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Regina chegou do trabalho cansada. Aquele não tinha sido um dia fácil, que começou pior ainda, com todo o setor de cobrança levando uma senhora esculhambação do supervisor, por conta da baixa produtividade.

Havia meses que o fantasma da demissão pairava sobre aquele setor, e o stress do trabalho de cobrança não combinava com sua condição de oito meses de gravidez. As pessoas eram ríspidas com ela, gritavam, xingavam. Certa vez até juraram de morte o Carlão, que trabalhava duas baias depois da dela.

Naquele dia, Regina havia novamente falado com “a velha”.

A relação com “a velha” já tinha uns dias. Começou quando Regina havia pego a conta de uma senhora de nome estranho para cobrar. A primeira ligação foi o de praxe. A velha pediu desculpas, disse que havia se atrapalhado com as contas, que ia pagar. No dia seguinte, nova ligação, ela deu outra série de desculpas, jurou que iria pagar a dívida, mas que estava com problemas no banco. Regina explicou educadamente que ela somente trabalhava no departamento de cobrança de uma corretora que havia comprado aquela dívida, e que os problemas do banco, ela não poderia resolver. A velha se estressou bastante e começou daí uma relação tensa que se arrastou por semanas. Regina ligava, a velha fingia vozes, inventava que havia morrido que quem falava era uma prima dela… A ligação daquele dia foi a última exigida pelo sistema. A velha atendeu e gritou palavrões e coisas desconexas. Parecia louca. Talvez estivesse fingindo. começou a gritar em alguma língua desconhecida, que Regina pensou ser algo como iídiche. Então bateu o telefone na cara dela.

Vendo que era um caso sem solução aparente, um típico caso de “caloteiro caroço” como eles chamavam no setor, Regina preencheu a ficha indicando o caso daquela senhora para o departamento de recuperação judicial.

Tudo era como deveria ser, com a diferença de que uma coisa havia acontecido de estranho naquele dia. O expediente se aproximava do fim quando o telefone de Regina tocou. Era a telefonista, perguntando se aquele era o ramal dela, pois havia uma ligação. Regina concordou e assim que falou “alô”, só escutou uma pesada e compassada respiração no outro lado da linha.

-Alô? Alô? – Ela perguntava, assustada. Mas ninguém disse nada. – Quem tá falando? Eu vou desligar!

Então a respiração parou e por uns pequenos instantes não houve nenhum ruído. Foi quando uma sinistra gargalhada se fez ouvir do outro lado. E o telefone desligou.

Regina se assustou. O bebê mexeu. Era uma risada horrível, diabólica. A voz era arrastada e Regina imaginou se tratar da voz daquela velha. Mas ela não tinha certeza.

Trêmula, Regina ligou para a telefonista da empresa afim de saber quem ligava.

-Era uma voz de homem. – Disse ela.

Foi preciso que sua amiga Paula lhe buscasse um copo de água, tal o nervoso de Regina.

Mas aquilo era passado que ela lutava para esquecer. Agora em casa, Regina preparava um banho quente. Precisava relaxar para dormir bem. O dia do nascimento da pequena Luma estava se aproximando, e com o Rogério, o marido dela viajando para Seul à trabalho, ela precisava se manter calma a todo custo. Voltou até o quarto para pegar uma toalha limpa e aproveitou para ligar a Tv.

Ela não via novela, mas o som das pessoas da novela falando, as propagandas, o telejornal, atenuavam a sensação de solidão.

Regina tomou um banho quente, vestiu sua camisola e foi até a cozinha preparar algo para comer. A barriga pesava. Andar era difícil e ela sentia uma permanente dor nas costas.

Regina estava na cozinha, mexendo na geladeira, pegando um pedaço de filé no potinho quando a campainha tocou.

-Ué. Que isso?  – Ela pensou. Sabia que não esperava ninguém. Quem poderia ser?

Ela foi até a porta e perguntou:

-Quem é?

-Eu. – Respondeu uma voz. Era uma voz de criança. Uma voz estranha.

Regina hesitou. E se fosse um golpe?

-Eu quem?

-Eu, ué! – Disse a voz. Era de criança, sem dúvida.

Contrariando seus instintos, Regina abriu uma greta da porta. Já era tarde, passava das onze da noite quando ela viu, ali na sua frente, vestida com roupas sujas, até antiquadas, uma menina de uns sete, oito anos. Os cabelos eram desgrenhados. A menina tinha uma pele muito clara e profundas olheiras.

-Quem é você?

-Posso entrar, tia? – Ela perguntou, olhando para dentro da casa.

A menina parecia não estar dando muita atenção para Regina. Ao contrário, olhava insistentemente para o interior da casa, como se procurasse algo ali.

-Entrar? Mas eu nem te conheço, querida. – Ela disse.

Regina sentiu uma coisa ruim assim que bateu os olhos na menina. Ela estava meio suja de lama ou fuligem. Na escuridão não dava para saber direito. A menina evitava olhar nos olhos de Regina e tambem não havia pisado no tapete de entrada. Ela estava cerca de um metro atrás da porta, numa distância incomum para os que almejam entrar.

-Eu queria… Entrar, tia. Posso?  – Disse a menina. Ela parecia bem confiante, apesar de seus gestos levemente mecânicos, e duros. Estava fixa, parada como se fosse uma boneca. Somente inclinava um pouco o corpo para frente, mas as pernas e braços esticados e rígidos, como um manequim.

-Quem… Te mandou aqui? Qual o seu nome.

-Tia… Eu quero entrar. Posso ou não posso? – A menina pareceu irritar-se com as perguntas. Lá fora ventava e fazia frio.

Vários arrepios percorreram as costas de Regina. De onde havia saído aquela criança? Porque estava suja? Porque não olhava pra ela? Regina agarrava-se à porta e já não sabia se estava tremendo de frio ou de medo. Tentou ganhar tempo. Seu ímpeto era bater aquela porta e correr, se trancar no banheiro com uma faca.

-Você quer entrar na minha casa… Mas pra que?

-Pra ver o quarto, tia. Quero ver o… quarto. Disse a menina com um fraco sorriso no canto dos lábios.

Aquilo a assustou mais ainda.

Parecia absurdo. Parecia um pesadelo. Não fazia sentido uma criança com aquela aparência ali, naquela hora, quase meia noite. Sozinha, na escuridão… A menina tornou a insistir, mas sem se mover.

Regina sentiu o mau hálito da menina. Era horrível.  Ela se vestia com roupas muito estranhas, um aventalzinho cheio de babados com um laçarote atrás. Era uma figura assustadora.

-Olha, menina. Eu nem sei o seu nome. Não vou poder deixar você entrar.  Sinto muito. – Ela disse, tremendo feito uma vara verde. Cuidou para não gaguejar e não transparecer o medo. Regina fez menção de bater a porta, e enfim a menina levantou a cabeça, como que implorando para entrar na casa.

-Mas tia, eu estou com fome… – Disse a menina.

Só então Regina conseguiu olhar pra ela nos olhos.  O terror invadiu sua alma e seu sangue congelou nas veias. Ali, diante dela estava uma menina com os olhos pretos. Completamente pretos. Não havia sinal de íris ou pupila. Os olhos eram como bolas de vidro preto.

 

freakr

O medo explodiu no coração de Regina. O coração parecia que ia sair de sua boca a qualquer momento.  Ela só conseguiu articular uma palavra.

-Desculpe! – Disse e bateu a porta na cara daquela “coisa”.

Regina trancou a porta. Andou para trás assustada. O medo lhe percorria a coluna, arrepiando seus cabelos.

-Meu Deus! Meu Deus! O que é isso? O que é isso? – Ela se perguntava baixinho.

Então Regina ficou ali, parada perto da lareira apagada. Olhava a porta trancada. Um incômodo silêncio invadiu a casa. A Tv que estava ligada não parecia emitir nenhum ruido.

Então uma batida altíssima atingiu a porta. Uma pancada seca, como o impacto de alguém se jogando contra a porta. Regina não conteve o grito. E então voltou a reinar o silêncio.

-Quem – quem está aí? Que merda é essa, porra? – Regina gritou a plenos pulmões. O medo estava quase consumindo sua alma.

-Tia, me deixa entrar! Eu quero ver o quarto. – A voz soou do outro lado.

Era ela. Não havia ido embora.

-AimeuDeus! -Gemeu Regina.

Ela correu para a cozinha. Só pensava na porta dos fundos. E se aquela “coisa” entrasse por ali?

Regina entrou na cozinha afobada. Meteu a mão na tranca da porta que dava para o quintal onde ela tinha uma pequena horta de alface.

Assim que ela trancou, sentiu a maçaneta tentando girar em sua mão. Novamente, o horror tomou conta dela, e Regina agarrou na faca que estava sobre a pia e começou a gritar:

-Saaaai! Saaaai! Vá embora! Não vou deixar você entrar! Malditaaaa!

E então, assim que ela começou a gritar, com a faca de cortar carne na mão, a maçaneta parou de mexer e houve um súbito silêncio. Regina ouviu a Tv voltando ao seu volume normal na sala.

Então ela foi tomada de uma profunda solidão e medo.

Tentou ouvir alguma coisa, mas lá fora só se ouvia os grilos estrilando e o som do vento nas árvores. Regina morava num condomínio, na última casa do condomínio, uma casa afastada, perto de um bosque. Como aquela menina havia entrado? Quem era ela? E aqueles olhos negros estranhos?

Ela ficou ali, na cozinha, segurando a faca numa mão e o barrigão com a outra. Suava frio.

Então o telefone tocou. Isso lhe deu enorme susto.

Foi até a sala segurando a faca. O telefone tocava sem parar na mesinha ao lado do sofá.

Trêmula, ela pegou o telefone e colocou suavemente no ouvido. Do outro lado, apenas um grupo estranho de chiados e estalos. Aquilo quase a desesperou, mas quando ela já ia desligar, ouviu um som conhecido.

-Amor? – Era ele. Era Rogério.

-Ah! Graças a Deus! Rogério! É você?

-Quem mais seria, amor? Tava esperando outra pessoa? O Ricardão? – Ele riu do outro lado. Rogério era assim, um homem extrovertido que estava o tempo todo procurando uma piadinha infame para fazer.

-Não, amor. É que… É que… Eu estou estressada hoje. Tinha uma menina aqui na porta e…

-Menina?

-Ah, deixa pra lá. Me conta como que está aí? Tá frio?

-Tá tudo indo bem. Tivemos reunião com os coreanos hoje e parece que eles vão comprar mesmo. Tá tudo indo bem por aqui. E a Luminha? Tá direitinha aí?

-Eu não tenho dormido bem, você sabe. Ela tem mexido muito na barriga de madrugada.

-Ela deve estar no fuso daqui. – Ele disse. – Estou pregadinho e a gente vai ter uma nova rodada de reuniões daqui a duas horas. O jetlag está acabando comigo.

-Amor, volta logo… – Disse Regina.

Eles se despediram e Rogério desligou. A presença dele, mesmo que por telefone, a confortava. Ela se sentia mais segura agora. O medo havia tirado sua fome. Regina desistiu até de jantar. Voltou na cozinha, jogou as carnes na geladeira, verificou se todas as janelas estavam fechadas, se o sistema de alarme estava ligado  e subiu.

Ligou a tv do quarto com o som bem alto. Procurou na Tv a cabo algo engraçado. Optou por uma série de comédia pastelão. Escovou os dentes no banheiro da suíte ouvindo a claque de risadas da série.

Tratou de deitar logo.

Enquanto a tv iluminava de azul piscante o quarto, ela olhou pela janela. Da cama, dava para ver através da janela as árvores escuras balançando ao vento. Eram assustadoras as formas que elas produziam.

Tentou concentrar-se na série, mas a todo momento lhe vinha a mente aqueles tenebrosos olhos escuros da menina. E as perguntas lhe assaltavam a mente sem parar: Por que ela queria entrar para ver o quarto? Seroa tudo imaginação? Ela sabia que o stress alto pode causar reações estranhas como nervosismo, pânico, esquecimentos, alterações de equilíbrio… Mas alucinações? Estaria ficando louca?

Aquela perspectiva a assustava ainda mais que um fantasma à porta, já que ela sabia que as mudanças hormonais violentas da gestação poderiam desencadear um surto esquizofrênico.

Felizmente, o cansaço foi maior que seu medo e Regina dormiu pesado.

Quando ela acordou, eram seis e meia da manhã e o sol fraco entrava pelo vidro da  janela. Regina se espreguiçou e acariciou a barriga.

-Bom dia, Luma. – Ela disse.

Então algo lhe chamou a atenção. Regina deu um grito horrível, quando deu de cara com uma mão. Era uma palma de mão suja, de criança, marcada na parede em frente a sua cama, bem abaixo da Tv que ainda estava ligada mostrando o noticiário matinal.

Tremendo, nervosa como poucas vezes na vida ela se viu, Regina levantou-se e foi até a parede. Ali estava a marca da mão. Uma mão pequena, com a metade do tamanho da mão dela. Os dedos bem abertos. Não era alucinação. Aquilo estava ali mesmo.

Mas ela tinha certeza que aquela mão não estava ali quando foi dormir. E o alarme não havia disparado.

Aquilo era muito mais que estranho. Era assustador.

CONTINUA

 

As crianças da noite

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Regina chegou do trabalho cansada. Aquele não tinha sido um dia fácil, que começou pior ainda, com todo o setor de cobrança levando uma senhora esculhambação do supervisor, por conta da baixa produtividade.

Havia meses que o fantasma da demissão pairava sobre aquele setor, e o stress do trabalho de cobrança não combinava com sua condição de oito meses de gravidez. As pessoas eram ríspidas com ela, gritavam, xingavam. Certa vez até juraram de morte o Carlão, que trabalhava duas baias depois da dela.

Naquele dia, Regina havia novamente falado com “a velha”.

A relação com “a velha” já tinha uns dias. Começou quando Regina havia pego a conta de uma senhora de nome estranho para cobrar. A primeira ligação foi o de praxe. A velha pediu desculpas, disse que havia se atrapalhado com as contas, que ia pagar. No dia seguinte, nova ligação, ela deu outra série de desculpas, jurou que iria pagar a dívida, mas que estava com problemas no banco. Regina explicou educadamente que ela somente trabalhava no departamento de cobrança de uma corretora que havia comprado aquela dívida, e que os problemas do banco, ela não poderia resolver. A velha se estressou bastante e começou daí uma relação tensa que se arrastou por semanas. Regina ligava, a velha fingia vozes, inventava que havia morrido que quem falava era uma prima dela… A ligação daquele dia foi a última exigida pelo sistema. A velha atendeu e gritou palavrões e coisas desconexas. Parecia louca. Talvez estivesse fingindo. começou a gritar em alguma língua desconhecida, que Regina pensou ser algo como iídiche. Então bateu o telefone na cara dela.

Vendo que era um caso sem solução aparente, um típico caso de “caloteiro caroço” como eles chamavam no setor, Regina preencheu a ficha indicando o caso daquela senhora para o departamento de recuperação judicial.

Tudo era como deveria ser, com a diferença de que uma coisa havia acontecido de estranho naquele dia. O expediente se aproximava do fim quando o telefone de Regina tocou. Era a telefonista, perguntando se aquele era o ramal dela, pois havia uma ligação. Regina concordou e assim que falou “alô”, só escutou uma pesada e compassada respiração no outro lado da linha.

-Alô? Alô? – Ela perguntava, assustada. Mas ninguém disse nada. – Quem tá falando? Eu vou desligar!

Então a respiração parou e por uns pequenos instantes não houve nenhum ruído. Foi quando uma sinistra gargalhada se fez ouvir do outro lado. E o telefone desligou.

Regina se assustou. O bebê mexeu. Era uma risada horrível, diabólica. A voz era arrastada e Regina imaginou se tratar da voz daquela velha. Mas ela não tinha certeza.

Trêmula, Regina ligou para a telefonista da empresa afim de saber quem ligava.

-Era uma voz de homem. – Disse ela.

Foi preciso que sua amiga Paula lhe buscasse um copo de água, tal o nervoso de Regina.

Mas aquilo era passado que ela lutava para esquecer. Agora em casa, Regina preparava um banho quente. Precisava relaxar para dormir bem. O dia do nascimento da pequena Luma estava se aproximando, e com o Rogério, o marido dela viajando para Seul à trabalho, ela precisava se manter calma a todo custo. Voltou até o quarto para pegar uma toalha limpa e aproveitou para ligar a Tv.

Ela não via novela, mas o som das pessoas da novela falando, as propagandas, o telejornal, atenuavam a sensação de solidão.

Regina tomou um banho quente, vestiu sua camisola e foi até a cozinha preparar algo para comer. A barriga pesava. Andar era difícil e ela sentia uma permanente dor nas costas.

Regina estava na cozinha, mexendo na geladeira, pegando um pedaço de filé no potinho quando a campainha tocou.

-Ué. Que isso?  – Ela pensou. Sabia que não esperava ninguém. Quem poderia ser?

Ela foi até a porta e perguntou:

-Quem é?

-Eu. – Respondeu uma voz. Era uma voz de criança. Uma voz estranha.

Regina hesitou. E se fosse um golpe?

-Eu quem?

-Eu, ué! – Disse a voz. Era de criança, sem dúvida.

Contrariando seus instintos, Regina abriu uma greta da porta. Já era tarde, passava das onze da noite quando ela viu, ali na sua frente, vestida com roupas sujas, até antiquadas, uma menina de uns sete, oito anos. Os cabelos eram desgrenhados. A menina tinha uma pele muito clara e profundas olheiras.

-Quem é você?

-Posso entrar, tia? – Ela perguntou, olhando para dentro da casa.

A menina parecia não estar dando muita atenção para Regina. Ao contrário, olhava insistentemente para o interior da casa, como se procurasse algo ali.

-Entrar? Mas eu nem te conheço, querida. – Ela disse.

Regina sentiu uma coisa ruim assim que bateu os olhos na menina. Ela estava meio suja de lama ou fuligem. Na escuridão não dava para saber direito. A menina evitava olhar nos olhos de Regina e tambem não havia pisado no tapete de entrada. Ela estava cerca de um metro atrás da porta, numa distância incomum para os que almejam entrar.

-Eu queria… Entrar, tia. Posso?  – Disse a menina. Ela parecia bem confiante, apesar de seus gestos levemente mecânicos, e duros. Estava fixa, parada como se fosse uma boneca. Somente inclinava um pouco o corpo para frente, mas as pernas e braços esticados e rígidos, como um manequim.

-Quem… Te mandou aqui? Qual o seu nome.

-Tia… Eu quero entrar. Posso ou não posso? – A menina pareceu irritar-se com as perguntas. Lá fora ventava e fazia frio.

Vários arrepios percorreram as costas de Regina. De onde havia saído aquela criança? Porque estava suja? Porque não olhava pra ela? Regina agarrava-se à porta e já não sabia se estava tremendo de frio ou de medo. Tentou ganhar tempo. Seu ímpeto era bater aquela porta e correr, se trancar no banheiro com uma faca.

-Você quer entrar na minha casa… Mas pra que?

-Pra ver o quarto, tia. Quero ver o… quarto. Disse a menina com um fraco sorriso no canto dos lábios.

Aquilo a assustou mais ainda.

Parecia absurdo. Parecia um pesadelo. Não fazia sentido uma criança com aquela aparência ali, naquela hora, quase meia noite. Sozinha, na escuridão… A menina tornou a insistir, mas sem se mover.

Regina sentiu o mau hálito da menina. Era horrível.  Ela se vestia com roupas muito estranhas, um aventalzinho cheio de babados com um laçarote atrás. Era uma figura assustadora.

-Olha, menina. Eu nem sei o seu nome. Não vou poder deixar você entrar.  Sinto muito. – Ela disse, tremendo feito uma vara verde. Cuidou para não gaguejar e não transparecer o medo. Regina fez menção de bater a porta, e enfim a menina levantou a cabeça, como que implorando para entrar na casa.

-Mas tia, eu estou com fome… – Disse a menina.

Só então Regina conseguiu olhar pra ela nos olhos.  O terror invadiu sua alma e seu sangue congelou nas veias. Ali, diante dela estava uma menina com os olhos pretos. Completamente pretos. Não havia sinal de íris ou pupila. Os olhos eram como bolas de vidro preto.

 

freakr

O medo explodiu no coração de Regina. O coração parecia que ia sair de sua boca a qualquer momento.  Ela só conseguiu articular uma palavra.

-Desculpe! – Disse e bateu a porta na cara daquela “coisa”.

Regina trancou a porta. Andou para trás assustada. O medo lhe percorria a coluna, arrepiando seus cabelos.

-Meu Deus! Meu Deus! O que é isso? O que é isso? – Ela se perguntava baixinho.

Então Regina ficou ali, parada perto da lareira apagada. Olhava a porta trancada. Um incômodo silêncio invadiu a casa. A Tv que estava ligada não parecia emitir nenhum ruido.

Então uma batida altíssima atingiu a porta. Uma pancada seca, como o impacto de alguém se jogando contra a porta. Regina não conteve o grito. E então voltou a reinar o silêncio.

-Quem – quem está aí? Que merda é essa, porra? – Regina gritou a plenos pulmões. O medo estava quase consumindo sua alma.

-Tia, me deixa entrar! Eu quero ver o quarto. – A voz soou do outro lado.

Era ela. Não havia ido embora.

-AimeuDeus! -Gemeu Regina.

Ela correu para a cozinha. Só pensava na porta dos fundos. E se aquela “coisa” entrasse por ali?

Regina entrou na cozinha afobada. Meteu a mão na tranca da porta que dava para o quintal onde ela tinha uma pequena horta de alface.

Assim que ela trancou, sentiu a maçaneta tentando girar em sua mão. Novamente, o horror tomou conta dela, e Regina agarrou na faca que estava sobre a pia e começou a gritar:

-Saaaai! Saaaai! Vá embora! Não vou deixar você entrar! Malditaaaa!

E então, assim que ela começou a gritar, com a faca de cortar carne na mão, a maçaneta parou de mexer e houve um súbito silêncio. Regina ouviu a Tv voltando ao seu volume normal na sala.

Então ela foi tomada de uma profunda solidão e medo.

Tentou ouvir alguma coisa, mas lá fora só se ouvia os grilos estrilando e o som do vento nas árvores. Regina morava num condomínio, na última casa do condomínio, uma casa afastada, perto de um bosque. Como aquela menina havia entrado? Quem era ela? E aqueles olhos negros estranhos?

Ela ficou ali, na cozinha, segurando a faca numa mão e o barrigão com a outra. Suava frio.

Então o telefone tocou. Isso lhe deu enorme susto.

Foi até a sala segurando a faca. O telefone tocava sem parar na mesinha ao lado do sofá.

Trêmula, ela pegou o telefone e colocou suavemente no ouvido. Do outro lado, apenas um grupo estranho de chiados e estalos. Aquilo quase a desesperou, mas quando ela já ia desligar, ouviu um som conhecido.

-Amor? – Era ele. Era Rogério.

-Ah! Graças a Deus! Rogério! É você?

-Quem mais seria, amor? Tava esperando outra pessoa? O Ricardão? – Ele riu do outro lado. Rogério era assim, um homem extrovertido que estava o tempo todo procurando uma piadinha infame para fazer.

-Não, amor. É que… É que… Eu estou estressada hoje. Tinha uma menina aqui na porta e…

-Menina?

-Ah, deixa pra lá. Me conta como que está aí? Tá frio?

-Tá tudo indo bem. Tivemos reunião com os coreanos hoje e parece que eles vão comprar mesmo. Tá tudo indo bem por aqui. E a Luminha? Tá direitinha aí?

-Eu não tenho dormido bem, você sabe. Ela tem mexido muito na barriga de madrugada.

-Ela deve estar no fuso daqui. – Ele disse. – Estou pregadinho e a gente vai ter uma nova rodada de reuniões daqui a duas horas. O jetlag está acabando comigo.

-Amor, volta logo… – Disse Regina.

Eles se despediram e Rogério desligou. A presença dele, mesmo que por telefone, a confortava. Ela se sentia mais segura agora. O medo havia tirado sua fome. Regina desistiu até de jantar. Voltou na cozinha, jogou as carnes na geladeira, verificou se todas as janelas estavam fechadas, se o sistema de alarme estava ligado  e subiu.

Ligou a tv do quarto com o som bem alto. Procurou na Tv a cabo algo engraçado. Optou por uma série de comédia pastelão. Escovou os dentes no banheiro da suíte ouvindo a claque de risadas da série.

Tratou de deitar logo.

Enquanto a tv iluminava de azul piscante o quarto, ela olhou pela janela. Da cama, dava para ver através da janela as árvores escuras balançando ao vento. Eram assustadoras as formas que elas produziam.

Tentou concentrar-se na série, mas a todo momento lhe vinha a mente aqueles tenebrosos olhos escuros da menina. E as perguntas lhe assaltavam a mente sem parar: Por que ela queria entrar para ver o quarto? Seroa tudo imaginação? Ela sabia que o stress alto pode causar reações estranhas como nervosismo, pânico, esquecimentos, alterações de equilíbrio… Mas alucinações? Estaria ficando louca?

Aquela perspectiva a assustava ainda mais que um fantasma à porta, já que ela sabia que as mudanças hormonais violentas da gestação poderiam desencadear um surto esquizofrênico.

Felizmente, o cansaço foi maior que seu medo e Regina dormiu pesado.

Quando ela acordou, eram seis e meia da manhã e o sol fraco entrava pelo vidro da  janela. Regina se espreguiçou e acariciou a barriga.

-Bom dia, Luma. – Ela disse.

Então algo lhe chamou a atenção. Regina deu um grito horrível, quando deu de cara com uma mão. Era uma palma de mão suja, de criança, marcada na parede em frente a sua cama, bem abaixo da Tv que ainda estava ligada mostrando o noticiário matinal.

Tremendo, nervosa como poucas vezes na vida ela se viu, Regina levantou-se e foi até a parede. Ali estava a marca da mão. Uma mão pequena, com a metade do tamanho da mão dela. Os dedos bem abertos. Não era alucinação. Aquilo estava ali mesmo.

Mas ela tinha certeza que aquela mão não estava ali quando foi dormir. E o alarme não havia disparado.

Aquilo era muito mais que estranho. Era assustador.

CONTINUA

 

As crianças da noite

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31 ideias sobre “As crianças da noite

  • 11 de outubro de 2013 em 21:23
    Permalink

    Coração disparado ao terminar de ler, apenas!

    Resposta
  • 11 de outubro de 2013 em 21:40
    Permalink

    esse é dos bons, aguardo as outras partes.

    Resposta
  • 11 de outubro de 2013 em 21:51
    Permalink

    Po, que bacana!
    Trata-se de um livro? Ou apenas vontade de escrever durante a madrugada?
    Curti muito, parabens!

    Resposta
    • 12 de outubro de 2013 em 16:08
      Permalink

      aqui no blog eu escrevo contos. Tem uns enormes. Vou escrevendo e postando sem saber onde vai dar. (olha na seção de contos do menu principal que tem vários deles.Uns são curtos, outros gigantes)

      Resposta
  • 11 de outubro de 2013 em 22:18
    Permalink

    Legal… com claras influências do filme Arraste-me para o Inferno… mas começou bem…

    Resposta
  • 11 de outubro de 2013 em 22:32
    Permalink

    O.o Medo agora. Escreve logo o resto Philipe

    Resposta
  • 12 de outubro de 2013 em 0:08
    Permalink

    Não é tão original porque copia o início do filme “Arraste-me para o Inferno”, (que por sinal não é lá essas coisas), onde uma analista de crédito, para impressionar seu chefe, recusa o pedido de empréstimo de uma velha cigana, que lança uma maldição sobre a analista, e a lenda urbana das BEKs – Black-Eyed Kids. Mas mesmo assim, curto seus contos!

    http://www.adorocinema.com/filmes/filme-133358/

    http://www.megacurioso.com.br/misterios/37965-misterio-voce-ja-ouviu-falar-das-criancas-com-olhos-completamente-negros-.htm

    Resposta
    • 12 de outubro de 2013 em 16:20
      Permalink

      Ah, é. Super-copiei. Os dois tem… uma velha. No arraste-me para o inferno temos uma velha que quer pegar empréstimo. No meu conto tem uma velha que não quer pagar.
      Sobre o creepy pasta das crianças dos olhos negros é isso mesmo. São eles. E como a mulher está gravida, acho que vc deve dizer que copiei o bebê de Rosemary tb.

      Resposta
  • 12 de outubro de 2013 em 8:42
    Permalink

    Deu um puta cagaço agora! Pelo começo, acho que é meio inspirado naquele filme ‘Arrasta-me para o Inferno’

    Resposta
  • 12 de outubro de 2013 em 14:32
    Permalink

    nossa, conto novo!! Gosto muito, mas não judia da gente como no conto da Caixa, rs
    Poderia vir inteiro, essa ansiedade de esperar o próximo capítulo me mata! kkk

    Resposta
    • 12 de outubro de 2013 em 16:04
      Permalink

      Eu nem sei o que vai acontecer ainda… Eu vou escrevendo e postando em tempo real.

      Resposta
      • 17 de outubro de 2013 em 18:21
        Permalink

        Criando enquanto escreve em tempo real?!?! Caraca!!! Mas fazendo assim não existe o risco de “se perder” na estória e ela ficar confusa e/ou ruim?

        Resposta
        • 17 de outubro de 2013 em 21:31
          Permalink

          Todas elas são assim. Eu escrevo elas e publico em tempo real. Risco tem, mas é disso que eu gosto.

          Resposta
  • 12 de outubro de 2013 em 15:18
    Permalink

    Texto muito bom, só encontrei esses erros.

    uma casa afastada, perto de um boque. (acho que é bosque)

    -Ah! Graças a Deus! Rogério! É você?

    Eles se despediram e Ricardo desligou.(o nome dele não é Rogério ?).

    Resposta
    • 12 de outubro de 2013 em 16:04
      Permalink

      Era sim, escrever com o Davi no colo causa esses efeitos colaterais no texto, hehe

      Resposta
  • 12 de outubro de 2013 em 20:01
    Permalink

    kra ki loko vei…estava lendo sobre isto esta semana e pensei,Vou mandar a idéia pro philipe que é muito gump estas estórias de crianças ambu ai…mt bom….

    Resposta
  • 13 de outubro de 2013 em 3:58
    Permalink

    Ooooobaaa! Conto novo! Mas pensando bem, não sei se isso é motivo de alegria ou tristeza, porque agora vai começar a tortura tudo denovo! kkkk A tortura da espera!

    Resposta
  • 13 de outubro de 2013 em 16:40
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    Olá, eu adorei seu ”livro” haha, adoro coisas de terror e vc é muito bom mesmo!
    Eu gostaria de perguntar quando vai continuar, hoje, amanhã… Estou morrendooo de vontade para ver o resto.. Tudo aliás!!!
    Sou sua nova fã pois não gosto de ler, e já li tudo!!
    Parabéns e continue o mais rápido que puder!!! =D

    Resposta
    • 13 de outubro de 2013 em 17:18
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      Valeu Priscila! Devo continuar a história ainda hoje, se eu conseguir acabar de instalar o 3d aqui e terminar um trabalhinho rápido que é pra amanhã.

      Resposta
  • 14 de outubro de 2013 em 13:36
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    Liga pra comentários negativos, não. Manda brasa, porque a gente já sabe do teu potencial.
    Estamos aguandando ansiosamente!

    Resposta
  • 14 de outubro de 2013 em 13:51
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    Cara, andei lendo uns comentários aqui dizendo que você copiou o começo de “Arraste-me para o Inferno”.

    Quer saber?

    Não tô nem aí se você copiou ou não! O conto já começou me dando um cagaço!!! Está EXCELENTE até agora…

    MEDO!

    Manda mais, Philipe!!!!

    Abração e obrigado pelo conto!

    Resposta
  • 14 de outubro de 2013 em 17:52
    Permalink

    Caraca, agora que eu não durmo mesmo, lendo O Iluminado e As Crianças da Noite, pesadelos irão me visitar nas próximas noites kkkkkkkkkkkkkkkkk. Ótimo primeiro capítulo de um novo conto, já estava até com saudade deles. Não liga para os comentários que estão falando que é cópia, pois está muito bom mesmo.

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  • 16 de outubro de 2013 em 13:20
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    Poxa, Philipe. Cadê a parte 3? Desse jeito você nos mata de curiosidade kkkkkkkkk.

    Resposta
  • 25 de novembro de 2013 em 14:20
    Permalink

    Que isso, Philipe!!! Fiquei completamente arrepiada! Muitas imagens e cenas assustadoras reproduziram em minha cabeça, e já até sei que elas vão ficar martelando na hora de dormir…
    Minha admiração pelo seu excelente trabalho só aumenta a medida que leio seus textos, parabéns!!

    Resposta

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