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O rio subterrâneo serpenteou na escuridão por um desfiladeiro de rochas escuras e afiadas, cortadas por milhares e milhares de anos, talvez milhões, de fluxo de água constante, o caminho escolhido por Morten logo se mostrou muito difícil. As passagens, ora largas e muito amplas, muitas vezes se afunilavam, deixando o caminho quase impossível, pois quando o caminho se estreitava muito o volume de água se comprimia, tornando perigosíssimo o avanço devido aos fluxos poderosos de correntezas.

Logo após uma pequena cachoeira, Carlson caiu no que pareceu ser um enorme salão de pedra, repleto de estalactites e estalagmites. Haviam grandes aflorações de blocos maciços de quartzo que se iluminavam com as luzes do refletor do traje. Nesse salão, o rio se dividia, escoando em pequenos sumidouros, diminuindo mais e mais sua vazão À medida em que serpenteava por entre grandes colunas de pedra que se erguiam até o teto em abóbada do salão. Em alguns minutos atrás, o que antes era um riacho considerável e gélido, agora não era mais que um fraco córrego de água rasa, serpenteando entre maciços cristais, formando cascatas barulhentas que ecoavam sem parar no interior do salão de pedra.
Carlson cambaleou e sentou-se numa praia de pedrinhas redondas para descansar. O frio da água que já inundara todo o traje. A água gelada parecia com milhares de agulhas encravando em sua pele ao mesmo tempo. A falta de ar e o cansaço o entorpeciam. Suas feridas e cortes ardiam sem parar.
Ele esticou a perna e sentiu o joelho. Percebeu que devia estar um edema enorme sob o grosso material de revestimento do traje.


Morten também estava faminto. Ainda não era a hora de se alimentar, mas o esforço no buraco havia consumido muita energia. Talvez estivesse na hora de ingerir mais um pouco de espuma, pois o percurso tortuoso do rio havia minado muito do pouco que lhe restava das forças.

O medo de Morten Carlson era que o rio desaparecesse em pequenas frestas no salão, o que teria sido um caminho em direção a um beco sem saída. Seria virtualmente impossível voltar por onde veio escalando em sentido contrario do fluxo de água. Se o salão não mostrasse uma saída, Carlson sabia que aquele seria o ponto final de sua trágica jornada no planeta misterioso.

As luzes do traje deram uma fraquejada visível. Talvez as baterias estivessem consumindo mais do que era esperado ou pior, talvez os sucessivos impactos somados a água tivessem produzido danos ao sistema elétrico da roupa.
A iluminação se reduziu então vertiginosamente, ao ponto em que quase chegaram a zero. Não houve sequer tempo para que Morten tentasse encontrar a falha no painel do braço.
Uma pequena luz alaranjada estava acesa no painel, indicando que as baterias estavam em carga abaixo da mínima. Isso era um mau sinal.
Carson praguejou e inseriu o código de emergência, onde o traje usaria uma fração reserva das baterias que nunca era usada, reduzindo a zero todas as atividades necessárias, redirecionando toda a energia residual para as luzes. NA pratica, essa energia só servia mesmo para mais umas poucas horas de luz bem fraca. Não havia tensão suficiente para ativar o sistema de conforto térmico. Que aliás, já estava quebrado há tempos.

As luzes lentamente voltaram a iluminar fracamente, permitindo ver alguma coisa com menos de 20% da definição que estavam antes.

Com a redução de luz, levou algum tempo para que Carlson habituasse seus olhos a ver alguma coisa. Ele sabia que sem os captadores térmicos do traje que convertiam calor e luz do sol em energia, logo ele estaria num casulo frio e escuro, como uma minhoca humana num outro planeta.

Com a fraca luz, era quase impossível encontrar qualquer coisa. Mas mesmo assim ele tentou. Carlson ajoelhou na areia com dificuldade para pegar na mochila o compartimento à prova d´água onde estava a espuma alimentar.
Enquanto mexia na mochila, a tampa da mesma balançou e uma coisa chamou sua atenção. Uma luz brilhou no outro lado do salão. Foi rápido, ele viu com o rabo de olho, mas notou um movimento. Num ato reflexo, Carlson Se levantou assustado. Havia alguma coisa viva ali?

Diversas possibilidades passaram em sua mente. Seres bioluminescentes reagindo a fraca luz do traje? Haveria algum tipo de predador da escuridão mantendo-se distante apenas pela luz do traje que agora estava se esvaindo rapidamente? Algum tipo de mineral desconhecido reagindo com radiação ou emissão ultravioleta das luzes do traje?
Carson ficou imóvel, à espreita de que algum barulho ocorresse, mas nada parecia estar se mexendo, e mesmo que estivesse, o eco da água serpenteando nas pedras abafaria.

Carlson abaixou-se para pegar uma pedra. Tateou para achar uma boa. Ela tinha o tamanho de uma bola de bilhar. Ele lançou a pedra. A pedra bateu em uma, duas, três rochas e “capluft”, caiu no rio. Não houve reação. Nada além do eco, logo engolfado pelo incessante som da água.

Morten não viu saída senão subir um pouco a energia residual para forçar as luzes. Imediatamente ele viu uma pessoa de pé no fundo do salão. Ela se emexeu quando ele se mexeu.

Não, não era uma pessoa. Era ele mesmo. Seu reflexo!

-Mas que… Que porra é essa? – Ele gemeu ao perceber que havia uma esfera de cerca de dois metros e meio no fundo do salão, quase colada à parede de rochas afiadas.


Carlson fechou e pegou a mochila. Atravessou o rio, passou por diversas pedras até se aproximar com cautela do objeto. Conforme andava via sua imagem crescendo devagar na superfície perfeitamente polida da bola. Era como um enorme espelho esférico.
Não havia emendas, botões, visores, telas, plugs ou qualquer coisa assim. era apenas uma bola de metal liso, absolutamente liso e reflexivo, como uma enorme esfera de rolamento de motor.

Morten mal podia conter sua estupefação. Estaria ali algum resquício da civilização desaparecida? Seria algum veículo danificado, uma parte esquecida de um dos edifícios de rocha vulcânica destruídos lá em cima?

O explorador olhou com cuidado ao redor. A bolona era lisa mesmo, sem encaixes ou emendas nem furos, nem sequer arranhões.
“Como isso chegou aqui?” – Ele se perguntou. Sabia que não havia sido pelo caminho quo o conduzira até aquele salão, pelos simples motivo que a esfera não passaria pelas frestas que ele foi obrigado a atravessar.
O teto era fechado em grandes lajes de pedra cheias de estalactites.



Carlson hesitou em tocar o objeto. Estava tremendo de frio. As pontas de seus dedos ele sequer conseguia sentir direito. A Hipotermia estava vencendo. Ele já sentia um enorme sono, que sabia não ser somente o cansaço.
Um fraco ruído chamou sua atenção. Vinha do painel do braço. A luz laranja era vermelha e agora piscava. O traje estava nas ultimas. Era o fim da energia. Então, apagou. E tudo se tornou um breu abissal.

Certo de que iria morrer, Carlson se apoiou na esfera para sentar-se junto dela. O joelho que vinha latejando sem parar, doendo cada vez mais, o forçava a parar ou sentar.
Ao tocar a esfera, Carlson assustou-se. Ela era morna. A esfera metálica estava emanando cerca de 35 graus.

Havia esperanças. O explorador logo tratou de se livrar do traje o mais rápido que podia. As roupas molhadas e a escuridão completa tornavam a operação de se livrar da roupa de proteção uma tarefa inglória, mas mesmo sem conseguir controlar bem os músculos exauridos, ele se livrou do máximo de roupa que conseguiu e se abraçou naquela bola quentinha. Ficou alguns minutos ali, agarrado sentindo o calor maravilhoso que vinha daquele metal desconhecido.

Então, aconteceu algo inesperado: Um barulhão seguido de uma forte vibração o assustou. Era como se um enorme caminhão tivesse passado ao seu lado. Um barulhão e um vento frio o atingiram pelas costas. A escuridão abissal da caverna se iluminou num clarão branco poderosíssimo. Carlson caiu no chão em meio a areia quente. Ele teve medo de olhar para trás, mas resolveu se arriscar…

CONTINUA

O experimento Carlson – Parte 17

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O rio subterrâneo serpenteou na escuridão por um desfiladeiro de rochas escuras e afiadas, cortadas por milhares e milhares de anos, talvez milhões, de fluxo de água constante, o caminho escolhido por Morten logo se mostrou muito difícil. As passagens, ora largas e muito amplas, muitas vezes se afunilavam, deixando o caminho quase impossível, pois quando o caminho se estreitava muito o volume de água se comprimia, tornando perigosíssimo o avanço devido aos fluxos poderosos de correntezas.

Logo após uma pequena cachoeira, Carlson caiu no que pareceu ser um enorme salão de pedra, repleto de estalactites e estalagmites. Haviam grandes aflorações de blocos maciços de quartzo que se iluminavam com as luzes do refletor do traje. Nesse salão, o rio se dividia, escoando em pequenos sumidouros, diminuindo mais e mais sua vazão À medida em que serpenteava por entre grandes colunas de pedra que se erguiam até o teto em abóbada do salão. Em alguns minutos atrás, o que antes era um riacho considerável e gélido, agora não era mais que um fraco córrego de água rasa, serpenteando entre maciços cristais, formando cascatas barulhentas que ecoavam sem parar no interior do salão de pedra.
Carlson cambaleou e sentou-se numa praia de pedrinhas redondas para descansar. O frio da água que já inundara todo o traje. A água gelada parecia com milhares de agulhas encravando em sua pele ao mesmo tempo. A falta de ar e o cansaço o entorpeciam. Suas feridas e cortes ardiam sem parar.
Ele esticou a perna e sentiu o joelho. Percebeu que devia estar um edema enorme sob o grosso material de revestimento do traje.


Morten também estava faminto. Ainda não era a hora de se alimentar, mas o esforço no buraco havia consumido muita energia. Talvez estivesse na hora de ingerir mais um pouco de espuma, pois o percurso tortuoso do rio havia minado muito do pouco que lhe restava das forças.

O medo de Morten Carlson era que o rio desaparecesse em pequenas frestas no salão, o que teria sido um caminho em direção a um beco sem saída. Seria virtualmente impossível voltar por onde veio escalando em sentido contrario do fluxo de água. Se o salão não mostrasse uma saída, Carlson sabia que aquele seria o ponto final de sua trágica jornada no planeta misterioso.

As luzes do traje deram uma fraquejada visível. Talvez as baterias estivessem consumindo mais do que era esperado ou pior, talvez os sucessivos impactos somados a água tivessem produzido danos ao sistema elétrico da roupa.
A iluminação se reduziu então vertiginosamente, ao ponto em que quase chegaram a zero. Não houve sequer tempo para que Morten tentasse encontrar a falha no painel do braço.
Uma pequena luz alaranjada estava acesa no painel, indicando que as baterias estavam em carga abaixo da mínima. Isso era um mau sinal.
Carson praguejou e inseriu o código de emergência, onde o traje usaria uma fração reserva das baterias que nunca era usada, reduzindo a zero todas as atividades necessárias, redirecionando toda a energia residual para as luzes. NA pratica, essa energia só servia mesmo para mais umas poucas horas de luz bem fraca. Não havia tensão suficiente para ativar o sistema de conforto térmico. Que aliás, já estava quebrado há tempos.

As luzes lentamente voltaram a iluminar fracamente, permitindo ver alguma coisa com menos de 20% da definição que estavam antes.

Com a redução de luz, levou algum tempo para que Carlson habituasse seus olhos a ver alguma coisa. Ele sabia que sem os captadores térmicos do traje que convertiam calor e luz do sol em energia, logo ele estaria num casulo frio e escuro, como uma minhoca humana num outro planeta.

Com a fraca luz, era quase impossível encontrar qualquer coisa. Mas mesmo assim ele tentou. Carlson ajoelhou na areia com dificuldade para pegar na mochila o compartimento à prova d´água onde estava a espuma alimentar.
Enquanto mexia na mochila, a tampa da mesma balançou e uma coisa chamou sua atenção. Uma luz brilhou no outro lado do salão. Foi rápido, ele viu com o rabo de olho, mas notou um movimento. Num ato reflexo, Carlson Se levantou assustado. Havia alguma coisa viva ali?

Diversas possibilidades passaram em sua mente. Seres bioluminescentes reagindo a fraca luz do traje? Haveria algum tipo de predador da escuridão mantendo-se distante apenas pela luz do traje que agora estava se esvaindo rapidamente? Algum tipo de mineral desconhecido reagindo com radiação ou emissão ultravioleta das luzes do traje?
Carson ficou imóvel, à espreita de que algum barulho ocorresse, mas nada parecia estar se mexendo, e mesmo que estivesse, o eco da água serpenteando nas pedras abafaria.

Carlson abaixou-se para pegar uma pedra. Tateou para achar uma boa. Ela tinha o tamanho de uma bola de bilhar. Ele lançou a pedra. A pedra bateu em uma, duas, três rochas e “capluft”, caiu no rio. Não houve reação. Nada além do eco, logo engolfado pelo incessante som da água.

Morten não viu saída senão subir um pouco a energia residual para forçar as luzes. Imediatamente ele viu uma pessoa de pé no fundo do salão. Ela se emexeu quando ele se mexeu.

Não, não era uma pessoa. Era ele mesmo. Seu reflexo!

-Mas que… Que porra é essa? – Ele gemeu ao perceber que havia uma esfera de cerca de dois metros e meio no fundo do salão, quase colada à parede de rochas afiadas.


Carlson fechou e pegou a mochila. Atravessou o rio, passou por diversas pedras até se aproximar com cautela do objeto. Conforme andava via sua imagem crescendo devagar na superfície perfeitamente polida da bola. Era como um enorme espelho esférico.
Não havia emendas, botões, visores, telas, plugs ou qualquer coisa assim. era apenas uma bola de metal liso, absolutamente liso e reflexivo, como uma enorme esfera de rolamento de motor.

Morten mal podia conter sua estupefação. Estaria ali algum resquício da civilização desaparecida? Seria algum veículo danificado, uma parte esquecida de um dos edifícios de rocha vulcânica destruídos lá em cima?

O explorador olhou com cuidado ao redor. A bolona era lisa mesmo, sem encaixes ou emendas nem furos, nem sequer arranhões.
“Como isso chegou aqui?” – Ele se perguntou. Sabia que não havia sido pelo caminho quo o conduzira até aquele salão, pelos simples motivo que a esfera não passaria pelas frestas que ele foi obrigado a atravessar.
O teto era fechado em grandes lajes de pedra cheias de estalactites.



Carlson hesitou em tocar o objeto. Estava tremendo de frio. As pontas de seus dedos ele sequer conseguia sentir direito. A Hipotermia estava vencendo. Ele já sentia um enorme sono, que sabia não ser somente o cansaço.
Um fraco ruído chamou sua atenção. Vinha do painel do braço. A luz laranja era vermelha e agora piscava. O traje estava nas ultimas. Era o fim da energia. Então, apagou. E tudo se tornou um breu abissal.

Certo de que iria morrer, Carlson se apoiou na esfera para sentar-se junto dela. O joelho que vinha latejando sem parar, doendo cada vez mais, o forçava a parar ou sentar.
Ao tocar a esfera, Carlson assustou-se. Ela era morna. A esfera metálica estava emanando cerca de 35 graus.

Havia esperanças. O explorador logo tratou de se livrar do traje o mais rápido que podia. As roupas molhadas e a escuridão completa tornavam a operação de se livrar da roupa de proteção uma tarefa inglória, mas mesmo sem conseguir controlar bem os músculos exauridos, ele se livrou do máximo de roupa que conseguiu e se abraçou naquela bola quentinha. Ficou alguns minutos ali, agarrado sentindo o calor maravilhoso que vinha daquele metal desconhecido.

Então, aconteceu algo inesperado: Um barulhão seguido de uma forte vibração o assustou. Era como se um enorme caminhão tivesse passado ao seu lado. Um barulhão e um vento frio o atingiram pelas costas. A escuridão abissal da caverna se iluminou num clarão branco poderosíssimo. Carlson caiu no chão em meio a areia quente. Ele teve medo de olhar para trás, mas resolveu se arriscar…

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O experimento Carlson – Parte 17

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Uma ideia sobre “O experimento Carlson – Parte 17

  • 9 de dezembro de 2020 em 11:08
    Permalink

    Pô Philipe, covardia esse cliffhanger aí

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