A cadeira obscura – Parte 13

Renato e Mark correram até a rua. Ali estava Junior, impávido, de braços cruzados diante da porta do baú da carreta aberto.

Jonsen balançava a cabeça em sinal negativo. -Não pode ser… Não tem como.

-Mas que merda é essa? – Perguntou Renato, diante da imagem da cadeira, solitária no imenso baú vazio do caminhão.
-O pai abriu o baú e esse troço estava aí!
-Mas eu vi vocês jogarem ela no mato! – Disse Renato coçando a cabeça.

-Meu Deus! Ela é mais linda do que você descreveu, Renato. – Disse Mark completamente alheio à questão da cadeira ter aparecido no caminhão.

Junior continuava quieto. Estava pensativo, com a cabeça baixa.

-Pai, o senhor viu a gente jogar essa merda no mato. O que o senhor acha? – Perguntou Jamil.
-Eu acho que essa merda é amaldiçoada mesmo, meu filho! – Falou o motorista do caminhão. Então ele foi até onde estava Renato e colocando a mão pesada no ombro do patrão disse em voz baixa: – Não estou com um bom pressentimento, seu Renato.
-Nem eu, Junior!

-Andem patetas! Vamos levar a cadeira lá pra dentro! – Gritou Mark, já dentro do Baú.
Os rapazes se entreolharam, hesitantes.
-Vai me desculpar, seu Mark, mas eu não vou botar a mão nesse negócio aí não senhor!

-Jonsen! Ajuda aqui! – Disse Mark.

Mas Jonsen também deu de ombros e dando um passo para trás moveu a cabeça em sinal negativo.

-Vem você, Jeremias. – Disse Mark, apontando para o enorme carregador, mas ele também se negou a mexer na cadeira obscura.

Vendo que ninguém estava disposto a ajudá-lo com a cadeira, Mark explodiu aos gritos:
-Porra! Não é possível. Ninguém vai me ajudar? Vou ter que foder a minha hérnia de disco de novo por causa do medinho de vocês, seus merdas?

Renato entendeu o lado dos meninos e resolveu poupá-los.

-Calma, Mark! Eu ajudo! – Disse ele, subindo no caminhão.

-Vou trazer a rampa! – Disse Junior, correndo até o compartimento abaixo do baú.

Os três jovens ficaram de braços cruzados, o olhar de terror diante da cadeira, que era descida com cuidado pelos dois empresários.
Mark abriu a porta de vidro da loja e Renato empurrou a cadeira la pra dentro. Antes de Mark bater a porta, virou-se para os garotos e junior e disse:

-Gancho de uma semana sem trabalho pela insubordinação!

Os jovens se entreolharam, putos. Júnior cuspiu no chão em silêncio.

-Porra seu Mark! – Disse Jonsen, abrindo os braços.

-Shhhh! Jonsen! Cala a boca. Ele é o patrão. Ele manda! – Interrompeu Júnior.
-Vem, vamos embora. Vamos esfriar a cabeça!

Assim eles saíram, deixando Renato e Mark na loja com a cadeira. Renato colocou a cadeira num canto da sala. Os dois sentaram-se nas poltronas ao redor e ficaram ali, quietos, admirando o estranho móvel.

-É praticamente uma escultura! – Disse Mark.
-Você realmente está fingindo não estar nem aí para o fato de que essa merda foi jogada no meio da estrada e brotou no caminhão, ou você é sem noção mesmo, Mark?

Mark sorriu. Levantou-se da poltrona e foi até o canto da sala em completo silêncio. – Quer um expresso? – Perguntou, apontando a máquina de café.

-Com creme. – Respondeu Renato, a espera de outro diálogo.

Mark apertou o botão da máquina. Logo, a sala se inundou com o delicioso cheiro do café quetinho.

-Sabe, Renato… Já vi muita coisa nessa vida. Mas nada sobrenatural. Por isso sou ateu. Só acredito no que eu sou capaz de ver. E a verdade é que eu só vejo um lindo móvel ali, e que eu vou vender por uma bela grana.
-Mas Mark! Eu te falei do monstro e da…
-Não, tudo bem. Tudo bem, cara! EU aceito que você acredite na merda que quiser. Estamos num país livre, meu amigo. Mas não me obrigue a incorporar o seu sistema de crenças.
-Não é crença, porra. O bicho quase me matou!
-Calma. Eu não quero demover você de suas crendices. Sei que o folclore brasileiro é rico. Lá perto de casa o povo acredita no homem mariposa… – Mark riu e se virou para a máquina. O café estava pronto.

Ele evou o café até Renato.

-Se não é um caso real, como você explicaria isso, senhor espertão? – Perguntou Renato pegando a diminuta xícara com cuidado.
-Não sei… Há muitas hipóteses. Já ouviu falar no delírio do fungo?
-Hã? Fungo?
-Há muitos anos atrás, quase na idade média, uma vila inteira da Espanha foi assombrada com estranhas criaturas, aparições e ataques de medo. Pessoas começavam a agir de modos completamente loucos. Muitos fugiram da vila achando que ela estava endiabrada.
-E estava?
-Lógico que não. Durante décadas o caso ficou misterioso.
-Mas o que rolou?
-O estranho monte de aparições e visões, e situações macabras acabou quando o povo revoltado acreditou num velho eremita, que depois de ficar mais de vinte anos oculto numa floresta, reapareceu. Ele culpou o padre da igreja pelos demônios, alegando que tivera uma revelação divina de que o padre era um servo do inferno na Terra.
-O povo acreditou num… eremita?
-O povo desesperado estava acreditando em qualquer coisa.
-E aí, Mark? Ainda não entendi a relação…
-Calma! Eu explico. O povo acreditou no velho eremita e mataram o padre. O povo invadiu a igreja e queimou tudo. A igreja queimou durante dois dias, incendiando uma parte da cidade.
-Puta que o pariu! O conserto foi pior que os demônios.
-Mas sabe de uma coisa? Depois de apagado o incêndio, os demônios sumiram, as visões pararam. As meninas não estavam mais sendo possuídas… Tudo voltou ao normal.
-Então o padre era servo do satã mesmo? O eremita estava certo?
-Caro que não. Mas durante décadas esses foram os fatos. Só dez anos atrás, um perito resolveu investigar o caso, e encontrou esporos de um fungo raríssimo na camada geológica daqueles anos. Eu esqueci o nome da porra do fungo, até porque saber nome de fungo é coisa para tarado. Mas o que eu li na National Geographic é que aquele fungo inalado em grande quantidade conduzia a estados alterados de percepção. O cérebro reagia como o de um drogado, secretando substâncias alucinógenas. As pessoas não estavam vendo demônios. estavam tendo viagens quase lisérgicas. Mas naquele tempo, onde não se conhecia nem os micróbios, tudo podia ser explicado pela dicotomia do bem contra o mal.
-Mas por que o fungo parou?
-O calor. Provavelmente a igreja era o ponto de dispersão do fungo. Igrejas antigas eram feitas de madeira, e com o tempo elas tinham problemas de umidade, goteira. Imagina um lugar fechado e escuro, úmido, onde as pessoas e se aglomeravam todos os dias. Quando surgiram os primeiros casos, o povo ignorante, com medo se refugiava na igreja, e isso aumentava as pessoas contaminadas. Fechada a igreja era como uma estufa de criação do fungo. As pessoas estavam respirando altos níveis das toxinas. Elas estavam levando roupas e lavando na água benta da igreja. Isso levava o fungo para suas casas. As pessoas estavam se contaminando cada vez mais em busca de escapar de seus terrores. E isso formou um círculo vicioso.
-Mas o que essa merda da Espanha tem a ver com essa cadeira ai?
-Vou dar a minha opinião, ok?
-Ok.
-Pra mim essa história da cadeira foi fabricada pelo dono da fazenda, afim de causar medo nas pessoas. Afinal, quem questionaria um homem aliado ao demônio?
-Porra, mas ele matou todo mundo da casa!
-Ele ficou maluco. Talvez tomado por algum delírio… E se deu um fungo desses lá no tal lugarejo?
-Fungo? Lá na Vila?
-O que impede? Nada! E aí você entra na casa, cheia de goteiras, infiltrações. Fica um tempo lá e começa a ter sensações estranhas, vê coisa que não aconteceu e acha que viu coisa que não viu…
-Tá. Vamos dizer que seja isso, mas e o monstro?
-… Esse monstro pode ter sido delírio!
-Cara aquela porra quase demoliu o caralho do hotel todo! Tinha mais de três metros. Era um bichão preto horripilante maior que essa parede aí!
-Você falou, tudo bem. Isso é o que você viu! Mas pode ser que cada um ali, tenha visto uma coisa. Imagina uma explosão de esporos tóxicos, levados pelo vento, eles afetam muitas pessoas, Renato. Você pode ter visto um macacão feioso sair do lodo no banheiro, mas o mocinho do hotel disse que viu um lobisomem, né?
-Bom… É… Mas a cadeira, cara! Nós jogamos essa merda fora! Jogamos no mato. Trancamos o caminhão e voltamos!
-Eu acho que vocês ainda estavam sob efeito do alucinógeno. Estavam numa alucinação tão sutil que não perceberam. Vocês podem ter jogado todos os móveis no mato, e deixaram a cadeira para trás. Mas no delírio, vocês acharam que jogaram tudo.
-Ah cara! Não força!
-Hei! Take it easy my friend! Olha aí o que você está alegando? Macacos gigantes brotando do lodo. Cadeira que se materializa em caminhão… É óbvio que esta cadeira deve estar lotada de esporos de fungos diversos e olha pra ela! Essa cadeira é o catalizador perfeito de qualquer delírio!

Renato olhou bem para a cadeira.

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-É… Talvez tenha razão, Mark.  Mas me sentirei bem melhor depois que vendermos essa porra.

-Não se preocupe. Já acertei as pontas com o cliente. Seraph virá aqui amanhã ver a cadeira.

-Seraph?

-É o nome do cara estranho que compra coisas estranhas comigo aqui. Bom, não sei se é o nome, mas ele se apresenta assim.

-E ele vai comprar a cadeira?

-Não sei, mas é bem do gosto dele. Ele diz que é alquimista. Veja só um alquimista hoje em dia. Rá, rá, rá.  Mas eu sei que o coroa é casado com uma mulher muito gostosa, mas ela nunca fala nada. Fica só quieta, com aqueles cabelos louríssimos e os olhões arregalados. Ela anda sempre atrás dele. Seraph está sempre de preto, desce de um puta carrão aí fora, e gasta com vontade. Ele tem aquele cartão preto, tá ligado?

-Nossa! Deve ser rico para pênis!

-Milionário! Não sei onde que ele mora, mas deve ser em alguma masmorra, rá,rá,rá.  Eu sei que ele vai fcar louco com essa cadeira. Se ele já não fosse careca arrancaria os cabelos quando batesse o olho nisso aí… Mas eu não te perguntei uma coisa.

-Fala, Mark.

-Ela é confortável?

-Tá louco? Cê acha que eu sentei nessa merda aí?

-Sério? Cê não sentou?

-Claro que não, pô. Porra Mark! Tu não prestou atenção em porra nenhuma que eu te contei hein?
-Então eu vou sentar.
-Pô cara.
-Que foi? Que é? Não sou um fresco igual você, rapaz! – Disse Mark, empurrando Renato. -Dá licença aí!

Mark sentou-se na cadeira.

Ficou em silêncio olhando para Renato.

-E aí?
-Mark não respondeu. Ficou olhando para Renato. Os olhos de Mark gradualmente começaram a se tornar meio fixos. Meio injetados. Renato sentiu uma estranha carga de ódio surgindo na expressão do amigo.
-Mark? Mark?

Mark Baixou a cabeça. Começou a olhar para o próprio umbigo.

-Mark? Cê ta bem cara? -Perguntou Renato, desesperado.

Mark então deu um grito horrível e começou a se sacudir na cadeira de um modo bizarro, como se estivesse levando um choque de milhares de volts. Então, finalmente parou de se sacudir e emitiu um grunhido baixo, que foi lentamente aumentando até se tornar uma risada macabra que ecoou por toda a loja.

CONTINUA

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27 comentários em “A cadeira obscura – Parte 13”

  1. Cara… toda semana eu volto aqui para o site e leio mais um pouco. Virei seu fã.
    Agora, teorias a parte, eu comecei a ler “A caixa” (estou agora na parte 13) e me veio uma dúvida. Há uma relação entre o acontecimento ocorrido com Anderson de “A caixa” e o ocorrido com Renato durante a noite da banheira?

  2. O conto termina bem no momento onde se cria uma expectativa muito grande, mandou bem.
    Procurando aqui, vi que essa cadeira existe mesmo.
    Para quem tiver curiosidade o artista é Michel Haillard. Ele já fez vários moveis bem macabros hahahah
    abraços

  3. Cara, o Leonard PRECISA aparecer nesse conto! Que tal uma participação especial?

    (Mesmo qu’ele não apareça, essa história entra para a saga dele…)

  4. Aliás… Tem (me ajude se esqueci algum, por favor) ‘O Caçador’, ‘A Busca de Kuran’, ‘A Caixa’, ‘As Crianças da Noite’, aquele conto em que ele ensina um monge a criar vida (qual o nome desse, mesmo?) e, agora, ‘A Cadeira Obscura’.

    Se um dia saísse uma coleção, poderia ser incluído até aquele conto do cara que faz tudo para obter um pacto com o Demônio, para explicar um pouco “como as coisas funcionam”.

  5. Caramba…
    Seus contos viciam.
    Todos os dias eu acordo ansiosa para saber se vai ter mais alguma parte para eu ler na hora do almoço, no trabalho…

  6. cada capítulo que passa, eu vejo o cara mais ferrado, e mais longe de imaginar como ele vai se livrar da encrenca… afinal, ele escapa vivo, o conto começa com ele numa mesa de bar contando o “causo”…
    Eu imagino que seja algo do tipo O Chamado, em que ele fica com uma maldição, e pra se livrar dela, tem que passar adiante. Tipo, a sina passa pro cara pra quem ele tá contando lá no primeiro capítulo.
    Acompanhando ansiosamente cada pedacinho!!

  7. Cade o capitulo novoooo =( estou entrando em abstinencia ja! nao consigo nem pensar direito kkkkk entro de manha, no almoço, ate na hora de dormir pra ver se colocou o novo capitulooo…kkkkkkk vai ter que lançar uns 3 de uma vez pra compensar kkkkkk
    #BD#PCC

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