Nas montanhas dos Gorilas – Parte 5

Quando ouvi o metal raspando, um calafrio percorreu minha espinha.  Eram eles.

Só quando eles abriram a tampa que percebi que devia ter parafusado a tampa de baixo para cima, assim eles nunca abririam.  Mas agora era tarde. Vi a luminosidade lá e fora começar a entrar pelo buraco. Nos mantivemos imóveis, esperando que a distância que havíamos percorrido nos arrastando sobre os flutuadores da ilha ajudasse. E de fato, ajudaram. Um dos macacos meteu a cabeça lá pelo buraco e olhou, olhou, recuou e fechou a tampa.

Um grande alívio nos atingiu quando percebemos que o plano do Bob tinha funcionado lindamente mais uma vez.

Enquanto ainda ouvíamos os guinchos e as corridas de um lado para outro pela nossa ilha de metal,  eu fiquei pensando que Bob devia ser superdotado. Ele sempre foi o mais inteligente de nossa turma. Quando jovem, Bob, que na verdade se chamava Roberto tinha o apelido de “Banha” por ser gordinho. Quando ele cansou de ser sacaneado, no início dos anos 2000, resolveu tomar vergonha na cara e se matriculou numa academia. Eu conhecia o Bob desde menino, porque ele era uns quatro anos mais novo que eu. Como o Bob era órfão, criado por uma tia velha, ele passava muito tempo lá em casa.  Quando ele fez dezoito anos a tia dele bateu as botas. Ele já era entregador de pizza, e foi meio que “adotado” pelo velho italiano dono da pizzaria.

Na verdade, ele era amigo do meu irmão, mas com o tempo passamos a ficar grandes amigos, porque eu frequentava uma pizzaria de um vizinho, que era onde o Bob trabalhava de entregador. Depois ele colocou o Olya no lugar dele e passou a ser garçom. Logo, virou gerente. Imagina um gordinho sendo gerente de pizzaria? Mas nessa altura, ele realmente não comia massa nenhuma. Era impressionante a força de vontade daquele cara…

Roberto malhava o dia todo, e em coisa de um ano e meio, já tinha se transformado num mini-Arnold Schwarzenegger. Então o apelido dele mudou de “Banha” par “Arnold”, e depois de “Arnold” para “Bob”. Teve uma época que o Bob estava musculoso demais, tentando entrar em campeonatos, mas ele teve uma desilusão amorosa com a Sabrina, que meteu um chifrão nele numa festa de aniversário da Patrícia,  onde estava todo mundo. Claro que o Bob ficou muito mal, já que uma coisa é levar um pé, outra é levar um chifre-público-épico, porque o cara que a Sabrina pegou, nem tinha os dentes todos!

Pra piorar, o vacilo da Sabrina, Bob não estava naquela festa pelo pior dos motivos: Ele estava de luto. Foi naquela semana que o velho, que tratava ele como um filho, morreu e a pizzaria fechou. Num só dia eu vi Bob perder o mentor, patrão e melhor amigo, perder a namorada com quem ele fazia planos de se casar e o emprego, e ainda no fim, sair de corno.

Sozinho e com vergonha, ele entrou numa espiral e deu uma encolhida. Bob estava tão triste e melancólico  que tivemos medo dele fazer uma besteira. Nós começamos a levar o Bob para sair com a gente. Foi o Lucca que chamou o Bob para ser o cara dos bastidores do nosso canal. Ele topou, mas como vivia de baixo astral, ele não gostava de entrar nas casas. Ficava sempre de retaguarda, operava toda a parte técnica do canal, contatos, edição de video e ainda era nosso motorista. E como quase todo mundo ali tinha o mesmo chassi de grilo, ter um fortão no grupo era eficiente se a chapa esquentasse, como quando uma vez, um outro grupo de exploradores urbanos tentou nos intimidar numa fabrica abandonada.

Continuávamos ali esperando. Os macacos já tinham desistido de nos procurar. Comecei então a pensar em quanto tempo deveríamos ficar ali, ocultos debaixo da chapa. O meu medo era de morrermos de calor. O dia estava raiando lá fora. Logo o sol começaria a esquentar as chapas de aço, e tornaria nosso pequeno esconderijo escuro numa sauna infernal. Eu já estava todo molhado de suor. De vez em quando passava a mão na água e esfregava no rosto.

–Tá um saco esperar aqui, Phil! — Bob Sussurrou.

Eu concordei. Só quem parecia não estar nem aí para com o perrengue era o russo. Ele estava dormindo calmamente, emborcado no flutuador. As pernas penduradas numa corrente sob as águas escuras. Ele estava roncando numa boa. Pensa num cara que pode ser considerado um bon vivant, é Olya. E não tinha nada melhor pra fazer ali,  então passei a pensar no dia que eu conheci o russo.

Enquanto a maiorioa dos meus amigos eram pessoas comuns, com suas qualidades e problemas, Olya se destacava porque sua vida daria um livro. Aliás, daria um filme. Poucas pessoas realmente conheciam a história do Olya. Eu era um dos poucos com quem ele se abriu e me contou. Lembro que enquanto ele me contava, eu pensava que nome daria para um livro sobre ele. “Da Ucrânia à Rússia: A Vida Intrigante de Olya Oblaev”, hahahaha.

A Biografia de Olya começaria, é claro, pelo capítulo 1: “A Jornada nas Raízes Ucranianas”.

Apesar de ser chamado de o “Russo”, Olya Oblaev também não se chamava Olya Oblaev.  O nome verdadeiro ninguém sabe. Ele nasceu em uma pequena aldeia na Ucrânia, em 1985, em meio às paisagens pitorescas e a rica cultura ucraniana. Sua infância foi tranquila e cheia de histórias contadas por seus avós sobre os tempos turbulentos da União Soviética. Desde cedo, Olya mostrou um interesse incomum pela tecnologia e pelo mundo da tecnologia. Ele queria ser um especialista em eletrônica e criar instrumentos como os sintetizadores Moog, sua obsessão.

Quando Olya tinha 18 anos, sua família decidiu se mudar para a Rússia em busca de melhores oportunidades de emprego e educação. A transição não foi fácil, e Olya teve que aprender rapidamente e adaptar-se a uma nova cultura. Ele se matriculou na Universidade de Moscou, onde aprofundou sua paixão pela tecnologia e pela cibersegurança.

No capítulo 3: “A Tragédia Pessoal”.

Bem, a vida de Olya deu uma guinada dramática quando sua família foi vítima de um trágico acidente de carro. Perder seus entes queridos em um momento tão inesperado e doloroso o levou a um estado de desespero profundo. Sem recursos financeiros e incapaz de superar a perda, ele caiu em um abismo de desespero. Isso nos levaria ao quarto capítulo do meu livro, que é “O Caminho do Crime”.

Sem orientação, desesperado e sem saída, Olya acabou se envolvendo com quem não devia.  Estava até o pescoço enrolado em atividades criminosas. Com suas habilidades em cibersegurança, ele começou a realizar arrombamentos virtuais e invadir sistemas para roubar informações sensíveis. Sua reputação como um habilidoso criminoso cibernético cresceu rapidamente, mas isso também o colocou na mira de uma figura sinistra. Está curioso? Vamos para o que será meu capítulo 5: “A Conspiração Hacker”.

Olya inadvertidamente se envolveu em uma conspiração envolvendo um grupo de hackers que planejava desviar uma grande fortuna de bitcoins de um poderoso oligarca russo. Ele não tinha ideia de como sua vida iria se complicar ainda mais. À medida que a operação avançava, depois de roubar uma fortuna, o grupo, é claro, se deu conta que mexeu com alguém com privilégios no governo. Logo eles estavam sendo caçados pelo próprio serviço secreto russo. Quando o líder do grupo foi encontrado em pedaços numa mala, Olya percebeu que estava na hora de “dar no pé”. ele se viu em uma situação perigosa e começou a questionar suas escolhas. A primeira coisa que ele fez foi devolver sua parte no roubo, devolvendo fundos para a carteira do magnata, mas isso não garantia sobrevivência, mas apenas uma morte menos dolorosa.  Isso nos leva ao capítulo 6, que é “A Reviravolta no Destino”:

Por um golpe do destino, Olya conheceu um grupo de exploradores urbanos em Moscou, pessoas que tinham uma paixão por descobrir os segredos escondidos nas entranhas da cidade. Encantado por essa nova perspectiva, ele decidiu abandonar seu envolvimento com o grupo de hackers e se juntar a esses exploradores. Mas ele ainda estava prestando atenção no que acontecia ao seu redor e notou que um a um os membros do grupo hacker estavam aparecendo mortos. Ele somou 1+1 e entendeu que estava na mira.

No capítulo 7 eu contarei como a vida de Olya Oblaev deu uma reviravolta completa. Ele deixou para trás sua vida criminosa e se dedicou a explorar as entranhas de Moscou e outras cidades russas. Decidiu fugir do país, e com sua perícia em tecnologia, ele ajudou o grupo a documentar suas aventuras e a compartilhá-las com o mundo. Sua jornada, que começou na Ucrânia e o levou a uma vida de crime na Rússia, finalmente tinha encontrado um novo sentido. Olya Oblaev, que é naturalmente uma identidade nova, passou a ter uma vida “low profile”, isso é, trabalhando de maneira não chamar atenção. Então ele foi motorista, entregador, pintor de paredes e coisas assim.  Para falar a verdade, eu terminaria o livro deixando em aberto se essa é a real historia, já que Olya, é um cara tão estranho e curioso, que eu não duvidaria se boa parte de tudo isso que ele contou fosse invenção. Eu não sei onde as habilidades de arrombar e destravar fechaduras veio, por exemplo. Certa vez o Marcell estava bêbado e me disse que achava que o Olya era um espião. Eu não duvidei dessa possibilidade nem por um segundo.

Vendo Olya roncando como um porco, numa boa ali naquela situação de grande estresse, eu realmente concordaria que fosse um espião ou não, ali estava um cara com nervos de aço. O que é um pouco clichê para um russo, eu sei. Esse detalhe eu acho vai atrapalhar meu livro.

Como eu havia previsto, o sol começou a esquentar as chapas e o buraco começou a ficar quente como uma sauna.
— Cara, eu não tô aguentando mais. Eu vou morrer aqui, bicho! — Disse o Bob.
Olya acordou e falou: — Porra tá um calor miserável!
Eu já tinha arrancado minha camisa e o Bob também.
Olya lentamente tirou a camisa. Estávamos os três ensopados de suor. A ideia de deixar o corpo descer ali na água para me refrescar já havia passado diversas vezes na minha cabeça, mas eu estava com muito medo dos crocodilos para correr esse risco. Fora que uma vez na água seria praticamente impossível voltar para cima do flutuador
— Quanto tempo ainda vamos ficar aqui? — Eu perguntei ao Bob.
— Por mim eu saía agora!
— Não, não… Os macacos podem ter desistido de procurar na ilha, mas eles podem estar nas partes de metal, ou na torre, procurando sinais de nós nas margens. É muito arriscado sair na luz do dia. Vamos ter que ficar aqui o dia todo. Só podemos sair quando escurecer.
— Você tá louco! Eu já tô morrendo de fome, porra! — Disse Bob.
— Esses caras pararam de nos procurar já tem mais de duas horas! — Eu falei.
— Devíamos ter trazido a linha de pesca. –Falou Bob, iluminando a água com a lanterna. Havia muitos peixes passando na água bem abaixo de nós. Mas então, uma enorme forma escura passou na água e foi iluminada pela lanterna. Vi o casco escuro e escamoso das costas do crocodilo e a forma em ondulações rítmicas da cauda dele passando lentamente a centímetros de nós e aquilo me deu um medo danado.
Fez-se um silêncio porque nós três vimos o bichão. Ele devia ter quase dois metros.
— Não ia ter como assar o peixe, mesmo que a gente pescasse. — Disse Olya. Percebemos que ele falou aquilo só pra descontrair o clima.
Voltamos ao nosso eterno esperar.
— O segredo desse plano está em passarmos como mortos. Os macacos precisam se convencer que morremos os três.
— Mais meia hora aqui e isso vai ficar bem realista, russo! — Disse o Bob. Eu ri. Era verdade. Ninguém estava aguentando mais. O ar era viciado, úmido, estávamos completamente sujos, suados, lambrecados de uma gosma pegajosa e estranha, que eu nem gostava de pensar muito sobre ela.

Imaginei que a essa hora, a polícia já estava começando as buscas. Minha mulher já devia estar desesperada.

— Olya, por que você acha que os caras fizeram esse experimento? — Perguntei.
— Sei á. As pessoas são loucas. –Ele disse.
A resposta não resolvia minhas duvidas. Parecia estranho demais tudo aquilo. O tanto de investimento gasto no projeto de tornar o macaco inteligente. Depois largar tudo para trás daquela maneira.
— Deu! Pra mim já deu! — Disse Bob. Ele estava decidido. Não aguentou ficar escondido. Eu acho que ainda aguentaria mais um dia inteiro ali no escuro e calorento buraco se fosse preciso, mas as pessoas lidam com o confinamento de maneiras diferentes.
— Calma, Bob! Calma, porra! Você vai botar seu próprio plano abaixo, cara! Vai matar a gente seu puto! — Olya falou sério, apontando a lanterna para o rosto. A luz deu uma aparência
assustadora nele.
— E lembra que não temos mais a arma. –Eu disse.
Aquilo segurou um pouco os instintos de Bob.
— Aqui… Esfrega água no rosto e na testa. Ó! — Olya estendeu a camisa para dentro do lago e jogou a mesma sobre a testa. Ele apertou a camisa e a água fresca escorreu sobre o corpo dele.
Nós todos ficamos fazendo isso. Realmente aliviava muito o calor que emanava das chapas.

A temperatura foi escalando brutalmente Chegou um momento que pensei que ia morrer de calor. A única coisa que aliviava era colocar as roupas molhadas para resfriar nosso corpo.

Ficamos ali conversando e nos molhando por horas e horas. Olya contou sobre uma moto que estava querendo comprar, eu dormi, acordei, ficamos jogando “adedanha”. Para passar o tempo, eu dormia de novo. Mas nunca dava para dormir relaxado, como na noite anterior, porque o medo de relaxar demais e cair do flutuador era permanente.
Dormi, acordei e numa dessas, ouvi Olya e Bob discutindo por cerca de uns quarenta minutos qual era o melhor filme do Stallone.
Dei meu voto em Rocky I, a propósito.
De vez em quando, Olya pegava o celular na mochila e consultava as horas. É absolutamente impressionante que quanto mais na merda você está, mais o tempo demora a passar.
Começamos a brincar de “conte o filme”. Um jogo que o Bob inventou para esticar nossa paciência.
Nesse jogo, cada um conta uma cena de um filme sem revelar o nome ou os o personagens. O último filme a ser descoberto, ganha.
Obviamente, Olya ganhou todos, tirando dos miolos cenas de filmes russos que ninguém viu, como “o planeta das tempestades”.

— Porra, aí não vale!
— Claro que vale. Você citou “tempos modernos” que também é véio!
— Mas é o Carlitos! Todo mundo viu!
— Não, não. A regra não diz isso. Se não viu, devia ver! É um sci-fi soviético do anos 60! — O russo disse.

Ouvi um barulho de água.

— Que isso? Tão ouvindo?
— Eu que estou dando um mijão! — Disse Bob.
— Que horas são agora?
— Sete e meia.
— Caralho passamos a porra de um dia inteiro aqui! Me sinto o Rambo!
— Naquela cena da lama, né? Tô ligado.
— Exatamente!
— Tá anoitecendo já. Está menos quente, vocês estão sentindo?
— Sim. É verdade. Quando foi meio dia eu estava prestes a morrer, gente.
— Mas até agora o plano funcionou lindamente.
— Bom, vamos começar a planejar nossa saída.
— Quem sai primeiro?
— Eu vou na frente, eu disse.
— Não, não. Deixa que eu vou. Você já fez a parte de jogar a mesa. Agora eu saio primeiro e vejo se está limpa a barra, e a gente sai. — Disse o russo.

Concordei com ele. Eu não imaginava, mas ele estava salvando minha vida.
Quando o relógio marcou nove da noite, colocamos nosso plano em curso.
Nos arrastamos lentamente. Olya foi na frente e então, no escuro, ouvimos um: Ah! Puta que pariu! Ai!
— Que?
— Que foi?
Olya ficou um tempo quieto. Uma coisa caiu na água.
— Olya? Olya? Tudo bem aí?

Depois de um tempo ele falou. — Shhhh. Tudo bem! Vamos, eu me machuquei aqui nesse caralho! Cuidado com as ferrugens!
— Ainda bem que a antitetânica está em dia — Eu disse rindo.
— A minha não tá. — Bob Gemeu atrás de mim.
— Calem a porra da boca, seus putos! — Olya estava sério. Concentração máxima no plano.
Ele abriu a tampa com enorme cuidado e lentamente saiu. Senti o vento geladinho da noite entrando pelo buraco.
Ficamos ali esperando o sinal.
Um tempo depois, Olya voltou e sussurrou junto a porta: — Barra limpa! Vamos!

Saímos do esconderijo com gigantesco alívio. Lá fora não se via nada muito bem, mas estávamos habituados a escuridão. Com a luz da lua e a fraca luz das áreas do parque que estavam acesas, eu conseguia enxergar. Não havia nenhum sinal de macaco.
Graças a essas luzes, eu pude ver finalmente a ponte tosca que os macacos fizeram. Eles jogaram vários entulhos e pedaços de brinquedos no lago, foram empilhando lixo e jogando placas e pedaços de tabuas por cima, até conseguir uma plataforma rudimentar e invadir a ilha.

— Fizeram tudo de qualquer jeito. — Disse Bob.
— Porra, são macacos. Tu queria o que? A Golden Gate?
— Não, beleza. Mas eu não sei se isso aí aguenta a gente.

De fato, a ponte parecia meio desabada e bamba em muitas partes. Os macacos tinham uma incomparável agilidade corporal. Já a gente…

–Não temos opção. O plano é esse. Eu vou na frente. Phil tu vem logo atrás e o Bob vem no fim, porque ele é o mais pesado. Se ele for na frente, ele pode passar, mas foder alguma parte da ponte. Melhor do mais leve para o mais pesado. — O russo disse. Fazia sentido.
Notei que Olya estava estranho, ofegante. Ele parecia cansado, e bem aflito. Aquilo parecia diferente do Olya que eu estava acostumado, cheio de piadas brincadeiras idiotas e palhaçadas.
“Deve ser o stress” — Pensei.
Vamos! Vamos! — Ele disse colocando a mochila nas costas e arrumando o boné.
Olya saltou da plataforma para uma tábua e se balançando correu pulando de placa em grade, subindo em ferros e passando por cacarecos diversos.
Eu fui atrás, tentando passar nos mesmos lugares onde Olya passou.
Quando Bob pulou ouvimos um “crack” e uma das placas afundou. Bob saltou antes de cair da água e se agarrou num grande ferro enorme que era um pedaço da montanha-russa. Olhamos aflitos para ele, mas ele conseguiu passar e continuar a travessia da ponte. Meu medo é que Bob caísse na água. Não teria como voltar na ponte para tentar puxar ele.
Notei ondulações na água. Eram os crocodilos já se aproximando.
Olya chegou na margem e corre para perto de umas árvores.
Eu esperei ter certeza que Bob iria conseguir.
Quando finalmente chegamos do outro lado, encontramos Olya, agachado. Ele estava tonto, se apoiando no chão. Estava suando muito.

— Tudo bem, russo?
— Vamos! — Ele gemeu.
Percebi que Olya mal estava conseguindo andar direito. Estava cambaleando.
Eu e o Bob o ajudamos. Começamos a correr no caminho que daria no parque aquático, quando ouvimos o rugido. O mesmo rugido impressionante que tínhamos escutado. Mas ele era muito mais alto.
— Que porra foi essa?
Então uma monstruosidade titânica saltou na nossa frente.


Se macacos do tamanho de pessoas já não fossem suficientemente assustadores, pulou um bicho que a minha melhor comparação era com um monstro do inferno, mas branco! Ele devia ter uns três metros e meio de altura, olhos amarelos, era um macacão peludo, absolutamente horroroso. Ali descobri que as surpresas daquele parque ainda estavam só no começo.
O horror veio para cima de nós com violência primal.

Corremos um para cada lado. Eu saltei para dentro de um carrossel, tentando me proteger das garras do monstro. Sem conseguir me agarrar, o bicho se virou.
Olya passou se esgueirando por trás daquela monstruosidade, quando ele ainda tentava me pegar. O russo disparou correndo e sumiu na escuridão. Eu fiquei meio puto, porque aquele era o Olya. Quando dava a merda ele pensava em salvar a própria pele. Marcell sempre reclamava do egoísmo do Olya.
Bob também ameaçou sair correndo e tentou trepar num dos brinquedos, mas o monstro foi mais rápido. Eu vi, chocado, quando ele agarrou Bob e o jogou para o alto. Bob foi erguido como se fosse um boneco de pano. O bicho então bateu com o corpo do meu amigo com enorme violência contra o solo. Seu crânio foi imediatamente esmagado contra as pedras do chão. O som dos ossos de Bob se partindo ainda ecoam na minha mente.
A criatura era incrivelmente forte. Certamente era uma das experiencias que deram errado.
Por ser muito grande, ele era um pouco lento, mais lento que o Silent. Mas dezenas de vezes mis forte do que o mais forte dos seres humanos. Disparei correndo. O bicho atrás de mim. Tirei proveito de minha habilidade de pular através das grades dos brinquedos. O bicho tentou me acompanhar e ficou agarrado nuns ferros. Isso me eu uma pequena vantagem, que tratei de usar. E corri direto para a piscina rasa. Ele quebrou o brinquedo lá atrás e veio saltando. Cada salto daquele bichão do pesadelo, era um pedação que ele avançava.

Pulei na piscina e comecei a andar com cuidado.

O macaco monstro saltou e assim que bateu naquela agua de lodo escorregou num tombo espetacular.
Continuei a andar sempre de maneira estável e ritmada. Eu não pensava em nada além de escapar daquilo, daquela abominação.
O monstro se levantou e tentou correr, mas tomou outro tombo. O chão escorregava como um quiabo. Eu já tinha experiência em fugir dos bichos naquela gosma, e do mesmo jeito que tinha sido com Silent, o macaco não entendia que se avançasse devagar ele ia conseguir me pegar. O instinto dele era sempre de correr e aí ele caía o tempo todo, o que o deixava muito mais agressivo.
Finalmente vi o corpo do Kong na minha frente. O monstro seguia se levantando e caindo atras de mim, quando do nada ele deitou aquele corpanzil na piscina e começou a se arrastar.
Agora ele não caía mais, mas avançava devagar, vindo atrás de mim.
Eu fui direto para o Kong. Me joguei de qualquer jeito dentro do restaurante. Ouvi o enorme rugido daquele bicho lá fora. Imaginei que ele com certeza atrairia a atenção dos malditos macacos.
O monstro não conseguia passar pela estreita entrada do Kong, então começou a dar porradas na fibra de vidro que foi se rompendo. O Kong parecia que ia desabar.
Corri gritando por Olya.

— Aqui! Aqui! — Eu ouvi. Vi o facho da lanterna dele percorrendo o teto do Kong. a entrada estava desabando. O russo já estava lá na caverna.
Me agarrei nas escadas e desci para a caverna sentindo o cheiro pútrido do ar. Eu havia me esquecido como aquele lugar fedia.
Encontrei Olya caído. Ele nem estava conseguindo ficar de pé.
— Tudo bem?
— Cadê o Bob?
— O bicho… Pegou ele.
— Pobre… Bob. — O russo gemeu.
— Bob? Tudo bem, cara?
— Eu… Tô mal! — Ele gemeu.

Olya estava quente. Estava muito mal mesmo. Eu precisei empurrar a estalagmite falsa de espuma de poliuretano para abrir o alçapão. Enquanto descíamos as escadas, ouvi barulhos que eu conhecia. Eram os macacos. A confusão causada pelo macaco monstro havia atraído os outros.
— Calma, russo! Aguenta firme, porra!
— Acho que aquele é o macho alfa… Albino. — Disse Olya, quase desfalecendo nos meus braços.
Nos jogamos nas escadas e eu puxei a tampa do alçapão.

Ouvi o som dos bichos pulando para a caverna. O som de vários deles caindo sobre a profusão de corpos.
Os macacos começaram a socar o alçapão. Ele tinha uma trava lateral, mas ela era muito fraca.
Olya desceu as escadas com dificuldade e ficou caído, lá perto da porta.

— Vai cara! Abre essa merda aí!
Olya nem respondeu.
— Olya! Olya! responde caralho!
Não teve resposta. Achei que ele tivesse desmaiado. Pensei que a desidratação e a fome tivessem ferrado o pobre Olya.

Os bichos estavam quase conseguindo arrancar a tampa do alçapão.
Desci correndo pelas escadas e encontrei Olya com a lanterna na boca. Suas mãos trêmulas estavam balançando ferrinhos no cadeado. Senti um grande alívio de ver que ele não me respondeu porque estava com a lanterna enfiada na boca.
Arranquei a lanterna da boca dele e segurei iluminando o cadeado.

— E aí?
— Calma, porra. –Ele gemeu. Vi que Olya estava revirando os olhos. Estava muito mal.
— Cara o que você tem?
— Shhhh… Ele gemeu. E continuou a mexer os ferrinhos.

Enquanto isso, as porradas foram ficando mais e mais fortes. Um estrondo ocorreu. Entendi que o monstruoso macacão tinha finalmente conseguido entrar no restaurante e desceu para a caverna. Era só questão de uma porrada daquele bicho, para arrancar a tampa do alçapão.

— Vai, Olya, vai!
— Deus nos ajude.

O cadeado não estava abrindo.

Veio a primeira porrada no alçapão. Virei rapidamente o facho da lanterna para cima e vi a fechadura. Ela estava ficando em frangalhos.

— Ilumina aqui, filho duma puta! –Berrou o russo.
Voltei o facho da lanterna para o cadeado. Ele estava mexendo aqueles ferrinhos pra um ado e para o outro quando então, “plic” – o cadeado abriu.
— Vai! Vai!
Olya arrancou o cadeado.
veio a segunda porrada e a tampa do alçapão finalmente cedeu. O bichão arrancou a porta do alçapão e lançou longe. Mas ele era grande demais para entrar. Os outros macacos estavam querendo entrar, mas ele era dominante, e houve um súbita confusão de berros e mordidas ali na entrada do alçapão.

Nos jogamos para dentro da porta blindada. Segundos depois os bichos estavam batendo nela. Olya enfiou o cadeado e trancou a porta por dentro. Os bichos socavam a porta com enorme violência.

Nos abraçamos satisfeitos. Tínhamos escapado. Ao abraçar o russo vi que ele estava com febre. Estava queimando.

— Olya! Eu disse. Vi pela cara dele que ele estava muito mal. Ele não conseguia nem ficar de pé. Olhei o braço dele e estava preto. Uma mancha escura se alastrava pelo braço dele.
— Mas que merda é essa?
— Cobra. — Ele disse.
Olya me contou que ao retornar sobre os flutuadores bateu a mão sobre uma cobra, que o mordeu. Ela caiu na água e ele viu que tinha sido envenenado.
Percebi ali o motivo pelo qual o macaco que abriu o alçapão não desceu. Ele deve ter visto aquela cobra e recuou.
Olhei ao meu redor. Estávamos em um enorme túnel que se perdia de vista.
— Calma, cara. Eu vou arrumar um remédio. Deve ter um soro em algum lugar por aqui.
Olya não falou nada. Apenas respirava pesadamente.

Saí correndo pelo imenso corredor, em busca de alguma sala. Os bichos estavam socando a porta, o que dava um eco. Já longe, olhei para trás e vi Olya, se arrastando até um canto da parede. Ele se deitou, colocou o boné vermelho na cara e ficou deitado. Pensei que ele estava sendo esperto. Olya devia fazer o menor esforço possível para evitar que o veneno se espalhasse. Mas toda a agitação desde que passamos pela ponte dos macacos já deviam ter causado o estrago.

Os corredores pareciam um grande labirinto. Muitas salas estavam trancadas.
Achei uma sala trancada que tinha uma janela de vidro. Era um grande laboratório. Eu usei um extintor de incêndio da parede para quebrar o vidro e entrei.
Vasculhei a sala em busca de algum remédio. Encontrei uma série de ampolas, mas nada parecia ser soro antiofídico.
Pulei a janela novamente e continuei a busca. Fui de sala em sala, sem sucesso. Não encontrado nada, percebi o fato triste de que meu amigo ia morrer.
Voltei pelos corredores até ele. Os bichos já tinham parado de bater. Encontrei Olya deitado exatamente no lugar que estava, O boné vermelho sobre a cara. Me aproximei com cuidado.
— Olya?
Toquei seu braço. — Olya, meu amigo? Ei!
Ele não respondeu. Olya estava morto.

Fiz uma prece por ele. Peguei a mochila dele com as ferramentas, a lanterna e o deixei ali.

Agora eu estava sozinho novamente.
Andei pelos túneis fazendo um reconhecimento.
Voltei até o laboratório. Encontrei numa das mesas uma caneta de quadro branco.
Usei a caneta para escrever nas paredes informações para que eu não me perdesse. O lugar era um complexo subterrâneo gigante. Tuneis, corredores e cheio de salas. Me senti num verdadeiro labirinto. Um dos enormes tuneis terminava numa porta preta dupla que estava trancada. Sobre ela eu li os caracteres pintados “D3”. Eu não sabia o que era D3, mas o caminho acabava ali então retornei.

Resolvi testar porta por porta do caminho. A maioria estavam trancadas. Dava para saber quando as portas eram portas de acesso a outros túneis, porque elas eram grandes e largas e de metal pintado de branco. Outras portas menores e frágeis, eram de madeira preta, mais simples.
Entrei numa sala que estava aberta. Era uma sala de reuniões bem apertada com mapas nas paredes. Havia um mapa esquemático do parque na parede. Do outro lado, um quadro mostrava uma bela foto da montanha russa “Na montanha dos gorilas”, com seus loops e reviravoltas em meio a árvores falsas. Fui até o grande mapa e o estudei com cuidado. Com o parque em total decadência e anos de abandono, grandes áreas do mapa que apareciam como atrações naquele quadro já haviam se convertido em verdadeira selva.
Num canto junto a parede, havia uma mesa com um gaveteiro embutido. O gaveteiro estava trancado. Eu peguei uma chave na mala de ferramentas do Olya e estourei com facilidade a trava. Uma das gavetas estava lotada de chaves de todos os tipos com pequenas etiquetas com números. Calculei que fossem as chaves das passagens nos túneis.

Encontrei uma das chaves com a tag D3. Só podia ser a chave daquele acesso. Voltei todo o caminho até chegar nas duas portas pretas blindadas. Eu meti a chave na tranca e a primeira não abriu. Fui tentando uma por uma, até que na última a porta deu um estalo e se abriu.  Esse novo setor estava completamente escuro e com cheiro ruim. Seu conhecia aquele cheiro. Era o cheiro de gente morta. Peguei na mochila a lanterna e iluminei lá pra dentro. A lanterna mostrou dois corpos de cientistas caídos no chão ao longe, no corredor.

Imaginei que certamente quele túnel deve ter sido comprometido pelos macacos. Eu ouvi então um barulho que veio lá do fundo. Era um barulho de respiração, como Silent fazia. Imediatamente notei que minha lanterna tinha sido vista por alguma coisa e bati as duas portas. Consegui trancar antes que o que quer que estivesse vindo correndo na escuridão me alcançasse. Uma violenta batida contras as portas aconteceu e essa coisa ali ficou socando as portas e gritando. Era um macaco.

Me afastei assustado, mas feliz da alta segurança daquelas portas blindadas. Entendi que estava na rede de tuneis do laboratório, mas ele havia sido comprometido. Eu e o Olya tínhamos conseguido acessar um dos tuneis isolados. Retornei para a outra direção enquanto aquele bicho ficava socando a porta loucamente.  Então do nada, ele parou. E aí…

pam, pam, pam…PAM, PAM, PAM...pam, pam, pam… Ele começou a bater o SOS.  Imaginei que devia ser o Silent do outro lado.

Certamente o Silent percebeu que eu e o Olya entramos num dos túneis e foi até algum dos tuneis comprometidos para esperar que eu desse o mole de abrir a passagem. Por pura sorte ele não me pegou.

Ignorei o Macaco e voltei pelo grande túnel. Comecei a testar as portas trancadas. A primeira que consegui abrir era uma sala comprida, com diversas gaiolas. Havia um monte de macaquinhos mortos ali nas gaiolas. Certamente quando o complexo foi invadido e os cientistas mortos, os pequenos filhotes dos experimentos morreram de fome em suas gaiolinhas.

Um poster na parede mostrava um corpo de macaco repleto de linhas, como meridianos de acupuntura espalhados. Achei aquilo curioso. Lembrando do que li no relatório do Blando, imaginei que cada um daqueles pontos tinha sido um ponto de injeção de coquetéis químicos estimuladores.

Passei para a próxima sala. Nessa sala, tinham muitas mesas e computadores, arquivos, e até plantas secas. Num dos cantos dessa sala, encontrei várias pessoas mortas. Quase todas eram mulheres. Estavam deitadas, como que dormindo nos cantos. Vi frascos de remédios pelo chão. Elas tinham tirado às proporias vidas. Fiquei imaginando o motivo de todas elas estarem numa sala só. Tudo parecia bem estranho.

Passei para a outra sala, essa era uma sala praticamente vazia, com uma grande mesa central e bandejas com remédios.  A sala seguinte era uma sala com computadores diversos, de onde saíam vários cabos que terminavam em toucas de borracha. Uma série de poltronas que lembravam aquelas onde se faz doação de sangue estavam em frente aos computadores. Devia ser a sala onde os animais eram eletroestimulados.

Uma das salas era um enorme arquivo. Parecia um tipo de deposito, com coisas que lembravam máquinas de lavar louça. Eu iluminei de perto com a lanterna e vi que eram centrais degravação de dados. Havia nessa sala também muitos armários de arquivos. Fui até um deles e comecei a olhar com cuidado. Ali eu encontrei um documento que estava numa pasta de couro preta que se destacava muito perto dos outros documentos, que estavam em pastas normais.  Eu peguei essa pasta, me sentei numa das cadeiras e  comecei a ler com grande interesse.

A primeira folha já me pareceu bastante curiosa. O titulo era perturbador:  “Programa de diretrizes técnicas para a quarta revolução humana”

“Quarta revolução humana?”  Mas que merda será essa? Eu comecei a ler, e à media em que eu lia, as coisas pareciam mais uma ficção cientifica barata do que realidade.  Mas eu já tinha visto e passado por perrengues o suficiente para não levar muito a sério aquilo que estava em minhas mãos.

O documento falava sobre um programa que vinha sendo desenvolvido para no futuro ser aplicado em toda a humanidade. No programa esse grupo estava testando a modificação gradual de seres humanos, através de um processo de edição de genes. Um deles, era um método chamado CRISPR.  A maneira pelo qual eles pretendiam fazer isso era usando partes de repetições organizadas do nosso DNA e usando um método similar ao usado no projeto Blando, alterar os genes humanos. Para fazer isso, eles usam enzimas chamadas KAS.  Usando um vetor especialmente desenvolvido a partir de um vírus que afetava bactérias, esse novo arranjo de DNA era então conduzido para certas áreas do cérebro. O documento em questão mostrava justamente um processo pelo qual um novo tipo de vírus seria usado para conduzir o novo conjunto de DNA para dentro das células cerebrais.

Uma grande pandemia mundial seria usada para espalhar esse vírus, estabelecendo um cenário preparado para que na primeira fase,  com o método CRISPR o processo estivesse amplamente disseminado. Em seguida uma série de vacinas para o vírus seria colocada em prática. Cada uma das vacinas tinha um código e uma função na montagem do rearranjo neuronal.

Mas aquilo ainda não fazia sentido pra mim. Por que eles planejavam infectar todo o mundo? “Não pode ser somente para vender vacinas e ganhar dinheiro. Será?” — Me perguntei.

Eu também ainda não tinha entendido onde Blando e os demais macacos que saíram do controle entravam na equação. Continuei a ler e me aprofundar.

Entendi que o objetivo do uso do CRISPR era alterar as células cerebrais, para tornar as pessoas como se fossem uma espécie de robôs.  À medida em que fui lendo, comecei a entender um pouco qual era o real panorama da pesquisa. Tudo estava bastante compartimentalizado, mas como eu havia lido coisas na sala secreta do castelo e somando com o que eu estava vendo no relatório da quarta revolução humana, comecei a entender qual era o plano. O plano era obter 100% controle mental.  Então um choque me ocorreu. O documento que eu estava lendo dizia ser a QUARTA revolução humana. Isso parecia indicar que o mundo já havia passado, sem saber, por três “revoluções” prévias. Comecei a pensar sobre o mundo e sobre as pessoas. Foi impossível deixar de refletir em como o comportamento geral das pessoas estava diferente do que era quando eu era criança. Sempre que eu pensava sobre isso, imaginava que talvez eu estivesse sofrendo de um tipo de miopia causada pela minha idade. Quando você é uma criança, vê o mundo sob uma certa perspectiva, e à medida em que cresce, essa perspectiva vai se alterando, seu pensamento mágico vai dando lugar a frustrações e planos. A própria consciência da finitude cobra seu preço no nosso amadurecimento. Mas… E se as pessoas estivessem sendo alteradas mesmo, lentamente, num plano tão progressivo, que não fosse possível detectar?

Me lembrei dos projetos de governo com vacinações compulsórias da infância. Um arrepio me acometeu. Continuei a ler.

O plano para uma quinta sequencia de alteração humana envolveria construir um sistema de controle mental global. O DNA humano é composto de uma dupla hélice, mas o plano envolvia ativar uma terceira hélice no DNA, modificando-o consideravelmente.  Esse projeto visava obter o acesso completo na escala de emoções humanas. Em teoria, eles poderiam conseguir desligar completamente a vontade humana, tornando as pessoas 100% escravas do controle mental. Esse projeto era antecedido de uma longa e complexa etapa de pré-condicionamento emocional através das mídias e eletrônicos domésticos. Lembrei de artigos sobre como a internet, redes sociais e o uso continuo dos celulares estava gradualmente tornando as pessoas menos propensas à reflexão. Todos estão sendo condicionados e estão pagando por isso.

As pessoas já vivem como escravas há séculos. O dinheiro mantém as pessoas num ciclo eterno de trabalho afim de suprir necessidades básicas, operando uma roda que nunca para.  Mas isso envolve um mecanismo de recompensa que gradualmente começou a apresentar falhas. Alguém, por trás de tudo aquilo percebeu que talvez fosse melhor tornar as pessoas robotizadas , limitando suas emoções, alterando suas mentes de dentro para fora e inserindo frequências eletrônicas em suas mentes.

Me lembrei das palavras de Sêneca que dizia que “todos somos escravos de algo” e que “para sermos totalmente livres, precisamos ter nossa mente sob nosso controle”. Aquele era o plano derradeiro da escravização do mundo por uma elite, que desejava mais e mais poder, com menor esforço de controle. As pessoas, com suas mentes convertidas em novos sistemas operacionais orgânicos, obedeceriam cegamente  aos desejos dessa elite poderosa. Me lembrei também que sempre imaginei que essas histórias sobre illuminati, e gente planejando o fim do mundo eram histórias de malucos, mas talvez, o pior maluco fosse eu. Era confortável a alienação de não acreditar, mas o mal estava ali, escrito, claro e cristalino, de maneira palpável.

Mas onde os macacos entravam? Pelo que entendi eles estavam tentando desenvolver símios específicos que trabalhariam também sob outro tipo de controle mental. Esses macacos estavam sendo preparados para controlar as pessoas, como um elemento de força. Se por ventura alguém escapasse do controle mental e se revoltasse contra o sistema, seria caçado pelos macacos. Os macacos seriam implantados na sociedade como um tipo de novidade genética, uma espécie de ser humano de segunda classe, controlado por ondas de frequência. Mas quando o plano fosse iniciado, todos estariam sob o comando para trabalhar, sem emoções, como robôs. A opção de escolha e pensamento individual seria o mais alto grau do luxo.
Quem planejou tudo isso acreditava que o mundo seria mais organizado e evoluído se todos atuassem como formigas de um enorme formigueiro. Controlados por uma única mente.

Era um absurdo ético sem precedentes.

Saí dali enjoado. Eu passei de sala em sala. Cada sala que eu abria, revelava alguma coisa diferente. Uma sala, que parecia um centro de segurança, tinha também um mapa na parede. Havia nessa sala diversos monitores, parecidos com o que vi na sala secreta do castelo. Nada estava funcionando.

Segui por um corredor ainda inexplorado, que dava numa sala distante, solitária. Fui direto nessa sala. Nenhuma chave que eu tinha conseguia abri-la, mas a porta não era do tipo mais forte. Era somente uma sala como as outras. Eu cheguei a pensar em dar de ombros e voltar, mas o fato de ser uma última sala, muito distante de todas as outras, num fim de um longo corredor que terminava numa maquina de café desligada, estava me deixando um pouco intrigado. Havia também uma outra coisa peculiar. Eu notei pelo corredor umas pequenas manchas de sangue, como alguém que pisou numa poça de sangue e saiu carimbando o sapato. Essas marcas vinham lá de baixo, e pareciam seguir para dentro dessa sala.

Eu abri a mochila do Olya e tentei tirar aqueles ferrinhos. Com eles eu comecei a tentar destravar a porta, mas obviamente eu não consegui. Eu ri de minha própria idiotice. Essas coisas só funcionam em filmes, e em filmes ruins, aliás.

Eu não tinha nem sequer 1% do talento dele para arrombar fechaduras, de modo que joguei tudo as favas e meti foi o pé na porta. Eu chutei com toda minha força a porta umas seis vezes, até ela quebrar bem na altura da maçaneta e abrir.  Eu imaginei que acharia o “homem sangrento” nessa sala, mas não tinha ninguém.

Era uma sala comum, com uns computadores, telefones que estavam mudos, painéis digitais apagados, e umas plantas secas. Havia alguns armários com livros e papelada de escritório. Formulários e coisas assim. Mas tinha algo que eu já estava até me habituando: O cheiro horroroso de defuntos.

Não dava para saber de onde o odor de morte vinha.

Mas essa sala tinha uma particularidade. Ela tinha numa parede um mapa que estava plotado por cima de uma foto aérea do complexo do parque, mostrando toda a rede emaranhada de túneis. O laboratório estava marcado como um grande sistema de tuneis azuis em diagonal atravessando o parque. Os demais tuneis de serviço tinham outras cores e elam representados como passagens mais finas. Percebi que havia um dos túneis que saía do parque e seguia por baixo da terra até a mansão. Isso me ajudou, porque nesse mapa alguém havia colocado uma fita adesiva com uma coisa escrita em vermelho nem no final de um dos túneis, onde se lia: “Você está aqui”.

Devia ser só uma piada interna, mas aquilo foi uma das coisas que mais me ajudou.  Descobrindo onde eu estava na rede de túneis, eu poderia seguir o mapa até o pequena e estreita passagem que sairia na mansão. Ficou claro que era por ali que eu teria que sair!

Eu arranquei aquilo da parede, quebrei o vidro sem nenhuma cerimônia e guardei o mapa na mochila. Eu já estava saindo, quando notei a mancha do sangue no tapete. Fui acompanhando, curioso. Ela seguia sujando o caminho direto até uma enorme estante de livros que ia do chão ao teto. E sumia ali.

Aquilo era inesperado. Fui até essa estante, arranquei alguns livros e dei umas batidas no fundo da estante. Era oco. Estava óbvio que a estante de livros era uma passagem secreta, oculta ali. Mas por que alguém precisaria colocar uma passagem secreta dentro de um túnel secreto?

Muito interessado nessa ideia, me abaixei no chão e com a forte lanterna do Olya, comecei a iluminar e olhar pela greta. Vi então, no canto, um cilindro metálico, que descia da estante para o chão. Era um pivô.

Sem tempo a perder com babaquices que só se vê em desenhos do Scooby-Doo, eu comecei a arrancar todos os livros da estante. Fui amontoando aquelas seis dezenas de livros num enorme monte ao lado da estante. Então um deles fez “click” quando puxei.

Eu empurrei a estante e ela pivotou inteirinha, revelando ali atrás, uma outra sala.

Nessa sala, havia uma mesa, sobre ela, deitado, estava um cara com a cabeça estourada. Um enorme manchão de sangue escuro estava na parede. Seu corpo caído como um boneco sobre a mesa onde miolos estavam espalhados estava seco quase como uma múmia fedorenta. Estimei pelo visual geral do corpo, que aquele defunto estava ali há pelo menos uns oito anos.

O revolver prateado sobre a mesa, era uma 45 com balas.

Nessa sala, também havia um livro vermelho, trancado numa caixa de vidro. Quebrei a caixa e peguei o livro, que lembrava um tipo de lista telefônica. Imediatamente, logo na primeira pagina estavam uma serie de códigos alfanuméricos.  Eram diversos deles. Mas havia três códigos principais, escritos em letras garrafais. Achei aquilo curioso. Eu já tinha visto algo assim antes, mas não me lembrava onde. Fiquei um tempo tentando me lembrar,  até que finalmente, me lembrei. Eram nos silos de mísseis. Eles têm esses livros com uma série de códigos de segurança que devem ser ativados para liberar um lançamento de míssil nuclear.

Deixei aquele livro sobre a mesa entre os pedaços secos de miolos, e fui investigar mais. Nessa sala diminuta, havia um tipo de cofre. E sob ele um computador, que para meu espanto, estava ligado!

Como ele era a única coisa ligada que eu tinha visto ali até então, imaginei que fosse um computador importante demais, até para estar dentro de uma sala secreta, numa sala secreta, no final de um túnel igualmente secreto. Esse computador devia der um sistema de energia separado, mas por que?

Fui até o cofre e ele estava obviamente trancado.

Mexi no computador e ali estava uma tela pedindo senha.

“Maldita hora que o Olya foi morrer!”

Voltei até o livro vermelho dos códigos e comecei a tentar. Nada estava ativando o computador.

Eu sabia que precisava ativar aquele computador de qualquer eito, pois se ele estivesse ligado na internet, eu poderia pedir ajuda.

Então, eu parei e fiquei pensando naquilo tudo. Todo mundo ali naquele túnel estava morto. A maioria havia cometido suicídio.  Por que?  Por que essas pessoas não usaram o computador para pedir ajuda?  Se eles não fizeram isso, deveria ter um motivo. Quando a segurança do parque foi comprometida, certamente eles se trancaram nesse setor e esperaram ajuda até caírem na real que não ia ter ajuda. Desesperados, devem ter preferido uma morte rápida que a lenta agonia.

Se eu estivesse certo, então eu não teria como sair dali. Mas eu tinha aquele monte de chaves, poderia tentar destrancar as portas.

Então, conforme eu pensava nisso, eu percebi algo que ficou claro. Aquele cara ali devia ser o chefão. Era o único com uma sala secreta. Um cofre na parede, um mapa da instalação. Devia ser o mandachuva da pesquisa. Eu fui até ele e com um certo nojo, comecei a apalpar suas roupas em busca de alguma coisa. Não achei nada além de canetas e uns papeizinhos. Então eu tentei uma abordagem mais vigorosa e arranquei o defunto da mesa onde ele estava colado e joguei no chão. Comecei a fuçar nas calças dele e tirei a carteira do bolso de trás. Ali estava o nome dele, documentos, fotos de família com umas crianças, cartões de banco, uma bela grana em dinheiro e o que eu queria: Um pequeno papel quadrado, com quatro números aleatórios escritos à caneta.

Fui até o cofre da parede e digitei os números. Nada.  Não funcionou. Era outra bosta que só funcionava em filmes.

Mas então, eu resolvi testar os mesmos números, mas de trás pra frente, e aí… Funcionou!

— Engenhoso, hein senhor cabeça oca?  — Eu disse para o homem, com o buracão no crânio que jazia todo torto, como um “L” no chão.  O rigor mortis trava a pessoa na posição que ela morreu.

Abri o cofre e ali estava uma série de papeladas de contratos e coisas assim, inúteis, e também uma pequena caderneta de anotações, com códigos.

Eu comecei a ler, com a ajuda da lanterna, e percebi que aquele computador não se conectava com a internet. Ele era parte de um sistema de segurança. OS documentos revelavam os locais onde havia uma série de explosivos, tanques de gás e bombas incendiárias, que estavam ali instaladas justamente para “caso desse merda” eles mandarem tudo pelos ares.

Eu comecei a rir quase maniacamente quando me dei conta que eu estava de fato montado numa espécie de bomba do juízo final, como o Doutor Fantástico, do Peter Sellers!

Então era isso, eu colocaria os códigos e tudo iria para o saco. A pesquisa, os macacos, os restos daqueles brinquedos decrépitos, os crocodilos infernais… Tudo. Parecia uma boa ideia, mas tinha um pequeno detalhe, eu não estava disposto a ir pra a “terra do pé junto”.

Eu coloquei os últimos códigos que haviam sido anotados na caderneta no computador.  A tela de acesso foi liberada e havia ali um painel onde era preciso colocar dezesseis códigos diferentes para ativar a destruição.

Voltei ate o livro vermelho e comecei a fuçar. Vi que ele estava dividido em protocolos diferentes de segurança, e num deles,  a destruição do sistema ocorreria em uma hora. Era o maior tempo.

Eu peguei aquele conjunto de códigos e digitei no computador. Ele perguntou se eu tinha certeza, e eu disse que sim.

A tela se apagou e uma nova tela se abriu, com uma contagem regressiva de sessenta minutos.  Aquela era minha deixa!

Eu saí do complexo, peguei aquele revolvão bonito do mandachuva e  comecei a correr feito louco pelos corredores. Na fuga, passei pelo corpo de Olya. Parei diante dele. Me ajoelhei. –Adeus, meu amigo!

Peguei o Boné vermelho do meu amigo russo como uma última lembrança e saí correndo.

Cheguei numa das portas pretas. Essa porta eu estava esperançoso que não desse para um túnel comprometido, como o D3. Era um túnel P3. Imediatamente,  imaginei que era o túnel do centro de psicologia animal.

Eu procurei no bolo e chaves e ali estava a chave da tag P3.

Abri o portão e estava tudo escuro.

“Ah, não… puta merda.” — Pensei.

Joguei a luz da lanterna. Estava tudo limpo, não vi ninguém morto esfacelado pelo caminho, como no outro.  Olhei meu mapa, eu precisava percorrer esse túnel e chegar num outro, chamado Acesso de serviço “C”. Dali, era só seguir até o fim, pegar um túnel para a direita e ele levaria direto para a mansão.

Segui apressado por este túnel. Havia lá também um monte de salas, todas fechadas. Eu não tinha mais tempo de explorar nada, pois agora o tempo estava contra mim.

Por estar sem luz, era bem mais assustador e complicado de atravessar. Eu tinha medo de dar de cara com os macacos.

Segui tentando não fazer barulho. Parei diante da porta que daria acesso ao túnel de serviço.  Eu meti a mão no bolo de chaves e iluminei com a lanterna, tentando achar a chave que liberava aquela  porta.  Então ouvi aquele som que eu já conhecia.

Shhhhhh…

Eu olhei pra trás e na escuridão, eu reconheci a silhueta. De pé, a uns vinte metros atrás de mim, estava o Silent.

Eu apontei a arma para ele. Mas ele não se mexeu.

Baixei os olhos e comecei a mexer nas chaves, procurando loucamente.

Voltei a olhar para a frente e Silent não estava mais ali. Apontei o corredor com a lanterna, ele havia sumido.  Certamente era mais uma malandragem do filho da puta, que viu que eu estava armado. Ele era esperto o suficiente para nunca me enfrentar com um revolver apontado pra ele.

Eu me virei com medo. Dar as costas para o corredor me colocava em grande vulnerabilidade, mas eu não tinha tempo a perder.

Abri a porta sem olhar direito. Eu estava olhando para o corredor. Vi Silent saindo de uma das salas devagar.

Eu precisava ser rápido. Me joguei para dentro do corredor e fechei a porta. Mas ela não trancou.

Não ia dar tempo de trancar, eu só saí correndo feito um louco pelo corredor de serviço, torcendo para que ele não me pegasse, e então, eu dei de cara com outro macaco no final do corredor.

Ele estava em pé. Parado, e era igualzinho o Silent.

— Ah, não. Puta merda!  Eu disse apontando a arma.

A porta estourou atrás de mim e surgiu o Silent.

Agora eu estava ferrado. Havia um macaco de é na frente e outro atrás.

O macaco que estava na minha frente esticou o braço em minha direção com a palma da mão para cima. Eu não entendi nada. Parecia que estava me pedindo para entregar a arma. Eu meio que consegui sentir que ele me dizia isso, não sei como.

Mas é claro que eu não ia entregar nada. Olhei para trás e vi Silent se aproximando.  Ele tinha ódio nos olhos.

O macaco da minha frente levantou a mão, como num gesto de “pare”. E Silent foi jogado contra a parede com enorme violência.  O macaco bateu na parede e começou a se debater nervosamente, gritando.

O outro macaco virou-se de lado, deixando uma passagem, e fez um gesto cordial, como quem diz, “pode passar”.

Eu estava com medo demais para dar um único passo.  Então aconteceu outra coisa ainda mais estranha: ouvi uma voz dentro da minha cabeça:

“Passe. Salve sua vida! Eu vou segurá-lo!”

Eu estava tremendo e desesperado e simplesmente passei, temendo que aquele bicho saltasse sobre meu pescoço a qualquer momento, mas ele ficou ali, como um lorde, de pé, como uma pessoa numa fantasia de macaco, com o braço reto, e a mão espalmada, apontada para Silent, que parecia estar agarrado na parede como um tipo de força desconhecida.

Eu corri até a portinha de madeira no final do corredor. Olhei para trás e aquele macaco estava olhando para mim.

— Obrigado!   –Eu disse.

Eu o reconheci. Era Blando.

— Viva uma boa vida!  –Ele respondeu na minha mente, de maneira tão clara, que foi como se ele conseguisse falar.

Então, Silent se soltou. Bateu no chão. Ele logo disparou pelo corredor, saltando sobe o outro macaco. Começou uma intensa e furiosa luta onde eles se engalfinharam no estreito corredor. Eu meti o pé na porta, uma duas, três vezes até ela quebrar. Me abaixei e me esgueirei por um longo corredor pequeno quadrado e estreito cujas paredes eram todas de pedra, que devia medir um metro por um metro. Ao fundo ouvi a luta ferrenha dos animais. Ao final desse corredorzinho tinha outra portinha igual que cedeu na primeira pancada. Saí no porão da mansão. Eu corri pelas escadas, ainda ouvindo os guinchos dos animais brigando em pura selvageria.

Saí correndo pelas escadas do porão, mas elas estavam podres e eu caí. Bati lá em baixo com a certeza que tinha dado uma merda federal. Sem ter como sair do porão era fato que a mansão logo iria explodir com tudo.

Eu olhei ao meu redor, não encontrei nada que pudesse me ajudar a agarrar na escada quebrada.

Então vi uma mancha preta surgir do buraco. O macaco botou a cabeça para o lado de fora e sorriu arreganhando aqueles dentes. Era o Silent.

Eu apontei a arma para ele.  Silent saiu lentamente de dentro do buraco. Estava muito machucado e sangrando.  Sua aparência era horrorosa.

Eu tremia feito uma vara-verde. Silent veio se aproximando.

Ele saltou sobre mim. Eu atirei, mas errei o tiro. Senti o impacto do enorme macaco me derrubar no chão. Bati a cabeça com grande violência no chão.

Então tudo começou a querer apagar, eu ia desmaiar. Vi num flash de luz, Silent ser arremessado para cima e então,  bater com força no chão.

Olhei e vi Blando, cheio de cortes e com a cara parcialmente descarnada, como um monstro do pesadelo com a mão esticada. Silent subiu, girou no ar e então “plec”. Sua cabeça dobrou em noventa graus para trás. O corpo de Silent tombou como um pedaço de pau no chão do porão.

Eu tentei me levantar ainda tonto, quando senti uma estranha força magnética, passando pelo meu corpo. Um bizarro impulso me jogou lá pra cima. Voei como se fosse um tipo de super homem, e bati no final das escadas.

“Fuja!” A voz ecoou na minha mente.

Eu tratei de correr feito louco para fora da mansão. Saltei os degraus e num pulo, atravessei o muro. Encontrei o carro do Bob parado diante da mansão.

“Deus, faça que pelo menos nessa vez seja como nos filmes!”  — Eu pensei quando cheguei junto ao carro.

A chave estava na ignição. Eu montei no carro, liguei, fiz a volta e acelerei o lada ao máximo!

Estava atravessando o segundo portão, na estada que levaria para a rodovia quando ouvi o estrondo. Parei o carro e olhei pela janela. Vi o clarão luminoso da segunda explosão. E depois a terceira. Eram diversas explosões em sequencia, e aí veio o fogo. Segui meu caminho vendo pelo retrovisor do Lada o colossal incêndio engolfar a floresta de pinheiros que havia ao redor do parque.

Enquanto eu ganhava a estrada, lembrei das palavras que ecoarão para sempre em meu coração:

” Viva uma boa vida!”

 

FIM

 

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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Comentários

  1. vi que o comentário não aceitou o alfabeto russo
    é o nome do filme citado na história:

    >Planeta Bur (Russian: ??????? ????) is a 1962 Sovcolor Soviet science fiction film scripted by Alexander Kazantsev from his novel, and co-scripted and directed by Pavel Klushantsev.[1] In English, the film is often informally referred to as Planet of the Storms, Planet of Storms, Planet of Tempests, Planeta Burg, and Storm Planet.

  2. Excelente, adorei ver o Blando aparecendo e dando um k7 no Silent. RIP Olya e Bob. Melhor conto baseado em sonho.
    Demorei um cado pra vir ler a última parte porque tô numa correria pra terminar meu livro, tô na reta final já, só faltam 5 capítulos.

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