A cadeira obscura

Ouvi essa história de um amigo meu de infância, que sempre foi um cara estranho. De modos contidos, óculos fundos de garrafa e um dente quebrado bem no meio do sorriso, Renato nunca foi um cara comum. Na escola algumas pessoas implicavam com ele e com seu jeito desengonçado de jogar futebol, mas ele nunca pareceu dar importância a esses detalhes da vida.

Perdi o contato com Renato quando ele se mudou da nossa cidade quando o pai dele foi promovido. Foi morar na Europa e sumiu. Um certo dia eu estava num restaurante comendo na hora do almoço quando levei um tapa nas costas. Para minha surpresa, ali estava Renato, tão estranho quanto no dia em que partiu. Fazia frio naquele dia e ele estava enfiado num pesado casacão escuro. Usava um espesso cavanhaque que escondia metade da cara dele, quase que um cover do Raul Seixas, se não fosse pela calvície. O pouco cabelo que lhe restava estava preso num ridículo rabinho de cavalo. Ele se sentou comigo à mesa e antes que falasse qualquer coisa notei seus antiquados óculos e percebi que o dente quebrado, sua marca registrada continuava igual.

Ele estava com saudades. Perguntou de todos os nossos amigos: Do bola, do macarrão, o Claudinho da dona Zélia. Até dos gêmeos da rua quinze ele perguntou, justamente dos caras que espancavam ele quando a gente era moleque.

Papo vai, papo vem, perguntei a ele no que ele estava trabalhando e ele me contou que havia virado um antiquário, e havia aberto uma loja em Munique. A vida para ele aparentemente ia bem, mas no decorrer da conversa, notei que algo não estava bem de fato. Anos de amizade nos levam a conhecer muito bem certas pessoas e não sei explicar como isso ocorre plenamente com os amigos de infância. Eu conhecia aquele cara, sabia há uma légua de distância quando ele estava rodeando para falar alguma coisa, quando tinha um segredo.

-Tá, fala logo.

-Falar o que?

-Fala, porra. Sei que tu quer me falar alguma coisa. – Eu disse, acenando para que o garçom trouxesse dois chopps para nós.

-Você tá com tempo? – Ele me perguntou, olhando fixamente nos meus olhos.

-Claro porra. Não te disse que tô desempregado? Conta aí? O que ta pegando? Tu não tá… – Eu disse, apontando o nariz.

-Não, porra. Que isso. Não uso essas merdas, você sabe. Sou contra.

-Na verdade, acho que você não precisa. Você saiu doidão do cu da sua mãe!

Ele deu uma gargalhada que espantou os comensais do restaurante.  – Ah, que saudade dessa delicadeza do Brasil. – Disse.

O Garçom trouxe o chopp. Ele pediu logo outro, escuro. Disse que não bebia do claro. Envergonhado, percebi que me esquecera daquele detalhe importante. Eu que achava que conhecia tão bem o Renato, baixei os olhos de vergonha, dizendo: – Ainda não parou essa viadagem?

Era sua idiossincrasia. Ele não tomava chopp nem cerveja amarelos. Só preto. Vendo o garçom sem jeito, peguei o chopp que era dele e disse:

-Traz negão lá pra esse bichona aí e deixa essa loura gelada aqui comigo.

Retomamos a conversa já armados com nossas devidas tulipas. Antes, um tintim seguindo do nosso lema “Que o tesão nunca migre para o cu!”

Batemos as taças e enchemos a boca com a espuma cremosa e gelada.

-Cara… Fudeu. – Ele disse, limpando o bigode na manga do casaco.

-Quando começa assim, já vi que deu merda.

-O que eu vou te contar, você jura que não vai contar pra mais ninguém? – Ele perguntou. Jurei, atenuando meu desconforto com a afirmativa enquanto pensava: Juro que não conto, mas não juro que não escrevo.

Então aqui está o que ele me contou. Vou ser breve, porque tenho mais o que fazer e certamente, você também. Nessa era de modernidades, sempre esta passando um filme, há algum videoclipe, uma notícia ou alguma coisa para se jogar, comer ou sei lá o que, e perder tempo falando babaquice não é muito o meu forte.

O fato é que o Renato tinha vindo ao Brasil, para comprar uns produtos, que ele embalava, e despachava para a loja dele em Munique. Quase sempre, ele comprava coisas e objetos de decoração do período colonial brasileiro, e até por conta disso, viajava muito pelas estradinhas do interior, adentrando casebres em busca de móveis que ele alegava estar velho, caindo aos pedaços, e que se oferecia prontamente para trocar por um lindo substituto de formica das Casas Bahia. Os pobretões do interior sempre caíam nesse golpe e assim ele comprou dezenas de arcas, baús, cristaleiras e etc. Sempre trocando por moveis de quinta categoria com cara de novos que não durariam nem dois anos.

Não era lá muito honesto, é verdade, mas Renato alegava que o povo pobre adorava ver o caminhão chegando com o móvel para montar. Eventualmente, quando o peso na consciência batia, ele ainda oferecia uma graninha, simbólica, claro pelo item. Geralmente itens que valiam graninhas extras eram santos barrocos que ele vendia por milhares de euros para colecionadores endinheirados.

Eis que certo dia, enquanto andava pela estrada de uma fazenda, parou para tomar uma pinga num bar que mais parecia um secos e molhados de duzentos anos de idade. Na parede, a tinta descascada mostrava o preço quase ilegível do feijão vermelho…. Em réis!

Parar nesses botecos vagabundos, vendinhas, quitandas e lugares do tipo, era também uma estratégia para levantar com o quitandeiro, dono do bar ou mesmo algum bebum de balcão, potenciais donos de móveis antigos, relicários, fazendas vendidas, ou abandonadas. Até uma foice enferrujada ele chegou a comprar por três reais e vender por seis mil euros.

Naquele dia, no bar havia dois homens. Um era o dono do estabelecimento que tentava se abanar de uma nuvem de mosquinhas chatas que teimavam em lhe pousar no pescoço. O outro era um cachaceiro profissional, do tipo que bebe muito, sem dizer uma só palavra o dia inteiro.

Renato se apresentou, pediu a pinga, sentou na banqueta, e mostrou fotos dos produtos que comprava. O dono do bar não sabia de nada, ou fingia não saber.  O outro, mal lhe dirigiu o olhar. Continuou a beber, fitando o vazio.

Renato pediu outra pinga. Continuou ali, na torcida para que quebrassem logo o gelo. Mas ninguém disse nada no decorrer de quase uma hora. Era só o homem se estapeando tentando matar as moscas, e o outro parado como uma estátua de sal. Só se movia para agarrar o copo e levá-lo aos lábios grossos e rachados de sol.

Renato jogou a toalha, e resolveu partir, pagou a conta e saiu. “É como pescar. Tem dia que não dá nada” – pensou.

Ele estava na porta da casa quando o homem que mais parecia uma estátua disse: Tem a casa do Venâncio…

Rentao se virou, surpreso.

– Que?

-Nada. – Disse o homem, bebendo do copo, enquanto trocava olhares fixos, com o dono do bar que parecia lhe fuzilar com o olhar.

“Puta véia”, Renato saciou que tava rolando ali uma pressão. Por alguma razão, o dono do bar não queria que ele soubesse do Venâncio.

Renato voltou para dentro do secos e molhados.

-Que Venâncio?

-Né nada não, moço. Esse doido aí… Não dá conversa pra maluco. – Disse o dono do bar, às pressas, tentando distraí-lo. – Toma, aceita um salaminho. É produção da casa mesmo! – Disse ele, se atropelando, enquanto segurava o naco de salaminho com aquela mão suja de inseto esmagado.

-Não obrigado. Pra que lado fica a casa do Venâncio? – Perguntou.

-Ele já morreu! – Disse o dono do bar, ainda com os olhos travados no cachaceiro.

-Morreu mesmo. – Confirmou o bebum. – Mas a casa ainda ta lá. Com tudo dentro!

-Com tudo dentro? – Renato perguntou. Suas mãos formigavam.

Os dois conformaram em silêncio e nada mais disseram. Foi preciso insistir várias vezes para que o dono do bar finalmente dissesse que a casa era a grande com tapumes, atrás da Capela, na Praça.

Renato saiu desembestado, direto em busca da tal praça. Um menino de bicicleta indicou e minutos depois, lá estava ele, diante de uma casa toda carcomida. Era uma casa colonial antiga com grandes janelões fechados com madeira e pregos enferrujados. Um portão de ferro fundido cheio de plantas parecia travar o acesso.

Diante dele a construção se erguia imponente, embora as caixas de marimbondos nos beirais e a negritude das teias de aranha cobertas de fuligem não deixassem dúvidas de que ela poderia desabar a qualquer momento.

Um menino se aproximou. Era o mesmo menino que havia lhe indicado a pracinha. Um menino magro de dentes tortos, sem camisa, usando um shortinho apertado. Os joelhos eram lanhados, e cheios de cicatrizes. Menino de cidade pequena mostra no corpo o grau de endiabramento.

-Essa casa e mal assombrada, moço. -Ele disse, apeando da bicicleta. – Tem que fazer o sinal da cruz. O senhor já fez?

Renato não deu papo. Apenas fez o tal sinal da cruz.

-A casa ta fechada há muito tempo? – Perguntou ao menino.

-Desde que o Seu Venâncio matou todo mundo.

-Matou? Todo mundo?

-Dizem que matou todo mundo aí. Todo mundo que morava na casa. Os irmãos, as cunhada tudo, e até as criancinhas.

-Mas por que?

-O povo conta, né?

-O povo conta o que?

-Ah, essas histórias aí que o povo conta, uai? Não sabe como é? Inventa história. Diz que ele tinha pacto com o rabudo e…

-Toma!

-Vinte real? – Disse o menino, surpreso diante da nota.

-Te do outra de vinte e duas de dez se me contar a história toda.

-Do jeitinho que o povo conta?

-Sim. Sem inventar nada.

-Sim senhor. Eu não invento não. Quem inventa é meu primo Digão. O Rafa também inventa…

-Me conta então.

-O povo fala que o seu Venâncio era muito rico. Ele era o dono de tudo isso aqui, até aqueles morros lá… Tá vendo, ó. Aquele da pedra…

-Tá. Continua.

-Aí um dia, bateu aqui na porta dele um homem que tava com fome. Ele tratou bem do homem, porque seu Venânico era um homem bom. Sabe como é homem bom… Ele vê a pessoa no aperto, tira a roupa do corpo para ajudar. Aí ele ajudou o homenzinho, eu comida, deu remédio. E deu emprego. O homem tinha um bode preto, mas o bode tava quase morrendo. O bode tava todo doente, fedendo, cheio de bicheira, aquelas minhoquinhas, sabe? Tava ate sem um olho. O povo queria matar o bode do hominho, mas ele nunca se separava do bode, que trazia amarrado numa corda.  Mas o seu Venânico, com pena,  mandou tratar do bode do homem. O Sujeito ficou agradecido. Foi preciso trazer o médico de bicho.

-Veterinário.

-Não sei se era esse o nome. Mas dizem que era médico de bicho. – Disse o garoto.

Renato tentou segurar o riso e fez sinal no ar para que o menino prosseguisse. O garoto retomou o caso.

– O médico de bicho falou que o bode ia morrer. Ele disse ao seu Venânico  que se o bode do homem ia morrer de qualquer jeito, era melhor matar logo. Mas aí o homenzinho ficou bravo. Disse que ninguém relaria a mão no bode dele. E ameaçou ir embora. Fugir.  Aí seu Venânico com pena,  disse que era para ele se acalmar. Disse que não deixava matar o bode não. Mandou até o médico ir embora. Mandou os empregados da fazenda acomodarem o homem e o bode leproso dele lá no estábulo.

O homem ficou agradecido e dormiu no estábulo.

No dia seguinte, seu Venâncio foi até o estábulo e o homem tava morto. Tava cheio de bicheira.

-Morto? Cruzes!

-Espera só que o senhor não viu nada! – Disse o menino com uma expressão maníaca na face. – O homem tava morto, cheio de vermes comendo ele. Tiodo leproso. Mas o bode… O bode tava bão!

-O bode curou?

-Da noite pro dia.

-E aí?

-Aí que ninguém entendeu aquilo, porque o bode tava nas últimas, e aí o homem que tava bom ficou ruim e o bode ficou bom no dia seguinte. Logo que amanheceu o dia. O povo correu lá pra ver.

Seu Venânico foi também. Chegou lá e viu o bode. Uns disseram que era milagre, e outros disseram que era obra do tinhoso. O povo ficou com medo do bode.

– E aí?

-Aí que o povo quis matar o bode. Disseram que era o demônio. Mas o seu Venâncio não deixou, disse que não podia matar, que era o desejo do homenzinho pobre.

-O povo aceitou?

-Nada! O povo se revoltou. O pessoal queria matar o bode mesmo. Mas seu Venâncio disse que não podia e que não a matar e acabou-se. Veio até o vigário.

Quando chegou o vigário, o povo viu o bode sair correndo. O bode ficou doido. Aí o povo teve é certeza que o bode era o coiso.

-Coiso?

-O rabudo.

-Ah. E então?

-Seu Venâncio disse que ia provar que o bode não era o diabo nada. Agarrou o bode pelos chifres e arrastou com os peão ali para a capelinha.

O bicho ficou maluco. O povo empurrava o bode para dentro da capela, e o bode não entrava. Alguém gritou que o bode não ia entrar porque ele era o Coiso. Mas juntou tanta gente, que conseguiram empurrar o bode porta adentro.

-E aí?

-Aí o bode morreu.

-Morreu?

-Caiu duro, dentro da igreja. Assim que entrou, o bode deu um pinote pra trás e estucou as quatro pernas. Coisa impressionante que minha avó que está no céu viu com os próprios olhos, seu moço!

-Mas então o bode…

-Ah, seu Venâncio não acreditou. Disse que o povo era ignorante. Que o bode não era o diabo nada. Que o bode tinha ficado com tanto medo da gritaria, da multidão que tinha morrido do coração. E aí acabou-se.

-Mas a história é essa? E aí? O que aconteceu?

-Nada não senhor. Acaba assim. O bode morreu.

-Mas e a morte da família e tal? A casa?

-Ah, sim… Tem isso, né? É que seu Venâncio tinha se afeiçoado do bode do homenzinho, e aí ele mandou os peão da fazendo a arrancar o couro do bode, chifre e tudo mais, mandou forrar uma cadeira. Fez um móvel com o couro do bode. O povo teve medo. Mas seu Venâncio riu das pessoas e o padre também riu. Disse que eram todos um bando de ignorantes.

CONTINUA

 

 

 

 

 

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17 comentários em “A cadeira obscura”

    • Ahaha cara, eu sempre caio nessa. Mas não dessa vez. Quando desconfio, olho na tag da postagem e vejo se tá na categoria “Contos” eheheheh…. Mas é uma ótima forma de prender a atenção, fazer parecer que foi com ele mesmo.
      Vamos aguardar a continuação agora rsrsrs….

  1. O Philipe… não faz isso comigo não cara… não coloca continua… e não continue…. escreve logo… hehehehehe

    Mais um conto CABULOSO que vai me prender… hehehehehehehehehe

  2. “Na parede, a tinta descascada mostrava o preço quase ilegível do feijão vermelho…. Em réis!”

    São esses detalhes que tornam teus contos tão saborosos e verossímeis. É realmente como se fosse uma história vivida por ti (e será que não são?). Simplesmente ótimo!

    Ansiosa por ler a continuação…

  3. Não tem condição de parar por aqui mesmo kkkkkk Phelipe só fez um suspense, ele sabia que teria que terminar a história, pelo bem de sua própria consciência!

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