O melhor dia das nossas vidas

Luis chegou um pouco mais cedo do trabalho naquele dia.

–Já chegou?

–A oficina fechou mais cedo, mãe.

–Ah, que bom. Olha, o bolo já tá pronto!

Luis olhou com seu único olho que enxergava para dentro da cozinha. Era uma cozinha pequena naquela casa minúscula de três cômodos. Mal cabia a mesinha de fórmica usada, um fogão velho e uma geladeira enferrujada.

A casa era de uma pobreza terrível. A única coisa que trazia um pouco de beleza para ela era uma velha estante com algumas flores de plástico e um calendário com uma figura de Jesus na parede.
As paredes eram de tijolos aparentes, sem reboco. Lá fora, um pequeno canteiro com algumas flores amarelas e marias-sem-vergonha eram o ambiente onde vivia “Pingo”, o cachorro vira-lata que latia amarrado num fino poste junto ao muro.

Na cozinha, de pé, perto do fogão onde Maria estava cozinhando uma sopa, estavam os dois irmãos de Luis. Sarah, de nove anos e Daniel de sete. Os dois pareciam estar esperando ele chegar.

Luis entrou e pediu a bênção da mãe.

–Deus te abençoe, Luis. Olha, pega ali o seu pedaço.

–Bolo de que mesmo?

–Fubá. – Disse Sarah, admirando o bolo.

–Já tô acabando de ferventar a janta. Pode ir na frente. – Disse Maria, remexendo a panela.

Cada um dos irmãos pegou seu pedaço de bolo num pires. Em silêncio solene, eles se levantaram e seguiram até o quarto do tio Ademar.

A cama era suja, o cheiro de urina empesteava o ar.

As paredes tinham teias de aranha nos cantos, e eram enfeitadas com flâmulas de futebol e pôsteres desbotados de motocicletas.

Os três entraram e se aproximaram das cadeiras da cozinha e uma banqueta de plástico que estavam diante da cama.

Na cama, Ademar estava deitado. Ele tinha os olhos esbugalhados e fixados no teto. Estava extremamente magro, o rosto vincado e edemaciado. Seu corpo esquálido lembrava um esqueleto. O olhar perdido para cima.

Eles entraram, cada um com sua fatia de bolo e garfinho. Se sentaram nas cadeiras.

Ali eles começaram a comer o bolo, em silêncio.

O velho ainda olhava o teto, mas então, como que não resistindo aos apelos de sua própria natureza, virou lentamente os olhos.
Ademar olhou nos olhos de cada um deles. Os jovens comiam o bolo com satisfação, mantendo o contato visual. Ademar viu as bocas mastigando.

Não houve nem uma só palavra trocada. Eles apenas comiam, olhando o velho Ademar naquela cama.

Seis anos antes, Maria do Carmo tinha acabado de completar seus 24 anos. Ela era uma mãe solteira de três filhos e vivia naquela casa com Marluce, sua irmã três anos mais velha, que estava grávida de um tal de Ademar.
Marluce nunca contou como foi que conheceu Ademar. Provavelmente em algum baile charme. Eles estavam de casamento marcado quando o pior aconteceu:

Marluce e Maria do Carmo foram atropeladas na beira da estrada quando voltavam do trabalho na confecção.

No acidente, Marluce morreu na hora, mas Maria do Carmo apenas sofreu fraturas que a deixaram manca para sempre. Quando ela finalmente saiu do hospital, a verdadeira dificuldade se apresentou. Sem família nem a irmã para ajudar em casa, ela começou a passar dificuldades financeiras.

O Ademar então ofereceu para casar com ela.

Maria do Carmo acabou aceitando Ademar, mas ele nunca foi bom marido. Era um homem violento. Especialmente com as crianças. Bebia e batia nela. Batia nas crianças e era ainda mais agressivo com Luis, o mais velho.

Certa vez, Luis estava brincando com Pingo e sem querer, derrubou a bicicleta nova de Ademar. Ele apanhou tanto que ficou cego de um olho.

Não era raro que Ademar queimasse as crianças com cigarro, e desse surra de bambu neles pelos motivos mais banais.

Quando ele chegava em casa, todas as crianças corriam para suas camas, fingindo dormir. Maria do Carmo apanhava de Ademar dia sim, dia não. Os vizinhos não ousavam se meter, porque era o normal. Estavam acostumados com o que acontecia lá e ninguém acudia aos gritos de socorro. As crianças cobriam as cabeças com os travesseiros e Sarah só orava a Deus para que a mãe não ficasse muito machucada.

Certo dia, Maria do Carmo chegou em casa com uma expressão mais triste que o de costume. Ela se sentou no velho sofá encardido e começou a chorar inconsolavelmente.
Os filhos se aproximaram preocupados. Ela contou aos prantos que tinha sido demitida. A firma ia fechar.

O pouco dinheiro, que já era curto, agora ia secar de vez.

Os garotos se entreolharam preocupados quando Sarah perguntou como iam contar para o “Tio”.

Era comum que Maria do Carmo apanhasse sempre que ousava pedir dinheiro a Ademar para comprar um leite, uma carne ou sal.

Pedir dinheiro para pagar a conta da venda era quase sempre precedido de um soco na barriga e palavrões. Muitas vezes, ela preferia pedir dinheiro para vizinhos e oferecer faxinas nos finais de semana para comprar leite e algum macarrão. Eventualmente, os vizinhos com pena, esperavam Ademar sair para o trabalho na transportadora e levavam alguns mantimentos lá para ajudar.

Quem costumava ajudar mais era dona Sônia, a mulher de um pastor de uma igreja próxima. Todos eram pobres, mas a história da mãe, manca dos três filhos que vivia apanhando, tocava o coração das pessoas. Num desses dias, Sonia bateu lá na porta dela com uma meia dúzia de bifes de acém e um litro de leite e deixou com ela uma pequena Bíblia.

Naquela noite, Ademar chegou tarde do trabalho. Já chegou meio de fogo, batendo a porta como de costume. Eles sabiam que Ademar estava “ruim” quando ele jogava a bicicleta no canteiro. Chutou a porta de ferro e entrou. Virou-se, escarrou lá pra fora e foi procurar alguma coisa pra comer.

Não tinha nada.

Aí ele endoidou. Começou a gritar e culpar as crianças por comer toda a comida que era dele. Maria do Carmo se pôs a correr de um lado para o outro, tentando achar um miojo para fazer para Ademar, mas não achou. Ademar olhou sobre a mesa da cozinha e viu aquela Bíblia.

Quis saber que merda era aquela.

Maria disse que a mulher do pastor tinha levado. Ele pegou a Bíblia e começou a arrancar as paginas, furiosamente. Maria implorou que ele parasse, dizendo que aquilo era pecado. Ademar deu um soco na cara dela e Maria caiu no chão da cozinha. Luis se meteu, tentando impedir Ademar de chutar sua mãe no chão.

Ele então agarrou o rapaz pelo pescoço e começou a enforcar.

Luis tentou se desvencilhar, mas o homem, que trabalhava descarregando caminhões era muito forte. Luis viu tudo ficando escuro e desmaiou.

Ademar Jogou o rapaz no chão. Pegou o que restava da Bíblia rasgada e levou lá fora, onde jogou no valão que passava nos fundos da casa. Depois, foi pra rua de novo.

Daniel e Sarah que haviam se escondido dentro do armário do quarto com medo, passaram a noite lá. De manhã, encontraram a mãe com o olho preto, dormindo na cama com Luis. Luis contou que a mãe o acordou e o levou para o quarto. Dormiram lá com medo que Ademar voltasse.

Dois dias depois, ele reapareceu. Entrou na casa sem falar nada. Trazia consigo um saco com algumas compras. Pão, leite, ovos, linguiça, fubá e até um pouco de presunto. Numa outra sacola umas seis garrafas de cerveja. Largou tudo em cima da pia, mas as cervejas ele colocou na geladeira. Descalçou as botas e pegou os chinelos. Arrancou a camisa fedida, que jogou no alto do sofá. Ligou um radinho e ficou ouvindo um jogo de futebol na sala.

Ninguém ousou falar com ele. A presença dele era incômoda na casa. Quando ele estava lá, Maria falava com as crianças quase sussurrando, para não incomodar.

Deu a hora do almoço e ele apenas fez um “Psiu!” para Maria, que estava sentada na cama, bordando um paninho.

–Vai fazer o almoço não, ô?

–Já vou. – Ela disse.

–Vai logo, que tô com fome, ué!

Maria parou o que estava fazendo e foi pra cozinha. Colocou as linguiças para ferventar e foi fazer um arroz.

Ele entrou na cozinha e ela ficou tensa. Ademar foi na geladeira e pegou uma cerveja.

–Que é? — Ele perguntou pra ela.

Maria abaixou a cabeça e continuou a mexer nas panelas.

–Ou, Maria, vem cá, deixa eu ver esse teus “zói” preto aí. — Ele disse, chegando perto dela e puxando a cabeça da Maria com sua tradicional maneira bruta. As crianças olhavam do quintal, pela janela da cozinha, paralisados de medo.

–Tá uma merda isso aí… Mas vai melhorar!

–Tá horrível, eu sei. – Maria se limitou a responder envergonhada, puxando o cabelo para tampar.

–É só eu dar uma do outro lado que iguala! — Ele disse, rindo com a cerveja na mão.

Maria tentou sorrir, torcendo o rosto numa expressão esquisita e voltou-se para as panelas.

Uma hora depois, eles estavam comendo na mesa da cozinha. Todos em silêncio sepulcral. Só se ouvia o radinho de pilha na mesa, ligeiriamente fora da estação, onde o narrador detalhava uma partida de futebol. Daniel e Sarah comiam quietos a linguiça com arroz.

–Hummm, tá “bão” mãe… — Disse Daniel com a boca cheia.

Maria sorriu com ternura. E então levantou os olhos quando a porta se abriu.

Luis chegou. Entrou pela sala e viu todo mundo almoçando.

–Olha o cegueta aí! Tava onde, cegueta? — Ademar falou com a boca cheia.

–Jogando…

–Ah, jogando bola. Muito bem! Em vez de arrumar um trabalho, tá na bagunça o vagabundinho.

–Senta Lu, vem almoçar. — Maria disse, já pegando um prato na pia.

Luis entrou na cozinha e pegou a banqueta perto da geladeira enferrujada.

Maria já ia espetar uma linguiça na panela quando a mão forte do Ademar segurou a mão dela.

–Não! Pra ele é só arroz! A linguiça não!

–Mas tá sobrando, Ademar.

–Já falei! Pra ele é só arroz. Se quiser comer linguiça, vai trabalhar e compra. Não vou sustentar vagabundo!

Luis sentou pesadamente na banqueta. Olhou no fundo dos olhos da mãe com o único olho que ainda funcionava. Pegou em silêncio o prato de arroz puro e começou a comer.

Sarah cortou um pedaço da linguiça dela e estendeu ao irmão.

–Quer, Lu?

–Não, ele não vai querer não! — Disse Ademar, metendo a mão no meio e tomando o pedaço da linguiça da menina, que lançou pela janela.

Lá fora, Pingo se fartou com aquele pequeno milagre que tinha acabado de acontecer.

Sarah se recolheu e se calou, com a boca cheia de arroz.

–Vamos comer em paz. — A mãe disse, cabisbaixa.

–GOOOL! Ele gritou animado. Todos se assustaram. Ademar se levantou com o radinho que estava chiando e foi lá pra fora ouvir melhor.
Na mesa, o pequeno Daniel, Maria, Sarah e Luis se entreolharam.

Daniel pegou meia linguiça do prato dele e jogou no prato de Luis.

–Come rápido Lu! — O meninote sussurrou.

Luis sorriu para o irmão, fez um joinha com o polegar. Enfiou a linguiça inteira na boca e tratou de engolir.

Quando Ademar voltou com o rádio para a cozinha, todos estavam comendo, quietos.

–Ei, ei! Tá fazendo o que? – Ele perguntou ao ver Maria espetando a última linguiça da panela.

–O Danielzinho quer mais. Não quer, filho?

–Quero, mãe. Pode, tio?

–Não! — Disse Ademar com um sorriso. — …Eu ainda estou com fome. – Foi logo metendo o último pedaço de linguiça que ainda estava no prato na boca. Em seguida, garfou aquela última linguiça remanescente da panela e jogou no próprio prato.

Daniel fez beicinho e quis chorar.

–Vai chorar, viadinho? Vai chorar, é?

O menino engoliu o choro.

Ademar então cortou um pedaço ridículo do tamanho de uma pequena rodela da linguiça e colocou no prato do pequeno Daniel.

–Come ai, ô chorão!

Após o almoço ele se levantou, foi até o sofá e se deitou pesadamente. Colocou o radinho do lado numa estação que estava tocando umas músicas bregas que ele adorava ouvir. Sarah foi lavar a louça pra mãe e Daniel foi foi lá pra fora brincar com Pingo.

Luis foi ajudar a mãe a levar o saco dos panos bordados na casa da dona Inês.

Quarenta minutos depois, quando eles voltaram da casa da dona Inês, ouviram pingo latindo loucamente. Luis saiu correndo e encontrou a casa aberta. A Sarah estava deitada na cama, nua, chorando e com dor. A mãe logo entendeu o que tinha acontecido ao ver o sangue nos lençóis.

Ademar já tinha sumido.

–Daniel? Daniel? — Eles começaram a gritar, procurando. Maria temeu o pior, mas então a porta do armário se abriu e Daniel veio correndo abraçar a mãe.

–Foi ele, mãe, foi o tio.

–Shhhhh. Vamos rezar. Vem, vem, vamos rezar. — Ela disse. Era tudo que ela sempre dizia.

Levou Sarah para o pequeno banheiro e deu um banho na menina. Sarah estava em choque. Só chorava e não dizia nada.

Maria do Carmo passou creme no cabelo dela. Depois deixou ela usar o cordão que era da titia.

Ademar passou uma semana sem aparecer nem dar notícias.

Era uma noite de terça-feira. Daniel e Sarah estavam fazendo dever na mesa da cozinha enquanto Maria costurava na sala ouvindo as noticias do radio quando eles escutaram o barulho da bicicleta sendo jogada no canteiro.

Todos se entreolharam assustados. Luis se colocou de pé diante da porta.

–Não pode ser!

Daniel puxou Sarah pelo braço e correram para o quarto para se trancar no armário.

A porta se abriu numa explosão. Era ele. Bêbado de novo.

–Que é? Que cara é essa? — Ele riu com a cara mais deslavada, ao olhar para Maria, de pé com as costuras na mão.

–Tá fazendo o que aqui, Ademar?

–Tá louca, Maria? Eu moro aqui, porra!

–Não mora mais, maldito!

–Sai! Sai! — Luis gritou tentando empurrar ele para fora.

Ademar deu um violento soco no Luis, que caiu no chão.

–Tá pensando que é macho, seu merda?

–Sai daqui! Sai daqui! — Maria gritava histérica.

–Ah é? Eu vou te ensinar o que acontece com vagabunda que grita comigo, peraí. — Disse ele, enquanto ia tirando o cinto com dificuldade.

–Vai embora! Não volta nunca mais aqui, maldito! — Maria gritou.

Ademar fechou a porta com muita delicadeza para quem estava bêbado fedendo à pinga barata. Ele dobrou o cinto numa volta e foi para cima dela.

SLAPP!

Deu uma violenta chicotada no rosto dela e Maria caiu chorando no sofá.

Luis estava se levantando do chão, quando viu com seu único olho que ainda prestava a cena bizarra que aconteceria em seguida.

Ademar levantou o cinto para dar outra chicotada em Maria que se encolheu toda no sofá, quando estancou.

Ele arregalou os olhos e o braço dele relaxou. O cinto caiu no chão e ele também, num baque seco contra o chão de cimento queimado.

Maria se levantou em silêncio do sofá, limpou as lágrimas dos olhos e veio olhar. Luis viu o tio deitado no chão da sala. Os olhos arregalados, a boca aberta e meio torta.

Diante do silêncio, Daniel e Sarah saíram do armário e vieram ver também. Ele estava ali no meio da sala, caído com os olhos arregalados. Eram a única coisa que se mexia, e moviam-se de um lado para outro.

Os três jovens comiam o bolo de fubá diante do decrépito Ademar na cama. Ele estava babando, os olhos vidrados nos pedaços de bolo.
Dava para sentir o estômago dele roncando.

A Maria entrou no quarto mancando. Ela também trazia consigo um pedaço de bolo, no pratinho.

Ela se sentou na última cadeira livre, diante da cama. Eles comeram em silêncio, olhando para Ademar como sempre faziam nas últimas semanas. Ela viu uma lágrima descer lentamente no canto do olho do Ademar. Ele ameaçou gemer qualquer coisa com a boca torta. Então, deu um suspiro profundo, que chegou a parecer um engasgo e finalmente parou de respirar.

Seus olhos eram ainda duas bolotas escuras arregaladas, mas vazias.

Daniel olhou para a mãe. – Acabou?

Maria concordou com a cabeça em silêncio.

Todos eles se levantaram e se abraçaram, felizes.

Um a um, foram saindo do cômodo, e no fim só restou ali o corpo inerte, esquelético de Ademar, retorcido como um graveto na velha cama suja.

Antes de sair do quarto, Luis puxou de dentro do peito um catarro grosso, e cuspiu em cima do morto.

Depois, saiu.

 

FIM

 

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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