Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on email
Email
Share on whatsapp
WhatsApp

Estava tocando Reginaldo Rossi no radio do carro. Bruno odiava o Reginaldo Rossi e todas as musicas daquele sujeito brega. Mas o pai dele gostava. Além do mais, a musica do radio pifado em AM quebrava a monotonia da viagem.

-Porra pai, desliga essa merda aí!
-Ah, que isso, Bruno. Já vai acabar. É uma obra prima!
-Não vejo a hora de a gente trocar de carro, meu Deus! – Disse dona Sandra. – Com tanta rádio boa pra essa merda quebrar vai pifar logo nessa radio vagabunda AM.
-Pelo menos o carro ta andando, e a radio não é daquelas evangélicas, cheia de gritos e de gente pedindo dinheiro. – Riu o pai. E em seguida emendou o refrão. “…Sabia que o meu grande amor, hoje vai se casar, mandou uma carta pra me avisar…”
-Falta muito ainda, pai? – Perguntou Bruno.
-Pelo menos uma meia hora ainda.
-Cê falou isso meia hora atrás, Gil. – Disse dona Sandra.

O pai do Bruno retrucou. – É que eu não vou lá na granja do meu primo tem o que? Uns dez anos.

-Mais.

-É, pai, bem mais. Acho que quando fomos lá ainda era o Collor o presidente.

-Pois é. Mudou tudo. A estrada era de terra… Agora ta esse matagal miserável… Acho que me perdi em algum lugar perto da entrada de Visconde de Mauá.
-Eu disse que a entrada não era aquela. Eu lembro que tinha uma árvore…
-Ah, Sandra. Você se perde até no mercado, pô. Dá um tempo.

-Ai que fome. tô passando mal já. – Disse Bruno no banco de trás.
-Cabeça dura! Você é um cabeça dura mesmo! Não adianta falar! – Esbravejou Sandra.
-Lá lá lááááá…Você já cansou de escutar, centenas de casos de amor!
-Isso, me ignora mesmo. Vai nessa que você vai bem, Gil.
-Alé! Alá! Alá pai! Acho que é ali, hein? Alá ele!  É o Tio Carlito! – Gritou Bruno apontando pela janela do carro.
-Ah! Tá vendo? Tá vendo? Eu sabia! Viu Sandra? Viu? Quem é o cara? Quem é o cara? Diz aí! Pode dizer! Eu sou o cara! Eu! Rá! – Gritou Gil ao voltante.

O tio Carlos veio abrir a porteira. Chegou com cara feia, apontando o relógio.  – Porra Gil! Nego já comeu quase a carne toda do churrasco, meu!

-Foi Mal Carlito! Essa porra mudou tudo aí na estrada. Tá tudo diferente. Eu trouxe mais picanha!

-Não, Carlito. Ele errou mesmo a entrada! Eu disse que ia acontecer!

-Não fode Sandra. Você chegou, não chegou? Oulha aí. Vai se divertir, porra! Não enche! – Esbravejou Gil.

Bruno desceu do carro. Abraçou o tio.

-Cara o que tá havendo com seu pai? Nunca vi ele falar assim com a tua mãe… – Sussurrou o tio.

-Eles não estão bem desde que o papai foi demitido la do banco. A barra tá pesada lá em casa. – Disse Bruno em voz baixa.  Carlito disfarçou o mal estar:

-Mas gente, eu falei que era a terceira estrada depois da entrada pra Mauá! Eu perguntei se ele queria que eu desenhasse o mapinha!

-Nãããã, não precisa, ele é o senhor fodão que sabe tudo… Você conhece seu primo. – Rosnou Sandra, descendo do carro.

-E aí Sandroca? Tá com fome? Já tá saindo carne lá. O pessoal, olha aí, meu primo chegou! As meninas estão lá perto da piscina jogando biriba!

-Gil! Quem é vivo sempre aparece, hein? -Gritou um sujeito quase sem dentes na boca no meio da galera que estava fazendo o churrasco.

-Quem é morto também, mas nem sempre em boas condições.  -Gil respondeu.

Bruno achou graça na piada do pai. Era provavelmente a décima ou décima primeira vez que ouvia aquela mesma piadinha sem graça. Mas o jeito como Gil falava deixava bem engraçado.

O pai era bastante querido em meio aos amigos do tio Carlito, que Sandra costumava chamar de “esquadrão da pinga”.

Horas depois, todos entupidos de carne, frango e linguiça, bateu o sono. bêbado feito um gambá, o pai de Bruno caiu desmaiado no sofá da sala. Sandra e as outras esposas estavam conversando animadamente perto da piscina. Bruno pegou a máquina fotográfica e foi explorar a área, em busca de passarinhos.

Ele seguiu alguns sabiás e foi atraído por um belíssimo canário da terra, que voou perto dele. O animal pousou num barranco. Bruno fez varias fotografias, mas então, percebeu uma coisa curiosa. Enterrada bem abaixo onde estava o passarinho, estava uma pedra, que parecia sorrir pra ele.

Bruno adentrou o matagal que havia crescido até a altura do joelho. Desviou de espinhos e foi até o barranco. Ali estava a pedra. Era uma pedra arredondada, como um enorme seixo de rio, bem lisa, bem polida. Mas o que chamava a atenção era sua forma. A pedra havia sido esculpida em forma de um crânio. Com dificuldade, Bruno conseguiu tirar a pedra do solo ressecado. Era uma caveira perfeita de pedra.

Ele levou a caveira pra casa da granja.

-Que isso, mané?  – Perguntou um dos amigos do Tio Carlito.

-Achei no barranco daquele terreno lá atrás.

-Porra que legal, parece uma caveira.

-Que troço feio Bruno! – Disse Carlito,enquanto lavava a louça do churrasco.

-Ah, deixa o moleque, Carlito.

-Sei lá. Tava enterrado isso aí?

-Tava, tava enterrada la no barranco. – Disse Bruno, olhando para a pedra. Ele foi até a pia e lavou a caveira. O caldo vermelhão de terra escorreu para o ralo. A pedra pareceu mudar de cor.

-Nossa, ficou linda! – Disse Carlito.

-Tio, cê acha que isso é natural ou alguém esculpiu?

Logo um impasse havia se estabelecido. Metade dos cachaceiros pós churrasco apostavam que era escultura, outros diziam que aquilo era uma formação natural.

Buno Resolveu ficar com a caveira.

CONTINUA

 

O crânio

Comments

comments

Estava tocando Reginaldo Rossi no radio do carro. Bruno odiava o Reginaldo Rossi e todas as musicas daquele sujeito brega. Mas o pai dele gostava. Além do mais, a musica do radio pifado em AM quebrava a monotonia da viagem.

-Porra pai, desliga essa merda aí!
-Ah, que isso, Bruno. Já vai acabar. É uma obra prima!
-Não vejo a hora de a gente trocar de carro, meu Deus! – Disse dona Sandra. – Com tanta rádio boa pra essa merda quebrar vai pifar logo nessa radio vagabunda AM.
-Pelo menos o carro ta andando, e a radio não é daquelas evangélicas, cheia de gritos e de gente pedindo dinheiro. – Riu o pai. E em seguida emendou o refrão. “…Sabia que o meu grande amor, hoje vai se casar, mandou uma carta pra me avisar…”
-Falta muito ainda, pai? – Perguntou Bruno.
-Pelo menos uma meia hora ainda.
-Cê falou isso meia hora atrás, Gil. – Disse dona Sandra.

O pai do Bruno retrucou. – É que eu não vou lá na granja do meu primo tem o que? Uns dez anos.

-Mais.

-É, pai, bem mais. Acho que quando fomos lá ainda era o Collor o presidente.

-Pois é. Mudou tudo. A estrada era de terra… Agora ta esse matagal miserável… Acho que me perdi em algum lugar perto da entrada de Visconde de Mauá.
-Eu disse que a entrada não era aquela. Eu lembro que tinha uma árvore…
-Ah, Sandra. Você se perde até no mercado, pô. Dá um tempo.

-Ai que fome. tô passando mal já. – Disse Bruno no banco de trás.
-Cabeça dura! Você é um cabeça dura mesmo! Não adianta falar! – Esbravejou Sandra.
-Lá lá lááááá…Você já cansou de escutar, centenas de casos de amor!
-Isso, me ignora mesmo. Vai nessa que você vai bem, Gil.
-Alé! Alá! Alá pai! Acho que é ali, hein? Alá ele!  É o Tio Carlito! – Gritou Bruno apontando pela janela do carro.
-Ah! Tá vendo? Tá vendo? Eu sabia! Viu Sandra? Viu? Quem é o cara? Quem é o cara? Diz aí! Pode dizer! Eu sou o cara! Eu! Rá! – Gritou Gil ao voltante.

O tio Carlos veio abrir a porteira. Chegou com cara feia, apontando o relógio.  – Porra Gil! Nego já comeu quase a carne toda do churrasco, meu!

-Foi Mal Carlito! Essa porra mudou tudo aí na estrada. Tá tudo diferente. Eu trouxe mais picanha!

-Não, Carlito. Ele errou mesmo a entrada! Eu disse que ia acontecer!

-Não fode Sandra. Você chegou, não chegou? Oulha aí. Vai se divertir, porra! Não enche! – Esbravejou Gil.

Bruno desceu do carro. Abraçou o tio.

-Cara o que tá havendo com seu pai? Nunca vi ele falar assim com a tua mãe… – Sussurrou o tio.

-Eles não estão bem desde que o papai foi demitido la do banco. A barra tá pesada lá em casa. – Disse Bruno em voz baixa.  Carlito disfarçou o mal estar:

-Mas gente, eu falei que era a terceira estrada depois da entrada pra Mauá! Eu perguntei se ele queria que eu desenhasse o mapinha!

-Nãããã, não precisa, ele é o senhor fodão que sabe tudo… Você conhece seu primo. – Rosnou Sandra, descendo do carro.

-E aí Sandroca? Tá com fome? Já tá saindo carne lá. O pessoal, olha aí, meu primo chegou! As meninas estão lá perto da piscina jogando biriba!

-Gil! Quem é vivo sempre aparece, hein? -Gritou um sujeito quase sem dentes na boca no meio da galera que estava fazendo o churrasco.

-Quem é morto também, mas nem sempre em boas condições.  -Gil respondeu.

Bruno achou graça na piada do pai. Era provavelmente a décima ou décima primeira vez que ouvia aquela mesma piadinha sem graça. Mas o jeito como Gil falava deixava bem engraçado.

O pai era bastante querido em meio aos amigos do tio Carlito, que Sandra costumava chamar de “esquadrão da pinga”.

Horas depois, todos entupidos de carne, frango e linguiça, bateu o sono. bêbado feito um gambá, o pai de Bruno caiu desmaiado no sofá da sala. Sandra e as outras esposas estavam conversando animadamente perto da piscina. Bruno pegou a máquina fotográfica e foi explorar a área, em busca de passarinhos.

Ele seguiu alguns sabiás e foi atraído por um belíssimo canário da terra, que voou perto dele. O animal pousou num barranco. Bruno fez varias fotografias, mas então, percebeu uma coisa curiosa. Enterrada bem abaixo onde estava o passarinho, estava uma pedra, que parecia sorrir pra ele.

Bruno adentrou o matagal que havia crescido até a altura do joelho. Desviou de espinhos e foi até o barranco. Ali estava a pedra. Era uma pedra arredondada, como um enorme seixo de rio, bem lisa, bem polida. Mas o que chamava a atenção era sua forma. A pedra havia sido esculpida em forma de um crânio. Com dificuldade, Bruno conseguiu tirar a pedra do solo ressecado. Era uma caveira perfeita de pedra.

Ele levou a caveira pra casa da granja.

-Que isso, mané?  – Perguntou um dos amigos do Tio Carlito.

-Achei no barranco daquele terreno lá atrás.

-Porra que legal, parece uma caveira.

-Que troço feio Bruno! – Disse Carlito,enquanto lavava a louça do churrasco.

-Ah, deixa o moleque, Carlito.

-Sei lá. Tava enterrado isso aí?

-Tava, tava enterrada la no barranco. – Disse Bruno, olhando para a pedra. Ele foi até a pia e lavou a caveira. O caldo vermelhão de terra escorreu para o ralo. A pedra pareceu mudar de cor.

-Nossa, ficou linda! – Disse Carlito.

-Tio, cê acha que isso é natural ou alguém esculpiu?

Logo um impasse havia se estabelecido. Metade dos cachaceiros pós churrasco apostavam que era escultura, outros diziam que aquilo era uma formação natural.

Buno Resolveu ficar com a caveira.

CONTINUA

 

O crânio

Comments

comments

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp

7 ideias sobre “O crânio

  • 27 de novembro de 2015 em 15:44
    Permalink

    Eitaa! Lá vem mais um conto do capiroto! =D

    Resposta
  • 28 de novembro de 2015 em 3:29
    Permalink

    Eba! Estava com saudades dos contos, espero que se una a fantasia criada já em outros contos, adoro como todos seus contos parecem se passar num mesmo mundo.

    Resposta
  • 28 de novembro de 2015 em 10:42
    Permalink

    Eitaa! Lá vem mais um conto do capiroto!2

    Resposta
  • 1 de dezembro de 2015 em 13:00
    Permalink

    eita… ai sim! Mais um conto do capiroto! rs…

    Resposta
  • 2 de dezembro de 2015 em 16:27
    Permalink

    Tinha deixado um pouco as leituras bacanas por causa do fim de semestre na faculdade.
    Qual não foi minha surpresa e felicidade ao entrar aqui e encontrar um conto novinho e emocionante!
    Devorando tudo! 🙂

    Resposta
  • 12 de abril de 2016 em 17:17
    Permalink

    Esse conto faz parte do Universo de As Crianças da Noite, A Busca de Kuran, A Caixa e A Cadeira Obscura e O Caçador?

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Eu dei duro aqui

Com 15 anos de sangue suor e lágrimas, eu me esforcei para fazer um dos blogs mais antigos e legais do Brasil. Mis de 5000 artigos, mais de 100.000 comentários, mais de 20 livros, canal, programa de rádio, esculturas... Manter isso, você pode imaginar, não é barato. Talvez você considere me apoiar no Patreon e ajudar o Mundo Gump a não sair do ar.
Ajuda aí?

Conheça meus livros

error: Alerta: Conteúdo protegido !!