A cadeira obscura – Parte 6

Renato quase engasgou-se quando ouviu aquilo. Seria mesmo possível que ele e Dodó tivessem tido um mesmo sonho?

Renato poupou o rapaz. Preferiu não dizer nada a ele, de que também tinha sonhado com o mesmo bode preto enorme, parado, em cima da cama dele no hotel. Mas enquanto ouvia com paciência o sonho de Dodó, ele ficou imaginando se aquele sonho não estava querendo dizer alguma coisa. Talvez fosse um aviso para não mexer com aquela cadeira.

-…Tá te dando o maior mole. – Disse dodó, levantando o brinde com a cerveja.

-Hein?  – Renato foi retirado do mundo das ideias como quem é atingido nas fuças por um balde d´água. – O que você disse aí?

-A morena… – Falou Dodó, disfarçando.

Renato olhou sorrateiramente para trás e viu uma moça sentada numa das mesas do fundo do restaurante. Estava com mais duas, e essas duas, conversavam animadamente, mas ela olhava fixamente para a mesa dele.

Renato cruzou o olhar com ela. Ele sentiu uma atração imediata por aquela mulher. A voz de Dodó surgiu de fundo, meio sussurrada.

-Ela está te olhando sem parar desde que eu cheguei. Deve estar afim d senhor, porque de mim… – Disse e começou a rir.

Renato não disse nada. Apenas sorriu para ela. A mulher sorriu de volta. Ela não tinha os dentes perfeitamente alinhados, mas aquilo lhe dava um certo charme. A moça também tinha um cafona colar com um coração de metal que pendia diretamente sobre os seios fartos, que pareciam apertados num vestido.

-Então Dodó… Tenho bem uma novidade pra te contar.

-O que “tá pegando”?

-Fechei com o velho do taxi. Ele é parente do defunto la do casarão.

-Ih, lá vem… – Disse Dodó, revirando os olhos com a boca cheia de aipim.

-Ele me deu tudo que tem dentro da casa se eu conseguir demolir essa merda aí pra ele fazer um estacionamento.

-O senhor vai demolir o casarão?

-Vou!

-Mas… Mas… Mas o senhor não tem medo? E o defunto?

-Aí que você entra.

-Ah não! Nem fodendo., Nem pelo caralho! Nem por dinheiro nenhum que eu relo a mão naquela merda de caveir…

-Shhhh! Fala baixo, porra!

-Tô fora! Tô fora!

-Não, rapá! Não é mexer no defunto não. Tu só tem que ficar na sua, não conta por aí que nós invadimos o casarão nem que achamos o velho lá dentro ontem.

-Ah… Assim, sim.  – Disse Dodó. – O senhor vai querer esse arroz aí? – Perguntou ele apontando a travessa.

Renato fez sinal de positivo com o polegar e Dodó começou a juntar o arroz da travessa no prato dele. O sujeito era magro como um palito,  mas comia feito uma draga.

Enquanto olhava o rapaz comendo, Renato se serviu de mais cerveja. Então, um papelzinho dobrado foi colocado na mesa. Quando renato levantou os olhos, viu as meninas saindo. A morena piscou um olho para ele antes de descer as escadas da pensão.

-Que isso? – Perguntou Dodó com um sorriso maroto.

Renato pegou o papel. Ali estava escrito: ” Quero sua boca na minha” e em baixo, um numero de telefone, e logo abaixo disso, um beijo decalcado de batom.

Renato sorriu.

-Arrasando corações! – Brincou Dodó.

-Bom, dodó. Vou lá pagar. A gente fica combinado assim, tudo bem? Não conte que estivemos na casa ou pode melar o meu negócio aí.

-Deixa comigo, seu Renato. Vou ficar na minha, até porque, essa casa aí, se sumir vai ser mesmo uma boa aqui pra vila. Ela enfeia muito a vizinhança com essas plantas esse monte de telhas quebradas… É morcego, marimbondo…

Renato foi até o balcão e pagou a conta. Despediu-se de Dodó e voltou para a rua, onde resolveu dar uma caminhada para fazer a digestão.

Ficou perambulando elas ruas de terra da vila, olhando para os terrenos baldios… Quem sabe encontraria alguma outra casa com móveis potencialmente vendáveis?

O menino passou de bicicleta por ele. – Oi tio!  – Gritou ele, pedalando com velocidade.

Renato levantou a mão no ar, não deu tempo de dizer nada. Marquinho desapareceu como uma flecha. Logo atrás deles, outros cinco meninos passaram pedalando com vontade.

Renato lembrou-se do tempo em que também apostava corrida de bicicleta em sua cidade natal. Olhou para o pulso e viu a marca da cicatriz de um tombo sobre um espinheiro quando tinha sete anos. A marca nunca havia desaparecido.

Já era quase o meio da tarde quando Renato achou que devia voltar para o Hotel. Precisava comprar o mínimo, uma escova de dentes, uma cueca nova e talvez uma ou duas camisas, para esperar até o dia seguinte, quando a mochila com suas coisas chegaria no caminhão.

Foi até a pracinha e bateu no capô do carro do seu Flávio, que dormia com o banco reclinado. O velho acordou assustado, olhando de um lado a outro.

-Opa, professor. Desculpa eu estava tirando uma pestana.

-Vamos voltar lá pro hotel? Eu queria comprar algumas coisas, preciso passar na farmácia, sabe como é. Comprar desodorante, essas coisas.

-Ah, sim, tem uma logo ali na GQN.

-GQN?

-Galeria Quinze de Novembro. – Riu seu Flávio, dando a partida no corcel barulhento.

Algumas horas depois, Renato estava andando pelas ruas de São Miguel.

A cidade era pequena, mas hospitaleira. Com uma limitada oferta de mercadinhos e farmácias. Mas o que havia, dava para o gasto. renato comprou numa loja uma calça, duas camisas e um saquinho com algumas cuecas e meias. Ele tinha plena consciência que suas roupas estavam um trapo.

O céu estava cortado com os raios vermelhos do por do sol, que deixava todas as sombras azuladas. Renato foi até o famoso “Hotel Bretas”- duas estrelas.

-Voltou meu amigo? – Perguntou o rapaz do balcão, notando Renato com as bolsas.

-Sim, devo ficar mais uns três dias!  – Ele disse. – Precisa preencher a papelada?

-Não, não. Eu copio da outra ficha. Mais tarde o senhor só desce para acertar o depósito.

-Sem problemas.

-Quer o mesmo quarto?

-Ah… Sim, boa pergunta. Você por acaso não teria um quarto mais… Sei lá, mais confortável? Aquele cheio de camas lá é meio estranho. E o ventilador faz um barulho horrendo.

-Olha, tem sim, mas é um pouco mais caro. Ele é nosso único quarto com ar condicionado. Mas o ar tava quebrado, a fiação da tomada deu curto… Só que o Seu Carlinho veio aí hoje e consertou já a fiação. Quer esse? Ele é mais antigo, não tá muito limpo, mas ele é grande e tem até banheira.

-Tem banheira?

-Tem.

-Pode me dar a chave então. – Disse Renato.

-Vamos, eu abro pro senhor.  – Disse o rapaz, saindo por baixo do balcão. Os dois subiram as escadas e ao final do corredor o jovem abriu a porta. Ali estava um quarto ótimo, para os padrões do Bretas Hotel duas estrelas de São Miguel. Uma grande cama de casa, uma janela com vista para a rua e nada de quadros fantasmagóricos de Jesus na parede. O banheiro também estava Ok, apesar de uma lacraia morta perto da pia. A banheira era antiga, enorme. E o chuveiro era bem melhor, com mais água.

-O ar está funcionando mesmo?

-Gelando, olha aí! – Disse o jovem, virando o botão do aparelho. Num estalo, o compressor barulhento feito um motor de caminhão da segunda Guerra mundial disparou e realmente o aparelho enorme começou a cuspir um ar geladíssimo no quarto.

-Se o senhor quiser, logo mais, posso trazer outra pizza brotinho do Tião…

Renato agradeceu, o moço da recepção saiu e Renato correu para o banho. Estava desesperado para se lavar e colocar umas roupas limpas.

Minutos depois, ele saía do banheiro, sentia-se novo. Havia feito a barba, que já estava a lhe espetar o pescoço e finalmente havia trocado a camisa que fedia como um gambá. Ela foi, abraçada com a cueca usada dos dois lados direto para o lixo. A calça talvez ainda prestasse, mas a nova lhe caía bem melhor.

Renato vestiu as botas e desceu para a recepção. Acertou a conta de reabertura do quarto e foi para a rua dar uma olhada.

Cidade do interior é foda. Não tem muito o que fazer, de maneira que Renato acabou invariavelmente indo parar no point da cidade que era a avenida da beira do rio. Ai ele andou de um lado para o outro, curtindo aquela sexta-feira quente. A lua brilhava no céu e ele ficou observando uns caras jogando truco num bar. Não demorou, Renato estava junto com eles, jogando também.

Quando deu pela hora, eram quase onze horas. Foi o estômago que lhe alertou. A fome veio forte.

Agradeceu pelo jogo aos novos amigos e depois de apertos de mão em cada um, Renato seguiu o caminho para o Hotel Bretas. No caminho, encontrou a famosa Pizzaria do Tião. Entrou e deu uma olada nos sabores. O Tião era um homem velho bem engraçado. Ele puxou um cardápio enorme, que não tinha nada escrito. Só um papelzinho pequeno com os dizeres: Leia os sabores no teto.

Então, Renato olhou para cima e viu escrito a tinta: ” Temos pizza de calabresa, 4 queijos, portuguesa e mista”

Renato riu da ideia maluca de um cardápio no teto. Pediu uma quatro queijos. Veio o tradicional “brotão”. Renato pediu a pizza para viagem, afim de tentar ver alguma coisa de telejornal na Tv antes de dormir.

Renato foi para o quarto, passou pela portaria e o rapaz logo pulou: – Hummmm…. Que cheirinho!

-Vem, garoto. Pega uma fatia aí. – Ele disse.

-Sério?

-Rápido, antes que eu mude de ideia!

-Sim senhor! – Disse o jovem recepcionista, correndo por baixo do balcão. Ele pegou uma fatia e agradeceu.

-Obrigado e boa noite!

-Té manhã!  Disse Renato, com a bandeja na mão.

Renato subiu para o quarto e com alguma dificuldade conseguiu abrir a porta enquanto segurava a pizza. A maçaneta não era das melhores e a chave rodava em falso antes de finamente abrir a porta antiga.

Ele ligou o ar condicionado e se jogou na cama enorme. Ligou a Tv e a imagem era muito melhor naquele quarto.  Renato comeu metade da pizza vendo tv, até se sentir enjoado com a quantidade monumental de queijo. O tal Tião era sem dúvida, um exagerado.

Renato ficou vendo o último jornal da programação, até que diante do pronunciamento de um membro de uma CPI em Brasília ele pegou no sono. Como é bom pegar no sono quando estamos vendo Tv despreocupadamente…

Mas o sono durou pouco. Renato foi acordado se súbito com batidas na porta.

-Ah não! De novo, não…

Ele notou que o quarto estava imerso em total escuridão. A Tv, que antes estava ligada agora estava desligada. O ar condicionado, idem.

Renatos e levantou e foi até o interruptor. Acionou, mas a luz não acendeu.

-Quem está aí?  – Ele perguntou. Mas não recebeu nenhuma resposta. Depois de algum tempo, Renato tornou a perguntar. Ouviu o som de unhas raspando na porta do quarto.

-Quem está aí?

Novamente, não houve resposta, mas ele pareceu ter ouvido um risinho.

Renato se beliscou para ter certeza que não estava sonhando. Não estava. O fenômeno estava realmente acontecendo ali, diante dele.

Ele só conseguia pensar no bode preto assustador. Levou a mão, trêmula,  até a maçaneta.

Houve um estalo. A luz do quarto voltou. A Tv se ligou novamente. Renato quase fez xixi nas calças com o susto.

Ele aproveitou a luz que lhe deu coragem, e abriu a porta. Assim que abriu, deparou-se com a morena do restaurante que saltou sobre ele, beijando-o na boca com volúpia. Ela estava com uma saia comprida de malha, que os dedos espertos de Renato logo perceberam, não conter nenhuma calcina por baixo. E o vestido abria com botões na parte de cima, já devidamente desabotoados. Em menos de dois segundos, ela estava sobre ele na cama, com os belos e generosos seios se esfregando em seu rosto.

A mulher não disse absolutamente nada, apenas esfregava-se lânguida sobre ele em total frenesi sexual. Enquanto tentava uma manobra acrobática para tentar baixar as calças apertadas, Renato pensou por um mísero segundo, que se aquilo fosse um sonho, era um sonho bem melhor que o sonho do bode preto.

CONTINUA

 

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22 comentários em “A cadeira obscura – Parte 6”

  1. Mulher… Morena… Noite escura… fenômenos estranhos… Tá doido.. Broxante… Eu iria lembrar das historias da Loira do Banheiro.. Mulher de Cabo frio q aparece na madrugada… Tá doido.. me deu até arrepios…
    Estou ansioso pela parte 7, sete já é um numero sugestivo..
    abraços, e parabéns…

    • Tô dando um tempo para eles acabarem de transar, hahaha. Estou escrevendo a parte 7 aqui neste minuto. Acho que daqui a uma hora ou menos entra.

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