O experimento Carlson – Parte 11

Carlson tentava como podia se livrar da coisa que o arrastava para o fundo, mas era impossível. Era muito forte. O traje, cheio de água havia se tornado uma prisão do qual escapar seria impossível, ainda mais com aquela coisa lhe tragando para a escuridão.
A água foi se tornando turva e fria à medida em que ele era levado para o fundo.
Carlson teve um flash. Sabe-se lá porquê, Morten se lembrou de andar na chuva.

Andava na chuva às vezes por horas e horas. Sempre gostou da sensação as gotas rolando em seu rosto. Andar na chuva trazia ainda inesperadas vantagens. Os parques estavam sempre vazios. Os bancos sempre à sua disposição. As plantas pareciam brilhar mais. O asfalto ficava mais escuro e a água criava contrastes em todos os lugares.
Certa vez, Morten saiu para caminhar na chuva. Tinha por volta de dezesseis anos, talvez um pouco mais. Ainda era menor de idade. Uma forte tempestade surgiu no horizonte por volta de meio dia. Nuvens enormes engolfaram o sol e o azul se tornou um cinza semi preto que causou medo e apreensão nas pessoas. Logo, trovões poderosos que mais pareciam as trombetas do apocalipse explodiram na imensidão. Morten pegou sua bicicleta e foi passear. Era o prenuncio de um dia perfeito. Começou seu passeio pela subida do morro no final da rua. Esforçou-se propositalmente para ficar cansado e suado. O vento gelado vindo do sudoeste já soprava folhas por todos os lados. Subiu com os olhos quase fechados temendo que a areia viesse carregada pelo vento.

Após minutos de extenuante subida, la estava ele, no alto do morro.
Desceu pedalando a toda velocidade mirando o pequeno pier na praia, onde pequenos barquinhos se balançavam de um lado para o outro, açoitados pelas ondas.

Morten disparou, e foi ganhando velocidade. Os grossos pingos da chuva lhe chicoteavam o rosto. A velocidade aumentando. O chão, o vento. A loucura. Desceu como uma bala pela plataforma de madeira até o final quando saltou da bicicleta e se deixou voar pelo ar até a água assustadoramente preta lá em baixo. Mergulhou numa explosão de bolhas e desceu ao fundo. Desceu, desceu… A água escura. O frio…

Perdeu, enfim, a velocidade, e começou a nadar para cima. Nadou mas algo estranho aconteceu. Parecia não sair do lugar. Ele estava no escuro, debaixo dágua. O pulmão ardendo. Batia as pernas com força, mas a fraca luz lá em cima não parecia aumentar. A superfície estava longe. O ar esgotando. Ele começou a se desesperar.

Forçou o corpo. Era o momento do tudo ou nada. Sentia a adrenalina correr nas veias. O coração batendo feito louco e o pulmão queimando… Bateu os braços e pernas como podia. Mas não chegava a superfície. Foi ficando tonto. Tentava como podia chegar lá em cima, mas por mais que nadasse, havia uma enorme massa de água a percorrer.  Ele precisava subir, precisava nadar mais e mais, porém, o corpo negou-lhe as forças. Seu corpo lhe traiu da pior maneira. O pulmão entrou em modo automático e aspirou água. Imediatamente começou a convulsionar numa tentativa de tossir, e se sacudiu como um boneco de pano, puxado pela correnteza. Seu ultimo pensamento nem sequer foi um pensamento. Foi um desejo do colo da mãe dele.
E tudo se apagou. Quando ele recobrou a consciência, tinha um velho feio pra caramba olhando pra cara dele falando um monte de coisa incompreensível. Ele não entendia. Sentiu a nuca doendo, rígida. O frio veio.
O velho parecia estar falando dentro dum garrafão. Ele falava, falava, estava bravo. Gesticulava no ar. Apontava o dedo. Quem era aquele? O que estava acontecendo?

Morten tentou se levantar com dificuldade. Estava na praia, na beira do pier. O homem gradualmente foi ficando mais e mais real. Estava mesmo ali. Era um velho pescador que veio amarrar o barco e o encontrou boiando semi-morto entre os botes. A chuva caía copiosamente na praia. O velho gritava e babava, puto. Faça ideia o susto do velho pescador.

– Você desafiou o anjo da morte!  – Ele disse, apontando para o céu aquele dedo magro e carcomido.
O rapaz nem quis  discutir. Apenas concordou balançando a cabeça.

– O anjo da morte não vai lhe deixar sair dessa, garoto! Você estava morto. Eu vi. Eu te tirei de lá. Eu te arranquei dos braços dele. O Anjo da morte ia te levar para o fundo! Foi difícil de te puxar de volta! – O velho dizia.

Morten sentiu o cheiro do uísque barato no ar, disfarçando o odor de podre daqueles dentes amarelo-ouro.
O velho disse que o tal “anjo da morte” iria cobrar aquela fatura, cedo ou tarde, arrastando uma alma para seu reino em compensação por sua vida. Uma espécie de toma-lá-dá-cá obscuro.

Morten se levantou e agradeceu sem conseguir falar direito. Estava frio.
O velho ainda berrava palavrões, dizendo que ele era maluco, que era para ir pra casa, que embora estivesse feliz de estar vivo, isso significaria que “ele logo iria perder alguém para o anjo da morte”  e toda sorte de coisas sem sentido.

Morten Carlson pediu desculpas mais uma vez e saiu, dando as costas ao velho. Caminhou até o alto do píer onde ainda estava sua bicicleta cheia de lama e areia. Montou na magrela e voltou na direção do morro. Tossia muito. Respirar doía. Estava ainda com água nos pulmões, com certeza. A dor era horrível. Quase não tinha forças para pedalar morro acima. A chuva inclemente derramava-se sobre a paisagem escura dos morros amarelados.
Então, quando já estava quase chegando ao cume do morro Morten ouviu um “Craaak” e uma explosão de luz. O som foi tão alto que quase parou seu coração de susto. Ele olhou para a praia. No pier, junto a areia, estava o corpo do velho pescador, fulminado por um raio.
O rapaz desceu o morro novamente com a bicicleta, para encontrar o corpo do velho caído na areia quente… Estava todo preto. Uma carcaça magra fumegante, carbonizado em meio a uma mancha escura na areia que ainda soltava vapor pra tudo que era lado.

Morten Carlson nunca mais se esqueceu daquela imagem horripilante e das palavras sobre o “Anjo da morte”, e que um dia, ele iria “cobrar sua fatura”. Teria o anjo se vingado do velho que o arrancara de suas garras?

….

Agora ali estava ele, num planeta desconhecido, debaixo d´água, descendo sem parar rumo ao fundo, arrastado pela perna por alguma coisa que sem dúvida, iria comê-lo. Foi perdendo as forças e as sensações tão antigas, do tempo do mergulho no pier voltaram. Talvez fosse seu destino, descer e acabar na escuridão gélida de águas turvas, arrastado pelo “anjo da morte”.

Foi perdendo as forças e se entregou. Estava pronto. Era assim que devia acabar? Pois que acabasse.

Morten arregalou os olhos num grito. Era um pesadelo! Havia dormido encostado na pedra.
Ali estava ele. O lago lá em baixo era um azul magnífico.
Morten gritou um palavrão que ecoou nas paredes de rocha da grande cratera. Sentiu um dos maiores alívios de sua vida.
Sua atenção foi então atraída para um curioso ruído que vinha do seu bolso. Era do aparelho de Ramsés. Estava apitando e uma voz metalizada saiu dele, falando em chinês.

Era a voz de uma mulher.

CONTINUA

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