Gringa – Parte 3

Já passava das três horas da tarde quando Alex apareceu na cozinha, com uma fome de vinte homens para almoçar.

-E o rango? Cadê o rango?

Evandro estava arrumando as coisas nos armários.
-Vai ser ovo, pão de forma e linguiça. Achei melhor deixar os enlatados para o final e vamos comer os mais perecíveis primeiro.

-Porra, vai ser? Vai ser? Cara cortar árvore dá uma fome do capeta. Achei que já estava pronto.

-Acende lá o fogão a lenha. Vamos testar o equipamento. Eu dei uma limpeza lá enquanto vc estava lá na frente.

-Ah tá. Pelo menos isso! Achei que tu tava tocando violão.  – Disse Alex pegando a garrafa de álcool e uma das revistas.

-E o sinal? Pegou alguma coisa?

-Nada ainda. Sem sinal nenhum nessa merda. Mas sigo tentando.

Os dois pelejaram mas logo conseguiram colocar fogo nuns galhos secos. Evandro havia feito um ótimo trabalho escovando a grelha e tirando 16 anos de ferrugem e sujeira. Ela não estava exatamente como nova, mas parecia ter rejuvenescido.  Quando o fogaréu baixou, eles abriram o pacote de linguiça defumada à vácuo e cortaram fatias compridas e colocaram na grelha.

-Churrasco de pobre é isso aí.  – Riu Alex quebrando seis ovos dentro de uma panelinha para fazer mexidos.

Quando a linguiça estava no ponto eles jogaram fatias de pão na grelha e montaram sanduíches.

-Porra quatro horas da tarde e a gente ainda tá almoçando.

-Essa limpeza ta dando muito mais trabalho do que eu imaginei que ia dar!

-Cara tô preocupado com a parada do sinal do telefone pra caralho.

-Mas é aquilo que eu te falei, Evandro, o coroa vai dar as caras aqui na Quinta-feira. Ele ficou de ligar, vai ligar e não vai conseguir, então, eu acho que ele vai se ligar de vir antes, porque ele sabe que o sinal às vezes não funciona. – Alex encheu a boca com o sanduíche de ovo e linguiça.

-Ai porra. Vai queimar a mão da puta que te pariu, desgraçada! – Gemeu Evandro ao tentar pegar o sanduíche na grelha fervendo.  Alex ficou rindo do rapaz de óculos.

-Cuidado com esses dedinhos de tocar violão. Passa a água aí pra mim!

– O problema… – Evandro disse entre mordidas – … É que se aconteceu alguma coisa com o velho a gente vai fazer o que?

-Cara deve passar barco toda hora por aí.

-Como tu sabe? Aqui fora da baía? Acho improvável. Deve passar navio lá longe, mas a gente não trouxe nem um sinalizador, nada.

-Foi uma ideia burra a gente não ter rebocado um bote junto.

-Agora é fácil falar. Naquela loucura que foi essa semana passada, a gente nem tinha como saber. O pior foi não termos avisado ninguém.  Tudo bem que eu não tinha ninguém para avisar mesmo, mas você tem família, Alex. Eles com certeza vão dar pela falta e irão começar a procurar.

-Aqueles lá? Rá! Duvido, Evandro. Duvido muito. Fora que eu tô brigado com a maioria deles. Minha tia ficou puta comigo com umas cagadas que eu fiz aí. Parou de falar comi…

-Cagadas? Que cagadas? – Evandro perguntou olhando por cima dos óculos.

-Nada. Deixa quieto. Come em paz aí, irmão.

Alex levantou e saiu mastigando ainda os restos do terceiro sanduíche.

Evandro deu de ombros. Juntou as coisas todas e limpou a grelha com cuidado. Eles tinham pouca água, e enquanto limpava, ele se perguntou se talvez não devesse deixar tudo sujo, dando prioridade para beberem, porque se o velho não aparecesse, a coisa ficaria cada vez mais perigosa.

Enquanto limpava, Evandro ouviu um barulho no mato. A princípio pensou que pudesse ser alguma fruta caindo, algo como um galho, mas o som foi se intensificando.
“Tem alguém aqui” – Pensou.
Ele colocou as coisas de lado. Amarrou o pacote com as duas linguiças que sobraram e colocou na bancada do fogão.
Levantou com cuidado e olhou pelo mato. Atrás dele apenas a mata fechada que recobria a quase totalidade da ilha. Ele tinha a certeza que estava sendo observado, mas não conseguia ver.
O som das folhas e galhos havia parado de súbito.
Evandro ficou ali. Tenso, esperando que algo acontecesse. Então aconteceu.
-Aaaaaah! – Ele ouviu um grito. Era Alex. Algo tinha atacado o forte rapaz.
Evandro saiu correndo para a frente da casa. Saltou pela varanda e seguiu os gritos na direção da área das obras da cisterna. Chegando lá se deparou com Alex sorrindo, segurando seu troféu. Uma cobra sem cabeça enorme que ele erguia no ar.

-Quase me picou essa filha da puta!
-Caralho maluco! Caralho! – Evandro estava a arfante. Seu peito parecia que ia explodir. Ele estava suando frio. Precisou sentar.
-Ué. Viu fantasma, doido?
-Cara… Cara… Tinha, tinha, alguém, alguma coisa… Na mata, lá… Atrás… daí você berrou e eu pensei que tinham,… te te pegado e…
-Berrei por causa da cobra. Mas o facão tava afiado. Olha como ela se mexe mesmo sem cabeç… Você disse alguém? Aqui na ilha? Lá atrás?
-Eu não sei, não sei…

Alex largou a cobra sem cabeça pelo chão e correu para fora da área da obra. Ele subiu pelo pequeno barranco e agarrou Evandro pelo braço.

-Me mostra essa porra. Vamos lá ver!

Os dois voltaram para os fundos da casa, e conforme caminhavam, Alex deu sua ideia.

-Sabe que pode ser pescadores? Talvez tenham ancorado nos fundos da ilha para pescar e vieram em busca de água. Se for estamos salvos, cara!

Eles correram até o fogão a lenha, mas tudo estava rigorosamente igual.
Ficaram alguns minutos, Evandro apontou para Alex o local onde ele achava que o som tinha vindo. Alex se embrenhou na beira do mato mas logo voltou.
-Pô acho que não tem nada, cara. Deve ser algum galho que caiu e você ficou todo paranoico aí, brother.
-É… Não sei, não sei. Era uma sensação estranha. Achei que algo estava me olhando aí do meio do mato.

-Alooou! Aloooou! Tem alguém aí? – Alex berrou a plenos pulmões.

Houve um breve silêncio. Eles ficaram esperando e nada ocorreu. Mas alguns pássaros voaram nos galhos mais altos das enormes árvores.
-Ali, ali! Ta explicado se liga ali! – Disse Alex apontando uma árvore com diversas aves pretas nos galhos.

Bom, que bom e que pena que não tinha ninguém… – Disse Evandro resignado.
-Hoje vai ter churrasco de cobra. Tá ligado? – Alex riu.
-Tu vai comer essa merda?
-Claro, porra. Índio come. Eu como. É minha primeira caça na ilha, não vou fazer essa desfeita pra ilha. Dizem que tem gosto de frango.
Flango? Prefiro comer minha ração de miojo e ovo que me arriscar a pegar uma salmonela naquele bicho.
-Bom, vou voltar para a lida. A área da obra já ta quase toda limpa. Vou agora dar o trato na trilha do píer.
-Tava aqui pensando, a gente tá aqui esse tempo todo e ainda não demos nem um mergulhinho.
-Pode crer, mas você mesmo diz que “o plano é o plano”.
-Caro, claro. Mas acho que agora já demos uma adiantada no grosso, né? Já tá bem mais habitável. A gente podia dar uma olhada nas pedras, dar uma volta na ilha.

Alex olhou para o sol que atravessava as densas árvores da mata: -Bom, são quase cinco. Acho que dá pra darmos a volta na ilha ainda. Bora?
-Bora! Vou só pegar meu facão e a lanterna. – Respondeu Evandro

Minutos depois, os rapazes estavam descendo a trilha em direção ao píer.

A rocha nua da ilha tinha uma faixa de cerca de dois metros entre a densa vegetação e a área repleta de algas verdes e amareladas. Dali até a parte submersa estava repleta de mariscos e suas conchas marrom avermelhado.

-Olha quanto mexilhão, maluco! – Disse Evandro.
-Bom que o mar ta calminho. Parece uma piscininha.

Os dois seguiram pela direita do píer, caminhando pelas rochas com alguma dificuldade, pois alguns trechos a pedra era muito lisa.
-Cuidado., Um escorregão aqui e você cai lá na água.
-com esse calor ia ser até bom! – Riu Alex, suando em bicas.
-Mas antes você vai se cortar todo no marisco aí para cair igual um saco de merda na agua salgada!
-Humm dilícia!
-Essa porra é afiada. Ai craca filha da puta!
-O pezinho do nenê ta doendo? Já?
-Cala essa boca e vamo em frente.

Alguns metros à frente, a curvatura da rocha despencava quase verticalmente na água, tornando o avanço muito difícil.

-Eita porra. E agora?
-Acho que não dá pra passar sem ser o homem aranha.
-Se a gente tivesse trazido a corda, a gente amarrava naquela árvore lá em cima e se pendurava. Amarrado acho que dá.
-Bom, não vai rolar por aí. Acho que deve ter outro jeito.
-Vamos voltar ali em cima, que deve dar pra passar pela mata. Pelo menos a gente tem onde se agarrar.

Eles recuaram uns dez metros e entraram na mata abrindo picada com os facões.

Logo a mata mostrou-se uma tarefa inglória. Quanto mais eles cortavam galhos e espinhos, e mato, mais o caminho parecia intransponível.

-Você vai achar que eu tô maluco mas…
-Fala.
-É que eu tô com uma sensação… – Disse Evandro desferindo golpes de facão.
-Já sei. Nem precisa dizer, também estou sentindo que a ilha está querendo impedir a gente. Né isso?
-Exatamente. – Disse o rapaz, preocupado. – Vamos demorar muito e já vai escurecer. Acho que talvez seja melhor volta…
-Ali! Ali! – Gritou Alex, apontando algo no chão perto deles.

Era uma pedra retangular, enfiada no solo e parcialmente coberta de musgo. Logo, outras pedras iguais apareceriam.

-É uma trilha! Uma trilha! -Alex estava animado.
-Tem uma trilha que dá a volta na ilha pela mata. – Evandro exclamou, impressionado.
Ao chegarem na área com pavimentação de pedras, o mato era muito menos denso, consistindo de grandes tufos de capim e alguns arbustos espinhentos, que eram abatidos a vigorosos golpes das lâminas.

Na trilha eles logo chegaram ao outro lado da ilha. Do outro lado havia uma grande quantidade de coqueiros, bananeiras e mangueiras. O chão era repleto de cocos. Alguns estavam brotando e já havia pequenos coqueiros com um metro de altura subindo do chão úmido repleto de folhas e raízes para todos os lados. O visual era esplendoroso, com um por do sol entre as nuvens, que pintava de tons de laranja, violeta e azul o céu.
Os coqueiros formavam uma linda vista para o mar sem fim sob o céu de todas as cores. A água batia forte nas pedras daquele lado. As rochas também eram diferentes, mais amareladas e bastante fragmentadas, em pedações enormes afiados despontando para todos os lados.
OS dois seguiram caminho através da trilha. Nas áreas sob as sombras escuras das grandes mangueiras, o mato não crescia. O chão escorregava como um sabonete, devido a décadas de limo e musgo, mas era uma trilha perfeitamente trafegável.

-Eu acho que essa trilha vai finalizar justamente naquele pedaço que vimos perto do fogão à lenha! – Disse Evandro, notando que as pedras do chão já estavam ficando bem irregulares.
-Faz sentido.
Então uma visão impressionante atraiu a atenção de Alex. No meio dos matos e cipós, oculta por entre as milhares de folhas, ele conseguiu ver um brilho verde claro bem fraco.
-Ali! Olha ali, Evandro!
Evandro estava com a lanterna acesa e apontou na direção. Era um grande platô de pedra que descia quase horizontalmente um declive suave, e chegava no que parecia ser um grande buracão na rocha.
-Puta que pariu! Uma piscina natural!

Os dois correram pelo platô de pedra e pararam diante do buraco.

A natureza é espetacular – disse Evandro, perplexo com a beleza.

Diante deles estava um fosso escavado no meio da pedra. Ele estava repleto da água do mar, e devia medir quase vinte metros. Grandes pedras redondas se espalhavam ao redor da piscina.

-Agora eu vi vantagem. – Disse Alex tirando a camisa e o chinelo.
-Tu vai entrar aí?
-Bora cara! – Gritou Alex, pulando na piscina natural. – A água tá quentinha.

De fato, a água estava uma delícia, com a rocha aquecendo por todo o dia, era como uma enorme banheira.
Os dois ficaram ali um tempo, se refrescando e boiando. A noite havia chegado e o céu estava mostrando suas primeiras estrelas.

-Cara… Esse lugar aqui é foda demais! Imagina só trazer os gringos aqui. A gente bota um bar ali em cima, coloca uns ombrelones ali. Dá pra fazer um deck em volta…
-Realmente. Cara vamos nessa? Acho que tem ouriço aqui! Estamos nos arriscando.

-Tá, tá. Já vi que a bichinha ta com medo. Vamos. – Disse Alex, subindo na rocha.

Os dois vestiram as roupas, pegaram os facões do chão e seguiram de volta para a trilha. Agora não se via nada sem a lanterna.
A trilha seguiu serpenteando em varias curvas. Algumas arvores caídas sobre a trilha precisavam ser ultrapassadas com dificuldade, porque no escuro era fácil se machucar.
OS pernilongos estavam famintos e mordiam sem parar.
-Sai, desgrama! – Gritou Alex, se estapeando nos ouvidos.

Finalmente eles encontraram o final da trilha. O mato foi debelado a golpes de facão, e avançando para a frente encontraram os fundos da casa.

– Aê! chegamos! Quando essa trilha ao redor da ilha estiver toda limpa vai ser espetacular.
-Acho que vamos precisar de chamar uma galera para ajudar a limpar. Aquela árvore caída lá atrás, só com motosserra!
-Sim, com certeza. Isso aí vai ser depois. Antes precisamos dar um trato nas coisas emergenciais e fazer a cisterna.
-Eu estimei pela metragem lá da cisterna que ela vai comportar quase uns 300 mil litros.
-Nossa, é muita água. – Disse Evandro. – Vamos gastar uma grana para puxar as tubulações, e nem quero imaginar o preço que vai ser do sistema de filtragem dessa água da chuva.
-Mas isso não tem jeito, muquirana! Tem que fazer! – Respondeu Alex. Em seguida o atlético rapaz completou, mudando de assunto: -Não sei se você notou, mas a trilha não dá a volta na ilha. Na real, ela vai dando a volta mas depois das piscinas naturais lá do outro lado, ela faz uma curva e volta pela mata num zigue-zague até chegar aqui atras da casa. Tem todo um lado na esquerda que não sabemos como é ainda.
-Sim, notei. Mas isso podemos ver amanhã. Amanhã a gente vai lá ver o que precisa para arrumar no píer, e a gente segue pelo lado esquerdo, pelas pedras para ver se chega legal nas piscinas naturais. O que tá me entristecendo é que eu não vi até agora nenhum lugar que dê para a gente nadar no mar. Tudo está cheio dessas pedras afiadas e repletas de mariscos.

Os dois chegaram na casa. Eles pegaram os colchões que haviam ficado o dia todo no sol e levaram para dentro da casa.
-Acho que agora saiu o cheiro de mofo.
-Não tendo lacraia pra mim tá ótimo. Eu nem ligo pro mofo. – Alex riu.
-Mofudeu!
-Porra parece as piadinhas do meu Tio Alceu.
-Bom, vamos comer? Essa caminhada toda abriu o apetite. – Evandro limpou as mãos numa batida no ar.
-Pera aí que vou lá buscar a cobra da sua janta. – Falou Alex, saindo para a varanda.
-“Sua janta” é o teu cu! Vou de miojão véio de guerra.

Evandro enfiou novos galhos nas brasas que ainda fumegavam do almoço. Lentamente, o fogo se apresentou, espantando os pernilongos para longe.
Ele colocou água na panela e enfiou o macarrão. Depois colocou no fogo.
Alex chegou com a cobra.
-Porra isso tá fendendo, maluco!
-Nada é só arrancar a pele. Eu vi do Discovery outro dia… – Disse fuçando no cadáver da serpente com a faca.

Evandro agarrou o braço do amigo: – Cara. Olha pra mim. Olha pra mim, porra! Tu vai se foder comendo essa merda aí! Não come, cara!

Alex olhou para a serpente pendurada na mão dele e em silêncio jogou ela no mato.
– Finalmente você escolhe ouvir a voz da sensatez! Puta que pariu!
A lanterna de Evandro começou a ficar fraca.
-Porra a pilha já ta acabando.
-Menos uma lanterna. Puta merda. Só estamos com uma agora. O velho bem que falou…
-E você ainda querendo dar uma de doido de comer essas porras aí. Imagina se tu fica doente, a gente ta com pouca água, sem contato com o seu Manel…
– Tá, tá, Já falou. Parece ate minha falecida mãe, que saco, maluco. Vai mete mais um macarrão aí nessa merda de panela. Não vou comer a cobra mas amanhã eu vou lá no píer e vou pescar um peixe.
Evandro meteu a mão na bolsa e remexeu pra cá, remexeu pra lá.
-Ué.
-Que foi?
-Não tô achando o macarrão.
-Hã? Mas tinha macarrão pra caralho, eu lembro quando pegamos no mercadinho.
-Carai. Como que pode? – Evandro perguntou apertando os óculos no nariz.
Os dois foram até a casa. Lá eles mexeram nas bolsas e sacolas, em busca do pacote de macarrão.
-Cara… Eu acho que os putos do mercadinho não botaram o saco de pacotes de macarrão na sacola grande.
-Ah, puta que pariu, Evandro! Caralho! Eu te deixei só fazendo isso quando fui no porto. Era só olhar o que eles estavam botando na bolsa! Que merda! Que merda caralho! – Alex berrou palavrões e socou a porta com grande violência.
-Eu sei, mas na hora o Josias me ligou lá com o negócio do contrato da seguradora. Precisei sair para atender porque naquela birosca da vila não tava pegando.
-Puta que pariu! O filho da puta do mercadinho roubou a gente, cara! Olha aí! Olha aí!
-O pior não é isso…
-Ah, não. Fala.
-Temos que fazer um levantamento se está tudo aqui. Porque se esses putos deram desfalque no miojo, será que está tudo aqui mesmo? E os demais itens?
-Caralho, que garoteada que nós demos! Não conferimos, pegamos as sacolas todas e metemos no barco sem nem olhar.
-Porra como que a gente deu esse mole?
-A gente nunca vai imaginar que o filho da puta…
-Brasil, caralho! Você tá no Brasil, porra! Esquece a Suíça!
-Ok, ok, falha minha cara. Desculpa. Vai lá, pode comer meu miojo. Eu como as bisnaguinhas que sobraram com o resto do queijo. – Disse Evandro, Resignado.
-…
-Ei, o que tu ta fazendo aí? Que isso cara?

Alex estava fuçando nas sacolas com a lanterna. Depois de um tempo pegou uma pequena maletinha e enfiou na mochila.
-Que isso?
-Vou pegar o peixe da nossa janta! – Disse enquanto ia testando a lanterna.

Cara é perigoso, meu! Vamos deixar para pegar o peixe no almoço amanhã.
-Cala tua boca! Ou vem comigo ou fica aí, comendo essa merda de macarrão de favelado e tocando essa bosta de violão.

Evandro deu de ombros.
-Caralho, quando você encasqueta, é foda.
-Que isso aí?
-Bota na mochila. É o resto da linguiça. – Tu vai pescar como sem isca, ô debilóide?

Os dois desceram a trilha, Alex ia na frente com sua lanterna, iluminando o caminho.
Desceram até o píer. A água do mar estava mais agitada e havia começado a ventar mais forte. As ondas batiam contra o píer e ele balançava de um lado para o outro. Alex sentou no chão e passou a lanterna para Evandro.
Quando eles subiram no píer ele se estalou todo e balançou.
-Carai que vento frio que faz aqui em baixo. – Gemeu Evandro.
-Ilumina aqui. – Disse Alex, sentado no piso de madeira. Ele pegou na mochila a maleta, e montou um anzol num carretel de linha de náilon.
-Tem que botar o chumbinho…
-Cala a boca, trouxa. Eu já pesquei a vida inteira. Não precisa ensinar o padre a rezar a missa! – Disse Alex montando o peso na linha.
Minutos depois ele lançava a linha no meio do mar.

-E agora?
-Agora a gente espera a comida chegar. O que tu acha?

Os minutos se passaram. Nada.
-Nada ainda?
-Necas… – Disse Alex, mexendo na mochila.
-Que isso?
-Goró. Pescaria sem goró não é pescaria. Vai toma uma talagada aí, mano! – Disse ele estendendo a garrafa de pinga para Evandro.
-Ô meu! Não tô acostumado cara.
-Deixa de ser fresco porra! Toma logo essa merda aí e não enche o saco! Bebe igual macho! – Alex apontou o poderoso facho branco na cara de Evandro.
Evandro pegou a garrafa e deu uma golada forte para mostrar que era macho.
-Puta merda! Calma, né água isso não, ô doido! – Alex se espantou.
-Ué. Não é pra beber igual macho? Vamo beber, porra!

Agora era Alex que estava preocupado.

-Tu acha que bebe, ô Harry Potter do subúrbio? Olha aqui! – Alex deu duas goladas na pinga, e fazendo uma cara feia em seguida: Brrrrllll! O monstro saiu da jaula porra!
-Manda aí! – Disse Evandro. Ele pegou a garrafa e bebeu aquela bosta toda, mamando no gargalo até matar toda a garapa.
-Puta que pariu! Puta que pariu! Ou! Tudo não, tudo não! – Evandro gritava iluminando a bebida cristalina descendo da garrafa de Velho Barreiro.
Evandro bebeu tudo e jogou a garrafa nas pedras. Ela estourou na escuridão.

-Porra, minha cachacinha! – Reclamou Alex.
Evandro limpou a boca e conteve a vontade de vomitar tudo ali mesmo: – Quem é o cara agora?
-Vacilão!

-…
-E aí? Nada ainda nessa merda?
-Agora que tu quebrou garrafa espantou os peixe tudo, né “Joselito”?
-Acho que eles não curtem linguiça defumada.
-Eu devia ter tirado as tripas da cobra!

Os dois continuaram ali, fazendo lançamentos sucessivos da linha no mar escuro. Mas nenhum peixe parecia interessado.
Evandro começou a se sentir muito tonto, mas disfarçou para não ser sacaneado.

-Segura aí. Vai, faz alguma coisa, ô inútil! – Alex estendeu a linha, já puto.
Evandro segurou a linha de pesca.
-E aí? Ei, onde você vai? Ou! Ou! Tô falando com você, cavalo! Ou!
-Vou pegar a tripa da cobra! Fica aí.
-Mas ta escuro porra!
-Pra que lanterna pra dar banho na linguiça? Já volto aí. Vai pescando!

Alex levou a lanterna e subiu a trilha na direção da casa.

Minutos depois Evandro estava em completa escuridão, segurando a linha. Tudo estava rodando ao redor dele.
O balanço do píer parecia induzir um outro balanço ainda mais poderoso, em sua cabeça. Mal se via alguma coisa. O céu estrelado mostrava pesadas nuvens escuras ao longe. Evandro viu os clarões de uma tempestade muito distante no horizonte.
-Tá explicado esse vento… – disse. Sentiu a própria língua embolando. Estava muito tonto. Pensou que talvez ser zoado por Alex seria o menor dos problemas. Pensou em meter o dedo na goela e vomitar.
O píer gemia como um carro de boi açoitado pelas ondas, que eram cada vez maiores. Evandro percebeu que estava muito bêbado. Não devia ter bebido de estômago vazio e com fome. Lembrou que não trouxe água.
Lembrou que havia esquecido o miojo no fogo, e que ele não tinha nem como subir a trilha sem lanterna… O miojo ia virar uma gosma e secar na panelinha.

Subitamente, algo puxou a linha. Foi um puxão forte.
-Caralho! Caralho! Pesquei! Pesquei um! – Evandro exclamou animado. Ele puxou a linha, mas o peixe não estava disposto a se entregar facilmente.
Evandro ficou em pé e começou a puxar a linha com força, mas cada puxada que ele dava, o peixe dava outra ainda mais forte. Na escuridão, Evandro não sabia onde poderia se apoiar.
O peixe deu um puxão muito forte e Evandro deu outro, era o “tudo ou nada”. A puxada forte fez com que ele precisasse pisar para trás, mas ele pisou num buraco da madeira podre. Desequilibrou e caiu na água.

Evandro estava tão tonto que levou uns segundos para entender que tinha caído do píer na água. Afundou rápido na escuridão, e nadou tentando subir, mas estava tão mamado que nem sabia se estava nadando na direção certa.
Algo agarrou o pé dele no escuro, sentiu que uma coisa estava puxando. Ele tentou se soltar, lutando para se libertar, bebendo água, mas era um puxão forte. Estava sendo puxado para o fundo, numa escuridão completa.

CONTINUA

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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