Folguedos e decepções

Eu estava vendo televisão. Estava quase acabando o Cassino do Chacrinha quando o Murilo parou na minha frente, perguntando se ele estava bonito.

Eu estava vendo televisão. Estava quase acabando o Cassino do Chacrinha quando o Murilo parou na minha frente, perguntando se ele estava bonito.

Olhei para meu irmão e o vi vestindo suas roupas de sair. Por um ingrato minuto eu perdi a atenção do rebolado da Gretchen para olhar pro Murilo.

— Ou, tu não vai tomar banho não? – Ele me perguntou, ficando bem na frente da tela, com certeza, de propósito.

Eu tentei desviar para ver a cantora rebolativa, e gemi um “já vou” apressado.
Murilo estava animado. Era sempre assim, uma animação, uma grande expectativa, quase obsessiva, antes dos grandes eventos que marcavam nosso círculo social.

Quando finalmente perdi o interesse na Tv, me levantei e fui tomar banho.
Murilo ficou lá, vendo o Chacrinha jogar um bacalhau no meio do auditório, que se estapeava para tentar agarrar o peixe no ar.

Enquanto eu tomava banho, as imagens da Gretchen rebolando ocupavam uma vasta região dos meus pensamentos, mas então, um novo pensamento invadiu minha mente:

“No último aniversário do Elvis, o Miro estava lá com a gente.”

Saí do banho com aquele gosto ruim na boca. Me arrumei, botei a roupa de sair. Lá em baixo, Murilo estava nervoso segurando o presente no sofá.

–Demorou hein?

Nossa mãe deu os avisos e recomendações de sempre, de ser educado, e lembrar de trazer um pedaço do bolo pra ela, essas coisas. Ouvi o sermão que eu já até tinha decorado sobre nunca mais passar vergonha com o cachorro-quente.
Saímos andando apressados, quase correndo, para falar a verdade. O aniversário com certeza já havia começado.

Elvis era, depois do Marcelo Gordo, o mais rico da nossa turma. O pai dele era dono da firma de concreto da cidade e as festas dele eram sempre as melhores, com mais doces e quitutes. Sempre cheia de gente que nós nem sabíamos quem era. Elvis também era o segundo mais velho, e ele estava completando dezessete anos. Na nossa hierarquia isso o colocava no segundo posto, abaixo do Girlênio, que era o mais velho de nós, sendo apenas dois meses mais velho que o Elvis.

Chegamos em frente a casa dele, que ficava no fim da rua dez.  Essa era uma rua sem saída que dava para a casa, uma mansão que era, com certeza, tão grande que daria umas quatro da nossa.

A mansão do Elvis tinha uma fachada muito bonita que se erguia atrás de um belo jardim.

Apesar de ser rico, Elvis não se distinguia de nós e se integrava perfeitamente com nosso estilo de vida de crianças suadas, esmolambentas, de roupas rasgadas e sujas, jogando bola na rua e no terreno da oficina. Estávamos eventualmente nos ralando em tombos de bicicleta ou nas animadas brincadeiras de pique e corridas.

A Mãe do Elvis nos recebeu com o carinho e atenção de sempre. Já o pai dele, sempre sisudo, mal nos olhou. Talvez porque ainda se lembrava da minha vergonha do cachorro-quente. Ficou lá na varanda, conversando com mais dois outros velhos que fumavam cigarros.

Encontramos toda nossa gangue lá dentro, todo mundo sentadinho no belo e caro sofá de couro, olhando com atenção a enorme televisão colorida que eles tinham. Uma musica tocava alto na vitrola e por isso, era impossível ouvir a televisão. O Girlênio estava contando piadas sujas do Ary Toledo para o Juninho.

O Marcelo Gordo chegou da cozinha, mastigando alguma coisa. Trazia numa bandeja uns sanduichinhos de patê que a mãe do Elvis tinha feito. Marcelo Gordo sempre prestativo, estava ajudando a servir os convidados.  Depois, veio uma das empregadas com os copinhos de refrigerante.

As festas eram assim, custavam um pouco para esquentar, não sei bem o motivo… Talvez porque todo mundo viesse de “língua passada”, e ainda residisse na memória as recomendações de agir com um mínimo de civilidade, urbanismo e educação para não envergonhar a família…

Assim que esses comandos eram esquecidos, algo que se dava pelos quinze minutos regulamentares, a festa realmente começava a ficar mais divertida.

Elvis apareceu para receber os presentes. Entregamos a camisa que a mãe comprou e ele agradeceu com nosso aperto de mão secreto.
Tinha também umas pessoas novas que a gente não conhecia, que eram os amigos do Elvis da escola. Alguns eram bem mais velhos até que ele. Tinha um que para nosso espanto e suspiro de umas três meninas que estavam lá no jardim, chegou num carro.

Num carro, mané! E num Passat preto tinindo de novo, bonitão!

Elvis nos disse que no ano seguinte quando fizesse os dezoito, ele também ia ganhar um carro do pai.

Ficamos animados com a novidade, já que isso nos levaria a um outro nível de diversão, podendo assim frequentar as festas do clube na cidade vizinha, onde se dizia que moravam as meninas mais bonitas.
Tudo bem que as meninas bonitas da cidade ao lado não me inspiravam grande interesse, na medida em que eu só podia pensar nos lábios macios e no perfume de Suzana, que me enlouquecia.

O carinha do carro desceu vestindo uma impressionante jaqueta de couro, e entrou pelo jardim carregando uma grande caixa nas mãos. Ele passou e foi acompanhado por olhares indiscretos das meninas da sala do Elvis. Quem parece que não gostou muito, foi o pai do Elvis, que ficou olhando para aquele garoto meio de cara feia. Talvez pelo carro dele bem na entrada da garagem, não sei.

O convidado, que era alto e bonito entregou ao Elvis uma caixa grande. Diferente do nosso presente, esse, o Elvis abriu bem ali na sala.

Era um par de tênis Montreal.
Elvis agradeceu e até abraçou o cara. Tudo bem, os ricos se entendem na linguagem deles.
Depois ele nos apresentou aquele amigo distinto. O nome do cara era Guilherme.

— Pode me chamar de “Guico”… – Ele disse, com um sorriso perfeito de galã de Hollywood. Conforme esmagou meus dedos, senti seu aperto de mão firme.

Sabe quando o santo não bate? Não bateu.

Pode dizer que foi inveja do carro, inveja da altura dele, inveja daquela jaqueta preta maneiríssima, do cabelo dele com aquele topete na cor certa, da postura, do tênis que ele deu ao Elvis ou o aperto de mão que revelava seu caráter. Pode falar que eram os olhares de interesse das meninas mais velhas no jardim  até mesmo a atenção que o pai do Elvis dedicou ao cara. Era o conjunto da obra. Guico era o cara que eu queria ser. Aliás, ele era o cara que todos nós queríamos ser.

Eu estava realmente enciumado, e vendo até o Marcelo Gordo fazendo de tudo para agradar, trazendo sanduichinho e tentando puxar conversa sobre motores de carro, me deu vontade de socar aquele cara. Aliás, os dois.

O tal do Guico monopolizou as atenções de uma maneira impressionante. Tudo que ele falava era acompanhado de grandes suspiros, risos forçados e zero discordâncias. A opinião dele era a lei.

O único que não estava realmente interessado naquilo tudo era o Murilo, que andava de um lado para o outro mastigando. Eu segui meu irmão com o olhar e percebi que ele ia até a sala, depois voltava, ia na varanda e repetia o percurso. Então, notei que ele num rápido movimento, puxava um brigadeiro da mesa de doces e malocava no bolso. Depois, na varanda, ele comia e repetia seu ataque discreto nos docinhos.
Levantei-me do sofá e fui até a varanda. Esbarrei nele e sussurrei:

— Vai acabar com o brigadeiro, ô porra!

Meu irmão me sorriu cretinamente com os dentes repletos da massaroca marrom.
Encostei no muro da varanda e comentei:

–E esse cara aí, hein?

Eu esperava que Murilo me acompanhasse em alguma crítica ao sujeito, alguma coisa ridicularizante, tipo “Vara pau”, “Cristo redentor”… Mas Murilo limitou-se a um “queria uma jaqueta daquela!” o que não me animou muito, já que eu também queria.

Todo mundo queria.

Então, Murilo me puxou pelo braço com os olhos arregalados. E não falou nada. Apenas balançou o queixo para cima num volteio de cabeça rápido. Entendi de imediato que era para me virar discretamente.
Assim, vi Suzana, entrando com mais umas três meninas, todas em vestidos muito bonitos  pelo portão.
A musica que tocava lá dentro já estava mais animada e os adultos todos tinham ido para o pátio dos fundos, onde umas mesinhas da “diretoria” estavam montadas. Os adultos faziam isso para deixar os “jovens” mais à vontade.
Pensando bem, a festa realmente se animava quando eles tiravam seu time de campo e o ambiente festivo estava totalmente entregue a nós.

As amigas da Suzana vieram, subindo as escadas da varanda e passaram por nós dois. Suzana me olhou por um segundo e sorriu sem graça, sendo puxada pelas amigas. Eu tentei falar um “oi” mas saiu um “oi” meio torto, meio estranho, quase um sussurro patético que mais pareceu uma tosse.

Felizmente, ela nem sequer ouviu, e as amigas foram abraçar o Elvis.

Voltei lá pra dentro, e notei que os grupinhos estavam espalhados pela sala em papos animados. Girlênio continuava sua interminável sessão de piadocas com o Juninho, que se escangalhava de rir. VI quando Elvis apresentou a Suzana para o Guico e os olhares. Os olhares que eles trocaram me esfaquearam o coração, mas busquei conforto em minhas próprias ilusões de que todos aqueles palermas estavam babando pelo Guico do carrão preto. Suzana não seria diferente. Mas ela estava comprometida comigo…

Marcelo Gordo ainda ia e voltava da cozinha trazendo batatinhas fritas, pipocas e salgadinhos para servir o Guico, que sentado na poltrona do pai do Elvis, mais parecia um rei em seu trono, rodeado de meninas e garotos, que agora ele encantava com uma história sobre quando o carro dele perdeu o freio na descida de uma serra. Certamente, algum amontoado de mentiras que destacavam seu sangue frio e sua coragem inabalável no controle do bólido.

Eu me percebi absolutamente avulso naquela festa.  Ao meu lado, Murilo estava dedicado a equacionar o desfalque dos brigadeiros, agora dando fim aos cajuzinhos.

Comecei a procurar Suzana. Ela não estava mais na sala. As amigas haviam arrastado ela lá pra dentro. Andei pela ampla mansão em busca dela. A encontrei na sala de música, com as outras meninas. As três amigas mais Suzana, já estavam familiarizadas com as outras garotas da turma do Elvis, formando assim um bando de meninas que riam alto e sussurravam coisas entre si.

Fui até a cozinha e ali estava uma das empregadas. Me ofereci para ajudar, e ela me deu uma bandeja cheia bolinhas de queijo. Eu imediatamente me dirigi para a sala de música e adentrei o ambiente. Imediatamente, todas pararam de falar, e deu um estranho silêncio  que me dizia claramente que eu não era bem vindo. Elas se entreolhavam sérias.

–Olha aí o clube da Luluzinha! — Eu disse, tentando não parecer muito bobo.

Estendi a bandeja diante delas, totalmente subserviente, mas aí sim me senti invisível.

Nenhuma delas pareceu se interessar pelas bolinhas de queijo, mas Suzana pelo menos, pegou uma. Talvez movida por pena…

Nossos olhos se encontraram numa faiscante sensação de paixão que durou menos de dois segundos mas pra mim foi uma eternidade. Eu mal pude conter meu ímpeto de olhar para aquela boca, que eu tanto desejava.
Voltei para a sala e elas retornaram aos cochichos e risos histéricos que me intrigavam. Estariam rindo de mim?

Na sala, diferentemente do “clube da Luluzinha”, o povo voou pra cima das bolinhas de queijo como se tivessem passando fome. Houve uma devastação naquele salgadinho.

Só Marcelo gordo pegou umas cinco. Claro que era pra dividir com Guico. Puxa-saco de uma figa!
Sem bolinhas que justificassem eu gastar calorias para andar até a varanda, coloquei a bandeja na mesa da cozinha e voltei para tentar um lugar no sofá da sala.
Quando me sentei, percebi que Marcelo Gordo e Girlênio estavam marcando um passeio de carro com o tal do Guico pra um piquenique na ilha do rio.

Notei uma movimentação na festa quando uma musica alta começou a tocar. Ali na varanda, na lateral da sala, tinha umas caixas de som grandes do pai do Elvis. Estava tocando um rock, e algumas meninas foram lá dançar. Eu fiquei meio com vergonha e me mantive por ali, só olhando. Me escondi atrás de um copo de guaraná. O Juninho, aquele pé-de-valsa duma figa imediatamente saltou e foi lá pro meio do pessoal e começou a dar espetáculo.
As meninas do clube da Luluzinha estavam dançando animadas. Girlênio e o tal do Guico apareceram no meio da galera e aí sim todo mundo caiu na dança. Parecia que se o Guico estava, era obrigação do povo se divertir.
O maldito dançava bem.

Isso me deixou mais chateado ainda. Eu estava me sentindo um verdadeiro zero à esquerda naquela festa. Fiquei lembrando do último aniversário do Elvis, quando todo mundo estava lá naquela brincadeira toda e eu fiquei disputando com o Miro quem comia mais cachorro quente.

O Argemiro ganhou. Mas depois, a gente vomitou na piscina.

O pessoal dançava animadamente e então algum desgraçado maldito botou a musica lenta. Imediatamente umas meninas pararam se se requebrar e saíram à francesa. Essa era minha chance. Entrei na boleira de gente decidido a dançar com Suzana, mas o Juninho parou bem na minha frente pra perguntar se eu tinha visto uma garota de vestido azul, que ele estava afim.

Eu não vi, afinal, só tinha olhos para Suzana, e quando finalmente olhei, ela já estava dançando abraçada com aquele galalau gigante!

Nunca odiei tanto meu amigo Juninho.
Fiquei ali de fora, vendo eles dançarem abraçados.
Dois casais de garotos mais velhos da escola do Elvis já estavam se beijando perto da caixa de som, e de alguma forma, aquilo me fez antever o pior.

Lá pelas tantas, a mãe do Elvis chegou na sala convocando todo mundo para cantar o parabéns. Foi um alívio, porque isso cortou o barato romântico.

Lentamente, os grupinhos foram se organizando perto da mesa do bolo, onde mais e mais bandejas de docinhos vieram da cozinha. Observei atentamente quando Suzana veio lá de dentro com as meninas. Eu tentei me aproximar dela, mas estava tão lotado que não consegui.
As pessoas apagaram as luzes e a cantoria começou. Elvis estava feliz entre seus pais. O pai dele que até então parecia meio de saco cheio, ficou limpando o suor da careca com um guardanapo, mas a mãe do Elvis estava ligada no 220!

Aplaudia, cantava, fazia uma grande festa. A tia era sempre muito animada, talvez para compensar a roda presa que era o pai dele.
Quando o parabéns acabou, o povo começou a gritar que era para o Elvis fazer um discurso, e ele estava tão envergonhado que se tivesse um buraco ali, ele entrava. Isso sempre acontecia e ele passava essa vergonha, mas nos dezessete anos do Elvis, foi diferente.

Quando, todos fizeram silêncio e ele finalmente respirou fundo e tirando uma coragem não se sabe de onde, começou a falar. Disse que agradecia a presença dos amigos e fez um especial agradecimento aos pais pela própria vida e por todo o apoio e amor que dedicaram a ele até ali, e nessa hora, eu vi que até o pai dele começou a ameaçar a chorar.

O moleque era foda no gogó, apesar da vergonha. Me virei para falar isso com o Murilo, mas ele já tinha sumido.

Olhei pelo meio da galera onde estaria meu irmão, certamente fazendo alguma vergonha para desonra de nossa família, mas não o vi. Nem ele e nem o tal do Guico… Imediatamente um calafrio me percorreu a alma quando também não vi Suzana. Estavam ali todas as meninas, mas ela não estava.

Os pais começaram a cortar o bolo e cantar aquele negócio de primeiro pedaço, e eu saí de fininho e vi a porta do lavabo se abrir e de lá, saiu Suzana limpando a boca com as costas do braço. Na sequência, saiu o Guico.

Meu mundo caiu.

Eu entendi tudo. Bom dia, tristeza.
Quando a luz apagou ele arrastou a Suzana para dentro do lavabo. E ela foi.
Disfarcei e fui pra varanda chorar. Eu já não ia com a cara do sujeito, mas agora, meu ódio estava atingindo um nível sobrenatural.
Certamente eles tinham se beijado bem ali, debaixo do meu nariz. Fui traído. Maldita. Puta. Piranha. Piranha. Mil vezes piranha!

A música tinha voltado lá dentro e eles estavam todos comendo bolo e rindo na sala. Eu vivia o prior pesadelo da minha vida. Minha alma gelada parecia que ia sair do meu corpo. Eu estava oco. Estava morto por dentro.

Olhei pela varanda e vi um prego enferrujado enfiado num vaso de planta. Peguei o prego, fui lá na rua e sem poder conter meu ódio, peguei o prego e com ele fui riscando na porta do carro dele. Escrevi:

“GUICO FILHO DA PUTA” .

Depois, voltei para festa. Joguei o prego no jardim e corri pela lateral para os fundos da casa, onde me sentei perto dos adultos que tocavam violão.
Ali, não consegui conter minhas lágrimas quando o homem do violão cantou uma música de um tal de “Lupcínio”, do qual eu nunca tinha ouvido falar, mas a música bateu naquele farrapo da minha alma e me levou com ela ao inferno à procura de luz.

Um sopro de felicidade me atingiu quando ouvi a gritaria. As pessoas já estavam indo embora. No portão, o tal do Guico estava fazendo um escândalo vendo meu “presente” na porta do carro dele. Ele gritava de ódio.

Eu limpei as lágrimas e tentei até sorrir.

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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