A terceira vez que matei alguém

A terceira vez que precisei cancelar um CPF na minha vida e tornar o mundo um lugar melhor foi relativamente recente.

Você talvez se lembre daquela vez que o vagabundo lazarento resolveu bancar o macho e quebrou meu carro todo com a barra de ferro me obrigando ao expediente patético de correr para ele não me bater. Se não leu, aqui está. 

Na época, eu anotei a placa do desgraçado, mas foi inútil. A polícia, com uma preguiça maior do que a de letrista de musica instrumental, demorou um caralhão de tempo para intimar o dono do carro, que não era o cara, nem ninguém sabia quem era. Amarguei prejuízo.

Como ele me ameaçou, tempos depois, (mais de um ano) , o processo correu e fui chamado para uma audiência, com o suposto desgraçado.  Eis que chega um infeliz lá que não tinha NADA a ver com o caso. Ele comprou o carro numa loja de carros usados em Magé (outra cidade) e foi intimado porque o sistema é retardado e puxou pelo Renavan do carro o dono atual e não o dono na época. Eu informei para o pessoal da justiça que o cara não era o mesmo e ele nada tinha a ver com isso. Era um simples técnico de refrigeração, especializado em instalar ar condicionado.

Saindo da audiência onde só fomos perder nosso tempo, o mínimo que eu podia fazer, era oferecer uma cerveja para ele, que aceitou de bom grado. Sentamos num bar ali perto dos puteiros nas imediações da prefeitura e ficamos batendo papo.

Eu sou legal, mas eu confesso que só queria puxar informações do homem. Ele logo me contou onde foi que ele comprou o carro lá em Magé. Eu de cara puxei o celular e vi o site da loja.

Dias depois, dei um pulo lá. Passei na loja, contei o caso para o vendedor, um tal de Marcelo. O Marcelo entendeu o caso, e ficou realmente emprenhado em me ajudar. Ele mexeu nos arquivos de um velho Pc que era do tempo que se amarrava  o cachorro com linguiça (Tinha ate adesivo da America On-line).

Marcelo me contou que quem vendeu o carro era um tal de Renato Aguiar. E me deu o endereço que tinha nos sistema. O dono do carro – como vi na delegacia no dia – era de Maricá.

Passados alguns dias, estive em Maricá. Peguei no google o endereço do cara. Era uma casa bem normal. Estive por lá, mas a casa estava abandonada. Percebi pelo tamanho do mato em frente, que já ultrapassava o muro.

Parei num botequim ali perto e pedi uma cerveja. Logo me enturmei e papo vai, papo vem, perguntei do tal cara, dizendo que estudei com ele.

O cara do bar olhou com uma cara estranha diante das perguntas, e talvez porque eu estava tomando cerveja comendo pipocão. Mas eu acho que tenho tanta cara de otário, que ele logo me disse que o Renato tinha se mudado para Itaipuaçu.  Voltei à estaca zero, e pra dizer a verdade, aquilo tudo me parecia meio inútil, já que no próprio dia que ele me atacou, a policia mostrou que não era o mesmo cara dono do carro. Eu chegaria no máximo no Renato e nada ia garantir que ele me diria quem era o doido que estava dirigindo o carro dele naquele dia.

Larguei pra lá.

Óbvio que eu não estava planejando matar ninguém, pq não sou esse tipo de desgraçado. Eu só queria acariciar a lataria daquela merda de carro dele como ele fez com o meu, estragando meu carnaval. Meu plano era achar o maldito pegar o nome e endereço e levar na polícia.

Passou um tempo e o lance esfriou completamente. Mas então, o inesperado aconteceu:

No final de abril, eu estava no centro de Niterói onde tinha ido no dentista, e ao sair do meu tratamento, fui pegar o ônibus porque meu carro estava consertando e quem foi que eu vi passando todo lépido e faceiro bem na porra do ônibus 48 que eu estava?

Isso mesmo, aquele vagabundo duma figa.

Não querendo desapontar Deus que me colocou aquele verme na frente, eu fiz o que devia: Segui o puto.

Passei do ponto, e só desci quando ele desceu, lá no Rio do Ouro. Eu desci e fiquei atras de umas pessoas sem ele me ver.  Ali, ele, eu (e mais uma galera) mofamos aquela merda de estrada. Felizmente ele estava vidrado num celular e nem se ligou da minha existência.  Quando passou o 4144R a caminho de Maricá, o vagabundo entrou e eu fui na boleira junto.

O cara finalmente desceu do ônibus na Av. Jardel filho. Eu desci e peguei o caminho inverso dele, porque o lugar estava meio deserto. Eram quase cinco da tarde. Atravessei a rua correndo e encostei perto duma lojinha de autopeças que estava fechando. De lá, vi o cara andando. Deixei ele ganhar uns 50 metros e segui.

Fui seguindo aquele corno por um punhado de ruas, até finalmente ver a casa que ele entrou, lá em Itaipuaçu.  Registrei a casa e a rua no celular e voltei.

Passei uns dias maquinando minha vingança. A casa do cara era um casebre meio ferrado, recuada cheia de arvores na frente e com muito mato, e sem carro.

Daí passei a ir de carro de vez em quando por lá. Certo dia eu o vi capinando na frente da casa. Era um cara de uns 36 anos mais ou menos, forte, estava cultivando um bigodinho bem escroto.  Mas eu dei mole e ele me viu.

Ele imediatamente reconheceu o carro, com certeza, porque ele logo correu pra dentro da casa e saiu com um pedaço de ferro com disposição, perguntando assim:

“Qual é? Qual é?”

Arranquei com o carro, meu coração quase saiu pela boca nesse dia. Vi ele me xingando pelo retrovisor, sacudindo aquele pedaço de metal como um membro do povo da areia de Star Wars.

Dei um tempo. Minha raiva daquele fdp foi só crescendo e vi que não ia ter jeito.

Passou coisa de uma semana, eu estava voltando da escola com o Davi no carro, quando fui fazer a volta para entrar no meu condomínio, vi que um carro abriu a porta. Ele estava estacionado em frente. Ele saiu do carro e veio andando rápido. Era ele. O maldito.

Felizmente o portão da garagem já estava aberto e eu entrei voado. Quase bati o carro dentro do condomínio. Naquele dia, eu nem consegui almoçar. Estava trêmulo.

Me dei conta que tal qual eu tinha feito com ele, o vagabundo tinha feito comigo. Ele memorizou a placa do meu carro e veio me dar o bote.

Me odiei por ter sido tão burro. Pensei me procurar a polícia, mas logo me liguei que ia adiantar o que? Não é crime andar na rua. O cara nem fez nada. Certamente o plano era me intimidar, como eu tinha feito com ele. Mas e se não fosse? Naquela noite, não dormi pensando no maldito. E se ele estivesse tramando alguma coisa? Eu estava em risco. Minha família idem. O vagabundo sabia que eu tinha levantado onde ele estava e agora ele sabia onde eu estava. Não ia acabar bem, é claro.

No dia seguinte, assim que a minha mulher foi trabalhar eu liguei para um amigo que vamos chamar de “Chiquinho Mormaço”. O Chiquinho é um policial civil aposentado de São Gonçalo.  Ficamos amigos há muitos anos, quando eu ainda trabalhava no Rio. Ele era segurança armada no “Caria” um restaurante lá que era “churrascaria”, mas metade da placa caiu e ficou só “Caria”. Gente fina, daquele tipo que todo mundo em algum momento da vida pode acabar precisando. Parecia ser meu caso.

Expliquei o lance todo pro Chiquinho, e ele foi taxativo:

“-Brou, tá ligado que esse vagabundo vai te matar, né? ”

Ele tinha certeza, porque “já tinha visto de tudo nessa vida”.

Então Chiquinho Mormaço ofereceu os serviços VIP de alta qualidade dele, que era o vulgo “cancelamento de cpf“, mas era caro e além disso, eu vou confessar que estava meio reticente, porque poderia ser só o caso de dar umas porradas e aí tudo bem. Mas o Chiquinho me disse que se eu desse só porrada, ele ia chorar na milicia lá e eu estaria fodido, pq saber onde eu morava botava o jogo num outro nível.

Combinamos então de dar uma incerta no casebre do valentão. Comprei ingresso para o cinema no Shopping, conforme o Chiquinho me orientou a fazer. Ele me pegou nos fundos do shopping num Fiat Tipo todo caindo aos pedaços, (achei que nem fosse chegar lá)  e fomos para Maricá. Eu mostrei onde era a rua e tal. Era quase umas dez da noite quando chegamos lá. O Chiquinho me deu uma balaclava que fedia igual uma meia de mendigo.  Ele também me deu uma pistola. O Chiquinho estava com dois 38 igual um cowboy, e na mão um taco de madeira preto.

Entramos pelo jardim que era um mato só, e fomos diretamente lá na casa.

O vagabundo estava deitado no sofá conversando no celular. A porta da casa estava aberta e a televisão ligada.  Assim que nós entramos, ele deu um pinote. Ele tentou correr para pegar alguma coisa numa dessas estantes horrorosas das Casas Bahia, e depois eu vi que era um 38.

Felizmente, eu estava com um cara preparado. O Chiquinho logo deu uma porrada nele com o taco e ele caiu de volta no sofá, balbuciando qualquer coisa que pouco importou, pra falar a verdade.

Eu nem mirei. Dei logo uns três à queima roupa e pronto. Um deles foi na cabeça, com certeza. Vazamos de lá na sequência. Entrei no carro, e o Chiquinho me deixou em casa.  Entreguei tudo para meu brother Mormaço, paguei ele a graninha do churrasco e foi assim que terminou mais um cancelamento de cpf bem sucedido para nossa alegria.

Ele foi matéria no O DIA, que guardo com carinho. Só com o jornal descobri o nome dele. Ele chamava Alex.

 

ESTA É UMA OBRA FICCIONAL

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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Comentários

  1. Poxa, eu não sou de ler muito, mas tudo que tu posta eu leio, e é de um jeito “Gente como a gente” que nunca sei se é verdade ou conto kkkk. Muito bom.

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