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EXT Estação Orbital Azimov III

As naves estão conectadas. Paul carrega a mulher nos braços para dentro da estação. A câmera gira e vemos o espaço infinito de estrelas cobrindo o céu.

Passagem de tempo

INT Estação Orbital AZIMOV III –sala de jantar

Um faustoso jantar para os dois. Agora sentados um bem perto do outro. Os olhares não deixam dúvidas de que ambos se desejam.

PAUL

Minha querida Eva… Você é mesmo muito sortuda. Como eu ia dizendo, nossas antenas de transmissão de dados via rádio e microondas foram danificadas por um meteoro quando eu estava reparando os módulos externos e quase morri. Foi a Aude aqui que me salvou, né Aude?

Aude não responde. Limita-se a acenar positivamente com a cabeça enquanto serve o vinho para Eva.

PAUL

…Se não fosse a transmissão, não nos encontraríamos e você poderia vagar congelada sem rumo no espaço para sempre, e…

AUDE

Mais alguma coisa Paul?

PAUL

Não, não.

AUDE

A carne está do seu gosto, Paul?

PAUL

Sim, sim… Mas aí…

AUDE

Quer que eu traga a sobremesa, Paul?

PAUL

Porra, Aude. Cala a boca! Deixa eu contar o caso pra Eva, caceta!

AUDE

Desculpe Paul.

PAUL

Vai, vai, vai… Xispa!

Aude obedece. Sai de cabeça baixa em direção a cozinha.

INT Estação Orbital AZIMOV III –sala de máquinas

Paul e Eva caminham pela nave. Paul apresenta a nova moradia para Eva. Os dois são seguidos em silêncio por Aude.

PAUL

…E aqui fica o reator…

EVA

Nossa, que gigante que é esta nave. Nunca pensei que viveria para ver algo assim. No meu tempo, projetos como este eram coisa de cinema.

PAUL

Fico feliz que goste. Ficaremos um bom tempo aqui. Sabe, tem algumas coisas que eu ainda não falei sobre… Bem, quero dizer…

AUDE

(interrompendo, interpondo-se entre Paul e Eva)

Paul, são oito e meia. Quer que eu prepare o seu banho agora, senhor?

PAUL

Dá um tempo, Aude! Que merda! Vê se não enche, robô chato de uma figa!

EVA

(empurra Aude e volta para o lado de Paul)

É! Não enche o saco, robô. Eu é que vou preparar o banho… O nosso banho.

(sorrindo maliciosamente)

Paul sorri de volta para Eva.

PAUL

Sabe de uma coisa, Eva?

EVA

Sim?

PAUL

Nada é por acaso.

Aude sai em silêncio para o corredor, deixando os dois se beijando na sala de máquinas.

INT Estação Espacial Azimov III – aposentos do capitão – banheiro

Paul e Eva estão nus na banheira. Paul esfrega as costas de Eva com suavidade e carinho.

EVA

…Então quando os reatores entraram em colapso eu estava trabalhando no sistema de alimentação da nave de emergência. Foi minha sorte. O computador iniciou o processo de emergência e me trancou lá. Segundos antes do cargueiro explodir com toda a tripulação, eu fui lançada ao espaço onde fiquei a deriva por todo este tempo. O computador de bordo da capsula de resgate indicava que não haveria energia suficiente para voltar. Sem opção e para me salvar, entrei na cápsula hiperbárica e coloquei a nave em economia máxima de energia. Naquele momento eu sabia que poderia dormir para sempre.  Iniciei o procedimento de segurança. Ativei o comando remoto da nave e entrei em animação suspensa esperando que me acontecesse o melhor.

PAUL

E então quando a nave captou a minha transmissão de emergência com a localização…

EVA

Sim, Paul. Ela ficou inerte no espaço até que sua transmissão de emergência foi captada pelos sensores da nave e o procedimento automático conseguiu traçar seu perímetro e posição com base nos dados anexos na mensagem. Graças aos dados, a nave pôde traçar uma trajetória de baixo consumo e me trouxe aqui. Ao se aproximar, eu não sei como, mas a sua nave assumiu o comando do sistema e me tirou da animação suspensa.

Mas no jantar você ia me contar sobre a Terra. O que era?

PAUL

Ah, querida… Não vamos de falar dessas coisas tristes. Temos muito o que fazer, minha pequena Eva.

Paul dá um demorado e apaixonado beijo em Eva.

Trilha romântica “Eva instrumental”

Paul carrega Eva nos braços para o quarto. Ele a joga na cama e deita-se na penumbra com ela.

Os dois beijam-se na cama.

Entreaberta, a porta deixa a lente esverdeada dos olhos de Aude aparecer, iluminada pela fraca luz que vem do quarto onde os amantes se entregam à paixão.

Cenas da nave no espaço. Cenas de Aude andando pelos corredores. Cenas das estrelas, dos planetas, dos cometas e dos meteoros. Entremeia com cenas dos amantes no quarto. Beijos ardentes. Trilha romântica em clímax.

PASSAGEM DE TEMPO

INT Estação Espacial Azimov III – aposentos do capitão

PAUL
Então, somos só nós dois. Não há mais o nosso planeta. Acabou.

… Vamos, não chore.

EVA

É estranho. É como se não tivesse acontecido.

(Eva abraça Paul e beija a boca dele com pavor)

PAUL

Meu amor, quase não lamento o que aconteceu. Nunca fui tão feliz em toda minha vida.

EVA

Paul. Posso dizer a mesma coisa. Se pelo que você me contou… Somos os últimos.

PAUL

Sim, uma espécie de “Adão e …

Os dois caem na gargalhada.

EVA

…Nada é por acaso, meu querido.

(beijos apaixonados)

PAUL

Eva, meu amor…

EVA

Que foi?

PAUL

Sei lá. Fico meio sem graça. Te chamei de meu amor, mas… Afinal nos conhecemos há o que? Poucas horas… Me sinto bobo.

EVA

Paul, qual a razão da vergonha? Não há mais ninguém. Somos só nos dois. Não há Deus, ou santos, ou anjos, nem juízes nem carrascos. Não há mais uma sociedade. Só temos um ao outro… E não temos tempo para formalidades. Somos só carne. Só desejo. E temos o cosmos como testemunha do nosso prazer.

PAUL

Sim, e sabe de uma coisa? Alguém vai ter que repovoar o planeta Terra. E não estou vendo mais ninguém aqui além de nós dois. Temos muito trabalho a fazer. Não podemos perder tempo.

(diz, fazendo um carinho nos cabelos negros de Eva)

Eles se abraçam e rolam nus na cama.

Ao fundo rola mais um trecho da trilha romântica.

EXT- Estação Orbital AZIMOV III

O céu de estrelas é o pano de fundo da nave. Ao fundo ouvimos os gemidos de prazer.

INT – Estação Orbital Azimov III

Paul e Eva estão comendo com vontade na cama. Ambos nus cobertos por lençóis de seda. Paul comenta:

PAUL

Umm… que fome…

EVA

Sim, o amor abre o apetite. Comer e beber estimulam nosso sentidos, estimulam a volúpia. Gostaria de saber se algum dia irei me saciar.

PAUL

(segura a moça pela cintura e fala sensualmente no ouvido dela)

Tomara que não, meu amor.

Então eles se beijam.

INT – Corredor de acesso aos aposentos da tripulação

Do lado de fora da cabine do capitão está Aude parada. Sentada no corredor escuro. Ela está abaixada encostada na parede. As pernas cruzadas e o pé batendo no chão de forma impaciente.

EXT – Estação Orbital Azimov III

O sol surge na escuridão do espaço atrás do planeta inóspito abaixo.

INT estação orbital azimov III – Aposentos do capitão

A luz do sol entra pela janela da cabine. Iluminando seu interior com um amarelo pálido. Paul e EVA ainda nus, estão contemplando a imensidão do cosmos.

PAUL

Olha, meu amor… O sol está nascendo.

EVA

Sim… Olhe. Vamos ver o sol nascer da ponte de acoplamento que tem uma janela maior?

PAUL

Só se for agora!

INT Estação Orbital Azimov III – corredor de acesso a ponte

Paul Gillon e Eva passam animados através do corredor, correndo nus de mãos dadas, rindo e gritando excitados  como crianças.  Na escuridão, num canto do corredor, parada como um abajur inútil, está Aude.

INT Estação Orbital Azimov III – ponte de acoplamento

Da ponte, ambos veem a beleza do sol cruzar o espaço. Ondas de luz percorrem o vazio, iluminando com a luz dura a fuselagem da nave.

PAUL

Eva. Quer ver uma coisa bonita?

EVA

Quero. O que?

PAUL

Olha só…

Paul digita comandos num pequeno terminal na parede da ponte de acoplamento.

EXT – Estação Orbital AZIMOV III

Como mágica  dutos da nave liberam milhares de pequenos fragmentos de partículas de água, que viram gelo.

INT- Estação Orbital Azimov III – ponte de acoplamento

EVA

Que lindo!

Maravilhados, ambos vêem as pequenas bolinhas coloridas flutuarem no vazio. As luzes do sol as iluminam contra o fundo escuro do espaço. São como milhares de pequenos vagalumes girando e se agrupando em bolinhas que dançam no vácuo.

EVA

É a coisa mais linda que eu já vi…

PAUL

Não tanto quanto você, meu amor.

Ambos se beijam. Paul nota que Eva está tremendo.

PAUL

Você está tremendo meu Amor

EVA

Acho que é o ar condicionado.

PAUL

Vou lá buscar uma roupa para nós.

EVA

Não, fica aí que eu vou.

PAUL

Certo. Mas volta logo que eu já estou com saudades!

Eva sai. A porta da ponte se fecha atrás dela e Paul fica sozinho contemplando os milhares de pontos que bruxurilam na sua frente. O tempo começa a passar e vemos Paul olhando em volta.

PAUL

Estranho. A Eva tá demorando… Será que se perdeu?

Evaaaaa?

(ele grita)

Não há nenhuma resposta. Apenas ouve-se o ruído dos clic-clacs dos computadores e o ruído permanente dos motores e dos dutos de ar.

Paul resolve voltar e ver o porquê Eva está demorando tanto. Levanta do chão e sai da ponte de acoplamento.

INT – Estação Orbital Azimov III – aposentos do capitão

A porta se abre e Paul entra. Ele se espanta com o que vê lá dentro.

Eva está morta. Caída no chão. O sangue e suas víceras estão espalhadas para fora de uma abertura no seu abdômem.

De pé a frente dela, está Aude. Os braços cheios de sangue e restos de tripas ainda pingando e escorrendo de seu corpo de plastico branco. O robô está repetindo uma frase:

AUDE

Senhor…Senhor… Essa não devia ter dado banho no senhor… Não devia. Não devia!

Paul cambaleia para trás aterrorizado. Tropeça e cai no chão com a mão na boca. Os olhos arregalados.

Close do robô

Aude vira-se com seu rosto sem expressão para Paul, que parece em estado de choque, tremendo.

AUDE

…Só eu posso preparar o banho do senhor. Só eu. Não essa aí. Eu. SÓ EU!

PAUL

(Grita)

Não! Não! Nãããããã…

EXT ESTAÇÃO ORBITAL AZIMOV III

Espaço. A escuridão no cosmos. Entre as milhares de estrelas vemos a nave se distanciando, virando um pequeno ponto no espaço… A Câmera viaja rápido pra longe da nave, mostrando a imensidão do cosmos. A câmera se afasta até que a nave torne-se um pontinho e suma na escuridão. Ao Fundo ouvimos ecoando os gritos inúteis de Paul

PAUL

(Grita)

Nãããããããããããããooooooooooooooo…

FIM

Na escuridão do espaço surgem os créditos finais ao som de Eva da banda Radiotaxi (na versão clássica dos anos 80)

A história da história

É isso. Espero que vocês tenham gostado deste roteiro. Quando eu escrevi, em 2003, nem sonhava que um dia teria um blog. Eu estava literalmente obcecado com a ideia de fazer um filme de ficção científica nacional.
Na verdade, a ideia deste roteiro surgiu quando eu estava lendo uma história em quadrinhos feita por um francês chamado Paul Gillon (por isso a homenagem ao cara no nome do protagonista). Na história, uma mulher que estava fazendo mergulho de caverna acaba presa numa gruta, e quando consegue sair, percebe que aconteceu o Armagedom. Todos morreram e só restou ela. A história se passa numa Paris do futuro e os únicos que ainda estão vivos são ela e meia dúzia de zumbis. Sem homem para resolver a situação, ela acaba se entregando a um robô. Mas  no fim das contas, surge um astronauta e aí o robô dá um acesso de ciúmes e mata o cara. Fim.

As histórias que mostram o ultimo ser vivo na face da Terra não são uma novidade. Até filme pornô e pornochanchada fez isso. Este conceito foi mostrado algumas vezes em diversos contos, novelas e histórias em quadrinhos, sendo a minha preferida um roteiro do Rod Sterling para o seriado Twilight Zone em que um cara acorda e está completamente sozinho em uma Nova York absolutamente deserta.

Algo que me atraiu muito na história é a questão do robô gradualmente se humanizar, sofrendo e sendo castigado pelo seu mestre egocêntrico. No fim das contas, o que nós vemos é o ser humano gradualmente regredindo a um estagio animalesco, vivendo para a mera procriação à reboque do prazer. E o objeto robô começa a ocupar o lugar do sentimento, ele chega ao ponto da máxima expressão da loucura de amor, que é o crime passional.

No fim das contas as coisas se resumem a tragédias clássicas, e nesta o ciúme é o ingrediente principal. Não há surpresa, nem viradas espetaculares. Tudo se encaminha para o desfecho trágico que gradualmente se anuncia para o espectador, e por mais que ele lute, no seu legítimo desconforto íntimo, não há nada que possa fazer para salvar Eva de seu destino cruel.

O filme lida com uma outra questão que eu achei pertinente, que é o questionamento de até onde a sobrevivência é uma dádiva, uma meta a ser buscada e alcançada a todo custo. Quando todos foram embora, ficar pode não ser um bom negócio. O filme provoca essa reflexão ao mostrar que sozinho, privado do outro, a eternidade não é nada senão um pesado fardo para atormentar uma alma humana já à beira da loucura.

Como eu sempre fui um fã da série Alien, sobretudo da versão do Ridley Scott, com suas tomadas silenciosas do exterior da Nostromo, eu busquei casar tudo aquilo que eu admirava em Alien com o cerne da história de Gillon mais a tragédia grega, produzindo algo novo, e que fosse factível de ser produzido com -pode rir agora – baixo orçamento em formato DV.

O projeto original seria feito no estilo Capitão Sky e o Reino de Amanhã. Eu alugaria um galpão e nele construiria algumas partes da nave. O restante seria no bom e velho chroma key.O que mais me atraia em tudo isso era o desafio de criar Aude. O meu objetivo era trazer á baila uma Aude mista, entre uma atriz e um personagem 3d. Etão ela seria 3d até o pescoço e do pescoço para cima, seria uma atriz usando uma prótese multiarticulada de silicone que pareceria ao mesmo tempo plástico, mas com uma flexibilidade suficiente para permitir os movimentos, pois naquele tempo, animar realisticamente uma pessoa falando realisticamente era coisa para tarado (e ainda é). Na época, eu me lembro que fiz um montão de conceitos para o robô, a nave, o corredor, o deque a ponte de acoplamento e a nave de escape. Tudo perdido quando meu Pc foi para o saco. Por sorte eu tinha feito backup dos textos num pendrive velho, e este roteiro tem um nome adequado: “o sobrevivente”.
Quase todos os meus falecidos conceitos da AUDE partiram o visual do robô do Chris Cunningan para o clipe All is Full of Love, da Bjork:

Aude foi pensada para ser uma evolução deste tipo de robô.
Por mais bizarro e curioso que possa parecer, a ideia de usar a Musica Eva – do Radiotaxi, que é uma versão de uma musica ainda mais legal, italiana, só apareceu no finalzinho mesmo.

Olhando a letra, alguém poderia pensar que eu pensei o roteiro a partir da letra, mas realmente não foi. O que eu queria era fazer um curta na linha do filme do Alien, mas sem a coisa do alien. Eu queria colocar o homem sozinho, porque a solidão é algo que é desafiante não só do ponto de vista da atuação, como da direção. Nesse contexto, Paul é o naufrago, e Aude, o meu Wilson.
Vocês devem ter notado que o estilo dos diálogos era ainda muito de um jovem. Paul não possui a maturidade necessária para um personagem adulto. A explicação para isso é tão banal que chega a ser complexa. Ocorre que quando eu fiz a história, eu tinha apenas 27 anos, e não sei que espécie de demência bizarra se apossou da minha cabeça que me fez pensar em… (oh não!) Atuar no filme como o Paul. O que é um troço um tanto bizarro, já que eu também me via escrevendo, modelando e animando o corpo da Aude, dirigindo, filmando e também montando a obra.
Não é que eu seja fominha. Eu pensei que ninguém iria querer encarar uma loucura assim, então quando eu escrevi, fiz diálogos que eu falaria com pouca dificuldade, já que não me considero bom ator para interpretar falas que não pareçam faladas, mas sim escritas. Isso é coisa pra fera. Daí vergonhosamente alterei o roteiro pra me facilitar.

Como o roteiro nunca passou do primeiro tratamento, isso nunca foi corrigido, e Paul ficou preso no corpo de um jovem de vinte e poucos anos até hoje. Eu cheguei a conseguir atores para os dois papéis, o de Paul e o de Eva, mas desandou por falta de larjã.

Mas, no fim das contas, eu concluí que eu era apenas um fodido sul americano, sem dinheiro no banco ou parentes importantes, e vindo do interior. E por mais que eu me metesse a besta de escrever roteiros e fazer 3d, nunca teria condições de produzir algo de grande complexidade cinematográfica, e por isso, esse roteiro foi parar no tártaro, a minha gaveta para projetos que até chegaram a embalar, mas nunca decolam, como o filme “Moto”, e o “A sombra do Invasor”, que de uma certa forma gumpesca, contribuiu indiretamente para a existência deste blog.

Talvez um dia, quem sabe, eu ganhe muito dinheiro, ou encontre um investidor corajoso -ou maluco – e “O sobrevivente” saia enfim da escuridão daquela gaveta soturna para a tela de um celular ou página da internet.

Enquanto isso, nós vamos sonhando… pelo espaço de um instante, congelados no espaço, além do infinito.
Obrigado por ter lido.

O sobrevivente parte 6

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EXT Estação Orbital Azimov III

As naves estão conectadas. Paul carrega a mulher nos braços para dentro da estação. A câmera gira e vemos o espaço infinito de estrelas cobrindo o céu.

Passagem de tempo

INT Estação Orbital AZIMOV III –sala de jantar

Um faustoso jantar para os dois. Agora sentados um bem perto do outro. Os olhares não deixam dúvidas de que ambos se desejam.

PAUL

Minha querida Eva… Você é mesmo muito sortuda. Como eu ia dizendo, nossas antenas de transmissão de dados via rádio e microondas foram danificadas por um meteoro quando eu estava reparando os módulos externos e quase morri. Foi a Aude aqui que me salvou, né Aude?

Aude não responde. Limita-se a acenar positivamente com a cabeça enquanto serve o vinho para Eva.

PAUL

…Se não fosse a transmissão, não nos encontraríamos e você poderia vagar congelada sem rumo no espaço para sempre, e…

AUDE

Mais alguma coisa Paul?

PAUL

Não, não.

AUDE

A carne está do seu gosto, Paul?

PAUL

Sim, sim… Mas aí…

AUDE

Quer que eu traga a sobremesa, Paul?

PAUL

Porra, Aude. Cala a boca! Deixa eu contar o caso pra Eva, caceta!

AUDE

Desculpe Paul.

PAUL

Vai, vai, vai… Xispa!

Aude obedece. Sai de cabeça baixa em direção a cozinha.

INT Estação Orbital AZIMOV III –sala de máquinas

Paul e Eva caminham pela nave. Paul apresenta a nova moradia para Eva. Os dois são seguidos em silêncio por Aude.

PAUL

…E aqui fica o reator…

EVA

Nossa, que gigante que é esta nave. Nunca pensei que viveria para ver algo assim. No meu tempo, projetos como este eram coisa de cinema.

PAUL

Fico feliz que goste. Ficaremos um bom tempo aqui. Sabe, tem algumas coisas que eu ainda não falei sobre… Bem, quero dizer…

AUDE

(interrompendo, interpondo-se entre Paul e Eva)

Paul, são oito e meia. Quer que eu prepare o seu banho agora, senhor?

PAUL

Dá um tempo, Aude! Que merda! Vê se não enche, robô chato de uma figa!

EVA

(empurra Aude e volta para o lado de Paul)

É! Não enche o saco, robô. Eu é que vou preparar o banho… O nosso banho.

(sorrindo maliciosamente)

Paul sorri de volta para Eva.

PAUL

Sabe de uma coisa, Eva?

EVA

Sim?

PAUL

Nada é por acaso.

Aude sai em silêncio para o corredor, deixando os dois se beijando na sala de máquinas.

INT Estação Espacial Azimov III – aposentos do capitão – banheiro

Paul e Eva estão nus na banheira. Paul esfrega as costas de Eva com suavidade e carinho.

EVA

…Então quando os reatores entraram em colapso eu estava trabalhando no sistema de alimentação da nave de emergência. Foi minha sorte. O computador iniciou o processo de emergência e me trancou lá. Segundos antes do cargueiro explodir com toda a tripulação, eu fui lançada ao espaço onde fiquei a deriva por todo este tempo. O computador de bordo da capsula de resgate indicava que não haveria energia suficiente para voltar. Sem opção e para me salvar, entrei na cápsula hiperbárica e coloquei a nave em economia máxima de energia. Naquele momento eu sabia que poderia dormir para sempre.  Iniciei o procedimento de segurança. Ativei o comando remoto da nave e entrei em animação suspensa esperando que me acontecesse o melhor.

PAUL

E então quando a nave captou a minha transmissão de emergência com a localização…

EVA

Sim, Paul. Ela ficou inerte no espaço até que sua transmissão de emergência foi captada pelos sensores da nave e o procedimento automático conseguiu traçar seu perímetro e posição com base nos dados anexos na mensagem. Graças aos dados, a nave pôde traçar uma trajetória de baixo consumo e me trouxe aqui. Ao se aproximar, eu não sei como, mas a sua nave assumiu o comando do sistema e me tirou da animação suspensa.

Mas no jantar você ia me contar sobre a Terra. O que era?

PAUL

Ah, querida… Não vamos de falar dessas coisas tristes. Temos muito o que fazer, minha pequena Eva.

Paul dá um demorado e apaixonado beijo em Eva.

Trilha romântica “Eva instrumental”

Paul carrega Eva nos braços para o quarto. Ele a joga na cama e deita-se na penumbra com ela.

Os dois beijam-se na cama.

Entreaberta, a porta deixa a lente esverdeada dos olhos de Aude aparecer, iluminada pela fraca luz que vem do quarto onde os amantes se entregam à paixão.

Cenas da nave no espaço. Cenas de Aude andando pelos corredores. Cenas das estrelas, dos planetas, dos cometas e dos meteoros. Entremeia com cenas dos amantes no quarto. Beijos ardentes. Trilha romântica em clímax.

PASSAGEM DE TEMPO

INT Estação Espacial Azimov III – aposentos do capitão

PAUL
Então, somos só nós dois. Não há mais o nosso planeta. Acabou.

… Vamos, não chore.

EVA

É estranho. É como se não tivesse acontecido.

(Eva abraça Paul e beija a boca dele com pavor)

PAUL

Meu amor, quase não lamento o que aconteceu. Nunca fui tão feliz em toda minha vida.

EVA

Paul. Posso dizer a mesma coisa. Se pelo que você me contou… Somos os últimos.

PAUL

Sim, uma espécie de “Adão e …

Os dois caem na gargalhada.

EVA

…Nada é por acaso, meu querido.

(beijos apaixonados)

PAUL

Eva, meu amor…

EVA

Que foi?

PAUL

Sei lá. Fico meio sem graça. Te chamei de meu amor, mas… Afinal nos conhecemos há o que? Poucas horas… Me sinto bobo.

EVA

Paul, qual a razão da vergonha? Não há mais ninguém. Somos só nos dois. Não há Deus, ou santos, ou anjos, nem juízes nem carrascos. Não há mais uma sociedade. Só temos um ao outro… E não temos tempo para formalidades. Somos só carne. Só desejo. E temos o cosmos como testemunha do nosso prazer.

PAUL

Sim, e sabe de uma coisa? Alguém vai ter que repovoar o planeta Terra. E não estou vendo mais ninguém aqui além de nós dois. Temos muito trabalho a fazer. Não podemos perder tempo.

(diz, fazendo um carinho nos cabelos negros de Eva)

Eles se abraçam e rolam nus na cama.

Ao fundo rola mais um trecho da trilha romântica.

EXT- Estação Orbital AZIMOV III

O céu de estrelas é o pano de fundo da nave. Ao fundo ouvimos os gemidos de prazer.

INT – Estação Orbital Azimov III

Paul e Eva estão comendo com vontade na cama. Ambos nus cobertos por lençóis de seda. Paul comenta:

PAUL

Umm… que fome…

EVA

Sim, o amor abre o apetite. Comer e beber estimulam nosso sentidos, estimulam a volúpia. Gostaria de saber se algum dia irei me saciar.

PAUL

(segura a moça pela cintura e fala sensualmente no ouvido dela)

Tomara que não, meu amor.

Então eles se beijam.

INT – Corredor de acesso aos aposentos da tripulação

Do lado de fora da cabine do capitão está Aude parada. Sentada no corredor escuro. Ela está abaixada encostada na parede. As pernas cruzadas e o pé batendo no chão de forma impaciente.

EXT – Estação Orbital Azimov III

O sol surge na escuridão do espaço atrás do planeta inóspito abaixo.

INT estação orbital azimov III – Aposentos do capitão

A luz do sol entra pela janela da cabine. Iluminando seu interior com um amarelo pálido. Paul e EVA ainda nus, estão contemplando a imensidão do cosmos.

PAUL

Olha, meu amor… O sol está nascendo.

EVA

Sim… Olhe. Vamos ver o sol nascer da ponte de acoplamento que tem uma janela maior?

PAUL

Só se for agora!

INT Estação Orbital Azimov III – corredor de acesso a ponte

Paul Gillon e Eva passam animados através do corredor, correndo nus de mãos dadas, rindo e gritando excitados  como crianças.  Na escuridão, num canto do corredor, parada como um abajur inútil, está Aude.

INT Estação Orbital Azimov III – ponte de acoplamento

Da ponte, ambos veem a beleza do sol cruzar o espaço. Ondas de luz percorrem o vazio, iluminando com a luz dura a fuselagem da nave.

PAUL

Eva. Quer ver uma coisa bonita?

EVA

Quero. O que?

PAUL

Olha só…

Paul digita comandos num pequeno terminal na parede da ponte de acoplamento.

EXT – Estação Orbital AZIMOV III

Como mágica  dutos da nave liberam milhares de pequenos fragmentos de partículas de água, que viram gelo.

INT- Estação Orbital Azimov III – ponte de acoplamento

EVA

Que lindo!

Maravilhados, ambos vêem as pequenas bolinhas coloridas flutuarem no vazio. As luzes do sol as iluminam contra o fundo escuro do espaço. São como milhares de pequenos vagalumes girando e se agrupando em bolinhas que dançam no vácuo.

EVA

É a coisa mais linda que eu já vi…

PAUL

Não tanto quanto você, meu amor.

Ambos se beijam. Paul nota que Eva está tremendo.

PAUL

Você está tremendo meu Amor

EVA

Acho que é o ar condicionado.

PAUL

Vou lá buscar uma roupa para nós.

EVA

Não, fica aí que eu vou.

PAUL

Certo. Mas volta logo que eu já estou com saudades!

Eva sai. A porta da ponte se fecha atrás dela e Paul fica sozinho contemplando os milhares de pontos que bruxurilam na sua frente. O tempo começa a passar e vemos Paul olhando em volta.

PAUL

Estranho. A Eva tá demorando… Será que se perdeu?

Evaaaaa?

(ele grita)

Não há nenhuma resposta. Apenas ouve-se o ruído dos clic-clacs dos computadores e o ruído permanente dos motores e dos dutos de ar.

Paul resolve voltar e ver o porquê Eva está demorando tanto. Levanta do chão e sai da ponte de acoplamento.

INT – Estação Orbital Azimov III – aposentos do capitão

A porta se abre e Paul entra. Ele se espanta com o que vê lá dentro.

Eva está morta. Caída no chão. O sangue e suas víceras estão espalhadas para fora de uma abertura no seu abdômem.

De pé a frente dela, está Aude. Os braços cheios de sangue e restos de tripas ainda pingando e escorrendo de seu corpo de plastico branco. O robô está repetindo uma frase:

AUDE

Senhor…Senhor… Essa não devia ter dado banho no senhor… Não devia. Não devia!

Paul cambaleia para trás aterrorizado. Tropeça e cai no chão com a mão na boca. Os olhos arregalados.

Close do robô

Aude vira-se com seu rosto sem expressão para Paul, que parece em estado de choque, tremendo.

AUDE

…Só eu posso preparar o banho do senhor. Só eu. Não essa aí. Eu. SÓ EU!

PAUL

(Grita)

Não! Não! Nãããããã…

EXT ESTAÇÃO ORBITAL AZIMOV III

Espaço. A escuridão no cosmos. Entre as milhares de estrelas vemos a nave se distanciando, virando um pequeno ponto no espaço… A Câmera viaja rápido pra longe da nave, mostrando a imensidão do cosmos. A câmera se afasta até que a nave torne-se um pontinho e suma na escuridão. Ao Fundo ouvimos ecoando os gritos inúteis de Paul

PAUL

(Grita)

Nãããããããããããããooooooooooooooo…

FIM

Na escuridão do espaço surgem os créditos finais ao som de Eva da banda Radiotaxi (na versão clássica dos anos 80)

A história da história

É isso. Espero que vocês tenham gostado deste roteiro. Quando eu escrevi, em 2003, nem sonhava que um dia teria um blog. Eu estava literalmente obcecado com a ideia de fazer um filme de ficção científica nacional.
Na verdade, a ideia deste roteiro surgiu quando eu estava lendo uma história em quadrinhos feita por um francês chamado Paul Gillon (por isso a homenagem ao cara no nome do protagonista). Na história, uma mulher que estava fazendo mergulho de caverna acaba presa numa gruta, e quando consegue sair, percebe que aconteceu o Armagedom. Todos morreram e só restou ela. A história se passa numa Paris do futuro e os únicos que ainda estão vivos são ela e meia dúzia de zumbis. Sem homem para resolver a situação, ela acaba se entregando a um robô. Mas  no fim das contas, surge um astronauta e aí o robô dá um acesso de ciúmes e mata o cara. Fim.

As histórias que mostram o ultimo ser vivo na face da Terra não são uma novidade. Até filme pornô e pornochanchada fez isso. Este conceito foi mostrado algumas vezes em diversos contos, novelas e histórias em quadrinhos, sendo a minha preferida um roteiro do Rod Sterling para o seriado Twilight Zone em que um cara acorda e está completamente sozinho em uma Nova York absolutamente deserta.

Algo que me atraiu muito na história é a questão do robô gradualmente se humanizar, sofrendo e sendo castigado pelo seu mestre egocêntrico. No fim das contas, o que nós vemos é o ser humano gradualmente regredindo a um estagio animalesco, vivendo para a mera procriação à reboque do prazer. E o objeto robô começa a ocupar o lugar do sentimento, ele chega ao ponto da máxima expressão da loucura de amor, que é o crime passional.

No fim das contas as coisas se resumem a tragédias clássicas, e nesta o ciúme é o ingrediente principal. Não há surpresa, nem viradas espetaculares. Tudo se encaminha para o desfecho trágico que gradualmente se anuncia para o espectador, e por mais que ele lute, no seu legítimo desconforto íntimo, não há nada que possa fazer para salvar Eva de seu destino cruel.

O filme lida com uma outra questão que eu achei pertinente, que é o questionamento de até onde a sobrevivência é uma dádiva, uma meta a ser buscada e alcançada a todo custo. Quando todos foram embora, ficar pode não ser um bom negócio. O filme provoca essa reflexão ao mostrar que sozinho, privado do outro, a eternidade não é nada senão um pesado fardo para atormentar uma alma humana já à beira da loucura.

Como eu sempre fui um fã da série Alien, sobretudo da versão do Ridley Scott, com suas tomadas silenciosas do exterior da Nostromo, eu busquei casar tudo aquilo que eu admirava em Alien com o cerne da história de Gillon mais a tragédia grega, produzindo algo novo, e que fosse factível de ser produzido com -pode rir agora – baixo orçamento em formato DV.

O projeto original seria feito no estilo Capitão Sky e o Reino de Amanhã. Eu alugaria um galpão e nele construiria algumas partes da nave. O restante seria no bom e velho chroma key.O que mais me atraia em tudo isso era o desafio de criar Aude. O meu objetivo era trazer á baila uma Aude mista, entre uma atriz e um personagem 3d. Etão ela seria 3d até o pescoço e do pescoço para cima, seria uma atriz usando uma prótese multiarticulada de silicone que pareceria ao mesmo tempo plástico, mas com uma flexibilidade suficiente para permitir os movimentos, pois naquele tempo, animar realisticamente uma pessoa falando realisticamente era coisa para tarado (e ainda é). Na época, eu me lembro que fiz um montão de conceitos para o robô, a nave, o corredor, o deque a ponte de acoplamento e a nave de escape. Tudo perdido quando meu Pc foi para o saco. Por sorte eu tinha feito backup dos textos num pendrive velho, e este roteiro tem um nome adequado: “o sobrevivente”.
Quase todos os meus falecidos conceitos da AUDE partiram o visual do robô do Chris Cunningan para o clipe All is Full of Love, da Bjork:

Aude foi pensada para ser uma evolução deste tipo de robô.
Por mais bizarro e curioso que possa parecer, a ideia de usar a Musica Eva – do Radiotaxi, que é uma versão de uma musica ainda mais legal, italiana, só apareceu no finalzinho mesmo.

Olhando a letra, alguém poderia pensar que eu pensei o roteiro a partir da letra, mas realmente não foi. O que eu queria era fazer um curta na linha do filme do Alien, mas sem a coisa do alien. Eu queria colocar o homem sozinho, porque a solidão é algo que é desafiante não só do ponto de vista da atuação, como da direção. Nesse contexto, Paul é o naufrago, e Aude, o meu Wilson.
Vocês devem ter notado que o estilo dos diálogos era ainda muito de um jovem. Paul não possui a maturidade necessária para um personagem adulto. A explicação para isso é tão banal que chega a ser complexa. Ocorre que quando eu fiz a história, eu tinha apenas 27 anos, e não sei que espécie de demência bizarra se apossou da minha cabeça que me fez pensar em… (oh não!) Atuar no filme como o Paul. O que é um troço um tanto bizarro, já que eu também me via escrevendo, modelando e animando o corpo da Aude, dirigindo, filmando e também montando a obra.
Não é que eu seja fominha. Eu pensei que ninguém iria querer encarar uma loucura assim, então quando eu escrevi, fiz diálogos que eu falaria com pouca dificuldade, já que não me considero bom ator para interpretar falas que não pareçam faladas, mas sim escritas. Isso é coisa pra fera. Daí vergonhosamente alterei o roteiro pra me facilitar.

Como o roteiro nunca passou do primeiro tratamento, isso nunca foi corrigido, e Paul ficou preso no corpo de um jovem de vinte e poucos anos até hoje. Eu cheguei a conseguir atores para os dois papéis, o de Paul e o de Eva, mas desandou por falta de larjã.

Mas, no fim das contas, eu concluí que eu era apenas um fodido sul americano, sem dinheiro no banco ou parentes importantes, e vindo do interior. E por mais que eu me metesse a besta de escrever roteiros e fazer 3d, nunca teria condições de produzir algo de grande complexidade cinematográfica, e por isso, esse roteiro foi parar no tártaro, a minha gaveta para projetos que até chegaram a embalar, mas nunca decolam, como o filme “Moto”, e o “A sombra do Invasor”, que de uma certa forma gumpesca, contribuiu indiretamente para a existência deste blog.

Talvez um dia, quem sabe, eu ganhe muito dinheiro, ou encontre um investidor corajoso -ou maluco – e “O sobrevivente” saia enfim da escuridão daquela gaveta soturna para a tela de um celular ou página da internet.

Enquanto isso, nós vamos sonhando… pelo espaço de um instante, congelados no espaço, além do infinito.
Obrigado por ter lido.

O sobrevivente parte 6

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