A mulher de Vênus

Na virada do ano passamos o último dia de 2022 na cidade de Três Rios. Passamos o dia na piscina de uma pousada que existe lá no exato local do encontro dos Três Rios.  O local é famoso por seus passeios de rafting nas corredeiras dos rios que ali se encontram.

Foi lá que eu tive o prazer de conhecer a dona Virgínia, que era a dona do local. Com o hotel completamente vazio, somente limitado à nossa família, meus pais e uma outra pessoa de nome dona Marília, que não faço nem ideia se estava hospedada lá ou se era uma “agregada” do local, – haja vista sua amizade e carinho com o preguiçoso gato Felipe, que não era chegado a carinhos mas aceitava os dela.

Ficamos por lá na piscina, tomando cerveja e batendo papo até que inesperadamente, deu um blecaute, que inicialmente pensávamos que voltaria logo, mas se revelou um daqueles problemas elétricos que perduram até o dia seguinte.

Tristemente, isso acabou com o estoque de sorvete do hotel, que derreteu tudo, dando grande prejuízo para a Virgínia.

Como estava sem luz e sem restar nada a fazer, acendemos o fogão a lenha, abrimos mais umas cervejas antes que ficassem quente (bela desculpa, eu sei) e ficamos ali, esperando a Virgínia cozinhar pra nós e batendo papo. O papo logo descambaria para fenômenos mistérios e situações pouco usuais que já ocorreram naquele delta de rio. Virgínia me contou um monte de histórias de discos voadores e luzes estranhas, além de animais que parecem surgir do nada e vagam pela beira do rio, para desaparecer tão estranhamente quanto surgem.

Papo vai, papo vem, aquela senhora que estava lá fazendo carinho no gatão Felipe – um gato mutante que é um cruzamento de Angorá com uma jaguatirica que surgiu do nada, vindo da mata preservada da região ali – começou a rir em certo momento e comentou:

“Sabia que meu tio tem uma foto de uma extraterrena dentro de um disco voador?”

Obviamente que imediatamente reinou um grande silêncio, e aquela mulher de nome Marília, não estava de brincadeira. Ela tomou um gole da cerveja e começou a contar a história dele.

O tio dela se chamava Júlio Costa Neto e era filho de um jornalista famoso de nome Odelon Costa, algo assim. Ele trabalhava na sucursal da revista O Cruzeiro nos anos  40. Trabalhou lá ate se aposentar na década de 70.

Júlio costumava cobrir todo tipo de matéria da revista, que pertencia aos Diários Associados do Chauteubriand. Ela falou que ele trabalhou até numa versão internacional de O Cruzeiro, que eu nem imaginava que tinha existido, era “O Cruzeiro Internacional”.

Essa revista eu já tinha ouvido falar pelo famoso caso do disco voador da Barra da Tijuca, de modo que logo me interessei achando que o caso dela teria relação com aquele caso, que para todo mundo mais interessado no tema ufologia, é uma famosa fraude. Mas não, ela disse que a história do “tio Júlio” era outra e mais obscura. Na verdade, o tio dela fez um voto de segredo e por isso o caso jamais veio à tona na revista. Hoje o caso está prestes a ser esquecido, pois todo mundo já morreu.

Ela contou que em 1954, o tio dela junto com outros dois jornalistas um que ela não lembra o nome e o outro era o João Martins, foram escalados para cobrir uma série de eventos nos Estados Unidos e estiveram numa palestra que foi proferida por um famoso ufólogo. Júlio dirigia o carro, e logo chegaram ao monte Palomar. Era um evento gigantesco, com mais de mil pessoas e quase não havia lugar para sentar. A palestra mais famosa foi desse contatado. Marília não sabia o nome, mas eu estava ligado e disse a ela: Era o George Adamski.

Adamski era um famoso contatado que jurava de pé junto ter tido vários contatos com seres de outro planeta que desceram num disco voador bem na frente dele. Eles eram altos, bem pálidos e nórdicos, e disseram a Adamski que vinham de Vênus. Depois pesquisando, eu vi os detalhes da história e soube que esse evento aconteceu nos dias 7 e 8 de agosto de 1954, em Monte Palomar (San Diego, Califórnia) e foi um dos primeiros grandes congressos ufológicos de contatados. Ali se encontravam, abduzidos e militares, além de outros contatados famosos, como Truman Bethurum (contatado dos habitantes do planeta Clarión) e outros, fora o Adamski.

A palestra teria transcorrido normalmente, se não fosse um grupo de três pessoas. Dona Marília disse que seu tio logo percebeu que eram “esquisitos”. Júlio Costa incialmente pensou que eles três eram apenas “gringos”, mas os comportamentos dos três eram tão estranhos e mecânicos que logo começou a despertar atenção de outras pessoas mais “ligadas”.

Segundo o tio dela, uma das coisas curiosas é que as roupas deles pareciam ou maiores ou menores do que deviam ser. E eles quase nunca piscavam os olhos.  Aquilo era estranho. Eles também se entreolhavam o tempo todo em silêncio e nunca se encostavam.

Essas três pessoas eram: Uma mulher muito estranha, apesar de bonita, um homem mais ou menos da idade dela e um outro, mais magro e mais jovem.  O mais jovem parecia quase um boneco de cera, mas o outro mais velho que agia como se fosse um tipo de líder, sempre andando na frente dos dois, era o que trocava olhares com as pessoas. Ele usava um óculos de aro fino, que nem parecia ter grau. Parecia um óculos de mostruário de armação. Esse olhava para as pessoas e quando os olhares se encontravam contraía o rosto numa estranha careta forçada para sorrir, o que lhe dava um aspecto estranhamente assustador.

A mulher por sua vez parecia ressabiada e bastante atenta ao que diziam na palestra.

Julio Costa cutucou João Martins e discretamente indicou com o olhar o grupo. Na palestra já haviam também outras pessoas olhando para o grupo. Num dos intervalos, João fez fotos de cada um deles à distância.

Imagens de O Cruzeiro (colorizadas digitalmente)

 

O que se seguiu, foi no mínimo estranho.

Martins se aproximou e não aguentando de vontade de saber a verdade perguntou assim, “na lata”, como se diz se os três eram infiltrados.

Eles pareceram ficar desconfortáveis com a pergunta. Só a mulher falava. Os demais estavam parados. O menor sempre “plastificado” e o mais velho sorrindo estranhamente. Júlio conta que ela tinha sotaque estrangeiro, mas diferente.

Os três homens voltaram no dia seguinte para mais um dia do evento e lá estavam os três de novo, com as mesmas roupas. Exatamente iguais. Júlio percebeu que nada parecia amassado ou amarrotado.  Na ocasião do dia anterior, ela negou que fossem aliens, e disse que se interessava pelo assunto, secamente. Afirmou que trabalhava com moda em Nova York. Quando perguntada ela foi assertiva de que os aliens de Adamski realmente “São de Vênus”.

Aproveitando ter encontrado com os três, Martins se aproximou de supetão novamente e tirou a foto, mas com a luz do flash ela se assustou após os três se entreolharem, eles saíram rapidamente do local, entrando em um bosque próximo ao local do evento. E sumiram. “Evaporaram”, é o que se conta.

Muitos consideraram-na como sendo uma “extraterrestre” graças ao seu estranho comportamento e até por algumas características físicas peculiares, mesmo curiosas, como podemos observar nas fotos. Observe você mesmo os detalhes do rosto desta bela mulher, como seus olhos, nariz e bochechas. Os olhos têm uma profundidade estranha e bela…

Tempos depois, investigadores intrigados com aquele grupo descobriram que essa “extraterrestre” havia estranhamente assinado o livro de visitas com o nome de “Dolores Barrios”, e que declarou ser uma estilista de moda de Nova York. No entanto, ninguém jamais ouviu falar de uma estilista de moda loira com esse nome latino por lá… Estava claro que era um nome falso.

Depois se questionou até que fossem europeus.

A história termina praticamente aí, mas ainda existe um detalhe:  o fato mais insólito foi que muitas pessoas juraram que naquele segundo dia, uma nave saiu desse bosque algum tempo depois que os três sumiram, o que deixou muitos dos que conseguiram ver impressionados. Um deles foi justamente Júlio, o tio de Marília, que havia se embrenhado no mato em busca dos três.

Tempos depois, Júlio esteve nos Estados Unidos novamente junto com José Augusto Ribeiro para uma matéria sobre os projetos da viagem à Lua. Na ocasião, ele esteve com George Adamski que recusou a entrevista ao Cruzeiro, ela não sabe o motivo. Júlio, no entanto, era um jornalista insistente, e ficou cercando Adamski em um dos eventos, na tentativa de persuadi-lo a falar mais alguma coisa, pois as seções de mensagens dos leitores estavam se enchendo de pedidos para mais matérias sobre a temática dos “discos voadores”.

Júlio esteve em Washington para cobrir um pronunciamento presidencial que acabou desmarcado e de lá seguiu no rastro de Adamski novamente até Maryland. Ele localizou Adamski na cidade de Silver Spring. Adamski estava dando uma palestra sobre a lua e sobre como os comunistas planejavam dominar o satélite, quando no meio da multidão, quem foi que Júlio viu?

Se você chutou Dolores Barrios, dessa vez do outro lado dos Estados Unidos, acertou. La estava ela, mas dessa vez sem os dois homens. Ela estava sozinha.

Júlio se lembrou do comportamento arredio da suposta “venusiana infiltrada” e decidiu mudar de tática. Ele a seguiu.

Marília me contou que após a palestra, a mulher foi até a rua e pegou um taxi.

Júlio estava com um carro de aluguel e por pouco não perdeu o rastro, pois os taxis eram todos iguais. Ele seguiu a mulher até que o carro saiu da cidade. Ele contou que a mulher desceu do taxi numa estrada e já começava a anoitecer. Tomado de um grande medo, percebeu que aquilo só parecia confirmar as suspeitas.

Ele estacionou o carro longe, num monte de arbustos e se embrenhou pelo mato. Da pequena elevação onde estava, viu a mulher descalçar os sapatos e se embrenhar mato adentro. Já estava ficando bem escuro. Júlio temia pisar numa cascavel ou algo assim, mas continuou a seguir seus instintos. Ele perseguiu a mulher até uma clareira onde estupefato, viu a nave.

A nave

A nave era enorme. Tinha o diâmetro de um caminhão grande. Cerca de 18 ou 19 metros. Ela era na cor de alumínio e parecia bem sólida. Estava poiada em quatro “pernas” retas que afundavam no solo.  A mulher estava subindo umas escadas no fundo da espaçonave.

Júlio correu até o lugar e chegando sob a nave, viu que havia uma escotilha redonda dentro. Ele teve medo, pensou se devia se arriscar mais, mas à aquela altura não havia como desistir.
Ele trazia consigo uma câmera, mas teve medo de fotografar a escada e o espocar do flash denunciar sua presença.  Ele também já estava praticamente “sem cubos” – Não sei o que é isso. Acho que filme.

Júlio subiu os cinco degraus da escada. Lá dentro havia um painel com controles e uma coluna central. Havia telas e objetos estranhos dentro do engenho. O piso e as paredes eram do mesmo material. O interior era frio. Ele estimou que fazia uns dezesseis graus lá dentro.

Júlio se aproximou dos painéis e viu coisas escritas que ele não entendeu numa espécie de televisão.

Então ele ouviu uma voz falar com ele. Ela falou em inglês.

Júlio se virou e viu a mulher. Era ela. Vestindo uma roupa toda branca que parecia borracha. Ela não parecia brava nem com medo, mas sim interessada nele. Júlio conta que tentou se apresentar, mas ela sorriu e disse que não se lembrava dele, mas confirmou que havia ido na palestra do monte Palomar anos antes.
Júlio conversou com a mulher  e ela admitiu que seu nome não era Dolores, obviamente. Ela não revelou o verdadeiro nome, mas conversaram sobre a nave, seu funcionamento e ele perguntou onde estavam os dois amigos dela. Ela falou que eles estavam em outra missão. Ela disse que precisava partir, mas após insistência do jornalista ela aceitou que ele tirasse “um retrato” dela. Júlio tirou três, o que a aborreceu. A mulher misteriosa fez com que Júlio prometesse nunca revelar à imprensa sobre ela. E ele (temendo por sua vida) fez um juramento.

Ela pediu que ele saísse e descesse pela escada. Júlio desceu e ouviu a mulher falando algo incompreensível dentro da espaçonave, que disse parecer alemão. Ela gritou para que ele se afastasse do objeto.

Ele foi para longe e ainda tentou mais uma fotografia, quando o objeto decolou lentamente para cima. Depois subiu mais rápido como se fosse um balão. Então a cerca de cinquenta metros, o UFO se iluminou e disparou como um raio, deixando um risco que se apagou em seguida.

Júlio contou a história apenas para o pai de Marília que na ocasião estava com ela ainda pequena no colo. Marília foi assim, a segunda testemunha daquele incrível relato e teve oportunidade de conversar com o tio diversas vezes quando ia na casa dele, em Itaperuna – RJ. Segundo Marilia, ele tinha uma caixa com muitas fotografias. Quando morreu, deixou pra ela a caixa, mas as fotos da nave não estavam na caixa. Ela só conseguiu localizar uma das fotografias. Podemos ver claramente que se trata de Dolores Barrios.

Dona Marília mostra a foto de seu tio

E esta foi a história incrível que Marília me contou. Na ocasião do blecaute, eu pedi a ela se poderia ver a fotografia, e nós marcamos assim um segundo encontro no mesmo hotel. Estive lá com a Virgínia e meus pais, dois meses depois. Marília trouxe a foto para eu ver e  assim, essa verdadeira relíquia de uma suposta venusiana veio parar em minhas mãos.  “Suposta”,  porque ela conta que seu tio Júlio tinha certeza que ela não era proveniente de Vênus. Mas de um tipo de nave mãe, que orbita o planeta.

 

A Venusiana (colorida e recuperada digitalmente)

Há cerca de um mês a Virgínia me contou que Marília faleceu e por pouco o segredo misterioso de Dolores Barrios não foi com ela.

FIM

Esta é uma obra ficcional. 

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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Comentários

  1. Brother, coloca o disclaimer final de obra ficcional também em inglês, vai que aquela Ufóloga maluca não sai por aí contando que vc também tem isso e esconde do mundo?

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