O crânio – Parte 10

Gui estava vomitando lá perto da árvore.

-É uma bicha louca mesmo! – Gritou Bruno.  O amigo apenas estendeu o dedo do meio como resposta.

Fazia frio. Estava ventando e o bicho ainda estrebuchava, apesar de amarrado. O corpo dava os últimos solavancos até que a morte enfim chegou.

No tupperware roubado de dona Sandra, aos pés do cabrito preto que foi um suplício para encontrar e comprar, o sangue ia se derramando em ejeções do corte no pescoço do animal.

Gui voltou limpando a boca na manga do casaco.  – Merda. Merda cara… Isso não foi legal. Pobre infeliz do bodinho. Não sei como eu entro nessas roubadas com você! Só programa de índio!

-Ou faço isso ou a doença vai voltar. – Respondeu Bruno, estendendo o corte com o facão de churrasco, afim de juntar mais sangue.

-Ele já…

-Já. Morreu quando você tava vomitando lá na árvore.

-E agora?

-Que horas tem aí?

-Quinze pra meia noite. – Disse Gui iluminando o relógio com a lanterna.

-Tá na hora de fazer a fogueira, Gui.

-Porra cara. Tem certeza? Se nego vê a gente aqui nesse descampado perto da estrada com bode morto e fogueira pode dar merda, hein?

-Liberdade de culto, “meufí”!  A lei garante!

-É, mas bode preto e fogo é coisa do mal, né maluco?

-Do mal é morrer de câncer porque fiquei de frescuragem. A velha maluca lá pediu o bode. Vou dar o bode. Afinal, valeu à pena.

Gui deu de ombros. Foi até o carro perto da cerca de arame farpado que estava a uns vinte metros da estrada deserta. Pegou o grrafão de álcool, o isqueiro e os jornais no carro.

Voltou correndo. Enquanto Gui pegava tocos de madeira pelo pasto para montar a fogueira, Bruno recolheu as últimas gotas do sangue do bode. Havia enchido um pote médio de plástico.

Ele largou o pote com sangue no chão de grama e se juntou ao amigo na busca por madeira. Acharam uma tora de tamanho expressivo completamente carcomida por cupins. Foi fácil de quebrar a madeira, mas saiu cupim para todo lado.

-Cuidado que essa porra morde, Gui!

-Acho que essa madeira está úmida. Será que vai queimar?

-Ah, foda-se. Ela falou “fogueira” não especificou se é grande, pequena, mirrada ou parruda. Qualquer foguinho deve funfar!

Eles juntaram as folhas, galhos e troncos num pequeno montinho sobre um bololô grande de jornais.

-E a hora, Gui? – Perguntou Bruno ajeitando a montanha de galhos sobre a cama de jornais.

-Tá na hora parceiro!

-Traz lá o copo!

Gui correu no carro e voltou com uma taça de vinho grande.

-Bruno virou com cuidado o pote de sangue e encheu a taça. Ele ergueu a taça cheia do sangue escuro no ar.

-Vai! Acende essa merda! -Gritou para Gui.

Gui derramou o garrafão de álcool no monte de jornais. Em seguida acendeu com o isqueiro uma tocha de papel e lançou no fogo. Foi instantâneo. Uma gigantesca labareda acendeu-se diante deles.

Gui assentiu com a cabeça para Bruno, enquanto olhava o relógio na luz do fogo. Bruno então derramou o copo de sangue na própria cabeça.

-Gui teve uma nova ânsia de vômito.

-Não vai vomitar, porra!

-Desculpa, foi mal! É que unnng…  – Disse golfando.

Bruno se abaixou e encheu novamente a taça. O sangue escorria por sua cabeça, derramava-se sobre seus olhos e escorria sobre sua boca. Estava frio.

Concentrado, o jovem ergueu a taça de sangue e a lançou sobre o fogo, gritando: – Assim cumpro o pacto pela minha saúde! Mestre… mestre… mestre!

Foi quando uma explosão aconteceu em meio as chamas. Bruno e Gui caíram longe. Estupefatos, os dois viram uma figura de pé no meio das chamas. Era um homem de barba, magro, com um terno preto com riscas de giz, que aparentemente era “do tempo do Onça” a julgar pelas ombreiras e o lenço despontando no bolso do paletó. Seu terno preto sem gravata contrastava com uma camisa laranja no mesmo tom do lenço. Ele usava calças boca de sino e o fogo não o queimava e nem as suas roupas.

O cabelo era grande, sem ser comprido, um corte típico dos anos setenta. Sobre a barba de tamanho médio, destacavam-se seus olhos fundos e uma expressão maligna. O homem estava de braços cruzados e começou a sorrir macabramente olhando para os dois amigos caídos no pasto.

Ele lentamente saiu do meio do fogo e andou até Bruno, que estava estático, sem ação com os olhos arregalados.

Gui desmaiou ao ver a cena.

O homem veio até eles. Olhou para Bruno e esticou sua mão ossuda e comprida para que ele se levantasse. Bruno hesitou em pegar na mão do homem estranho, mas arriscou. Ela era fria e um tanto pegajosa.

Bruno fez uma expressão de nojo pela sensação. E finalmente o homem falou com sua voz rouca.

-Desculpe, ainda não acabei o processo de materialização.  Vai levar uns dias para o meu estado vibracional ficar certo.

-Quem.. Quem é o se-se-senhor? – O jovem balbuciou, tentando limpar o sangue do bote que lhe melecava o rosto.

-Acalme-se, menino. Não sou o demônio não. -Riu o homem. Ele era alto, devia medir quase dois metros de altura. Meu nome é… Bem, não interessa, não é mesmo? Você me libertou e graças a isso, lhe sou grato. Eu só quero que você me diga duas coisas, garotão:

-Sim senhor!

-Qual é o ano que estamos?

-Dois mil e dez.

-Dois mil e dez? – O homem parecia espantado. – Tem certeza moleque?

-Sim… Sim senhor.

-Você esteve com a Augura?

-Hã?

-Uma velha. Uma velha feia pra caramba.

-Vi. Vi sim senhor. Ela que me mandou…

-Shhh. Quieto. O que ela disse? Ela falou que era para me dizer alguma coisa?

-Não… Não senhor.

-Tem certeza? Ela devia me dizer uma coisa, mandar uma mensagem. Ela não te deu nada para me entregar?

-Não, não senhor.

-Certo. -Disse o Homem estranho, com visível desagrado. Ele olhou para as estrelas por alguns segundos. Parecia que estava lendo algo. Sua boca murmurava palavras desconexas incompreensíveis, talvez numa língua desconhecida.

O homem deu as costas para Bruno. Não se despediu, nada falou. Apenas virou-se de costas e foi andando. Deu uns quarenta passos em direção a escuridão do pasto e tão logo começou a se afastar foi se desfazendo numa bruma escura até que poucos segundos depois não havia qualquer sinal dele. As chamas crepitavam com belos tons de amarelo e laranja. Bruno correu para sacudir o amigo.

-Gui! Gui!

Finalmente, depois de ensopar a cara do amigo de tabefes, ele recobrou a consciência. Levantou-se com dificuldade.

-Pu…Puta merda. O que foi aquilo? Você viu? Saiu um… Exu, meu. Um exu de dentro do fogo maluco! Puta que me pariu! Ninguém vai acreditar nessa caralha. Tem noção da merda que você arrumou, Bruno?

-Eu falei com ele cara!

-Sério? Tá de zoeira. Você falou com aquilo, maluco?

-Eu falei.

-O que ele disse?

-Eu… Eu não entendi porra nenhuma. Ele perguntou… Sei lá. Se a velha deixou recado para ele.

-Recado?

-Eu disse que não e ele saiu andando e… Sumiu.

-Como sumiu?

-Sumiu numa nuvem preta, cara. Tipo o noturno dos X-men, véio! Tá ligado aquele “banf”?

-Que merda… Que merda. Devia ter filmado essa porra. Quem vai acreditar nisso?

-Ou!

-Que?

-Você prometeu que nunca ia falar disso com ninguém vacilão.

-Ah, mas eu me referia ao bodinho, pobre coitado. Mas não ao… ao Exu capa preta sair do fogo na minha frente, véi!

-Meu, vamos embora. Daqui a pouco dá polícia aí e fudeu…

-Ninguém faz churrasco de bode de madrugada né?

-Vamos! Vamos!

Bruno e Gui correram até o carro. Antes de entrar, Gui jogou uma toalha para Bruno.

-Se limpa direito! Se tu sujar o batmóvel de sangue eu te mato!

-Ok, ok, bichona louca. Tinha que ver você desmaiando igual uma biba quando o homem do fogo apareceu…

-Vai à merda!

Gui acelerou o carro.

-Ou! Vai matar a gente, vacilão!

-Devagar o caralho! Bora logo que esse cheiro aí ta me enjoando! Você precisa dum banho pra ontem, maluco!

CONTINUA

 

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4 comentários em “O crânio – Parte 10”

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