O crânio – Parte 11

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on pinterest
Pinterest
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Share on twitter
Share on pinterest
Share on whatsapp
Categorias
Night mode

Gui deixou Bruno na rua, em frente o prédio. Pouco se falaram.

-Amanhã eu te ligo. – Disse Bruno.

Gui apenas acenou com o polegar em riste e acelerou o carro.

Bruno entrou em casa na calada da madrugada. Os pais dormiam. Ele esgueirou-se pela casa escura como um espectro e foi direto para o banheiro. Sua aparência era péssima. Temia que a mãe o visse todo banhado de sangue gosmento no meio da sala. Sem dúvidas Dona Sandra ia ter um piripaque.

Ele trancou o banheiro e se jogou debaixo do chuveiro. A água quente lavou o sangue e ele viu se formar uma poça cor de rosa sob seus pés, que foi escurecendo cada vez mais à medida que o sangue escorria. Ele agarrou o sabonete e foi aí que percebeu.

Bruno sentiu que algo não estava certo. Começou com um súbito arrepio que o atingiu na base da coluna. E então tudo parecia estranhamente confuso ao seu redor. Ele estava tonto. Talvez fosse efeito da água muito quente…

Então veio o primeiro espasmo.

Bruno caiu de joelhos no chão do box. A água escorria sobre ele e enquanto isso ele sentia uma dor esmagar-lhe as tripas. Era como se um fogo horrível ardesse como mil fogueiras dentro dele.  O box estava todo enevoado de vapor e ele mal conseguia se levantar. Veio o segundo espasmo. Algo se contraiu violentamente dentro dele e ele não conseguiu conter. Vomitou um caldo preto, que parecia tinta, uma tinta grossa como um piche, uma gosma fétida e escura que agarrou no chão. Para horror completo do rapaz, veio em seguida outro espasmo e uma nova regurgitada daquela coisa. Dessa vez veio muito. Saiu pelo nariz. A coisa preta escorria dos ouvidos. E logo após aquele espasmo, veio outro e mais outro. A dor era insuportável e se ele pudesse, teria gritado.

Mas então, quando o sétimo espasmo ocorreu, a coisa parou. Ele não vomitou mais nada. Estava exausto, vendo aquela coisa lentamente se desfazendo como uma cola, que era gradualmente dissolvida na água do banho e descia para a escuridão do ralo.

Bruno se levantou, apoiando-se na parede. Encostou-se na parede fria de azulejos brancos. A água caía sobre ele, castigando sua pele com o turbilhão quente.

Ele desligou a água. E saindo do box, olhou no espelho. O vapor havia deixado o enorme espelho do banheiro completamente embaçado, mas apesar daquilo, ele notou um estranho simbolo triangular desenhado no vidro, como se alguém tivesse ali passado os dedos e feito um desenho. Mas quem? Só estava ele ali. O banheiro estava trancado.

Bruno olhou para quela figura desenhada no espelho e notou caracteres desconhecidos na base do triângulo. A forma lembrava a bandeira de Minas Gerais, mas era escrita com o que parecia ser fenício, ou árabe.

Então, como se aquela madrugada já não fosse suficientemente estranha, Bruno conseguiu entender o que ali estava escrito, mesmo que nunca tivesse sequer visto nenhum daqueles caracteres antes em sua vida:

“Estás livre do mal que lhe afligia.”

E assim que ele leu, tornou a ver aquele monte de letras incompreensíveis.

Bruno abriu o banheiro correndo. Foi até o quarto, em busca do telefone. Precisava fotografar o desenho do vidro para mostrar ao Gui. Mas ao retornar ao banheiro, ele se surpreendeu: O vidro estava completamente embaçado. Não havia sinal do triângulo nem das letras misteriosas.

Só restou a ele retornar ao quarto, vestir uma camiseta de político e suas cuecas. Deitou-se na cama com aquela imagem e as palavras que havia conseguido ler ecoando na cabeça.

Sua mente era um turbilhão de duvidas e pensamentos. Seria a doença a bile negra que ele havia vomitado? Teria o crânio cumprido sua parte?

Bruno lançou um olhar para a misteriosa caveira de pedra enfiada em seu altarzinho. A fraca luz que adentrava a janela iluminava o caveirito.

Bruno levantou-se da cama e pegou a caveira. Deitou-se no escuro com ela. Segurando a forma de pedra mentalizou um profundo agradecimento.

E dormiu.

Dormiu como poucas vezes em sua vida havia conseguido dormir.

Acordou com uma mão acariciando-lhe os cabelos. Abriu os olhos assustado. Estava diante de seu pai. O sol já entrava forte pela janela aberta.

-Boa tarde parceiro! – Disse o pai dele.

Bruno suspirou. O pai estava sentado na beira da cama.

-Que horas são? – Bruno perguntou, esfregando os olhos.

-Dez e meia da manhã! – Disse ele. E emendou em seguida: – A festa foi boa hein rapaz?

-Festa?

-Ué. Não era uma festa?

-Ah, sim, a festa. Pois é. Foi… boa.

-Você manguaçou muito, foi?

-Hã?

-O cheiro de vômito no banheiro. Sua mãe está uma arara…

-Pois é… Tinha uma… Uma parada lá. Que sabe como é.

-Eu sei, filho. Tinha que ver eu na sua idade. Seu tio Carlinho e eu bebíamos uma cachaça de quinta categoria feita numa fazenda em conservatória. Era uma dentro e três pra fora. – Riu seu Gil.

Bruno se levantou e foi escovar os dentes. Mal entrou no banheiro sentiu o odor fétido do vômito entranhado no banheiro. Nem deu pra escovar os dentes lá. Teve que escovar no banheiro da suíte dos pais, ou correria o risco de “chamar o Raul” novamente.

Quando chegou na sala a Mãe estava sentada ao lado de uma pequena mesa de café da manhã com um copão de achocolatado e um pão com queijo e presunto.

Bruno andou cabisbaixo até a mesa e se sentou ao lado da mãe.

-Tá de ressaca? – Dona Sandra perguntou.

Bruno respondeu negativamente com a cabeça. Virou o copo de Nescau com vontade. Na verdade, ele se sentia muito bem. Talvez em sua melhor forma em alguns anos.

Comeu com vontade o misto quente.

-Que fome hein? – Ela questionou.

Seu Gil veio e se sentou à mesa. Os dois olhavam para Bruno com um olhar inquisidor.

-Que? Que foi? – O jovem perguntou ainda mastigando o pão.

-Isso! – Disse seu Gil, pegando a caveira e colocando sobre a mesa. Seus dentes esculpidos na pedra sorriam para Bruno.

-Que que tem?

-Bruno você dormiu agarrado com essa coisa, meu filho.

-E você acordou a gente.

-E…Eu?

-Estava amanhecendo o dia quando você começou a falar alto no quarto. Corremos la e você estava falando… Sei la o que era aquilo, meu filho.

-Um pe-pesadelo. – Disse Bruno já temendo o pior.

Dona Sandra moveu a cabeça negativamente. Ela tinha um semblante carregado. O pai também.

-Você estava falando outra língua, meu filho. Outra língua, completamente diferente! – Disse Gil.

-Olha tô toda arrepiada de novo! – Disse Sandra, apontando os pelinhos do braço.

-Mas… Mas mãe.

-Não, Bruno! Olha pra mim, meu filho! Vou falar uma vez só. Essa coisa que você adotou. Essa coisa aí! Isso não é coisa boa, meu filho. Não é…

-Ah não, mãe!

Seu Gil interrompeu: -Meu filho! Escuta sua mãe. Eu vi você falando e parecia latim. Você estava invocando alguma coisa!

Nisso Dona Sandra começou a se benzer loucamente.

-Deus me livre! Esconjuro!

Bruno não sabia o que dizer. Apenas olhava para o caveirito sobre a mesa com seus olhos de brilhantes.

-Você vai se livrar dessa coisa.

-Mas pai…

-Vai se livrar, e vai se livrar disso hoje!

-Mas ele… Ele me curou! – Disse Bruno.

Seu Gil olhou com ar de preocupação para Dona Sandra.

-Meu filho, isso não é um pedido. Você não está entendendo. Nós estamos mandando você jogar esta merda fora! Hoje!

-Tá… Tá!  – Disse Bruno contrariado.

-Estamos entendidos, então?

-Tudo bem.

-Certo. Hoje a noite não quero esta coisa na minha casa!  – Disse Dona Sandra, já se levantando para sair.

Os pais saíram para o supermercado. Iam fazer compras. Bruno ficou a sós com o caveirito.

-Logo agora? – Pensou. Mas a ideia de ter recitado coisas misteriosas em latim era extremamente assustadora.

Ele ligou para Gui.

-Opa!

-Aí, maluco.

-Fala viado.

-Chega aí.

-Pô, não dá. Tô no gancho.

-Sério? O que tu fez?

-Dei um vacilo aqui. Esqueci de pagar uma conta da minha mãe, véio. Era cartão de crédito!

-Puuuts!

-Imagina! Mas ó, Dona Marina vai ter que sair, e assim que ela der mole eu dou o perdido aqui e apareço aí. Alguma novidade do homem do fogo? Do exu?

-Não… Mas tenho umas novidades Bi-zar-ras!

-Ah, porra, não faz isso vacilão!

-Só conto quando você der as caras. Não da pra falar no telefone, cumpadi.

-Em meia hora vinte minutos eu tô aí. Ops, Dona Marina tá vindo. A gente se fala, fui!

Gui desligou o telefone.

Bruno guardou o aparelho sem fio na base e foi até o quarto. Recolocou o caveirito em seu improvisado altarzinho. Sentou-se na cama e ficou olhando a caveira. Resolveu acender os dois incensos ao redor da caveira de pedra.

Lembrou da madrugada… Do estranho homem que saiu do fogo. Em seguida lembrou do episódio grotesco do chuveiro. O cheiro nauseabundo do caldo preto que ele havia vomitado. E finalmente, lembrou do misterioso símbolo no espelho que lhe disse que ele estava curado. A caveira, fosse o que fosse, havia cumprido sua parte. Estava na hora de pedir algo que realmente mudaria sua vida. Mudaria completamente sua vida.

Bruno pegou a caveira de pedra e posicionou-se na cama com ela. Olhou nos olhos brilhantes das contas de vidro e mentalizou mais um desejo:

-Quero ganhar sozinho na mega sena!

E então, enquanto mantinha os olhos fixos nas contas de vidro enfiadas nas órbitas de pedra tudo começou a girar como numa pintura líquida e logo se tornou uma explosão de luzes e cores, que invadiu sua mente. Logo as cores lentamente decresceram em intensidade. Um frio engolfou seu corpo. E todas as cores foram escurecendo, escurecendo até que Tudo era escuridão. A completa e impenetrável escuridão.

E da escuridão uma voz gutural que parecia provir das mais abjetas degradações espirituais se fez ouvir. Ela falava lentamente, e com um sotaque estranho. Disse:

-Em troca do que pedes… O sangue. O sangue dela…

-Dela? Dela? – Bruno perguntou, mas sua voz apenas se perdia como se fosse um pesadelo do qual era impossível de acordar.

E antes que o rapaz pudesse perguntar pela terceira vez, uma esfera de fogo azul  se materializou diante dele e as chamas dançaram seu balé mágico, até formarem um rosto. Um rosto lindo que ao se desenhar, causou a mais absurda perplexidade que Bruno já havia sentido em sua vida.

Diante dele, estava o rosto de Bia.

 

CONTINUA

 

Comments

comments

2 respostas

  1. Cara… agora que o bicho vai pegar…. Essa é a historia mais espaçada que eu já li aqui no MG. Triste saber que vai demorar pacas pra ler o próximo capitulo.

  2. Essa gosma preta que o cara vomita… foi insirada em ‘garota infernal’? pq me lembrou da cena em que a megan fox vomita uma coisa nojenta assim

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Eu dei duro aqui

Com 15 anos de sangue suor e lágrimas, eu me esforcei para fazer um dos blogs mais antigos e legais do Brasil. Mis de 5000 artigos, mais de 100.000 comentários, mais de 20 livros, canal, programa de rádio, esculturas... Manter isso, você pode imaginar, não é barato. Talvez você considere me apoiar no Patreon e ajudar o Mundo Gump a não sair do ar.
Ajuda aí?

Conheça meus livros

© MUNDO GUMP – Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução sem autorização.