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Bruno coçou a cabeça, enquanto pensava na provocação ao crânio.
eles estavam sentados no banquinho da portaria, e Gui estava ao lado dele. Os dois olhavam para o vazio e já não falavam nada. Ao fundo, na entrada do prédio, o rabecão dos bombeiros removia o corpo para o IML. Uma pequena multidão de vizinhos e curiosos se aglomerava  na entrada do edifício tentando dar uma olhada no defunto.
Enquanto o povo se aglomerada, seu Limair tentava controlar a entrada e saída as pessoas do prédio. Era um dia atípico para o pobre porteiro.

Gui finalmente rompeu o silêncio com uma frase lacônica:

-Você tá fodido.

-Eu?

-Quem mais? Quem que tem uma porra duma caveira que mata as pessoas e traz o exu no meio da fogueira dentro de casa? Eu? Não… É o Bruno. O senhor!

-É. – Bruno concordou. Não sabia o que dizer, e o pior, não fazia a menor ideia do que fazer.

-A gente tem que se livrar daquela porra. Seu pai tá certo. Aquilo não é desse mundo…

-Eu… Eu…

-Porra, Bruno! Não vai me dizer que você vai esconder aquela caralha daquela cabeça! Você tem que se livrar daquilo meu. Você mesmo disse que ela pediu a alma da Bia!

-É! Sim, eu vou me livrar… Mas eu não sei…

-Não sabe o quê, vacilão?

-Não sei se vai adiantar. Eu pedi para ganhar na loteria. Mas ela pediu a alma da Bia. Se eu não entregar… Se eu não matar a Bia. Será que ela vai se vingar?

-Cara. Porra…  – Gui tinha os olhos arregalados e uma expressão de pavor. -Será?

-Ela matou seu Martinez. O que me garante que ela não vai me matar?

-Não sei. Mas… É uma perspectiva assustadora. Eu tô quase me cagando aqui. E se essa caveira do capiroto resolve que a culpa é minha e me mata, Bruno?

-Acho que só tem uma forma. A gente tem que destruir ela! Vamos destruir aquela porra e aí o poder dela certamente se enfraquece.

-É. faz sentido! Mas como que vamos destruir a maldita? -Perguntou Gui.

-Vamos quebrar ela com a marreta do meu pai! – Disse Bruno, sorrindo maliciosamente.

-Bora!

Minutos depois os dois estavam na área de serviço. Bruno estava posicionando cuidadosamente a caveira de pedra em um enrolado de toalhas no chão.  Enquanto assistia a preparação, Gui abria uma cerveja.

-Porra, a cerveja do meu pai, maluco!

-Ops, foi mal. Achei que era sua.

-Ah, foda-se. Dá um gole aí, maluco.

Gui estendeu a latinha para Bruno que deu duas goladas. Depois limpou a boca na manga da camisa. -E aí?

-A hora é agora. Vamos botar pra foder!

Bruno pegou a marreta no chão e se preparou. – Desculpa o mau jeito aí.

-É uma, é duas e…

Bruno desferiu a mais forte pancada que conseguia dar com a marreta bem na testa da caveira. As duas bolas de cristal lapidado pularam longe, mas a caveira de pedra ficou intacta.

Gui examinou a vítima: – Porra nem lascou. Nada. Nem um arranhão. Bate igual macho porra!

Bruno respirou fundo, levou a marreta até o topo da cabeça.

-THOR! – Gritou Gui.

Bruno caiu na cargalhada. – Porra viado. Não desconcentra!

-Foi mal. Vai, vai!

-Lá vai. Toma isso!

PLÁ!

Bruno deu uma violentíssima pancada na caveira que a fez pular de seu ninho de toalhas e rolar pelo chão até bater contra a máquina de lavar. O que deu um sonoro barulhão.

Após Gui correr e examinar novamente a caveira, Bruno não podia acreditar no que o amigo mostrou.

-Nada.

Novamente, a caveira de pedra não tinha nem um arranhão.

-Não é possível.

-Deve ser feitiço! – Exclamou Gui.  – Essa porrada dava para quebrar até ferro. Deixa eu tentar. Bota ela aí e passa a marreta.

-Ok. Vai!

-É três, é dois, é um e… Segura peããããão!

Gui deu uma violenta pancada na caveira mas novamente, nada aconteceu.

-Cruz credo!

-Certeza que ela não vai quebrar com porrada.

-Mas Bruno, ela tem que quebrar com porrada. Do contrário, como ela teria sido esculpida afinal? Só pode ter sido com porrada.

-Nem preciso dizer que essa coisa está protegida de alguma forma. -Disse Bruno, pegando a caveira do chão para analisar.

-Bruno, e se a gente jogasse ela do alto do prédio?

-Tá louco? Essa porra pesa uns dois quilos ou mais!

-Aposto que jogando do alto do prédio ela vai quebrar!

-Hummm. Tá. Vamos ver. Faz o seguinte, desce la no play. Vê se não vem ninguém e dá o sinal que eu taco.

-Taca mesmo?

-Taco, porra!

-Demorou!

Gui correu para o elevador. Minutos depois, Gui apareceu no pequeno espaço retangular que dava para o reservatório de gás do prédio. A janela da área de serviço dava para aquele pedaço sujo do play.

-E aí? Gritou Bruno.

Gui olhou para os lados e fez sinal de positivo com os dedos.

-Vou tacar!

-Tacaaaa!

-Sai de baixooooo!  -Gritou Bruno.

Gui saiu correndo para longe. Enquanto isso, Bruno jogou a caveira contra o solo.

A caveira girou no vazio e atingiu o chão de cimento do play com uma sonora explosão. Parecia um morteiro. Lá do playground Gui viu a caveira colidor contra o solo e quicar, subiu quase um metro e altura antes de bater no chão novamente.

Gui correu até ela. A caveira tinha conseguido abrir um pequeno buraco lascado no concreto. Mas a escultura estava completamente intacta.

-E aí? E aí? – Bruno gritava da janelinha lá no alto.

Gui fez sinal negativo com o dedo. – Nem arranhou! -Ele gritou.

-Sério?

-Serio!

-Pera aí que eu tô descendo!  – Ele respondeu.

Bruno apareceu minutos depois na porta do elevador.

-Dá aqui essa merda! – Disse, tomando a caveira da mão de Gui com grosseiria.

-Calma, porra. A culpa desse troço ser de adamantium né minha não parceiro!

-Tá ok. Beleza, desculpa. Cara nem lascou nem rachou. Inacreditável.

-Como vamos nos livrar dessa desgraçada?

-Já sei. Eu tenho uma ideia. Sabe aquela obra que estão fazendo no final da rua de trás?

-Sei. Ta tudo fechado pro trânsito tá. Acho que é obra do metrô, né?

-Eles tem uma maquina lá de perfurar asfalto. Uma britadeira gigante. Vamos levar essa porra lá e pedir para o cara quebrar ela com a máquina.

-Duvido que ele vai topar.

-Nada que cinquentinha não ajude! -Disse Bruno sacando uma nota do bolso.

Os dois foram até a rua de trás. Após alguns minutos olhando pelo biombo da obra, acharam finalmente o encarregado. Bruno explicou que estava tentando espatifar a caveira, mas o encarregado não parecia muito interessado. Nem mesmo a nota de cinquenta despertou a cobiça do sujeito, um homem meio bronco que parecia um gladiador ou astro de luta livre.  Bruno estava quase desistindo quando Gui salvou a parada com uma frase lapidar:

-Que pena, nunca saberemos se a lenda da família dele é verdadeira…

-Lenda? – perguntou o encarregado.

-É… dizem na familia que dentro dessa pedra tem um diamante enorme. Uma porra dum diamante que vale milhões… Sei lá, Bilhões!

-Diamante? Aí dentro?

Bruno olhou com cara estranha para Gui, que quando começava na mentira não conseguia mais parar.

-Então, o bisavô do meu amigo aqui era mineiro. Ele era lá de Barbacena. Mas lá tinha uma mina, uma mina de diamante, tá ligado? E ele escavou essa mina atras de um diamante gigante. Quando ele finalmente achou o veio dos diamantes, ele era tão grande, mas tão grande, que com medo dos ladrões o avô dele mandou esculpir na pedra essa caveira. O diamante gigante, dizem que está aí dentro. Mas sem quebrar, nunca vamos sab…

-Eu quebro!

-Quebra mesmo?

-Quebro! Mas se lascar a pedra uma fatia é minha!

-Como o senhor quiser! -Disse Bruno animado.

Eles entregaram a caveira para o homem de macacão azul marinho. Ele assoviou com os dedos sujos nos cantos da boca. Logo surgiram outros dois um negro gordinho e um magrelo alto de óculos morcegão.  Enquanto os dois se aproximavam, o encarregado virou-se para Bruno e Gui. Sussurrou:

-Nada de falar do diamante!

-Beleza. Fechado! – Eles disseram.

Quando os dois homens chegaram, o encarregado entregou a caveira e deu ordem para usar a maquina nela.

-Será que vai quebrar? – Perguntou Gui.

Os homens começaram a rir.

-Meu filho, olhá lá o brinquedo. Se aquela britadeira hidráulica não quebrar isso aí, eu tiro a minha roupa, viro baiana e vou vender acarajé na praça Mauá!

De fato, a maquina era um colosso. Um corpo de escavadeira amarela onde a ponta terminava numa grossa haste de aço.

-Cuza os dedos aí, Gui! – Disse Bruno entre os dentes, enquanto os dois olhavam de longe os dois peões posicionando a caveira num buraco. eles então sinalizaram para o encarregado. O encarregado apontou o local e o gordinho operou a maquina. Lentamente o braço mecânico de quase oito metros de altura se ajustou com incrível precisão. A ponta de metal avançou lentamente, até tocar a têmpora da caveira.

O encarregado fez o sinal com a mão e a coisa ligou. Imediatamente aquela ponta enorme de aço começou a desferir uma série de pancadas no crânio. Uma nuvem de poeira se levantou. A quantidade de pancadas foi aumentando gradativamente e o barulho era ensurdecedor.

O Encarregado tocou um apito que trazia no pescoço. E o gordinho desligou a maquina. O braço mecânico se recolheu e tidos correram para ver. Onde estava a caveira, agora só havia um buraco no solo.

-Ué. Cadê? Será que virou pó?

Bruno e Gui desobedeceram as ordens de ver do lado de fora do cercado da obra. Eles correram até o local, onde o Encarregado e o Magrelo olhavam o buraco.

Ali dentro, enterrada cerca de 40 centímetros no solo, estava a caveira de pedra. Intacta.

O gordinho olhou para o mestre de obras, intrigado.

-Nunca vi isso em vinte anos de profissão, Seu Messias…

-Porra, não é possível.  Renato, pega a picareta lá e puxa ela. Essa porra vai quebrar ou meu nome não é Messias!

-Sim senhor! -Disse o Magrelo.

Gui já estava prestes a fazer algum gracejo sobre roupas de baiana, mas foi dissuadido com um safanão discreto do Bruno.

-Nem pense nisso! Olha o tamanho desse cara, ô mongol!

-Ops, foi mal. Sabe como é. Perco o amigo mas…

-Vai perder a piada. Já perdeu.

-Tá bom, tá bom.

O magrelo voltou com a picareta. Minutos depois ele e mais quatro outros empregados conseguiram cavar o buraco ao redor da caveira e removê-la do solo. Todos estavam intrigados.

-Nem uma rachadura!

-Vou te dizer garoto, seu avô tinha mesmo as manhas de esculpir! -Falou o encarregado. -Sua sorte é que justamente hoje vamos dinamitar uma pedra ali em baixo. Quer tentar com dinamite?

-Di-dinamite? – Perguntou Bruno incrédulo.

-TNT. -Ele respondeu.

Bruno percebeu que agora era um “ponto de honra” do encarregado de destruir a caveira, ou ficaria com a imagem queimada diante dos subordinados.

-Bora!

 

Então, a hora prevista da detonação seria dali a duas horas. Bruno e Gui pegaram a caveira, se despediram dos novos amigos e foram almoçar numa galeria lá perto. Deram uma passada numa loja de discos, olharam umas roupas numa loja e foram ate um restaurante de comida à quilo.

Colocaram a caveira na mesa e enquanto almoçavam, discutiram sobre como fariam para se livrar dela.

-E se explodir e não sobrar nada? – perguntou Gui.

-Aí, foda-se. -Bruno respondeu comendo um pedaço de brócolis.

-Mas e como vamos saber se a caveira não foi pras cucuias ou o encarregado malocou ela com ele? Certamente ele não vai deixar a gente ver a explosão.

-Não deve ser permitido.

-Pois é. E aí?

-Não tem jeito, só podemos confiar nele. Marreta não deu, jogar do prédio não deu picareta nem arranhou… Agora, se dinamite não der, fudeu.

-Acho que a dinamite vai resolver.

-Bom, se não resolver, uma ideia é voc~e simplesmnete desejar que ela se autp-destrua.

-Sabe que nao é má ideia? -Disse Bruno olhando fixamente para a caveira de pedra… Até que num pulo, perguntou: – Ei, que horas tem?

-Faltam vinte minutos!

Bruno e Gui correram de volta ao canteiro de obras. O encarregado estava puto.

-Porra, achei que vocês tinham desistido!

Bruno se desculpou. Entregou a caveira ao encarregado. Ele levou a escultura de pedra com ele.

Minutos depois soou a sirene. E então fez um longo e interminável silêncio. Outra sirene tocou, seguida de mais alguns segundos em que não se ouvia nada, então bruno sentiu a vibração no solo, sob seus pés.

-Acabou – ele disse.

-É agora ou nunca.

Bruno e Gui ficaram aflitos, esperando que o encarregado aparecesse, mas ele não vinha. Eles começaram a se preocupar. Mas então, depois de intermináveis minutos de espera e agonia, o encarregado veio com uma caixa.

-Alá! Alá! Uma caixa, deve ter fragmentado toda!  -Bruno se animou.

Quando o encarregado chegou, ele tinha uma expressão estranha.

-Que foi?

O encarregado nada disse, apenas abriu a caixa e a caveira estava toda branca, coberta de poeira. Mas completamente, absolutamente intacta.

-Eu nunca vi algo assim na minha vida, garotos. – disse o homenzarrão, incrédulo, e manifestando até um pouco de medo daquela coisa. -Não posso fazer mais nada. Nem dinamite lascou isso aí!

Bruno e Gui agradeceram. Pegaram a caixa com a caveira dentro e voltaram para casa, cabisbaixos.

Ao chegarem no portão, uma surpresa. Seu Limair estava esperando por eles.

-Bruno, um homem esteve aqui e deixou uma coisa pro senhor.

-Coisa?

Seu Limair pegou debaixo do balcãozinho da portaria. Era uma caixa toda preta. Não havia nada escrito nela.

-Quem deixou isso?

-Um velho. Ele veio aqui, disse que era um amigo seu e que tinha uma coisa pra você.

Bruno abriu a caixa e encontrou uma coisa que só poderia ser descrita como um martelinho de prata. Ao lado um bilhete: “Use isso, depois jogue tudo no mar.”

O bilhete era assinado por “um amigo”, seguido de um simbolo que era um triângulo estranho de cabeça para baixo.

Bruno e Gui se entreolharam.

-Será o… Exu?

-Não sei. Só sei que eu vou usar essa porra.

-Cara se nem a dinamite não resolveu…

-O que a gente tem a perder?

Os dois foram até o playground do prédio do Bruno. Lá eles colocaram a caveira no chão.

Bruno se preparou com o martelinho de prata. Levantou aquilo no ar e bateu com toda força na caveira.

A melhor palavra para descrever o que aconteceu é uma só: Explodiu.

A caveira estourou em milhares de fragmentos de todos os tamanhos. Onde antes havia uma caveira, agora só restava o pó e milhares de pedaços que parecia rocha vitrificada.

-Acabou! Acabou! – Gui comemorou, abraçando Bruno.

-Não… Não acabou!- Disse Bruno, segurando o bilhete. -Falta jogar no mar.

Então os dois cuidadosamente recolheram todos os cacos. Jogaram tudo na caixa preta do martelinho.

Gui estava com o carro estacionado na rua e partiram com o bat-movel em direção ao Arpoador.

Lá, no alto da pedra Bruno lançou a caixa no ar. Ela se abriu com o vento e derramou a poeira de farelos de pedra como uma chuva de pequenos fragmentos no mar.

-Eu queria ver a cara do encarregado quando você espatifou ela.

-Pode crer.

-Ele com certeza ia comprar a roupa de baiana!

-Bom… Fizemos o que o “amigo” mandou. E agora? É isso? É apenas isso? Joga essa merda no mar e acabou?

-Acho que acabou.

Os dois voltaram até o carro e retornaram para casa. Bruno agradeceu a ajuda de Gui e subiu. Estava tarde e Gui voltou direto para sua casa.

Quando bruno ia entrando, seu Limair o chamou:

-Seu Bruno! Seu Bruno…

-Que foi?

-Eu… me desculpa, eu esqueci. Esse negócio aqui caiu da caixa quando o moço entregou e eu não vi!  – Disse o porteiro lhe estendendo uma coisa escura.

Era um envelope preto pequeno. Bruno abriu o envelope com curiosidade.

Dentro havia um bilhete de loteria. Um único jogo. Da MegaSena. Nele, estavam marcados apenas seis numeros.

Bruno começou a tremer. Algo dentro dele sabia o que aquilo significava. Ele sorriu e correu para casa para esperar o sorteio.

—-X—-

Muito, muito longe dali, a água gelada do mar se chocava cotra as pedras.  Um grupo de rapazes vinha caminhando na praia. Estavam indo a um luau. Um deles, vinha na frente, carregando seu violão nas costas. Ele foi o primeiro a vê-la. Correu até ela e pegou.

-Caramba…

-Que isso? – Perguntou uma menina.

-Maneiraça!

-Quem será que esculpiu isso? – Um deles perguntou.

-Deve ser algo indígena. Talvez.. da Atlântida. Algo que o mar devolveu.

-Só pode ser macumba.

-Nada, olha pra ela! Toda de pedra, perfeitamente polida…

-Certeza que isso não é natural. Alguém esculpiu essa caveira nessa pedra!

-Vou ficar com ela pra mim. Vou até fazer um altarzinho no meu quarto… – Disse o rapaz, olhando com admiração para a caveira de pedra sorridente em suas mãos.

FIM

 

 

O crânio – Parte 13

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Bruno coçou a cabeça, enquanto pensava na provocação ao crânio.
eles estavam sentados no banquinho da portaria, e Gui estava ao lado dele. Os dois olhavam para o vazio e já não falavam nada. Ao fundo, na entrada do prédio, o rabecão dos bombeiros removia o corpo para o IML. Uma pequena multidão de vizinhos e curiosos se aglomerava  na entrada do edifício tentando dar uma olhada no defunto.
Enquanto o povo se aglomerada, seu Limair tentava controlar a entrada e saída as pessoas do prédio. Era um dia atípico para o pobre porteiro.

Gui finalmente rompeu o silêncio com uma frase lacônica:

-Você tá fodido.

-Eu?

-Quem mais? Quem que tem uma porra duma caveira que mata as pessoas e traz o exu no meio da fogueira dentro de casa? Eu? Não… É o Bruno. O senhor!

-É. – Bruno concordou. Não sabia o que dizer, e o pior, não fazia a menor ideia do que fazer.

-A gente tem que se livrar daquela porra. Seu pai tá certo. Aquilo não é desse mundo…

-Eu… Eu…

-Porra, Bruno! Não vai me dizer que você vai esconder aquela caralha daquela cabeça! Você tem que se livrar daquilo meu. Você mesmo disse que ela pediu a alma da Bia!

-É! Sim, eu vou me livrar… Mas eu não sei…

-Não sabe o quê, vacilão?

-Não sei se vai adiantar. Eu pedi para ganhar na loteria. Mas ela pediu a alma da Bia. Se eu não entregar… Se eu não matar a Bia. Será que ela vai se vingar?

-Cara. Porra…  – Gui tinha os olhos arregalados e uma expressão de pavor. -Será?

-Ela matou seu Martinez. O que me garante que ela não vai me matar?

-Não sei. Mas… É uma perspectiva assustadora. Eu tô quase me cagando aqui. E se essa caveira do capiroto resolve que a culpa é minha e me mata, Bruno?

-Acho que só tem uma forma. A gente tem que destruir ela! Vamos destruir aquela porra e aí o poder dela certamente se enfraquece.

-É. faz sentido! Mas como que vamos destruir a maldita? -Perguntou Gui.

-Vamos quebrar ela com a marreta do meu pai! – Disse Bruno, sorrindo maliciosamente.

-Bora!

Minutos depois os dois estavam na área de serviço. Bruno estava posicionando cuidadosamente a caveira de pedra em um enrolado de toalhas no chão.  Enquanto assistia a preparação, Gui abria uma cerveja.

-Porra, a cerveja do meu pai, maluco!

-Ops, foi mal. Achei que era sua.

-Ah, foda-se. Dá um gole aí, maluco.

Gui estendeu a latinha para Bruno que deu duas goladas. Depois limpou a boca na manga da camisa. -E aí?

-A hora é agora. Vamos botar pra foder!

Bruno pegou a marreta no chão e se preparou. – Desculpa o mau jeito aí.

-É uma, é duas e…

Bruno desferiu a mais forte pancada que conseguia dar com a marreta bem na testa da caveira. As duas bolas de cristal lapidado pularam longe, mas a caveira de pedra ficou intacta.

Gui examinou a vítima: – Porra nem lascou. Nada. Nem um arranhão. Bate igual macho porra!

Bruno respirou fundo, levou a marreta até o topo da cabeça.

-THOR! – Gritou Gui.

Bruno caiu na cargalhada. – Porra viado. Não desconcentra!

-Foi mal. Vai, vai!

-Lá vai. Toma isso!

PLÁ!

Bruno deu uma violentíssima pancada na caveira que a fez pular de seu ninho de toalhas e rolar pelo chão até bater contra a máquina de lavar. O que deu um sonoro barulhão.

Após Gui correr e examinar novamente a caveira, Bruno não podia acreditar no que o amigo mostrou.

-Nada.

Novamente, a caveira de pedra não tinha nem um arranhão.

-Não é possível.

-Deve ser feitiço! – Exclamou Gui.  – Essa porrada dava para quebrar até ferro. Deixa eu tentar. Bota ela aí e passa a marreta.

-Ok. Vai!

-É três, é dois, é um e… Segura peããããão!

Gui deu uma violenta pancada na caveira mas novamente, nada aconteceu.

-Cruz credo!

-Certeza que ela não vai quebrar com porrada.

-Mas Bruno, ela tem que quebrar com porrada. Do contrário, como ela teria sido esculpida afinal? Só pode ter sido com porrada.

-Nem preciso dizer que essa coisa está protegida de alguma forma. -Disse Bruno, pegando a caveira do chão para analisar.

-Bruno, e se a gente jogasse ela do alto do prédio?

-Tá louco? Essa porra pesa uns dois quilos ou mais!

-Aposto que jogando do alto do prédio ela vai quebrar!

-Hummm. Tá. Vamos ver. Faz o seguinte, desce la no play. Vê se não vem ninguém e dá o sinal que eu taco.

-Taca mesmo?

-Taco, porra!

-Demorou!

Gui correu para o elevador. Minutos depois, Gui apareceu no pequeno espaço retangular que dava para o reservatório de gás do prédio. A janela da área de serviço dava para aquele pedaço sujo do play.

-E aí? Gritou Bruno.

Gui olhou para os lados e fez sinal de positivo com os dedos.

-Vou tacar!

-Tacaaaa!

-Sai de baixooooo!  -Gritou Bruno.

Gui saiu correndo para longe. Enquanto isso, Bruno jogou a caveira contra o solo.

A caveira girou no vazio e atingiu o chão de cimento do play com uma sonora explosão. Parecia um morteiro. Lá do playground Gui viu a caveira colidor contra o solo e quicar, subiu quase um metro e altura antes de bater no chão novamente.

Gui correu até ela. A caveira tinha conseguido abrir um pequeno buraco lascado no concreto. Mas a escultura estava completamente intacta.

-E aí? E aí? – Bruno gritava da janelinha lá no alto.

Gui fez sinal negativo com o dedo. – Nem arranhou! -Ele gritou.

-Sério?

-Serio!

-Pera aí que eu tô descendo!  – Ele respondeu.

Bruno apareceu minutos depois na porta do elevador.

-Dá aqui essa merda! – Disse, tomando a caveira da mão de Gui com grosseiria.

-Calma, porra. A culpa desse troço ser de adamantium né minha não parceiro!

-Tá ok. Beleza, desculpa. Cara nem lascou nem rachou. Inacreditável.

-Como vamos nos livrar dessa desgraçada?

-Já sei. Eu tenho uma ideia. Sabe aquela obra que estão fazendo no final da rua de trás?

-Sei. Ta tudo fechado pro trânsito tá. Acho que é obra do metrô, né?

-Eles tem uma maquina lá de perfurar asfalto. Uma britadeira gigante. Vamos levar essa porra lá e pedir para o cara quebrar ela com a máquina.

-Duvido que ele vai topar.

-Nada que cinquentinha não ajude! -Disse Bruno sacando uma nota do bolso.

Os dois foram até a rua de trás. Após alguns minutos olhando pelo biombo da obra, acharam finalmente o encarregado. Bruno explicou que estava tentando espatifar a caveira, mas o encarregado não parecia muito interessado. Nem mesmo a nota de cinquenta despertou a cobiça do sujeito, um homem meio bronco que parecia um gladiador ou astro de luta livre.  Bruno estava quase desistindo quando Gui salvou a parada com uma frase lapidar:

-Que pena, nunca saberemos se a lenda da família dele é verdadeira…

-Lenda? – perguntou o encarregado.

-É… dizem na familia que dentro dessa pedra tem um diamante enorme. Uma porra dum diamante que vale milhões… Sei lá, Bilhões!

-Diamante? Aí dentro?

Bruno olhou com cara estranha para Gui, que quando começava na mentira não conseguia mais parar.

-Então, o bisavô do meu amigo aqui era mineiro. Ele era lá de Barbacena. Mas lá tinha uma mina, uma mina de diamante, tá ligado? E ele escavou essa mina atras de um diamante gigante. Quando ele finalmente achou o veio dos diamantes, ele era tão grande, mas tão grande, que com medo dos ladrões o avô dele mandou esculpir na pedra essa caveira. O diamante gigante, dizem que está aí dentro. Mas sem quebrar, nunca vamos sab…

-Eu quebro!

-Quebra mesmo?

-Quebro! Mas se lascar a pedra uma fatia é minha!

-Como o senhor quiser! -Disse Bruno animado.

Eles entregaram a caveira para o homem de macacão azul marinho. Ele assoviou com os dedos sujos nos cantos da boca. Logo surgiram outros dois um negro gordinho e um magrelo alto de óculos morcegão.  Enquanto os dois se aproximavam, o encarregado virou-se para Bruno e Gui. Sussurrou:

-Nada de falar do diamante!

-Beleza. Fechado! – Eles disseram.

Quando os dois homens chegaram, o encarregado entregou a caveira e deu ordem para usar a maquina nela.

-Será que vai quebrar? – Perguntou Gui.

Os homens começaram a rir.

-Meu filho, olhá lá o brinquedo. Se aquela britadeira hidráulica não quebrar isso aí, eu tiro a minha roupa, viro baiana e vou vender acarajé na praça Mauá!

De fato, a maquina era um colosso. Um corpo de escavadeira amarela onde a ponta terminava numa grossa haste de aço.

-Cuza os dedos aí, Gui! – Disse Bruno entre os dentes, enquanto os dois olhavam de longe os dois peões posicionando a caveira num buraco. eles então sinalizaram para o encarregado. O encarregado apontou o local e o gordinho operou a maquina. Lentamente o braço mecânico de quase oito metros de altura se ajustou com incrível precisão. A ponta de metal avançou lentamente, até tocar a têmpora da caveira.

O encarregado fez o sinal com a mão e a coisa ligou. Imediatamente aquela ponta enorme de aço começou a desferir uma série de pancadas no crânio. Uma nuvem de poeira se levantou. A quantidade de pancadas foi aumentando gradativamente e o barulho era ensurdecedor.

O Encarregado tocou um apito que trazia no pescoço. E o gordinho desligou a maquina. O braço mecânico se recolheu e tidos correram para ver. Onde estava a caveira, agora só havia um buraco no solo.

-Ué. Cadê? Será que virou pó?

Bruno e Gui desobedeceram as ordens de ver do lado de fora do cercado da obra. Eles correram até o local, onde o Encarregado e o Magrelo olhavam o buraco.

Ali dentro, enterrada cerca de 40 centímetros no solo, estava a caveira de pedra. Intacta.

O gordinho olhou para o mestre de obras, intrigado.

-Nunca vi isso em vinte anos de profissão, Seu Messias…

-Porra, não é possível.  Renato, pega a picareta lá e puxa ela. Essa porra vai quebrar ou meu nome não é Messias!

-Sim senhor! -Disse o Magrelo.

Gui já estava prestes a fazer algum gracejo sobre roupas de baiana, mas foi dissuadido com um safanão discreto do Bruno.

-Nem pense nisso! Olha o tamanho desse cara, ô mongol!

-Ops, foi mal. Sabe como é. Perco o amigo mas…

-Vai perder a piada. Já perdeu.

-Tá bom, tá bom.

O magrelo voltou com a picareta. Minutos depois ele e mais quatro outros empregados conseguiram cavar o buraco ao redor da caveira e removê-la do solo. Todos estavam intrigados.

-Nem uma rachadura!

-Vou te dizer garoto, seu avô tinha mesmo as manhas de esculpir! -Falou o encarregado. -Sua sorte é que justamente hoje vamos dinamitar uma pedra ali em baixo. Quer tentar com dinamite?

-Di-dinamite? – Perguntou Bruno incrédulo.

-TNT. -Ele respondeu.

Bruno percebeu que agora era um “ponto de honra” do encarregado de destruir a caveira, ou ficaria com a imagem queimada diante dos subordinados.

-Bora!

 

Então, a hora prevista da detonação seria dali a duas horas. Bruno e Gui pegaram a caveira, se despediram dos novos amigos e foram almoçar numa galeria lá perto. Deram uma passada numa loja de discos, olharam umas roupas numa loja e foram ate um restaurante de comida à quilo.

Colocaram a caveira na mesa e enquanto almoçavam, discutiram sobre como fariam para se livrar dela.

-E se explodir e não sobrar nada? – perguntou Gui.

-Aí, foda-se. -Bruno respondeu comendo um pedaço de brócolis.

-Mas e como vamos saber se a caveira não foi pras cucuias ou o encarregado malocou ela com ele? Certamente ele não vai deixar a gente ver a explosão.

-Não deve ser permitido.

-Pois é. E aí?

-Não tem jeito, só podemos confiar nele. Marreta não deu, jogar do prédio não deu picareta nem arranhou… Agora, se dinamite não der, fudeu.

-Acho que a dinamite vai resolver.

-Bom, se não resolver, uma ideia é voc~e simplesmnete desejar que ela se autp-destrua.

-Sabe que nao é má ideia? -Disse Bruno olhando fixamente para a caveira de pedra… Até que num pulo, perguntou: – Ei, que horas tem?

-Faltam vinte minutos!

Bruno e Gui correram de volta ao canteiro de obras. O encarregado estava puto.

-Porra, achei que vocês tinham desistido!

Bruno se desculpou. Entregou a caveira ao encarregado. Ele levou a escultura de pedra com ele.

Minutos depois soou a sirene. E então fez um longo e interminável silêncio. Outra sirene tocou, seguida de mais alguns segundos em que não se ouvia nada, então bruno sentiu a vibração no solo, sob seus pés.

-Acabou – ele disse.

-É agora ou nunca.

Bruno e Gui ficaram aflitos, esperando que o encarregado aparecesse, mas ele não vinha. Eles começaram a se preocupar. Mas então, depois de intermináveis minutos de espera e agonia, o encarregado veio com uma caixa.

-Alá! Alá! Uma caixa, deve ter fragmentado toda!  -Bruno se animou.

Quando o encarregado chegou, ele tinha uma expressão estranha.

-Que foi?

O encarregado nada disse, apenas abriu a caixa e a caveira estava toda branca, coberta de poeira. Mas completamente, absolutamente intacta.

-Eu nunca vi algo assim na minha vida, garotos. – disse o homenzarrão, incrédulo, e manifestando até um pouco de medo daquela coisa. -Não posso fazer mais nada. Nem dinamite lascou isso aí!

Bruno e Gui agradeceram. Pegaram a caixa com a caveira dentro e voltaram para casa, cabisbaixos.

Ao chegarem no portão, uma surpresa. Seu Limair estava esperando por eles.

-Bruno, um homem esteve aqui e deixou uma coisa pro senhor.

-Coisa?

Seu Limair pegou debaixo do balcãozinho da portaria. Era uma caixa toda preta. Não havia nada escrito nela.

-Quem deixou isso?

-Um velho. Ele veio aqui, disse que era um amigo seu e que tinha uma coisa pra você.

Bruno abriu a caixa e encontrou uma coisa que só poderia ser descrita como um martelinho de prata. Ao lado um bilhete: “Use isso, depois jogue tudo no mar.”

O bilhete era assinado por “um amigo”, seguido de um simbolo que era um triângulo estranho de cabeça para baixo.

Bruno e Gui se entreolharam.

-Será o… Exu?

-Não sei. Só sei que eu vou usar essa porra.

-Cara se nem a dinamite não resolveu…

-O que a gente tem a perder?

Os dois foram até o playground do prédio do Bruno. Lá eles colocaram a caveira no chão.

Bruno se preparou com o martelinho de prata. Levantou aquilo no ar e bateu com toda força na caveira.

A melhor palavra para descrever o que aconteceu é uma só: Explodiu.

A caveira estourou em milhares de fragmentos de todos os tamanhos. Onde antes havia uma caveira, agora só restava o pó e milhares de pedaços que parecia rocha vitrificada.

-Acabou! Acabou! – Gui comemorou, abraçando Bruno.

-Não… Não acabou!- Disse Bruno, segurando o bilhete. -Falta jogar no mar.

Então os dois cuidadosamente recolheram todos os cacos. Jogaram tudo na caixa preta do martelinho.

Gui estava com o carro estacionado na rua e partiram com o bat-movel em direção ao Arpoador.

Lá, no alto da pedra Bruno lançou a caixa no ar. Ela se abriu com o vento e derramou a poeira de farelos de pedra como uma chuva de pequenos fragmentos no mar.

-Eu queria ver a cara do encarregado quando você espatifou ela.

-Pode crer.

-Ele com certeza ia comprar a roupa de baiana!

-Bom… Fizemos o que o “amigo” mandou. E agora? É isso? É apenas isso? Joga essa merda no mar e acabou?

-Acho que acabou.

Os dois voltaram até o carro e retornaram para casa. Bruno agradeceu a ajuda de Gui e subiu. Estava tarde e Gui voltou direto para sua casa.

Quando bruno ia entrando, seu Limair o chamou:

-Seu Bruno! Seu Bruno…

-Que foi?

-Eu… me desculpa, eu esqueci. Esse negócio aqui caiu da caixa quando o moço entregou e eu não vi!  – Disse o porteiro lhe estendendo uma coisa escura.

Era um envelope preto pequeno. Bruno abriu o envelope com curiosidade.

Dentro havia um bilhete de loteria. Um único jogo. Da MegaSena. Nele, estavam marcados apenas seis numeros.

Bruno começou a tremer. Algo dentro dele sabia o que aquilo significava. Ele sorriu e correu para casa para esperar o sorteio.

—-X—-

Muito, muito longe dali, a água gelada do mar se chocava cotra as pedras.  Um grupo de rapazes vinha caminhando na praia. Estavam indo a um luau. Um deles, vinha na frente, carregando seu violão nas costas. Ele foi o primeiro a vê-la. Correu até ela e pegou.

-Caramba…

-Que isso? – Perguntou uma menina.

-Maneiraça!

-Quem será que esculpiu isso? – Um deles perguntou.

-Deve ser algo indígena. Talvez.. da Atlântida. Algo que o mar devolveu.

-Só pode ser macumba.

-Nada, olha pra ela! Toda de pedra, perfeitamente polida…

-Certeza que isso não é natural. Alguém esculpiu essa caveira nessa pedra!

-Vou ficar com ela pra mim. Vou até fazer um altarzinho no meu quarto… – Disse o rapaz, olhando com admiração para a caveira de pedra sorridente em suas mãos.

FIM

 

 

O crânio – Parte 13

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