O crânio – Parte 2

No dia seguinte, enquanto o carro percorria seu caminho de volta ao Rio, Bruno segurava a pedra da caveira em suas mãos. Era curiosamente pesada. Mais pesada do que parecia à primeira vista. E aquela pedra parecia diferente, um tipo de rocha que ele nunca tinha visto até então.

Já estava de noite quando chegaram em casa. Logo ao entrar, Gil achou um telegrama debaixo da porta.

-Ué.

-Que isso? – Perguntou Sandra.

-Opa, estou sentindo uma coisa boa aqui! – Disse Gil animado, rasgando com empolgação o envelope da carta. – Deve ser resposta da empresa que ficou com meu currículo.

A expressão de Gil foi da alegria à decepção em segundos.

-Bosta.

-Não fica assim, Gil. É só mais uma empresa. – Disse Sandra, levando as bolsas para a cozinha.

-Só mais uma recusa. O que? A sexta nesse mês? Como vamos pagar as contas, porra? – Ele disse, jogando-se pesadamente no sofá.

Bruno sentiu pena do pai. Sandra parecia insensível ao pesar daquele homem. Ela saiu, foi para o quarto, sem dizer uma palavra. Bruno percebeu que o pai olhava pela janela para disfarçar que estava chorando. Sem saber bem como reagir, o rapaz pegou a pedra da caveira e foi para o quarto. O pai ficou sozinho na sala, segurando a carta embolada numa bola de papel.

Bruno deitou na cama e ligou a Tv. Mas não deu. Já tinham cortado o sinal da Tv a cabo por falta de pagamento.

Ele desligou a tv e ficou contemplando sua pedra de caveira. Resolveu arrumar um lugar de destaque para ela na decoração do quarto. Tirou alguns livros da prateleira em frente a cama, jogou-os no armário da bagunça. Bruno também esvaziou a caixa de canetas velhas, que era uma antiga caixa de charutos envernizada com madeira escura. Emborcou a caixa e posicionou sua caveira em cima.

A base de madeira havia valorizado bastante aquela pedra, mas não era o suficiente. Ele então pegou uns incensos no quarto da mãe e colocou ao lado da pedra. Ao fundo, ele ouviu o telefone tocando. Ninguém fazia menção de entender. Nem o pai e nem a mãe. Bruno lembrou-se do pai apático no sofá. Desgostoso da vida.  Tentou abstrair os problemas. Concentrou-se na decoração do pequeno altar de sua caveira.

-Agora sim, ele disse sorrindo para a caveira de pedra.

O telefone continuava a tocar, e logo parou. Bruno ouviu os gritos de sua mãe, mandando ele pegar na extensão.

-Alô?

-Coé?

-Quem ta falando?

-O dono do seu cu. Rá,rá,rá!

-Ah, porra Guilherme, vai a merda.

-E aí Brunão? Tu estudou pra prova de amanhã, véio?

-Puts, meu. Não, esqueci os livros em casa.

-Caralho, vacilão. E agora? Se tu bombar nessa final vai repetir teoria da comunicação! Dona Sandra sabe que tu esqueceu os livros aí?

-Nada.  Nem falei com os velhos.

-Hummm. Vamos ver quanto tu vai me pagar pelo meu silêncio, hehehe.

-Vai virar no chantagista barato, é? Tá esquecendo seus telhados de vidro, sua bicha? e aquela chopada da medicina quando você beijou aquele cara cabeludo pensando que era uma mina? Ainda tenho aquela foto, hein?

-Porra, tomá no cu se foder!

-E aí?

-Cara tu não vai estudar não? No teu lugar se eu tivesse penduradaço assim, eu tava estudando feito um filho da puta, hein? Tu fica levando na zoeira, vai acabar sendo jubilado igual o Bussunda.

-É, eu sei… Mas ta foda. Tô sem cabeça, cumpadi. A treta aqui em casa tá séria.

-É o lance com teu velho?

-Chegou outro telegrama recusando ele, Gui.

-Coitado do seu Gil. Que merda, cara.

-Na idade dele não é fácil. E, porra a minha mãe ta pegando pesado. Discutem toda noite.

-Porra tua mãe também é foda, né?

-As contas tão todas atrasadas, nego fica olhando de cara feia no condomínio. Ela que pega esse perrengue, porque meu pai mal sai da toca. Agora cortaram a Tv a cabo e a internet, acho que a próxima foda vai ser cortarem o telefone.

-Não, foda mesmo é quando cortam a luz, véio.

-Puta, não tinha pensado nisso.

-Seja como for, prepara umas velas aí, hehe. Te adianta.

-Boa ideia vou ate colocar aqui no altar…

-Altar?

-Então, fomos la na casa do meu tio, né? Aquele lance de viagem para melhorar o clima na casa que eu tinha te falado, mas foi um cu, eles brigaram o tempo todo, só dando climão. Tinha que ver o show de indiretas. Gui, se vergonha alheia matasse, eu tinha ido pro IML nesse fim de semana.

-Mas o que tem a ver com altar essa porra?

-É que eu achei uma pedra fodástica. Em forma de caveira. Maneiríssima. Aí botei aqui pra decorar no quarto.

-Tu achou uma caveira?

-Não uma pedra.

-Mas pedra? Pedra ou caveira, caralho?

-Uma pedra em forma de caveira, seu jumento.

-Ah, entendi. cê também explica mal pra caralho as coisas, porra. Mas aí, mudando de assunto.

-Fala.

-Te liguei pra te dar uma má notícia cara.

-Ah, não, não vem dizer que tu ligou pra me falar dela.

-É da Bia mesmo, veio.

-Fala logo.

-Cara a Verônica do terceiro período me disse que a Bia ta namorando um cara lá da Engenharia.

-Ah, não fode.

-Melhor tu saber antes do que dar de cara com ela se pegando com o maluco. E meu, tu tem que ver o galalau… O Zé Ruela que pegou ela, cara. Neguinho ficou de cara…

-Tá, chega.

-Não, calmaí que tem mais.  E ela tá toda apaixonadinha, meu.

-…

-E aí?

-…

-Alô? Alô?

-Fala.

-Ficou mudo? Falou aí? Tu ouviu que ela tá toda apaixonadinha?

-Ouvi.

-Tu… Tu não ta chorando aí né Bruno?

-Claro que não, porra. – Disse Bruno, tentando disfarçar a voz trêmula e enxugando as lagrimas dos olhos que insistiam em nebular sua visão.

-Bom, vou nessa. Maluco, passa a madrugada estudando, senão tu vai se foder, hein?

-Tá, valeu, Gui. Amanhã a gente se vê.

-Ah, calmaí, calmaí! Alô? Alô?

-Fala véio.

-E aquele exame?

-Sei não. Fizemos a parada lá semana passada, mas a consulta é só amanhã. Minha mãe disfarça mas ta preocupadaça, até porque ela sabe que cedo ou tarde vão cortar o plano de saúde da gente aí. Por enquanto ela pagou por fora lá com o amigo do meu pai, mas se a merda continuar assim, fodeu.

-Mas tu voltou a ter aquela crise de vômito?

-No fim de semana foi tudo bem. Fiquei meio tonto de vez em quando, mas tirando as dores de cabeça, tudo pareceu normal. Nem tive as dores nas juntas mais. Acho que o clima da montanha fez bem.

-Bom, então beleza. O dono do teu cu vai desligar agora.

-Um abraço ao meu amigo pegador de homem cabeludo.

-Tomá no cu se fodê.

Bruno desligou o telefone e deitou-se na cama. Só conseguia pensar na Bia abraçada com um pleissom. Como ela podia ter feito aquilo com ele? Depois daquela carta, de todas as poesias? Depois que ele havia aberto o coração pra ela…  – Desgraçada… – Ele sussurrou.

A porta do quarto se abriu. Era Gil. O pai de Bruno veio e sentou-se em silêncio na beirada da cama do filho.

-E aí velho?

Gil não disse nada. Bruno abraçou o pai. Sentiu no silêncio daquele abraço que o pai soluçava.

-Calma velho. Tu vai conseguir…

-Não é isso. Isso é o de menos, filho. É que essa porra ta mexendo com a cabeça da sua mãe.  – Gil limpou os olhos.

-Empregos vão e vem, pai. O mundo agora é assim.

-Eu tô falando do seu problema. Ela ta preocupada. Tá com medo.

-Relaxa pai!

-Filho, o médico ligou pra ela hoje de manhã quando estávamos lá em cima.

-Ligou?

-Ligou.

-E disse o que?

-Ele ta preocupado com os exames. Saíram os resultados. Ele vai explicar melhor amanhã.

-E a mãe?

– Ela ficou tão abalada que não quer nem falar sobre isso. Se ela falar, ela desaba. Não vai ser fácil, mas você tem que saber que vamos enfrentar essa porra juntos, filho.  – Disse Gil apertando Bruno. – Meu menino… Meu menino…

-Relaxa, pai.

Gil tentou mudar de assunto, melhorar o clima. – Que isso? Vai deixar essa coisa aí de frente pra sua cama, filho?

-Eu… fiz… um altarzinho pra ela.

-Filho… Isso… isso aí não é legal. Não traz uma coisa boa. Você devia se livrar dessa pedra.

-Ah, não, ai. É bem maneira. Olha pra ela, alucinante. É só uma caveira, pai. No fundo a gente é caveira, né?

-Sei lá. Não traz uma coisa boa. Você sabe, eu sinto essas coisas, foi como quando eu dizia que “Mamonas Assassinas” não era um bom nome para aquela banda, né? Você viu no que deu.

-Ah, pai, relaxa. É uma pedra. Só uma pedra, pô.

-Bom, você que sabe.  Quarto é teu. Se quiser botar foto de mulher pelada, pichar a parede, você que sabe. Não vou me meter, você ta bem grandinho. Agora eu não gosto dessa coisa, e você já sabe disso. Boa noite.

-Té manhã, pai.

Gil fechou a porta. Bruno ficou em silêncio, ouvindo o radio baixinho. Sua mente fervilhava de pensamentos, entre as imagens de Bia abraçada com outro homem, a prova final do dia seguinte, onde ele precisava tirar no mínimo nove para conseguir passar na disciplina, a doença misteriosa, o desemprego do pai. Ele precisava trabalhar. Os pais não queriam, faziam de tudo para que ele não trabalhasse, e apenas se concentrasse em estudar, mas qual pessoa normal vê as contas da casa sendo cortadas uma a uma e não pensa em trabalhar para dar uma força nas contas? Ele precisava arrumar um emprego. Mas sem qualificação nem experiência, quem iria contratá-lo?

Bruno ficou olhando a caveira de pedra escura. Teve uma ideia. Faltava alguma coisa naquela pedra.

Ele foi até o armário da bagunça e pegou uma caixa velha de sapatos. Ali dentro, uma cartela de adesivos que brilham no escuro. Bruno descolou duas luas cheias e colou nos buracos das órbitas dos olhos da caveira de pedra.

Depois apagou a luz do quarto e ficou olhando aquelas bolas brilhantes levitando no escuro do quarto.

Bruno pegou no sono em poucos minutos, embalado pelo som do radio baixinho, que tocava musicas românticas.

Os sonhos foram estranhos, complexos, misturados, imagens que não pareciam se misturar em borrões de tinta e luz. Enfim, gradualmente os borrões foram se reorganizando, em bolhas, glóbulos, em giros num caleidoscópio de figuras estranhas. Gradualmente uma imagem foi se formando no foco. Era a caveira, a caveira de pedra, e em seus olhos, dois enormes diamantes azulados brilhando como faíscas de luz.

Bruno acordou assustado, banhado de suor. Já era de manhã. Ele olhou para a caveira de pedra diante dele. Viu as luas de starfix enfiadas nos olhos de pedra. Ele entendeu. A caveira queria olhos de diamante. A caveira estava se comunicando com ele.
CONTINUA

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