Gringa – Parte 11

O objeto cruzou o céu num brilho verde e foi gradualmente apagando até sumir.

“Uma estrela cadente” – Alex pensou. Lembrou-se da última vez que tinha visto uma estrela cadente. Foi justamente num momento de grande “aperto”.

Foi quando Alex ainda trabalhava com Plínio Marcos. Alex estava a caminho de uma pequena recepção para convidados seletos interessados em investir num novo negócio agropecuário de criação de gado no Centro Oeste Brasileiro.
Entre champanhes e canapés, os convidados estavam chegando e eram reunidos pela mestre de cerimônias numa cobertura de frente para o mar no Leblon.
Alex estava estacionando a Ferrari. Estava aflito, ia chegar um pouco atrasado em função de repassar com os dois gerentes os passos da apresentação. O tempo havia sido cuidadosamente estudado, tendo em vista a importância e influencia de alguns convidados naquela noite. Nada poderia sair errado e Plínio havia especificado para Alex cada passo do programa. O problema era o maldito trânsito do Rio de Janeiro.
Quando Alex finalmente alcançou o saguão, encontrou Maitê parada à porta do elevador. Ela era uma ruiva gigante. Tão grande quanto linda e estava aflita.

-Porra, Alex! Doutor Plínio já ligou três vezes. – Ela disse, consultando um bloco de anotações que trazia na bolsa.

-Andar de carro nessa cidade está cada vez pior! Fecharam o Rebouças de novo…- Respondeu Alex, puxando a moça para o elevador.

A porta finalmente se fechou, e o elevador começou sua lenta subida.

Alex consultou o horário no Rolex. Ajeitou a gravata.

-Maldita gravata! Estou sufocando.

-Não é a gravata apertando. É cagaço de apresentar pros investidores. Relaxa.

-Eu mal consigo respirar nessa coisa.

-Vai dar tudo certo. Deixa eu ver, vem cá. – Disse Maitê.

Ela era uma mulher alta, muito mais alta que o esperado, com um metro e noventa e seis de altura, que com os saltos altíssimos, chegava aos dois metros de altura. Maitê era uma das executivas da Holding de Plínio Marcos. Muito bonita, seus lábios grossos e enormes contrastavam com um rosto anguloso, e o vestido vermelho com um decote pronunciado combinava com os cabelos cacheados ruivos que emolduravam uma estonteante figura. Ela estava usando um colar de pequenas contas pretas sobre o grande decote que pronunciava os seios fartos.

Seus olhos, verdes como esmeraldas, pareciam acesos com a maquiagem ao redor dos mesmos. Maitê chamava tanta atenção, que Alex desconfiava que o objetivo de Plínio, para além dela ser uma executiva brilhante, que dominava sete idiomas fluentemente, era justamente causar um certo grau de perplexidade e espanto nos clientes internacionais. Por isso, ela estava em todos os grandes lançamentos, surgindo como mestre de cerimônias.  Quando aquela mulher gigante aparecia na sala, todos ficavam estupefatos. Por isso, Maitê sempre fazia uma chegada triunfante, quando todos já estavam acomodados.

A enorme mulher ajeitou a gravata de Alex.

-Tá lindo. Cada dia mais lindo…

-Obrigado. – Ele disse , relutante.

-Vem cá. – Ela puxou Alex com certa violência e deu um beijo na boca dele.

-O… O que foi isso? Alex perguntou, limpando o batom.

-Para dar sorte… E porque você é um tesão.  – Maitê piscou o olho.  Mexeu na bolsa e pegou um estojo e começou a retocar o batom.

O elevador finalmente chegou na cobertura.

Lá fora havia um clima de tensão no ar.  Eles saíram e encontraram Terezinha.

Ela estava orquestrando os bastidores do evento. Gerenciava o Buffet, as recepcionistas, os músicos… Terezinha era a gerente da produção. Ela era uma velha baixinha, que parecia ter 90 anos. A piada na Holding era que Terezinha era a mãe de Plínio. Na verdade, ela era uma das secretárias mais antigas da Holding. Terezinha informou que tudo estava no planejado apesar do atraso dele. Os principais convidados estavam no salão, conversando, enquanto Arthur Moreira Castro fazia uma curta apresentação, no piano de cauda, acompanhado de um violinista para entretê-los.

O elevador exclusivo apitou uma sineta, e a porta se abriu. Plínio Marcos apareceu, vestindo um terno preto de riscas de giz que contrastava com seus óculos de metal brancos.

-Finalmente, Plínio! Que demora, você quer me matar? – Gritou Terezinha, correndo com passinhos curtos na direção do chefe. Ela sacou um bloco e deu as informações básicas para ele.

-Desculpem meu atraso. – Plínio disse, se aproximando de Alex e Maitê. – Você, sempre linda.

-Obrigada Plínio.  Adorei os óculos.

-E você, garoto? Tudo certo?

-Tudo bem, Plínio. Estamos com tudo certo. Só falta o OK da Terezinha e a gente entra.

-O seu Arthur esta na última musica. Assim que ele finalizar, as meninas vão posicionar os convidados na mesa. Aguardem meu sinal. – Disse a idosa, enquanto entrava pela porta que dava acesso ao salão.

-Vejo vocês lá dentro, garotos. Boa sorte. – Disse o magnata. Ele beijou Maitê no rosto, e apertou forte a mão de Alex, e depois, foi lá para dentro, cumprimentar os convidados antes do inicio das apresentações.

Alex ficou sozinho com Maitê na antessala.

-Será que essa música demora?

-Essas musicas sempre demoram. E o Plínio vai falar com um a um lá dentro… Até todo mundo estar acomodado na mesa…

-Uns dez minutos.

-No mínimo.

-Preciso de um cigarro.

-Preciso de mais um beijo. – A mulher disse, languidamente.

Os dois olharam em volta, havia uma porta de acesso às escadas. Se dirigiram pra lá. Dessa vez, foi Alex que tomou a iniciativa, puxando Maitê e beijando a mulher.

Os beijos logo estavam ficando cada vez mais quentes.

Maitê pisou no freio. – Para, para! A gente vai acabar transando. – Ela sussurrou.

-Você me deixa louco, sabia?

-Como é que está meu cabelo?

-Prefeito… Eu queria…

-Shhhh. – Ela sussurrou, colocando o dedo na boca de Alex.  – Você vai ser meu hoje à noite, Alex.

Maitê saiu das escadas, arrumando o vestido.  Deixou Alex para trás.

O jovem sentou-se nas escadas. Estava excitado. “- Puta merda, como que eu vou entrar na sala assim com esse volume nas calças? ” – Pensou.

Alex acendeu o cigarro, mas quase não conseguiu fumar. Na segunda tragada, um soco estourou na porta da escada.

-Bora Alex! A musica acabou.  – Maitê gritou pela fresta.

O nervoso contribuiu para reduzir o problema dentro das calças.

Alex se ajeitou. Pisou na brasa do cigarro no chão e saiu.

Quando os dois entraram na sala ela estava toda escura. A poderosa luz se acendeu sobre eles. Alex e Maitê entraram no salão sob aplausos, e quando as luzes voltaram a permitir que enxergassem, uma enorme mesa repleta de pessoas importantes estava diante deles. Era uma mesa grande formando uma letra U.
Maitê assumiu seu lugar no púlpito lateral e apresentou Alex.

Ele agradeceu a atenção e presença de todos, se apresentou, e solicitou a presença de Plínio lá na frente.

Plínio Marcos foi até lá e sob efusivos aplausos, Agradeceu mais uma vez a presença dos convidados e amigos e apresentou os dados da Holding, os principais projetos de cada grupo e apresentou Alex como um dos sócios idealizadores no projeto das fazendas.

Em Seguida foi a vez de Alex apresentar o projeto ” Fazendas Super-boi” para os investidores em potencial. Mostrou os terrenos já adquiridos, os planos de aquisição das cabeças de gado, e uma projeção de crescimento dos rebanhos. A perspectiva e futuro no consumo de carne e os planos de exportação para frigoríficos chineses numa janela de apenas dois anos.
Após a apresentação e ainda com os números de cifras milionárias no telão, a apresentação chegava ao fim. Plínio novamente agradeceu a participação das pessoas, e convidou todos para desfrutarem de um pequeno show ao redor da piscina da cobertura, com vista para o mar.

Lá fora, uma banda de jazz trazida de Nova Orleans começava seus primeiros acordes.
Aplausos. Quando os novos comes e bebes começaram a ser servidos, Alex finalmente conseguiu sair das rodas de conversas de negócios e foi até a varanda do outro lado de onde acontecia o show, para fumar um cigarro num lugar mais calmo e relaxar do stress da apresentação.

Alex pegou uma taça de champanhe com o garçom e avançou para o espaço aberto.
Lá em baixo, o mar escuro desenhava linhas sinuosas na areia da praia.

Alex ficou alguns minutos admirando a beleza dos enormes prédios que enfeitavam a orla da Zona Sul do Rio.

Uma forte mão bateu no ombro de Alex.
Pensando que se tratava de Plínio ou Maitê, Alex se virou, sorrindo. Ele deu de cara com seu antigo comandante na PM.

-Ora, ora… Veja só quem está aqui… – Disse o homem, olhando cinicamente nos olhos de Alex.

Alex quase engasgou com o champanhe. Um calafrio percorreu sua espinha.

-E aí, garoto? Parece que você está… Bem de vida – Disse o comandante olhando o terno Armani.

-Como vai, comandante? Boa noite.

-Teixeira, pode me chamar de Teixeira. Afinal, agora parece que você estranhamente, ascendeu socialmente… Não convém mais qualquer formalidade.

-Eu… Sou só um empregado do grupo. – Disse Alex, tentando se manter frio. Ele tomou um gole de champanhe.

-Estranho, se não me engano Plínio Marcos acabou de apresentá-lo como sócio ali dentro… Estou bem curioso para saber como foi essa ascensão… E veja que legal, temos todo o tempo do mundo, não é rapaz?

-Sim, é… Bem. Claro… – Disse, Alex, meio sem jeito.

Alex olhou para cima e viu um bólido verde brilhante cruzar o céu sobre a praia.

-Então…

-E como estão as coisas lá no Batalhão, senhor?

-Ah… Você sabe. Aquilo lá é o mesmo problema de sempre.  Alguns caras novos, outros saindo… Como você, né Alex?… Alguns infelizmente morreram. Umas coisas estranhas aconteceram…

-É mesmo? – Alex estava suando. Pegou o lenço no paletó e limpou os lábios.

-Me conte. Sabe que nesse tempo em que não nos vemos, muita coisa mudou pra você…  Como você conheceu o Plínio Marcos?

-Nós nos conhecemos numa boate…  – Disse Alex.

Maitê apareceu como num passe de mágica ao lado deles.

-Com licença. – Ela disse.

-Toda – Disse Teixeira, com os olhos fixos no decote da ruiva.

-Posso roubar o Alex só um minutinho? O Doutor Plínio quer falar com ele.

-Claro… Bem, garoto. Boa sorte. E nós vamos nos ver de novo…  – Disse o comandante com um olhar estranho.

-Negócios. – Sorriu Alex, se justificando.

-Sim, Negócios… – O comandante do batalhão respondeu.

Alex saiu junto com Maitê.

-Que foi? Ele perguntou pra ela.

-Nada. – Ela disse, trocando a taça vazia por outra cheia, na bandeja do garçom.

-O Plínio quer falar comigo?

-Não, o Plinio já subiu pro heliporto. Queria te tirar daqui. Vem. Vamos embora!  – Ela disse, virando a taça num só gole e puxando Alex pela mão.

“Salvo pela gigante ruiva.”  – Alex pensou, enquanto saíam para o elevador.

Os dois desceram para a garagem e entraram na Ferrari.  Alex dirigia tenso. Conforme o carro percorria as ruas da cidade, ele ia pensando sobre o Comandante Teixeira. O cara estava desconfiado. Era praticamente obvio que tinha sido ele o cara que explodiu o cassino do careca. Certamente Teixeira já tinha conseguido obter testemunhos informais de quem estava na casa, sabia que era um policial que havia entrado lá e feito a chacina. Vê-lo ali, sendo apresentado como sócio nas Fazendas Super Boi era quase que uma assinatura de culpa… Alex pensou que precisava fazer alguma coisa. O Teixeira era vingativo e não ia deixar barato. Mesmo estando sob a proteção de Plínio, ele sabia que o comandante não ia sossegar.

-Você tá bem, gato? Tá preocupado?- Maitê perguntou.

Alex apenas concordou com a cabeça, passando a mão sobre os cabelos vermelhos da mulher.  Acelerou o bólido. Dali seguiram direto para um dos motéis mais caros do Rio, para uma noite de prazeres inesquecíveis.

Alex olhou para a escuridão do mar lá em baixo. As ondas pareciam estar aumentando, a justificar o som delas batendo nas pedras do costão da ilha…

Ele voltou para dentro da casa, levando consigo o lampião à gás. Escovou os dentes e depois de tentar afogar uma diminuta aranha no vaso sanitário do banheiro com seu xixi, desligou o lampião.

Voltou para o quarto no escuro e deitou na cama. Ali ele ficou lembrando de Maitê e da noite de amor dos dois naquele motel.

Tinha sido uma noite tórrida de sexo selvagem, que perdeu completamente sua magia no dia seguinte. Quando Alex despertou na cama do Motel, a gigante ruiva já estava vestida, escrevendo coisas num pequeno bloco que ela levava na bolsa. Todo o sexo, beijos e carícias não pareciam ter acontecido.

Alex estranhou que a ruiva tivesse acordado tão fria, tratando-o com uma estranha secura. Foram embora em silêncio. Alex deixou a mulher em frente ao apartamento dela no Flamengo.  Ele tentou dar um beijo, mas ela virou o rosto e beijou-o no rosto. Ele entendeu o recado.

Alex se conscientizou que havia sido só uma fuga para o stress da mulher. Não haveria nunca possibilidade de um romance e nenhum dos dois realmente iria querer algo assim…

Alex ficou um tempo pensando em onde estaria a mulher ruiva a uma hora daquelas. Depois, ele virou de lado na cama e finalmente, dormiu.

O dia amanheceu ensolarado na ilha. Alex levantou-se revigorado.  No relógio marcava sete e meia da manhã e o sol já estava forte, prenunciando mais um dia de forte calor.

Alex foi até o banheiro, escovou os dentes e conferiu a aranha morta boiando numa poça de xixi. Ele urinou mais ainda sobre o pobre cadáver do aracnídeo, depois jogou um baldinho de agua para descer.  Escovou os dentes e foi até a cozinha preparar um cafezinho. Ligou o fogareiro e colocou a canequinha de prontidão. A vida naquela casa que estava mais para uma cabana em estilo colonial que para uma casa propriamente dita, era bem complicada sem a água. Era preciso levantar logo e começar a trabalhar no plano de captação da água.

Alex vestiu a bermuda surrada.

A grande vantagem do morar na ilha era a paz e tranquilidade. Nada, senão a algazarra dos sabiás e eventualmente as gaivotas. O vento e o permanente som do mar batendo nas rochas lá em baixo.  Quando ventava, a mata da ilha emitia um gemido lamuriante. Na chuva, a ilha era um pouco assustadora, mas nada com o qual não se pudesse acostumar. Os moradores que construíram a casa haviam sido bem inteligentes de erguer a mesma longe da beira do mar. O barulho do mar que entrava na casa era suave e ao mesmo tempo, dava para dormir sem medo de uma onda inesperada atingir a casa.  Por estar no alto ela oferecia também uma boa visão do mar.  Em dias muito bonitos, com sol forte, o mar perto das rochas se tornava de um verde cristalino que lembrava uma piscina. Era possível ver os cardumes nadando ao redor da ilha, se alimentando dos corais e mariscos que se aderiam a afloração de rocha.
Alex tomou o café forte e sem açúcar.  Abriu um pacote de bolachas e foi até a varanda pegar um vento fresco do mar.

Sua ideia era primeiro limpar uma série de pequenas canaletas construídas pelos moradores anteriores na ilha. Essas canaletas estavam espalhadas pela mata, descendo da parte mais alta da ilha, em círculos. A vegetação densa e as folhas de década de abandono haviam se acumulado nessas canaletas, assoreando-as. Após a limpeza delas, a água da chuva seria então captada pelas canaletas  e desceria, caindo em caixas de acumulação de passagem, e depois passariam por tanques de decantação até finalmente serem direcionadas para a cisterna. De lá, um complexo mecanismo de dupla filtragem ainda teria que ser construído para tornar a água coletada em água potável.  Um sistema de bomba alimentada por gerador à diesel deveria ser inicialmente usado para mandar a água para duas caixas d´água de grande capacidade que seriam instaladas num terceiro momento, no alto de um platô rochoso que se distanciava uns trinta metros da casa, produzindo uma altura de coluna d´água de nove metros.

O plano de trabalho do dia envolvia entrar na mata com cuidado e ir limpando as canaletas, sempre de baixo para cima.  A razão para isso, é que se uma tempestade chegasse, a s canaletas deviam estar limpas para que a água não pegasse grande velocidade de descida ao ponto de transbordar e começar a cortar o solo, erodindo-o.

Ele calçou os tênis, pegou o repelente de mosquitos e duas garrafas de água. Pegou na mochila o revólver e colocou no bolso como sempre fazia.  Lá fora, alcançou uma pequena enxada carcomida de ferrugem que tinha sido deixada na obra e pôs a mão na massa.

Alex andou pela lateral do terreiro até chegar na cisterna. Dali, seguiu a rede de canais, desobstruindo a terra, areia, pedras, e muitas, muitas folhas e raízes. Em alguns trechos a rede de canaletas estava literalmente enterrada por quase vinte centímetros de sedimentos, produto de décadas de abandono.  Eventualmente grandes minhocões apareciam quando Alex metia a enxada.

Lá no meio da mata os grilos e cigarras cantavam sem parar. Eventualmente um canto de ave esquisito surgia aqui ou ali.  Alex sabia que a qualquer momento iria ver algum sinal da Gringa;

“Será que ela está nadando?” – Se perguntou. Lembrou da mulher mergulhando nua na área do píer no dia anterior.

Voltou sua mente para o trabalho. As distrações ali poderiam ser perigosas. Uma cobra sorrateira, ou uma lacraia poderiam surgir sob o monte de folhas a qualquer momento.

Alex trabalhou duro por algumas horas.  O calor estava aumentando, e dava para sentir o vento quente que soprava da região das pedras.  Entre uma escavação e outra, Alex achou que estava tendo uma alucinação.  Era um barulho ritmado, mas que vinha surgindo ao longe.

“Pom, pom,pom…”

-Mas que porra é essa? – Ele se perguntou. O som continuava e parecia estar aumentando.
Alex largou a enxada e seguiu pela mata atrás do barulho. Conforme avançava mata adentro, o som parecia aumentar progressivamente e logo ele escutou o indistinguível som: Era Funk.

“Parrapapapapapá papá papá, Parrapapapapapapá papá papá, Paparrá Paparrá Paparrá clack BUM, Parrapapapapapapa papá papá…”

O som tocava. Alex identificou que era o Rap das armas, que estava fazendo um grande sucesso.
Alex andou pela mata adentro, seguindo sempre na direção do som. Após andar bastante, com o som da musica ficando cada vez mais alto, ele  finalmente chegou na beira da mata. Escondeu-se entre as pedras, ficou olhando.

Ao longe, cerca de vinte metros dele, nas águas calmas,  havia uma lancha. Alex contou inicialmente seis pessoas na embarcação, que era bem moderna. Um sujeito coberto de tatuagens e com um brilhante cordão de ouro estava fazendo sexo com uma mulher na proa da lancha. A mulher, de quatro era muito bonita, com um cabelo comprido e também era bastante tatuada nas pernas. O maluco tatuado tinha um físico pouco atlético, mas estava mandando ver.  Na parte do fundo, aparentemente, outros caras estavam fazendo um churrasco e falando alto. O Funk tocava em alto volume.

-“Só faltava essa” – Pensou. -“Os playboy vieram atracar na minha ilha”.

Alex observou que as mulheres da lancha deviam ser três ou quatro. Não dava para ver todas porque estimou que algumas estivessem ajoelhadas fazendo sexo oral nos rapazes da popa da lancha. A maré foi lentamente girando a lancha, permitindo uma melhor visão do que se passava.

Alex incialmente imaginou que talvez estivessem gravando um filme, mas não viu ninguém concentrado em trabalhar ou portando algo que se parecesse com uma câmera. Um dos caras pegou uma garrafa que não dava para ver direito do que era. Parecia ser uísque. Ele virou no gargalo e em seguida berrou um palavrão. Estavam muito bêbados.

Alex ficou apenas olhando, se lembrou das diversas orgias com as amiguinhas que participou no Iate de seu amigo Plínio anos atrás.

-“Ah, bons tempos”, pensou.

Alex deu de ombros e se virou para a mata. “Dane-se. O mar é público. Não entrando na minha ilha, podem se comer à vontade…”  Mas então ele escutou um barulho de alguém caindo na água.

Ele voltou para seu ponto de observação atrás da rocha.

As pessoas estavam pulando nuas na água. Primeiro pulou a moça que fazia sexo na proa com o tatuado e depois mais duas. Uma moça negra de corpo absolutamente escultural não pulou. Ficou na lancha bebendo o que parecia ser um coquetel. Ela estava com a parte debaixo do biquini rosa-fluor, que contrastava com o tom de chocolate de sua pele.

Os caras não pularam na água, ficaram apenas olhando.  As três garotas, todas nuas, nadavam na água intensamente verde, iluminadas pelo sol.
Eventualmente o cara tatuado do cordão de ouro, que parecia ser o dono da lancha, também pulou da lateral, virando uma cambalhota para trás no ar e os bêbados aplaudiram efusivamente.

Eles ficaram ali, nadando ao redor da lancha, e Alex achou divertido. O Funk tocava sem parar tocando hits da Furacão 2000. E a moça negra rebolava requebrando com a musica. Após alguns minutos, todos eles foram voltando para a lancha. Novamente, Alex se levantou para sair de volta para o meio da mata quando  a musica foi subitamente desligada e agora ele só ouvia gritos. Eles estavam gritando por uma tal de Suellen.

-Sueeeeelleeeeeeeennnnn – Berrou uma mulher.

-Sueeeeleeeeennnn? Para de palhaçada, Suellen! – Berrou outra.

Os homens estavam gritando e todo mundo começou a chamar a tal Suellen sem parar.

Alex forçou a vista para enxergar devido ao sol à pino refletir no branco da lancha.  Todos pareciam andar de um lado a outro da embarcação, olhado para a água.

Suellen tinha sumido.

Logo, todo mundo voltou para a lancha, e ficavam ali, gritando pela tal Suellen, sem sucesso.

Dois dos caras que eram os que pareciam estar menos bêbados, botaram máscaras de mergulho e pularam na água.

Alex acompanhou o drama na lancha. A cada minuto, as chances de Suellen ser encontrada com vida estavam se reduzindo. Alex imaginou que talvez Suellen tivesse mergulhado de ponta e batido a cabeça numa das pedras do fundo. Era maluquice mergulhar de cabeça na beira da ilha. Ali em alguns lugares a água podia ficar muito rasa devido aos afloramentos de rocha no fundo, que com o movimento natural das ondas, poderia iludir banhistas desavisados quanto a real profundidade. Ainda mais bêbados, como provavelmente estava Suellen.

-Puta que pariu! Cadê a Suellen?

-Cadê a Suellen?

Os caras que mergulharam voltaram a superfície fazendo sinal negativo com o dedo. Não havia sinal da Suellen.

-Sueeeeeleeeeen! Sueeeeeeleeeeeeeennnnn!

Eles seguiam gritando. A Suruba animado ao som de Mc Junior e Mc Leonardo tinha dado lugar a um drama terrível. Uma mocinha começou a chorar. Ela era acalmada por uma das outras de cabelão comprido.

-Ela vai aparecer. Clama!

O maluco tatuado então apontou na mata e disse: – Pô, aí…  Eu acho que a Suellen foi pra ilha. Foi Cagar! Suellen foi cagar!

-Foi cagar, Suellen? – Ele berrou. Começaram a buzinar a lancha.

Alex tinha certeza de que a tal Suellen não tinha subido nas pedras, pois de onde ele estava ela facilmente teria sido vista. Eles estavam se agarrando a qualquer esperança.

Vamo lá procurar ela! – Um dos caras falou.

-Não, não…  – A gente tem que ficar aqui… Ela vai aparecer. Buzina essa merda aí, ô Tucão!

A lancha buzinava sem parar.

Alex temeu que eles invadissem a ilha. Lentamente, o piloto foi dando motor e a embarcação se aproximou mais das pedras.

As moças continuavam a chamar por Suellen, sem sucesso. Já estava irritante aquilo.

Um dos caras, possivelmente o tal Tucão, pulou do barco e deu umas braçadas até as pedras. Logo, ele estava escalando as rochas para entrar na ilha.

-Cuidado com as ostras aí, ô doido!

No barco as moças começaram a se vestir. A mais jovem delas, chorava copiosamente. Talvez fosse irmã da Suellen.

Com o barco se aproximando um pouco, Alex conseguia ouvir melhor as conversas à bordo quando eles falavam mais alto.

-Ela tava com você.

-Ela pulou e aí depois ela sumiu… – Uma delas disse.

-Ela não pode ter sumido, porra. Ela pulou com a gente. – Disse a menina mais nova, aos prantos.

-Calma, Shhhhh. Calma Denise.

O tal Tucão, era um sujeito totalmente careca, muito bronzeado, de compleição atarracada, com um barrigão de cerveja e uma sunga branca. Ele havia finalmente chegado na área de mata, mas não ousou entrar. Ele fechou as mãos ao redor da boca e gritou na direção do mato: “Ô Sueeeeeelleeeeen, filha da putaaaaaaaaa! Respondeeeeeeee!”

-Porra ela falou que sabia nadar! – Berrou o cara das tatuagens na lancha.

-Ela sabia! Ela sabia! – Gritou de volta a tal Denise.

-Então cadê essa garota?

-Eu não sei, porra! Eu não sei!

Os gritos estavam ficando estridentes. O clima no barco estava ficando mais e mais hostil.

-Ó… Viper… Aqui ela não tá não, hein?! Nem tem como entrar nesse mato aí. Não tem pegada por aqui em lugar nenhum! – Berrou o tal Tucão, do alto de uma pedra redonda e marrom, exatamente como a careca dele.

O tempo estava passando e Alex estimou que já devia ser quase três horas da tarde. Ele estava com uma fome dos diabos, mas não era capaz de parar de assistir ao terrível espetáculo do desaparecimento de Suellen.

O sujeito das tatuagens apenas acenou com a mão fazendo voltas no ar. Tucão pulou na água e voltou nadando para a lancha. As moças seguiam gritando por “Sueeeeeeeeeelleeeeeeeen…”

Logo, o momento mais trágico do dia iria acontecer. O tal Viper que devia ser o dono da lancha, virou para os amigos e sentenciou:

-Vamos ter que voltar sem ela.

Nisso, começou uma puta gritaria entre as garotas da lancha. A Denise correu para cima de Viper e começou a tentar socá-lo:

-Filho da putaaaa! Nããão” Não vou deixar ela!

-Sai, vadia! – Viper tentava se desvencilhar de Denise.

E as outras seguiam berrando até ficar sem voz:

-“Sueeeeelleeeeeeen”

Viper deu um soco. Um socão só na cara da menina, que caiu no chão da lancha, saindo do ângulo de visão que ele tinha.

As outras se espantaram com a agressão. Algo havia ocorrido ali. Todo mundo correu e estavam olhando agora para o assoalho da lancha. Agora era algo estranho. Ninguém falava. Todos ali estavam cercando a tal Denise que pareceu a Alex, estar desacordada.

-Ela morreu! Ela morreu. – A garotas negra começou a gritar.

-Caralho Viper! Caralho, mano! – O tal Tucão levou as mãos na careca.

O outro cara chegou e disse:

– Quebrou o pescoço da Denise!

-Puta que pariu. Ave Maria!- Tucão começou a rezar.

As meninas estavam abaixadas e Alex não conseguia ver nada na lancha.  Agora em vez de gritar por Suellen todo mundo parecia estar chamado a tal Denise.

-Denise! Denise. Tá me ouvindo, Denise???

-Assassinooooo! Assassinooooooo! – A moça negra estava fora de si. Ela subiu na proa da lancha e apontava o dedo na cara do tal “Viper”.

O Viper não respondia.

-Calma, calma… Calma meninas! Calma, Bia!  – Um dos amigos de Viper gritava, mas as moças estavam desesperadas.

Então, “Pá!” – Um tiro quase fez Alex cuspir o coração pela boca de susto. Era um tiro!

Bem no peito. A negra caiu na água. Viper apareceu com uma arma na mão e olhou lá pra baixo. A garota afundou como uma pedra.

As meninas começaram a gritar.

-Que isso Viper? Que isso Viper? – O careca berrava, chocado.

Viper apontou a arma para cada moça e as executou bem ali, na lancha. A última delas implorava pela própria vida:

-Não, não não, por favor… Eu não vou contar, eu não vou contar!

Pá! – Foi um tiro só. Na cabeça da garota.

Então se fez um silêncio sepulcral. Apenas se ouvia as pequenas ondulações batendo no costado da lancha. A embarcação, estava balançando de leve.  Nem uma ave na mata ousou cantar. Havia um tipo de vácuo que sequestrou o ambiente.

Os homens, em silêncio, pegaram os corpos e jogaram na água. Lentamente elas submergiram, tingindo a água de vermelho.

O tal Tucão se recompôs. Abriu uma cerveja long neck e entregou para Viper.

-Acabou, cara. Acabou.

Vambora. – Disse Viper.

O Funk voltou a tocar nas caixas de som da lancha, que acelerou, jogando uma grande onda contra as pedras.

Eles sumiram na distância, contornando a ilha e saindo do ângulo de visão de Alex.

Ele ficou ali, perplexo, chocado com o que tinha visto.

Os corpos das meninas ainda boiavam na enseada paradisíaca.

Alex olhou para aquela cena, se levantou e saiu. Não havia mais nada a ser feito.

Ele voltou para casa. Não havia nem clima para trabalhar e logo iria ficar escuro.  Entrou na casa, pegou uma cerveja gelada. O isopor de gelo agora era metade gelo metade água com três ou quatro latinhas boiando.

Alex abriu uma lata de salsicha e começou a comer na varanda, olhando o mar que ia perdendo aquele tom de verde azulado, dando lugar a um gradual azul marinho.

Ficou rememorando a cena que acabara de ver. Viper havia feito a “limpeza da barra”, como eles chamavam no batalhão.

Quando algo dava errado numa operação era comum que a coisa se estendesse para uma chacina. Ele mesmo já tinha visto aquilo ocorrer em seus primeiros dias de serviço. Certa vez ao invadir uma casa, um colega dele acabou matando uma criança. A cena que ele já praticamente havia esquecido, veio em sua mente num lampejo.

Alex estava no interior da casa revistando o quarto em busca de drogas quando escutou um tiro. Ao sair no quintal se deparou com a guarnição reunida. Perto da parede, um moleque de nove anos, de bermuda sem camisa e descalço, estava emborcado.

-Olha aí, caralho! Olha o moleque, porra!  – Berrou o Jonas.

Lucas Soares estava com a arma na mão, tremendo. Ele repetia sem parar. – O moleque pulou o muro. Pulou o muro… O moleque pulou o muro…

Na hora, foi Chico que deu a solução:

-Bora limpar a barra.

Jonas e Alex trouxeram os dois moleques mais a velha. A velha se desesperou quando viu o garoto no chão e começou a chorar. Mas ela ainda não fazia ideia do que iria acontecer.

-Levanta o braço. Levanta! – Disse Chico.

Os rapazes se entreolharam, sem entender.

-Levanta a porra do braço, ô filho da puta! – Gritou Jonas. – Pra cima não, ô caralho! Tu é burro! Bota a mão pra frente, ó. Deixa eu ver a palma da mão. Abre a mão! Abre a mão!

Os rapazes, dois garotos negros e magros, que deviam ter entre dezesseis e dezoito anos, estenderam as mãos com os braços esticados diante do rosto. Os olhos estavam apertados já esperando o tiro.

Chico e Jonas meteram bala nos dois. Dois furos em cada moleque.

-Meus netos! Meus netos! Filhos da puta! Filhos da puta! – A velha berrava, caída no chão.

Os soldados deram às costas para a velha, agarrada nas pernas magras de um dos meninos.

Eles saíram um a um da casa.  Só ficou Alex com a velha. Ele viu a velha caída. Ela estava sem forças sequer para ficar em pé. Alex foi até ela. Pegou a faca. A faca afiada que era dele e estendeu pra ela.

-Olha, senhora. Eu não concordo com isso, sabe? Isso não é justo. os meninos nem se defenderam… Toma. Olha aqui… Toma. A senhora tem que se vingar. Corre lá e espeta esse filho da puta! Lava a honra dos seus netos no sangue desse filho da puta sem mãe! – Disse, estendendo a faca para a velha.

A velha que era pura dor, contorceu a cara numa expressão maligna. Dava para sentir o ódio borbulhando dentro dela. Ela agarrou a faca, balbuciou um agradecimento incompreensível com a boca sem dentes e saiu correndo com a faca na mão atrás dos policiais.

Assim que ela chegou na sala…

“Pá!”

Alex escutou o corpo da velha caindo no chão.  Logo, Jonas estava carregando as armas com uma luva. Eles voltaram com as armas que pegaram na viatura.  Colocaram as armas nas mãos dos moleques mortos e deram dois tiros com cada arma.

Largaram as armas ali, depois, voltaram ao rádio da viatura e confirmaram o confronto na boca de fumo.

Algum tempo depois, Jonas parabenizava Alex pela brilhante ideia da faca:

-Quando a perícia ver a velha com a faca, a parada vai ficar bem realista.

-Foi uma ideia de gênio, porque quem iria engolir uma velha dessa com uma .357 na mão? -Riu Jonas

-É… Mas por causa desse realismo aí, quase que a puta da velha me corta no pescoço! – Lucas Soares mostrou a marca no pescoço.

-Bem feito, otário. Não mandei você ser um merda e acertar o moleque! – Chico apontou o dedo na cara dele. – Já sabe, né? Vai pagar cerveja pra todo mundo. E outra, tu sabe a regra. Perdeu um terço do soldo pra guarnição!

-Merda… – Gemeu o PM, dirigindo a viatura.

Alex ficou ali, lembrando desses momentos de sua vida no batalhão. Ele sabia que cedo ou tarde, a falta daquelas garotas de programa ia dar merda. A pior coisa que poderia acontecer,  justamente seria a polícia aparecer por lá pela ilha investigando.

Ele comeu mais uma salsicha da lata e olhou o mar refletindo sobre o problema.

“Besteira” – Pensou. Não tinha como ninguém achar. Aquela área tinha mais de 300 ilhas, a Ganchada era a amais externa de todas… Os caras poderiam ter ido para qualquer lugar com aquelas putas… E eles não pareciam ser caras do tipo “cidadão de bem”.  Em tudo, mais que as execuções à queima-roupa, o que intrigou mesmo Alex foi o desaparecimento da tal Suellen.

Ele havia visto a moça pular na água. Ela não tinha para onde ir naquele lugar. E os homens haviam descido para o fundo com máscaras. Suellen não parecia ter se afogado pois com a água parada da enseada não deveria ter correnteza, e a transparência estava perfeita, havia muita luz… Suellen não podia ter simplesmente sumido.

O provável é que ela tivesse ficado agarrada nas pedras, talvez oculta pelas algas, ou sob algum tipo de caverna de pedras e não foi vista.

Alex se levantou da banqueta e voltou até o isopor para pegar mais uma latinha.  Retornou para a varanda e contemplou o mar.

“Ela não devia estar pura” – Pensou. Certamente, aquela galera estava turbinada na farinha. Com bebida, a moça pode não ter segurado e pode ter tido uma overdose debaixo d’água.

Mas e o corpo? – Sua falta de sossego investigativa estava ligada.
Alex tomou um gole de cerveja e então um pensamento nada feliz lhe ocorreu:

“-Se neguinho pegar no GPS a coordenada ou de alguma forma alguém soube que eles vinham pra cá… Se por algum motivo, alguém vier e der de cara com aquelas defuntas boiando na beira da ilha e eu, um cara armado, sozinho, e ex-PM nessa ilha, sou imediatamente o principal suspeito. Como vou explicar que berimbau não é gaita? ”

CONTINUA

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.
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