Nas montanhas dos gorilas

Na montanha dos Gorilas

Eu tinha entrado num grupo de “aventura exploratória urbana”. Basicamente eram 5 amigos e mais eu. Eles montaram um canal, onde a gente invadia mansões e casas abandonadas. Eu fazia as fotos, outro cara era o cinegrafista, um maluco de apoio era um russo, arrombador profissional e outros dois eram os apresentadores. E tinha o Bob. Esse cara nunca ia, porque ele era o segurança, ficava no carro com um rádio, para dar fuga se um alarme tocasse ou algo assim. E ele também era “o cara do site”.

Depois de varias incursões de sucesso, ficamos sabendo de uma dica “quente”. Era uma mansão bem afastada, que pertenceu a um bacana, que voltou para a Arábia Saudita, largando a casa para trás.
Assim, invadimos a mansão abandonada, que ficava no alto de uma colina cercada de pinheiros.
Invadimos estourando a fechadura do portão de bronze. A casa era tão distante que após passarmos pelo primeiro portão, ainda tivemos que estourar mais quatro outros no meio de uma floresta, até chegar na casa. A mansão em estilo neoclássico era magnífica e ainda estava com todos os móveis. Eu fiquei fazendo varias fotos. E aí, numa passagem que dava para um corredor, o piso estalou. Alguém disse: “essa porra está quase desabando”.

Realmente havia infiltrado água pelas paredes, havia um grande buraco destelhado nos andares de cima que dava para ver lá da entrada. O chão estava esponjoso. Fomos andando no meio do mofo e tinta descascada. Chegamos num grande salão nos fundos. Eu olhei pela janela e não pude acreditar no que eu via. Atrás de um bosque havia uma enorme, gigantesca roda gigante, toda oxidada no horizonte, e ela parecia sair bem do meio da mata.


Eu chamei o pessoal e todos ficaram impressionados. “É um parque abandonado!”

Terminamos a exploração da mansão e fomos embora, marcando a expedição ao parque abandonado na semana seguinte.

Naquele dia acordei animado, mas ao chegar na cozinha para fazer um café encontrei minha mulher sentada, com uma cara estranha e uma xícara na mão.

“Melhor você não ir.” – Ela disse.

Eu argumentei, era claro que eu ia e nada que ela falasse me faria mudar de ideia, afinal eu não ia me queimar com meus parceiros só porque minha mulher não queria.

Ela disse que era perigoso, que esse trabalho ainda ia dar merda. Ela temia que eu me machucasse ou estragasse o equipamento que ainda estávamos pagando, ou ambos, o que seria o pior de tudo. Eu a acalmei dizendo que meus amigos tinham experiência, além do mais o canal estava começando a dar uma grana considerável.

A contragosto, ela aceitou que eu fosse, mas sem antes me benzer e rezar pedindo proteção. Eu achava aquilo uma palhaçada, mas aceitei para não ter muita briga, sobretudo de manhã; E eu estava muito empolgado com a aventura.

Quando o a hora chegou, escutei a clássica buzina do carro velho lá fora. Peguei a mochila com os equipamentos. Eu já estava na porta quando ela me chamou, veio ate onde eu estava, me entregou um saco de amendoins e me deu um beijo. Era uma longa viagem de quase seis horas até chegar na cidade que dava acesso ao enorme bosque que contornava o parque.

Fomos com o carro vermelho do Olya, nosso arrombador. Entramos no parque passando por dentro do terreno da mansão. Nos fundos, um grande muro alto, com cercas de arame farpado atrapalhavam a passagem. Felizmente, usando cordas e o auxilio de uma das árvores do bosque denso que cercava o parque, e um pedaço de carpete grosso que sempre usávamos para os arames farpados, conseguimos invadir. Chegamos bem a tempo de pegar a hora dourada, o que garantiu algumas boas fotos.

A primeira atração do parque que eu fotografei era uma placa carcomida com um macaco, onde se lia “Nas montanhas dos gorilas”.

 

O parque, inspirado em temática africana, estava totalmente sujo. A massa de folhas e galhos pelo chão, o mato alto mostravam que não havia ninguém ali fazia décadas. Mas aquela estética parecia combinar com o design do parque, cheio de árvores de fibra de vidro, crocodilos de plástico e coisas assim.

Tudo era estranho, decadente e macabro. Os brinquedos quebrados e sujos eram muitos, tinha pedaços de uma montanha russa que desabou. Atrás dela, tinha um castelo tipo da Disney, todo destruído, carrossel, tudo… Fomos entrando e fotografando.

Nossos amigos apresentadores, que eram um casal, iam contando sobre o lugar. Ali que eu soube que o parque era um tipo de Neverland do Michael Jackson, um clube exclusivo para milionários, feito por um filho de um multibilionário árabe e um ditador de um país da África, provavelmente o dono da mansão. O parque, que foi montado e nunca abriu, sucumbiu devido a um desentendimento entre os dois magnatas associados. Assim, o enorme parque ficou sob a ação do tempo.

O pequeno bosque que circundava o parque foi lentamente virando uma mata fechada. Isso contribuiu para que ele nunca viesse a ser descoberto. Fomos andando pelo parque e de vez em quando ouvíamos uns barulhos. Mas pensamos que fossem galhos caindo. A hora foi passando, mas mal havíamos coberto 10% da área do parque de tão gigantesco que ele era.

Nosso amigo do carro, o “piloto”,  mandou um rádio perguntando se estávamos saindo porque já ia escurecer. Mas Marcel e Lucca, os apresentadores e o Jonny, que levava a câmera, estavam na pilha de ver tudo. O Lucca era o apresentador, idealizador do projeto e por isso o considerávamos como o chefe do nosso grupo. Ele namorava o Marcel, que também apresentava.  Mas Lucca não se dava bem com o Olya, o cara que arrombava as fechaduras, porque eles tinham uma treta antiga. Eu estava especialmente preocupado, porque eu sabia que o Lucca estava armado. Ele sempre levava um revólver do pai dele, por precaução. Então, nos dias que eles entravam em treta, era realmente perigoso, até porque Olya além de arrombar portas, era um russo meio maluco, brigão e bastante sem noção, que volta e meia fazia brincadeiras idiotas como dar sustos, e empurrões. Seu humor de quinta série, se baseava em chamar nossos amigos de “bichas”, e fazer aquelas brincadeiras sem noção, mas ele era tolerado por seu talento em arrombar de tudo, porta, portão, cadeado, tudo. Nada segurava o cara e isso era muito útil no projeto.

Todo mundo estava de acordo em passar a noite no parque, porque eles sabiam que precisavam da exclusividade e se divulgassem antes de mapear tudo, era praticamente certo que algum grupo de exploradores urbanos concorrente logo chegaria lá na “nossa” descoberta, como os caras do Urban Intruders, que viviam na nossa cola.

Avisamos ao cara do carro para esperar, porque só iríamos sair na madrugada. O clima tenebroso do parque estava ficando mais emocionante conforme escurecia. E além disso, todos tínhamos lanternas e lanches. Eu tinha levado uma lata de cerveja para a cena do gran finale que era uma peculiaridade de nossos videos, e aqueles amendoins para comer. Era o que cabia na enorme mochila da câmera.

Não tardou para desbravarmos uma área que era um enorme parque aquático.  Havia todo tipo de piscina que você puder imaginar. Tudo com um lodo verde horrível e malcheiroso.
Ao redor do complexo de piscinas, um grande “rio selvagem” onde a água suja ainda fluía passando ao redor de pedras e formando cachoeiras de fibra de vidro muito mais realistas do que deviam estar na abertura do parque. As plantas se espalhavam para todos os lados. Eu estava concentrado numa bela foto da enorme piscina rasa, repleta de cadeiras de madeira quebradas que pareciam refletir na água suja. Ao fundo dois enormes escorregadores azuis contrastavam com o verde sujo da água repleta de lodo. Eu precisava aproveitar os últimos raios de luz. Ia escurecer em poucos minutos.

Então Olya puxou pelo braço e deu um grito de susto no meu ouvido.  Me virei e quase caí duro com horror. Todos começaram a rir de mim. Eu me deparei com a bocarra aberta com presas arreganhadas diante de mim. Era um gorila gigantesco, de fibra de vidro.

Ele parecia aquela boneca Eva e imaginei que devia dar para entrar naquele Big Kong, que estava deitadão no meio do parque. Imaginei que devia dar para ver os órgãos internos dele dentro da enorme estrutura de fibra de vidro, com boa parte do corpo recoberto de trepadeiras.

Então outro susto nos pegou de surpresa. Algumas luzes dos postes do parque se acenderam. Lucca disse que era um sistema automático. As poucas luzes que acendiam no parque deixavam ele ainda mais tenebroso.

Fomos andando pelo parque aquático e vi a área dos tobogãs. Eu estava puto de ter tomado aquele susto e ser zoado pelos caras e resolvi me afastar. Eu tive uma ideia (imbecil) de escalar um dos tobogãs e fotografar o parque do alto. Seria uma missão e tanto, já que aquela parte do parque, por estar com piscinas cheias e água da chuva deixaram a vegetação mais alta. O mato recobria os brinquedos quase todos.

Enfiei minha lanterna no bolso. Comecei a subir as escadas, com a câmera pendurada no ombro. Então conforme eu subia, ouvi uns gritos da galera lá em baixo. Eu pensei que era mais uma daquelas pegadinhas babacas dos meus amigos e continuei firme a subir os degraus oxidados. Cada passo fazia o metal estalar de um jeito perturbador. Um dos degraus se soltou sob meus pés, mas eu agarrei firmemente e continuei subindo. Mentalmente, pensei em não olhar para baixo. Meu plano seria descer pelo tubo, escorregando na sujeira mesmo. Mas e eu não estava tão seguro se havia sido uma boa subir ali.
Os gritos lá em baixo não paravam, e imaginei que eles estavam – de novo – saindo na porrada, já que rolava uns conflitos pelo controle do grupo.

Ao chegar no topo do grande escorregador, olhei lá em baixo e só vi as lanternas no escuro mexendo de um lado para o outro. Uma das lanternas já estava longe, parecia que tinha saído correndo.

“Mas que filho da puta!” – Eu pensei.  Imaginei que um dos caras tinha dado susto e quando a porrada começou entre eles o cara saiu correndo. Mas então, os gritos estavam tão histéricos, que eu montei a lente tele na câmera e olhei. Lá em baixo, o que eu vi me arrepiou:

Havia um monte de macacos enormes, peludos, cercando os dois apresentadores. O nosso arrombador tinha engatado a quinta e estava correndo pela própria vida, sendo perseguido por dois enormes macacos, que eram um tipo de chimpanzés, mas do tamanho de gorilas.
Num segundo, eu entendi a merda onde tinha me metido.

O parque foi abandonado pronto, com certamente, um tipo de zoológico cheio de macacos. Os macacos devem ter escapado, e dominaram o parque. Eles estavam apenas atacando os invasores (nós) do seu território.
A lua cheia surgiu de trás das espessas nuvens bem acima da minha cabeça.

Outro grito atraiu minha atenção e vi através da lente Lucca ser desmembrado diante do namorado, que socava os macacos com brutalidade animalesca. Marcel tentou correr, dando porradas nos macacos, para abrir uma passagem,  mas logo foi alcançado e puxado, aos gritos para a massa preta peluda que estava comendo o cadáver do pobre Lucca.

Lá em baixo, o russo Olya corria esbaforido. Vi quando ele saltou do fosso para dentro do castelo. Os dois macacões logo chegaram, saltando com facilidade o fosso seco e entrando na construção. Eu não o vi mais.
Eu estava sozinho, no alto da porra do tobogã. Não sabia o que fazer. Nem como sair dali daquela merda.
A coisa mais esperta que eu fiz foi não acender a lanterna. Fiquei sentado lá no alto, olhando lá em baixo. Os macacos grandes voltaram correndo do castelo. Eles logo se reuniram com os sete ou oito macacos que comiam os corpos dos dois apresentadores. A essa altura eu estava deitado no tobogã, olhando pela lente da câmera como se ela fosse minha luneta.
Não havia som. Somente o vento, e eventuais guinchos que eles soltavam quando disputavam pedaços. Vi um dos macacos se afastar com uma perna na boca. Deu pra ver o tênis pingando sangue.

Eu estava morrendo de medo, porque era um misto de temor pelo meu destino e um certo desconforto de saber que eu estava na área deles. A natureza me dizia que eu deveria ser eliminado.
Não ousei me mexer.  Fiquei apenas olhando.  Notei que o céu estava começando a clarear com a luz da lua cheia, quando um estalo chamou minha atenção. Um estalo alto. Eu me virei lentamente e vi um dos macacos grandes parados DENTRO DA PORRA DO TOBOGÃ que eu estava. Ele estava lá em baixo, sentindo o cheiro no ar. Eu sabia que era meu cheiro. Ele estava me farejando.
Lentamente me arrastei para trás, mas então, a merda aconteceu. Minha lanterna escorregou e desceu lentamente pelo tubo azulado do tobogã.
“blim, blim, blim, blim… tec.” Lá em baixo na piscina vazia.

Eu fiquei parado, com a respiração presa. O silêncio era total, nem vento tinha.

Agora eu nem via nada. Perdi meu elemento de surpresa. Eu não sabia mais o que estava acontecendo.

Ouvi um barulho. Alguma coisa tinha subido no tobogã. Ouvi o “plec” da lanterna lá em baixo, na piscina. Eles tinham ouvido. Estavam investigando a lanterna.
Eu apenas torci para que eles não fossem curiosos o suficiente para subir no brinquedo.

Um outro barulho chamou minha atenção. Era um berro. Veio lá do castelo. Meu amigo arrombador ainda estava vivo. Ele estava gritando o nome do Bob, o  cara do carro, pedindo ajuda aos berros.

Mas então, escutei um som que eu já conhecia. Era o estalo dos degraus.

“Puta que pariu! Já estão subindo nas escadas” – Pensei.
Fiquei pensando no que fazer. Não tinha para onde pular. Eu me ajoelhei e olhei lá em baixo. Os macacos estavam longe, perto da piscina só tinha os restos de ossos, roupas rasgadas e tripas dos meus amigos, espalhadas numa poça vermelha.
Os macacos estavam se dirigindo em fila silenciosa para o castelo. De longe parecia uma enorme taturana preta peluda passando entre o carrinho de batida e um carrossel, com eles andando um colado no outro, numa fila precisa. Era muito assustador e angustiante saber que meu amigo estava fodido, mas eles estavam indo para longe de mim, pelo menos.
Mas se eles estavam indo embora, na direção do castelo, o que era o barulho no toboágua?

Eu lentamente fui até uma beirada e olhei.

 

Era um macaco enorme que estava subindo. Era o que vinha me farejando.

E o filho duma puta me viu!

Ele logo arregalou os dois olhos pretos e abriu a bocarra e eu senti o ódio naqueles olhos escuros. Ele parecia sorrir em silêncio.

Imediatamente um pensamento me invadiu: Ele estava me querendo só pra ele! Não queria me dividir com os companheiros. Não fez barulho para não atrair os outros. Ele ia me comer com a volúpia de um garoto que esconde um chocolate na escola.  O macaco começou a subir rápido pelos degraus.
E então o degrau quebrou e ele caiu.
O macaco bateu num ferro e se pendurou com insana habilidade, numa mão só, e balançou no vazio como uma carne num gancho.

E começou a se erguer com dificuldade, para alcançar os degraus mais acima e chegar onde eu estava. Eu não vi saída senão escorregar naquela merda velha, torcendo para que ele ainda me aguentasse.

Desci no meio das folhas, escorregando com um barulho que ecoou no parque tipo um “SSSSSSSHHHHHHXXXXXXXX” E bati lá em baixo na piscina seca cheia de folhas.
Lá no alto eu vi o macaco me olhando em total silêncio. Ele apenas me olhou do alto do toboágua carcomido pelo tempo. E hesitou.

Eu fiquei lá em baixo olhando pra ele. E ele lá no alto, olhando pra mim, como uma estatua preta. Aquela imagem dele lá, me olhando de cima, com uma calma que era assustadora ficou gravada nas minhas memórias e ficará lá para sempre.

“Ele não vai descer” – pensei -“Não tem coragem.”

O macaco voltou e sumiu de vista. Certamente ia descer pelas escadas de volta.
Eu tratei de sair correndo.
E conforme eu corria, logo ouvi lá atrás de mim: “SSSSSSSSSSHHHHHHXXXXXXXXX….”

Eu nem olhei pra trás, porque já sabia.

Eu disparei correndo feito um louco e conforme corria, eu apenas sabia que precisava ir na direção oposta a que levava no castelo, porque o resto do grupo deles estava lá, caçando o russo.
O ar queimava no pulmão.
Então, eu vi um dos brinquedos do parque que era um tipo de carro giratório que ficava de cabeça para baixo. Pulei com todas as minhas forças para dentro do brinquedo. Eu já ouvia o som das folhas. Ele estava chegando perto muito rápido.
Eu me enfiei naquele brinquedo e puxei a grade de proteção do carrinho, acionando a trava. Segundos depois, num estrondo, o macaco enorme pulou sobre o carrinho. E ficou sobre ele, me olhando acuado no banco. Ele ficou tentando pular e morder pela grade. Ele tentou enfiar o braço pela passagem, mas sua musculatura não permitia ao braço passar na fresta do metal. Sua mão passava muito perto do meu rosto e eu senti o cheiro de sangue no pelo escuro da mão dele.

Ele fazia tudo em total silêncio. Tentou varias vezes meter a mão dentro do carrinho e me puxar, mas viu que não dava e pareceu desistir. Ele ficou ali, fungando e me olhando. Eu vi a morte nos olhos dele. Eu vi que não tinha como escapar. Então já que eu ia morrer, não tinha o que fazer, eu peguei a câmera, apontei pra ele e tirei uma foto da carona dele me olhando pela grade. O flash estourou na cara dele e o macaco levou um puta susto. Deu um salto de banda e foi parar no outro carrinho. De lá ele ficou me olhando. A expressão dele agora era de susto. Ele não sabia o que era o flash. Eu pensei em gritar mas também me mantive em total silêncio. Eu sabia que se os outros macacos do grupo voltassem, era questão de uns três puxando a grade para quebrar o brinquedo e  então me alcançarem.

O meu algoz peludo passou o braço pela cara. Isso sujou a cara dele de sangue, deixando sua aparência ainda mais horrenda.


Uma nova ideia então me ocorreu. Eu meti a mão na mochila da câmera e peguei um saco de amendoim japonês. Eu joguei um amendoim no chão. Primeiro ele ficou com medo. Se afastou e depois veio, lentamente farejar. Ele cheirou e logo pegou e botou na boca.
Imediatamente ele pareceu levar um choque. E me olhou. Seus olhos agora eram diferentes. Ele tinha comido um amendoim pela primeira vez. E adorou.

O macaco se aproximou devagar. Ele se aproximou, parou junto da grade e soltou o ar em um “shhh… Shhhh!” perto da grade. Parecia menos feroz com o amendoim.

-Quer? Toma, filho da puta! – Tudo que eu queria era um veneno para botar naquilo.

Eu peguei o saco de amendoim e joguei longe. O macaco então pulou para fora do brinquedo e se atracou com o saco, tentando enfiar os dedos e pegar mais amendoins. Eu o vi andando de um lado para o outro com o saco, muito interessado naquilo. Ele agora estava mais focado nos amendoins do que em me comer, felizmente.

Então, um barulho alto veio lá do castelo. Uma batida seca.  E o macaco se levantou. Se esticou todo e ali eu vi, chocado, que ele era praticamente do meu tamanho quando de pé. Devia ter cerca de um metro de setenta e cinco centímetros em pé mais ou menos.

Ele logo olhou para o saco de amendoins e olhou para o castelo e depois de novo para o saco.
Eu logo saquei o problema: Ele estava interessado no barulho, mas temia que seus colegas vissem o precioso amendoim japonês.  Então ele saiu, foi até um dos brinquedos ali perto e escondeu o saco de amendoins debaixo de uns cavalinhos. Depois, pegou a reta na direção do castelo.

“Que velhaco egoísta duma figa!” – Eu pensei.

Ele tinha escondido seu preciso amendoim. Eu não sabia que macacos eram tão espertos. Talvez eles tivessem evoluído presos naquele microcosmo que o parque abandonado gerou. Eu também nunca tinha visto em toda minha vida chimpanzés tão enormes. Só podia ser fruto de alguma mutação. Talvez eles tivessem conseguido procriar com gorilas, sei lá. Eu já tinha ido em tudo quanto é zoológico, mas chimpanzés peludos daquele jeito e  tão grandes eram uma novidade assustadora.

Abri minha mochila e troquei a lente.
Fiquei olhando pela lente longa de 500mm catadióptrica. O macaco estava bem longe, tinha ido para o castelo. Certamente o Olya, meu amigo, estava trancado em alguma sala com os bichos tentando invadir, porque eu ouvia guinchos, murmúrios e batidas vindo de lá.
Lentamente, abri o trinco do brinquedo e consegui destravar  a grade. Estava bem dura de puxar. Eu acho que o macaco chegou a empenar a grade de alumínio com o peso dele, e agora ela abria com dificuldade. Eu passei a mochila e me espremi pela greta que abriu. Fiquei entalado naquela merda, o que me gerou grande pavor. Se os bichos voltassem e eu estivesse ali, preso, seria o meu fim. Mas me ralando todo, finalmente consegui passar e sair.

Peguei a mochila, coloquei nas costas e saí.  Fui até o toboágua. Ali em baixo, vi os ossos e os poucos pedaços dos meus amigos que sobraram após o festim macabro.

Encontrei no meio dos restos mortais o rádio. Tinha um pedaço de fígado grudado no rádio. Eu peguei o aparelho e mandei uma mensagem chamando nosso “piloto” se ele estava na escuta.

Não obtive resposta. Apenas estática.  Talvez o desgraçado do Bob tivesse fugido ao ouvir os gritos do Olya.  No chão, eu vi a arma. Certamente nosso apresentador deve ter tentado sacar e atirar num deles, antes dos macacos o desmembrarem. Verifiquei e estava destravada, com as balas todas.  A arma me deu uma diminuta confiança. Eu saí andando devagar para não fazer barulho, contornando folhas ecas e galhos para não estalarem. Enquanto andava, pensava que talvez a arma servisse para eu tirar minha própria vida antes de ser comido, caso eles me cercassem.

Fui em direção oposta ao castelo, seguindo pelas piscinas. O percurso para dar a volta numa gigantesca piscina rasa, cheias de cadeiras e espreguiçadeiras quebradas dentro daquele caldo verde seria muito grande, então cruzei a piscina, pisando com cuidado para não escorregar no lodo nem fazer barulho.

O chão parecia um quiabo de tanto que escorregava.

Eu estava no meio da piscina quando ouvi um enorme “SPLASH!” Olhei para trás assustado. Era o macaco! O desgraçado tinha voltado.

O macaco não era bobo, mas tinha dado o azar de pular na parte mais profunda da piscina.


Eu disparei a correr com água no meio das canelas e ele dando saltos dentro da piscina verde. Felizmente, o horroroso macaco era desajeitado e escorregava toda hora no limo depositado no fundo.
Enquanto eu ganhava distância mais andando do que “correndo” para não escorregar, me dei conta que eu havia caído no golpe mais básico. Ele se distanciou para que eu saísse do esconderijo, onde ele não podia me alcançar.
Olhei ao redor sem esperanças. O macaco se levantava, dava dois passos e escorregava caindo na água. Então ele pulou da água para uma espreguiçadeira e de uma pulou em outra.
-Puta merda! – Eu gemi, ao ver que o meu algoz era tão esperto que estava fazendo um outro caminho, dessa vez pelo ar.
Ele agora estava chegando perto bem rápido saltando de cadeira em cadeira. De vez em quando ele caía na água, porquê as espreguiçadeiras estavam podres e algumas desmontavam quando ele pulava nelas.
O único lugar que deu para entrar foi na barriga do grande Kong.
Ali na porta, sob uma cascata de trepadeiras, saquei a arma e tentei mirar no maldito. Ele estava descendo de uma das espreguiçadeiras, quando eu fiz uma boa mira. Ia ser um tiro bem dado, no meio do peito do macaco, mas… Eu não consegui. Algo me impediu. Não sei bem o motivo, a adrenalina, sei lá. Eu não atirei!

Na verdade, foi uma sorte. Depois, me dei conta que se eu tivesse atirado, poderia até errar, mas uma coisa era certa:  o lugar estaria repleto dos macacos minutos depois.

Me embrenhei na escuridão e logo senti o cheiro de mofo, carne pútrida e teias de aranha, que grudaram na minha cara. Eu corri no escuro sem saber o que havia pela frente e capotei por cima de alguma coisa, que nem deu pra ver o que era. Eu cai no vazio e bati estatelado lá em baixo.

Eu queria berrar de dor, mas fiquei imóvel. No chão, todo machucado, eu escutei o som da respiração do maldito lá em cima.   Ele estava me caçando dentro do Kong.  Eu tateei para tentar achar a arma, mas perdi na queda. Me odiei pela burrice de correr no escuro daquele jeito, tão afoito.

Eu me dei conta que estava em algum tipo de andar inferior, num subsolo. Talvez o grande Kong não fosse um brinquedo, mas sim um restaurante.
Temi que o macaco fosse mais esperto que eu. Ele possivelmente estiava me levando para onde ele queria…

Imaginei que eu equivalia para ele como um saco de amendoins.

Ele poderia estar me escondendo dos demais para me comer sem precisar dividir. Me senti o mais estúpido do mundo! Não sabia o que fazer. Mas lembrei da natureza. Alguns bichos espertos se fingem de mortos quando estão na merda, como eu estava.
O macaco corria de um lado para o outro lá em cima. De vez em quando, eu podia escutar. Ele parava e ficava respirando fundo, tentando me farejar, com certeza. Ele sabia que eu estava ali, mas a escuridão que me deu o tombo também atrapalhava a ele.

Era um breu completo. Senti um cheiro de podre no ar que era horroroso. Mas por outro lado, eu sabia que o cheiro de defunto mofado iria disfarçar o meu odor.
Ficamos assim, eu fingindo de morto lá em baixo, (até porque eu nem sabia se tinha quebrado alguma coisa) e ele lá em cima, bufando no andar superior. Então, eu ouvi quando ele saiu. Os barulhos dele foram ficando mais e mais longe, e eu entendi que ele desistiu. Tinha perdido meu rastro, provavelmente.

Me levantei e verifiquei se estava inteiro. Felizmente, eu tinha caído em cima de alguma coisa relativamente macia.  Eu abri a mochila a tateei lá dentro ate achar minha câmera. Peguei e liguei a tela. A fraca luminosidade da tela mostrava a ultima foto do macaco assassino. Essa imagem iluminou o ambiente escuro o suficiente para meus olhos, agora já habituados na escuridão, enxergar melhor.  Olhei ao redor e percebi que eu tinha caído em cima de uma pilha de corpos! Eram dezenas de cadáveres. Me levantei sobre eles e com a luz da câmera, eu vi que estava num fosso decorativo, no centro do restaurante, que imitava uma caverna, com estalactites e estalagmites de fibra de vidro e espuma.
As pessoas mortas já eram um grande amontoado amorfo de corpos pútridos de onde escorria um chorume oleoso. Imaginei  atordoado, que aqueles eram as pessoas que haviam tentado invadir o parque antes de nós. Por isso, nunca haviam descoberto o lugar. Todos os que ali entravam eram comidos e os que tinham a sorte de fugir, acabavam mortos dentro da caverna do grande Kong!

Comecei imediatamente a procurar o revólver, mas antes de encontrá-lo eu achei outra coisa igualmente preciosa: Uma lanterna. Tinha uma lanterna grande no chão. Dessas de segurança. Eu testei e ela acendeu. Estava fraca a luz, mas ainda havia energia.

Vi que era uma lanterna de um dos vigias seguranças do parque. Ele estava esfacelado. Metade de sua cara que já era quase uma caveira, estava faltando.  Alguma coisa tinha comido aquele defunto…

Então, eu fui iluminando e olhando ao redor. Num arrepio, eu me dei conta que estava na verdade dentro do que era a despensa dos macacos! 

Então eu ouvi o macaco gritar lá em cima.

“Ele está chamando o grupo!” – Concluí, desesperado.

CONTINUA

 

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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Comentários

  1. ontem você deve ter assistido planeta dos macaco às 17h, e às 20h, assistiu ao filminho de terror “chernobyl”

    dormiu e seu cérebro fez o resumo dos dois kkkk

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