talvez, mais estranho que um homem no seu quarto era a maneira com o qual ele estava vestido. Não era um homem feio, mas não era belo. Vestia um terno antigo, daqueles com ombreiras e uma camisa berrante laranja com golas grandes. Ele tinha um grande lenço no bolso esquerdo, também laranja. O terno era de finas riscas de giz, quase invisíveis. Seu corte de cabelo era grande e volumoso, um cabelo saído dos anos 60 ou setenta. Setenta, com certeza, a julgar pela altura das mechas pegando no colarinho. O homem tinha um nariz proeminente e uma barba mediana. O rosto era magro, com duas covas laterais, que ressaltavam grandemente as maçãs do rosto. As calças dele eram completamente cafonas. Era um modelo boca de sino e ele usava umas botas antigas, pretas com ziper lateral. A testa tinha marcas de expressão, e uma parte dela era coberta com a franja que parecia cuidadosamente colocada para ocultar o princípio da calvície. O nariz era levemente aquilino e o homem parecia um pouco queimado de sol.

-Meu amigo, eu não sei como que você entrou aqui, mas acho que você se enganou de apartamento.

-Não, não. É com você mesmo que eu quero falar. – Disse o homem de roupas cafonas, sem se levantar da cama dele.

-Pois então fale.

-Seu amigo mandou eu te procurar.

-Quem?

-Seu amigo Mark.

-Mark? Você sabe onde ele está?

-Sei.

-Onde?

-Eu não posso dizer onde, mas eu posso levar você lá. Quer ir? – Ele perguntou, colocando-se de pé.

Renato sentiu algo estranho. O homem era alto. Era como se o estranho visitante conseguisse ver através da alma dele.

-Eu, eu, eu não-não posso. – Disse Renato gaguejando enquanto enfiava as calças.

-Sei que você vendeu uma cadeira antiga para um bom amigo meu.

-Sim, sim senhor. Vendi. E me arrependo.

-Se arrepende?

-Sim… A cadeira… A cadeira…

-O que tem a cadeira, Renato?

-Eu não lhe disse meu nome.

-Não? É mesmo?

-Tenho certeza.

-Ah, sim, foi meu amigo que comprou a cadeira, que me disse seu nome, obviamente.

-Pois então?

-Então, eu gostaria muito que você fosse comigo até a casa dele, para que pudesse me mostrar uma coisa na cadeira. Tenho certeza que você dá garantias dos móveis que vende, correto?

-Há algum problema com ela?

-Parece que sim, mas eu não sei dizer. É algo no encosto. Ele me disse. Você tem que sentar lá para sentir que ela espeta…

-Sentar?

-Sim, acho que você vai ter que sentar para ver o que estamos falando. Ele esta querendo o dinheiro de volta.

Diante daquela afirmação, Renato teve a certeza de que havia mesmo algo errado. A invasão na casa, a aparente intimidade do homem desconhecido, sem nome e que queria que ele sentasse na cadeira demoníaca eram fortes indícios. Diante de tudo aquilo, a mente de Renato só teve uma saída:

-Tudo bem. Vamos lá. Eu vou sentar para ver qual é.

-Perfeito. Explêndido. Seu amigo vai querer mesmo que vocês consertem. Ele disse isso antes de eu vir aqui. Ele parece bem apegado ao dinheiro.

-Sei como ele é. – Falou Renato, colocando um casaco. E emendou: -Só um minuto que vou pegar o outro par de tênis.

-Perfeitamente.

Renato saiu do quarto e foi até a cozinha. Sorrateiramente, abriu a fechadura da porta dos fundos e saiu pisando leve. Pretendia descer correndo pelas escadas. Encostou a porta com cuidado para não fazer barulho. Então desceu correndo feito um luco pelas escadas do prédio, até dar de cara com o mesmo homem no quarto andar. Ele fumava um cigarro.

-Devia ter colocado a porra do calçado antes de fugir feito uma gazela, trouxa.

Renato tentou partir para cima do homem de roupas antiquadas, mas uma força pareceu congelar suas pernas. Subitamente, ele não conseguia se mover. Estava congelado.

Ficou vendo o homem acabar de fumar, pacientemente. Renato tentava balbuciar alguma coisa, mas nada saía senão fracos grunhidos. Mal conseguia respirar. Todos os seus músculos pareciam travados.

O homem fumou um cigarro completo e jogou a guimba no chão da escada. Com a ponta da bota ele pisou e apagou a brasa.

Foi até Renato e quando se aproximou, Renato notou que o homem estava ficando embaçado. Lentamente a figura foi se desfazendo numa neblina de cor indefinida. E agora, diante dele estava Seraph. O careca de cavanhaque, vestido no terno preto.

Se pudesse se mover, Renato teria arregalado os olhos de pavor. O cara tinha mudado de forma diante dele.

Seraph agarrou Renato pelo braço e começou a subir as escadas. Ele gradualmente começou a sentir as pernas, embora não conseguisse mover os braços. Foi sendo arrastado de volta ao apartamento pelo careca.

Seraph entrou com ele pela sala e o jogou no sofá.

Renato caiu como um boneco de louça. Bateu no sofá, quicou e caiu no chão de barriga para cima. Sua cabeça bateu violentamente contra o piso, com um som de coco.

Do chão, ele via Seraph de pé em frente a ele. Daquele ângulo ele pareci ainda mais ameaçador. Seraph passou sobre ele,  jogou uma lata de cerveja no chão e sentou-se numa das poltronas.

-Quer dizer então que o senhor ia fugir de mim?

Renato percebeu que estava começando a conseguir se mover, apesar da dor que dava.

-Cadê… o… Mark?

Seraph deu uma gargalhada.

-Seu amigo morreu.

-Morreu?

-A cadeira o rejeitou. – Ele disse, pegando outro cigarro no estojo de prata que trazia no paletó do belo terno.

-Como assim?

-Não se faz de bobo, rapaz. Você sabe que essa não é uma simples cadeira, não sabe?

-Sei. – Disse ele, laconicamente.

-Sabe, quando seu amigo foi colocado na cadeira e as coisas não funcionaram como planejado, ficamos sem entender. Mas agora eu sei. A cadeira te escolheu. Ela te escolheu desde o início… Foi burrice nossa, eu admito.  Custamos a perceber isso. Pensamos que ele escolheria um homem mais velho. Foi uma surpresa para nós que ele tivesse escolhido logo um vira bosta, como você.

-Eu… Eu não quero.

-E desde quando você tem algum querer, meu caro?

-Onde está o corpo do meu amigo?

-Já foi devidamente desovado…

-Desovado?

-Sim, desovado. Demos uns tiros para parecer assalto. Ele ta num matagal na estrada. Mas vamos falar de você. É você que interessa aqui. Eu acho que a cadeira quer você.

-Pode falar o português claro, seu maldito. Eu sei que não é a cadeira. Sei que tem um demônio nela!

-Sabe é?

-Sei!

-Sabe o que mais?

-Eu… Eu não vou falar nada.

-Agora eu fiquei curioso.  Vamos desembuchar! Quem te falou isso?

-Não.

-Tudo bem. Você que sabe.  – Disse ele, dando uma profunda tragada no cigarro. A brasa ardeu vermelha na ponta. Seraph colocou a brasa com lentidão sobre o rosto de Renato, queimando sua bochecha. O cigarro queimava, a dor era lancinante e Renato gritava, enquanto via a expressão de prazer de Seraph com sua dor. Aspirou com volúpia o cheiro da carne queimada… – Valentão, hein? Deve ser por isso que a cadeira quer você. Seu amigo gordinho chorou como uma putinha indefesa.

-Desgraçado.

-Vamos lá, garoto. Você consegue mais do que isso?

-O que você vai fazer comigo?

-Algo me diz que você já sabe o que vai rolar. Nós vamos dar um passeio agora. Você vai rever a cadeira.

-…E você vai colocar o demônio que está nela em mim!

-Tá sabendo bem, garoto. Olha o lado bom… Isso vai te dar poderes que você não pode imaginar.

-Mas… Mas você… O senhor acha que eu sou o escolhido pela cadeira…

-Acho.

– E se eu não for?

-Há lugar para mais um corpo no matagal.

A porta do apartamento se abriu. Entraram as três mulheres. Elas eram rigorosamente iguais.

Cada uma pegou Renato por um lado e o levantaram com facilidade. Uma delas ficou ao lado de Seraph, em silêncio, apenas olhando.

A aparição daquelas três mulheres iguais dava uma sensação de medo nele. Apesar de lindas, havia uma clara sensação de que algo não estava certo.

-Vamos levá-lo. – Disse ele.

Renato ainda conseguiu ver que era quase meia noite quando Seraph fechou a porta do apartamento atrás deles.

Desceram ate a garagem do prédio, onde o carro preto estava esperando. Renato foi jogado no banco de trás, ainda paralizado.

-Chega pra lá, porra! – Disse o homem.

Seraph sentou-se ao lado de Renato. Do outro lado, sentou uma das versões de Esplendor.

-Toca pro Acácia. – Disse o Careca.

Renato testemunhou com desespero que havia um homem completamente carcomido no banco do motorista. Era quase que um cadáver em decomposição, com a cabeça cheia de pústulas de onde escorria uma gosma purulenta. Uma visão horrível.

-Você vai gostar, Renato. – Disse ele, quase sussurrando, enquanto acendia mais um cigarro.

Renato percebeu que estava realmente ferrado.

CONTINUA

 

A cadeira obscura – Parte 18

Comments

comments

Eu dei duro aqui

Com 15 anos de sangue suor e lágrimas, eu me esforcei para fazer um dos blogs mais antigos e legais do Brasil. Mis de 5000 artigos, mais de 100.000 comentários, mais de 20 livros, canal, programa de rádio, esculturas... Manter isso, você pode imaginar, não é barato. Talvez você considere me apoiar no Patreon e ajudar o Mundo Gump a não sair do ar.
Ajuda aí?

Conheça meus livros

error: Alerta: Conteúdo protegido !!