Gringa – Parte 10

Alex desceu correndo pela trilha de acesso ao píer. Conforme descia se perguntava por que a gringa maluca tinha resolvido nadar tão cedo na água fria.

Ele chegou na pedra e correu sobre o Píer. Não havia o menor sinal da mulher.  Alex olhou para um lado, para outro e não via nada. As ondas estavam pequenas e o mar bem calmo. A brisa soprava de leste, prenunciando tempo bom.

Sua atenção foi atraída por um barulho na água que veio do lado oposto ao que ele olhava.  Quando Alex se virou viu uma movimentação intensa na superfície. Havia espuma mas não tinha sinal de ninguém.

Então, logo mais à frente uns dois metros, um enorme peixe pulou. E depois outro. Haviam pelo menos uns cinco peixes pulando como loucos. Eram peixes grandes. A julgar pelo brilho sob o sol pareciam anchovas.
Alex ficou ali observando. Pensou que se o cardume de anchovas estivesse circulando a ilha, talvez conseguisse pescar uma delas para o jantar. Mas logo em seguida, ele se lembrou que não ia comer peixe tão cedo. Manel havia trazido as carnes para o churrasco, e mesmo na caixa de isopor com o gelo, essa carne não ia durar muito. Era preciso comer logo antes que estragasse. Sendo ele o morador solitário da ilha Atlas, esse churrasco teria mais carne do que ele inicialmente tinha planejado.
Os peixes seguiram pulando, mas da Gringa maluca não se via qualquer sinal. Alex deu de ombros.

“Foda-se.” – Pensou enquanto voltava na direção da casa.  Conforme subia pela pedra viu marcas de pegadas dela. Os pequenos pés eram bem característicos. Uma sequência das pegadas saía das pedras molhadas e subia pelo mato, perdendo-se sob a vegetação. Curiosamente, ela não tinha subido pela trilha o que seria o mais lógico.

-Ela é realmente doida da cabeça. – Ele murmurou sorrindo.

“Pelo menos a Gringa tá viva…”- Pensou enquanto subia a trilha de volta para casa. Mas então, um pensamento invadiu sua mente. – “Se ela subiu quando eu desci… Essa porra deve ter ido lá pra casa!”

Alex saiu correndo morro acima. Aparentemente, tudo estava em em ordem. Ao entrar na casa descobriu os pacotes revirados.  Havia uma garrafa d´água vazia caída no chão da varanda que não estava lá. Uma garrafa cheia havia sumido e o pacote de rosquinhas de coco que estava aberto na mesa havia desaparecido.

A gringa tinha entrado para roubar água.

-Que sacaninha. – Ele riu, pegando um cigarro.

Alex foi lá pra fora no quintal e gritou na direção da mata, com o cigarro entre os dedos.

-Gringaaaaa! Ô gringaaaaaaa!

Obviamente, como resposta ele só recebeu o som do vento, o barulho suave das ondas lá em baixo e dos pássaros fazendo algazarra nas árvores. O sol estava ficando quente.

-Gringaaaaaaaa…  – Ele tornou a gritar, mas ela não respondeu. Assim, Alex voltou aos seus afazeres. Voltou para a casa e começou a limpar tudo. Varreu a sala, os quartos e organizou as sacolas de compras, separando os itens mais perecíveis.  Colocou algumas bebidas no isopor das carnes para gelar para o almoço.

Depois colocou algumas garrafas de água mineral na sacola e foi lá pra fora com o facão. O plano de Alex era começar uma forte limpeza na trilha, cortando o mato mais alto e tornando o acesso mais fácil.  Porém, havia pelo menos duas arvores enormes caídas sobre a trilha, que pela espessura dos troncos apodrecidos, estavam lá desde antes da ilha ser habitada. Alex estimou que cada uma devia ter entre 110 e 90 anos.

“Essas aí só com motosserra. Vão ficar para um segundo momento.” – Pensou.
Ele se concentrou inicialmente no mato e nos arbustos. Foi limpando com vigor. O tempo passava mais depressa quando ele se concentrava numa tarefa simples.

De vez em quando, parava e tomava um pouco de água.  O calor estava subindo rápido. Alex suava em bicas.

Seguiu cortando o mato. A cada golpe de seu facão afiado, mais e mais arbustos iam tombando revelando a pavimentação de pedras.  Quando a fome começou a apertar, Alex deu uma pausa no corte das plantas, olhou a hora e era quase uma hora da tarde.  Estava morrendo de fome.

Voltou para a casa, encostou o facão na lateral da parede e foi até o bolo de toras. Pegou um monte de galhos, enfiou um bolo de papel das revistas velhas embebidas em óleo no meio dos galhos. Acendeu com o isqueiro e ficou abanando com um pedaço de lasca de madeira. Minutos depois, o fogo crepitava com potência na grelha da churrasqueira anexa ao fogão à lenha.
Alex foi até a sala, abriu a caixa de isopor e pegou a carne. Então, ele foi procurar o sal grosso e descobriu que Manel havia esquecido de comprar o sal.

-Puta que pariu! Velho burro dos diabos! – Ele berrou, socando a mesa.

O jeito ia ser fazer a carne com o sal fino mesmo. Pelo menos uma caixa de cerveja com doze latas o velho tinha comprado. Alex cortou a carne com sua própria faca, super afiada.  Separou cinco bifes grossos, passou um pouco de sal e jogou na grelha fervente. A carne bateu soltando um barulho peculiar.

TSSSSSSSS…

Logo, o cheiro da picanha subia no ar.
Alex também pegou dois pães e jogou sobre o fogo.  A cerveja estava geladinha.
Alex ficou ali, sentado no toco de madeira e comendo carne. Uma sensação maravilhosa tomou conta dele. A carne estava muito gostosa e suculenta. No pão, formavam uma combinação maravilhosa.
Enquanto mastigava a carne, ele foi até a sala, pegou o Nokia e ligou. Estava sem sinal ainda.
Alex continuou a comer, pensando em Evandro.

Como ele estaria? Teria sido entubado? – Se perguntou, entre uma lasca de picanha e um pedaço de pão.

Após se empanturrar de carne, Alex observou os pedaços que não aguentava mais queimando na grelha e pensou:

“Preciso comprar um cachorro para me ajudar aqui na ilha”.

Um cachorro sem dúvida seria uma ajuda e tanto, para fazer a segurança e eventualmente servir como uma companhia.

Após comer bastante Alex resolveu aproveitar o ventinho gostoso e dar uma cochilada. Foi até a sala, puxou o colchonete e jogou na varanda. Deitou-se ali e ficou bebericando o final de uma latinha de cerveja que já estava quente. Lá em baixo o mar azul cristalino ondulava em total paz.
Alex cochilou.

Ele finalmente acordou com o estranho som do toque do celular. Estavam ligando.

-Porra finalmente! Alô, Alô!

Do outro lado era Manel. Ele estava ligando do Hospital. Informou que Evandro estava se recuperando, fora de perigo mas que ainda permaneceria dois dias em observação e só seria liberado quando a febre passasse. Eles estavam preocupados com os machucados das pernas do jovem, que haviam infeccionado. A mordida de cobra já não era preocupante.

Alex se sentiu feliz com a notícia. Pediu para falar com Evandro, mas Manel disse que lá dentro do hospital o sinal não pegava direito.

-Mas pode ficar tranquilo, seu Alex. O Seu Evandro tá aqui com a gente, e eu e minha senhora visitamos ele todo dia. Ele mandou um abraço e disse que estava sentindo falta do violão.

-Diga para ele não se preocupar. Eu toco tudo por aqui e tomo conta do violão dele. – Respondeu Alex.

Manel disse que iria ligar naquele mesmo horário em dois dias, para confirmar a alta de Evandro. Alex agradeceu a Manel e reclamou da falta do sal grosso, antes de finalmente desligar.

Estava mais feliz. Levantou-se ainda um pouco tonto pelas cervejas.  Jogou o colchonete sobre o sofá na sala e foi até a lateral da casa. Chegando lá, ele não encontrou o facão.

-Ué… Eu deixei essa merda aqui…- Disse, coçando a cabeça.
Alex rodou de um lado para outro procurando o facão pela casa, mas não encontrou em lugar nenhum.

-Ah, merda. A maluca roubou. Só pode ser.

Alex andou de um lado para outro preocupado. Agora ela estava armada. Isso não era nada bom.
“Talvez ela esteja usando para construir um abrigo bem longe da casa. Deve estar com medo.” – Ele refletiu sobre a situação.  – “O que será que o Evandro fez que essa mulher ficou com tanto medo?”

Alex entrou e pegou o segundo facão, que era de Evandro. Pegou a lanterna, colocou na cintura e por uma questão de segurança, pegou no fundo da mochila o revólver. Verificou se estava municiado, travou a arma e colocou no bolso da bermuda.

Caminhou pela trilha até o ponto onde tinha encerrado o trabalho e retomou o serviço.

Alex trabalhou duro cortando mato e juntando galhos em bolinhos nos cantos do caminho de pedras. Já havia limpado cerca de dez metros quando parou para descansar e pegar um ar. Ele saiu da trilha e andou pelas arvores até uma encosta rochosa, de onde se via o mar. Então ele viu a gringa novamente. Ela estava a uns 50 metros, numa parte da rocha que formava um recanto de pedras banhado pela água azul. Estava de pé na beira da água. Parecia congelada, olhando fixamente para o mar, como uma estátua de cera.  Alex apenas ficou ali, atrás da árvore, oculto pela vegetação, contemplando a bela mulher que tinha os olhos fixos na água.

“Como ela é linda!” – Pensou.

A Gringa parecia outra pessoa. Não era mais o corpo sem vida e pálido que estava às portas da morte quando eles a salvaram do açoite do mar. Seu cabelo leve e escuro voava ao sabor do vento. Ela estava completamente nua, com o olhar perdido no vazio.

Alex teve vontade de correr até lá e falar com a moça, mas a julgar pelo fato de que ela parecia não bater bem da cachola, talvez o melhor fosse mesmo deixar a mulher em paz.
Ele ficou olhando para gringa. Ela não se movia. Estava parada lá.

-O que será que ela está fazendo ali? – Alex se perguntou.

Ela continuou lá, olhando fixamente a água como se estivesse hipnotizada. Uma abelha mamangava passou zunindo perto de sua orelha e Alex levou um susto. Era melhor sair dali antes que levasse uma dolorida ferroada. Alex cansou de esperar que algo acontecesse e desistiu da bisbilhotar a gringa. Voltou pelo mato até a trilha e continuou a juntar os galhos em montinhos.

“Evandro vai ficar bolado quando souber que a maluca fica ali parada assim.”

A tarde já se encaminhava para o horário do por-do-sol quando Alex decidiu que estava muito quente e talvez um mergulho fosse uma boa ideia.

Ele guardou a arma no lugar e escondeu o facão. Fechou a porta com cuidado e as janelas para a Gringa não roubar mais nada e desceu pela trilha do Píer.
Alex foi até a beira do Píer e olhou dali de cima. Parecia ter  pelo menos uns dois metros de profundidade. Ele tirou a roupa, ficou pelado e  pulou na água com cuidado.
A água estava gelada, mas ainda assim agradável. Alex deu algumas braçadas. E mergulhou. Fazia um tempo que ele não sentia o prazer de nadar nu. Se sentiu totalmente integrado à ilha.

O fundo era repleto de pedras e milhares de pequenos peixes sargento  listrados passavam para todo lado.
Após nadar um pouco, Alex voltou até o píer.  O sol começava seu lento mergulho ao longe, tingindo o céu de laranja. Alex Agarrou no vergalhão enferrujado e começou a subir.

Ele estava saindo da água quando deu de cara com  a gringa, parada no alto da pedra olhando para ele. Alex tomou um susto. Se arrepiou com a inesperada visão da mulher ali.

Ela estava vestida na camisa do Guns N´Roses de Evandro. A gringa não dizia nada, apenas olhava para ele.

Alex voltou para a água.

-Oi. Tudo bem? – Ele gritou da água.

Ela parecia curiosa. Estava olhando pra ele fixamente. Não disse nada. Ela apenas andou de costas, sem tirar os olhos dele, e foi andando assim pela pedra, até chegar perto do mato e subiu correndo pela trilha.

Alex então se agarrou no vergalhão podre do Píer e escalou as madeiras carcomidas pela ação do tempo.

Vestiu sua roupa e subiu pela trilha na direção da casa.

A casa estava fechada. A gringa não estava lá em lugar nenhum.

Alex foi lá atrás da casa. Na churrasqueira, os pedaços de carne haviam ressecado na grelha estavam como ele deixou. Ela não tocou em nada.
Alex foi até o interior da casa, pegou um dos galões de água. Pegou o shampoo, o sabonete e tomou banho na varanda, tentando usar a menor quantidade de água possível. A água precisava durar até a próxima viagem do barco.
Lavou a cabeça e sentiu-se bem refrescado após o banho. Pendurou a toalha na varanda e vestiu a roupa. Ele então foi na sala, pegou o lampião de gás e acendeu na varanda. Sentou-se ali na banqueta e começou a folhear uma das revistas antigas da pilha de velharias do ano de 1988.

A noite chegou rápido. Alex havia  comido tanto no churrasco que não podia nem pensar em comer. Ficou ali desfrutando do vento frio da noite.

Uma súbita vontade de tom ar uma cervejinha fez com que ele entrasse e fosse até a caixa de isopor, onde estavam guardadas as carnes e as cervejas. Aoa brir a caixa, Alex se espantou: A carne tinha sumido! Um pedaço enorme de picanha havia desaparecido.

-Ah, não… Essa ladra me paga!

Alex saiu para o terreiro encheu o peito e gritou o mais alto que conseguia:

-Gringa feladapuuuuuuuutaaaaaaa!

 

Mais calmo, ele voltou para a varanda. Ela tinha acabado com o próximo churrasco.

Estranhamente, naquela noite os pernilongos não estavam enchendo o saco como de costume. Talvez fosse o vento leste.  Pesou se valeria à pena gastar energia fazendo uma fogueira se ele tinha um lampião de gás e decidiu não fazer a tradicional fogueira no terreiro.

Alex ficou ali, recebendo o ventinho fresco da noite e olhando as estrelas que se espalhavam no céu, quando uma forte luz verde cruzou o firmamento diante dele.

CONTINUA 

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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Comentários

  1. Aliens? Seres extra-dimensionais? Intra-terrenos? Seres do plano espiritual? Aguardemos. Tenho a impressão de que não foi a Gringa que roubou o facão e a picanha.

  2. Sumiram misteriosamente várias coisas… e se aparecessem algumas do mesmo modo?

    ( ô ô) (õ õ )

    A história está muito boa, Philipe

    até a parte 11 /

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