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Carlos teve sua primeira crise de pânico aos dezoito anos, quando estava num ônibus de viagem, a caminho de Governador Valadares. Era um feriado prolongado, as estradas estavam lotadas e havia muito movimento nas rodoviárias. Isso explica o gigantesco transtorno que deu quando ele começou a gritar e se tremer, suando frio dentro do ônibus. Foi um pandemônio.
Após o trauma da primeira crise, ele ainda manifestou as crises de pânico mais duas vezes, mas até aquele dia, somente a primeira crise havia sido tão traumática.

-E como que foi? – Perguntou Yara, enquanto molhava o pedaço de cebola no molho picante e enfiava na boca.
-Horrível! -Disse Carlos, tentando matar o assunto entre goles de cerveja.
-Dá detalhes, pô! Horrível como? -Yara, a curiosa.

Carlos contou. Foi súbita, sem aviso, sem sinal perceptível de que ia acontecer. Ele estava dormindo, foi beber um copo d´água e quando abriu a geladeira…
-Pá! aconteceu.
-E aí?
-Caí com tudo, copo, com água… Fui parar no chão. Eu nem conseguia me levantar.
-O que você acha que causou? – Ela quis saber.
-Não sei. Isso me intriga desde sempre. Acho que… Acho que foi a luz.
-A luz?
-A luz da geladeira.
-Mas o que tem a ver a luz? Isso de luz não é com ataque epiléptico?
-Não sei, não fode também, né Yara? Se não bastasse o pânico você ainda quer me arrumar uma epilepsia?

Yara riu com o amigo.

-O importante é que passou, né? Mais uma crise…
-Pois é.. Mais uma, mas isso me deixa sempre intrigado.
-Intrigado com o que?
-Quando será a próxima.

Yara sorriu, contemplativa. Pediu mais uma caneca de chopp ao garçom. Então se virou pra Carlos.

-Mas por que você acha que foi a luz?
-Sabe, num retrospecto assim, eu tava me lembrando da primeira crise… Eu estava no ônibus…
-Sei, você já me contou a história. -Ela interrompeu, mas o amigo pareceu não se importar e continuou.
-Eu estava lá e fiquei ali, na janela, olhando os faróis dos carros que vinham na estrada… O ônibus engarrafou na serra, e fiquei ali, ao lado dum pequeno poste de luz. Era bem perto da minha janela. Bem na minha altura. Eu fiquei ali… Viajando naquela luz… E aí…
-Sei. Aí veio aquela merda toda que você já me contou umas vinte mil vezes, Carlos.
-É. Pois é. Então… Passa o molho?

Yara empurrou o potinho de molho para o outro lado da mesa.

-Mas Carlos, por que você não procura um tratamento?
-Já fiz isso… Ano passado, fui num neuro.
-Não, digo um outro tipo de tratamento, sei lá…
-Tipo o que? Mãe de santo?
-Não, palhaço… Eu estava no metrô outro dia, e li num jornal uma materia de um cara ai que trata com hipnose, sabe? Acho que o jornal tá lá no meu carro.
-Hipnose?
-Por que não? – Questionou Yara matando o resto do chopp na caneca.
-É… Tem razão, Bibi. Por que não, né?
-Não e chama de Bibi que eu não gosto.
-Tudo bem… Bibi. Desculpa.

Pediram a conta e foram embora. Ao chegarem no carro, Yara pegou o jornal.
-Ó! Tá aqui. É esse cara aqui. O numero do consultório, tá vendo?

Carlos assentiu com a cabeça. Despediram-se animadamente.

-Beijo, Bibi.
-Beijo Cacá! Amanhã vê se chega cedo, hein?
-Ok, ok. Ele disse dando as costas, enquanto já se concentrava na matéria do jornal.

Carlos foi pra casa de ônibus, e à medida em que lia a matéria sobre a hipnoterapia se sentia mais e mais empolgado e interessado a experimentar.

No dia seguinte, Carlos apareceu no setor de Yara todo animado.
-Adivinha?? -Perguntou, debruçando-se na mesa da amiga.
-Você comprou aquela moto!
-Não, pô!
-Então não sei. Fala logo que eu tô com essa pilha de relatório de bolsa para carimbar.
-Marquei a consulta!
-No hipnotizador?
-Hipnoterapeuta! Hipnotizador é o cara que faz aqueles shows, sabe?
-Do cara que come cebola achando que é maçã, né? Tô ligada. – Yara riu.

O chefe de Yara se aproximou e eles tiveram que interromper a conversa. Yara fez um sinal girando o dedo indicador no ar, como quem diz: “depois a gente conversa”.

No fim do dia, Carlos saiu apressado. Desligou o computador, arrumou sua mesa, e desceu. Estava meio em cima da hora, mas era o único horário livre do terapeuta e ele não queria deixar má impressão logo na primeira consulta.

Carlos desceu do taxi em frente ao enorme complexo de salas comerciais. Entrou no grande edifício todo de vidro. A sala tinha uma porta escura, não havia placa ou letreiro. Ele tocou a campainha e surgiu um homem magro, de barbam, com um longo rabo de cavalo grisalho. Ele usava um terno antiquado, cinza, que não parecia combinar com as calças. O ambiente tinha cheiro de incenso.
O homem se apresentou. Era Dr. Ruy Aguirre, um mexicano.

Após a anamnese prévia que durou um longo tempo, no qual Carlos discorreu sobre seu problema, as crises de pânico e ausência que lhe perturbavam. Contou da morte trágica de sua esposa e filho, contou de sua complicada relação com a irmã, que se mudara para a Eslovênia, de seu trabalho, de sua implicância com certas pessoas e seu medo quase sobrenatural de ser observado enquanto dorme.

Ruy orientou Carlos a deitar-se num confortável divã preto, relaxar, fechar os olhos e se sentir afundando lentamente. Ali ele procedeu a primeira hipnose.
-Está ouvindo minha voz? – Perguntou Ruy.
-Sim. respondeu Carlos, prestando atenção no sotaque estrangeiro do terapeuta e seu estranho jeito afetado de falar…
-O seu nome é Carlos Rodrigues Barcellos Junior. Não precisa concordar. Apenas escute… Escute e sinta seu corpo afundar. Concentre-se na minha voz.
Carlos concentrou-se.
-Um… Dois… Três… Carlos… Rodrigues… Barcellos… – O terapeuta dizia, cada vez mais lentamente. Cada vez mais pausadamente.

Carlos abriu os olhos. Na sua frente estava o terapeuta mexicano. Os olhos esbugalhados. Ele estava na ponta da cadeira, reclinado sobre ele.
-Que foi? Que merda é essa? – Gritou Carlos.

O terapeuta pareceu levar um choque. Pulou para trás com os olhos arregalados. Não disse nada.
Carlos viu que estava molhado. Estava suado.
-Que porra é essa, mermão?? Tá me estranhando?
-Calma… -Foi o que disse o terapeuta, visivelmente constrangido.
-Você tava tentando me agarrar!
-Não, não! Não senhor. Calma!!! – Dizia o terapeuta, completamente sem graça.
-Eu vou te meter a porrada, seu filho da…
-Calma porra! – Gritou o mexicano, empurrando Carlos para o divã. – A hipnose foi feita! Você saiu do transe!
-Mentira! Eu ouvi você dizer meu nome! E contar.
-Olha a hora. Disse o mexicano, apontando um antigo relógio de parede atrás do gabinete de mogno.
Havia se passado mais de duas horas desde o início da consulta.

Carlos tentou se acalmar.
-Mas…
-É assim, Carlos. É assim. – Disse o mexicano arrumando o paletó amarfanhado e alisando os longos cabelos grisalhos. Ele acendeu um cigarro que fumou. Carlos notou a tremedeira leve nas mãos do terapeuta.
-É aí?
-Estamos avançando. Disse o homem, entre duas baforadas.
-Mas eu não lembro de nada.
-Ainda vai lembrar. Acalme-se. Teremos que marcar uma nova sessão… Mas… Você por acaso já foi hipnotizado antes?
-Não. Por que?
-Nada, nada. -Disse Ruy, olhando o cigarro.

Houve um pequeno silêncio no consultório.

-Você volta aqui amanhã. -Disse o mexicano abrindo uma agenda que estava sobre a mesa. Carlos notou que ele usava uma caneta tinteiro para riscar três nomes. Escreveu “Carlos” num quadrado e fez uma seta para o local dos nomes riscados.

Carlos pediu desculpas, meio atrapalhado.
-Não se preocupe, amigo. Eu estou acostumado.
-Mas… Doutor, que mal lhe pergunte, por que estava em cima de mim?
-Estava tentando ouvir, Carlos. Em alguns momentos, você falava tão baixo que era impossível escutar, mesmo com o silêncio do consultório.
Aquela explicação parecia-lhe convenientemente decorada, mas era plausível, de modo que Carlos cumprimentou-o pagou pela sessão e prometeu voltar.

No dia seguinte, na hora marcada, Carlos tocou a campainha do consultório.

Ninguém atendeu a porta. Ele achou estranho.
Carlos então esperou. Esperou… E nada. Ele já planejava desistir quando o elevador abriu e surgiu o mexicano, com um gravador debaixo do braço.

-Perdão, Carlos! – Ele disse, meio atrapalhado com um cigarro no canto da boca. o gravador e o paletó embolados na axila e um monte de chaves que lhe fazia parecer São Pedro. O sujeito passava as chaves de uma em uma, com o qual tentava achar a certa que abria a porta. Enquanto tentava, ele disse: – É que o gravador deu defeito e eu precisei correr para consertar a tempo.

-Gravador? – Questionou Carlos.
-Sim… Não se importa se eu gravar sua sessão, né? Será importante mais tarde… -Disse Ruy.
-Por mim, tudo bem.

A sessão se repetiu, nos moldes da anterior. Carlos deitou-se no divã confortável. Fechou os olhos e concentrou-se na voz do terapeuta. Ruy começou a contar pausadamente. Então Carlos ouviu:
-Acorde.
-Hã?
-Acabou. – Disse o mexicano, com um cigarro na boca. Parecia agitado, nervoso.
Carlos notou que novamente estava banhado de suor.
-Que foi? – Questionou Carlos.
-Nada. É que estou com um problema… Bem, vamos ao que interessa. Essa consulta foi grátis, amigo. Não precisa pagar nada.
-Hã?
-Nada, nada… Agora seu tempo acabou, muito obrigado. – Disse o mexicano, visivelmente irritadiço. Parecia ansioso. Tenso.

Carlos levantou-se e foi embora. Ele já estava na rua quando percebeu que o terapeuta nem sequer fez menção de marcar sua próxima sessão.

No terceiro dia, Carlos saiu do escritório e foi direto ao consultório.

Tocou a campainha, e esperou.

A porta se abriu, e Dr. Ruy fez uma expressão assustada ao ver Carlos.
-Que foi? – Perguntou em tom agressivo.
-Olá doutor… Sabe, é que nós não marcamos a minha sessão e…
-Não vai ter sessão.
-Hã? Como assim?
-O que eu podia fazer eu fiz, amigo. Agora é com você. -Ele disse, se apressando em fechar a porta.
Carlos tentou segurar a maçaneta. Ruy empurrava a porta com força.
-Mas doutor… Eu nem me lembro de nada.
-É assim, Carlos. Agora me dê licença que estou no meio de uma consulta. O senhor está atrapalhando… Está sendo inconveniente.
-Ah, perdão. Desculpe. -Gemeu Carlos, sem graça.
-Até logo. -Disse Ruy, batendo a porta.

Daquele dia em diante, a ideia de que o terapeuta mexicano não quis atendê-lo já não lhe saia mais da cabeça. Carlos pensava nisso todo dia. No trabalho, no almoço, no banho. O noticiário televisivo transcorria na tela da Tv, enquanto Carlos se mantinha alheio ao aumento da gasolina. Seus pensamentos apenas vasculhavam nas memórias, tentando entender o que teria acontecido naquela hipnose.

Carlos já não dormia só pensando naquilo.
Que segredo o terapeuta teria descoberto a ponto de evitá-lo daquela forma? E por que ele não se lembrava de nada?

No dia seguinte, no almoço, Carlos e Yara conversavam sobre o caso.
-Ele deve ser um charlatão, Cacá! – Yara sentenciou, enquanto partia o bife.
-Como assim?
-Ué… Um golpista, 171, sabe? Ele hipnotizou você, você sei lá, dormiu. Daí ele pegou sua grana e tchau!
-Não, não. Aconteceu alguma coisa. Isso eu sei. Eu sinto, mas não lembro o que é.
-Qual parte você não lembra?
-Nada! Mas ele disse que eu ia lembrar com o tempo.
-Caô! Isso é papo de 171, Cacá! Pô me admira você, um cara culto, vivido, cair numa dessa.
-Ah, não fode, Bibi! Você que me indicou o mexicano lá. A culpa é sua!
-Ah, mas cê pagou porque quis, eu não de obriguei a nada. Você fica com essas obsessões doidas aí e agora a culpa é minha? Não fode, né Cacá? Você já é bem grandinho pra saber…
-Não, eu acho que o cara… Acho que o cara não é 171 não. Rolou alguma coisa. Eu acho que deu alguma merda na minha hipnose…
-Agora mudou a “obsessão de Carlinhos”. Antes ele era doido pra saber porque tinha pânico, agora está doido pra saber porque levou o fora do mexicano boiola… – Yara caçoou dele.
-Pô, Bibi…
-Ah, não. Não vem com essa cara de cachorro pidão.
-Pô, Bibi, me ajuda, meu! Lembra lá do franco-argentino? Eu quebrei o maior galhão seu, né?
-Puta merda, Cacá! Pra desenterrar essa do Argentino parisiense você deve estar muito desesperado mesmo, hein?
-… – Carlos ficou quieto. Fixava o olhar num guardanapo.
-Tá, que foi? Qual é a roubada que você vai me meter dessa vez?

Carlos ergueu os olhos, tomou uma golada do suco de laranja quente e disse:

-O cara gravou!
-E daí? Muitas consultas de hipnose são gravadas. Nunca viu nos filmes?
-Eu quero ouvir a fita! -Ele disse com um sorriso nos lábios.

Yara teve um sobressalto: – Roubar???
Carlos apenas concordou com a cabeça em silêncio.
-Porra, Cacá. Roubar não, cara. Aí é crime. Eu não vou…
-Calma, Bibi. Escuta. Eu já tenho tudo planejado!

Carlos explica todo o plano.

Ao voltarem para o escritório, Yara telefonou para o Dr. Ruy, marcando uma consulta pra ela.
No dia marcado, Yara foi até o consultório.
Logo que entrou, ela lembrou da perfeita descrição do consultório feita pelo amigo. O terapeuta era meio new age, meio afeminado. O ambiente tinha imagens orientais nas paredes, uma decoração antiquada, mas de bom gosto. Almofadões e tapetes… E o cheiro de incenso entranhado em tudo.
O processo de atendimento foi similar ao de Carlos.

-O que te traz aqui Yara? – Ele perguntou.

Yara inventou uma desculpa. Disse que pensa em se submeter a uma hipnose para curar seu medo de baratas, mas que tinha medo da hipnose. Medo de entrar no transe e nunca mais voltar.
Dr Ruy sorriu. O terapeuta explicou que é seguro, falou detalhadamente sobre o método.
Yara então perguntou se a sessão era filmada. O terapeuta disse que ela é registrada sim, só que gravada.
-Mas e as fitas? – Ela perguntou.

Ele então mostrou uma caixa de sapatos forrada de couro, cheia de fitas.
-O que é isso, doutor? – Perguntou Yara, jogando o verde.
Ele disse que são fitas de hipnoses de seus pacientes.
Yara sorriu… Ao fim da sessão, ela se despediu, prometendo voltar. Dr. Ruy marcou a primeira hipnose dela para o dia seguinte.

Tão logo chegou na rua, Yara viu Carlos esperando perto da banca de jornal, conforme combinado.
-E aí? – Perguntou ele, ansioso como sempre.
Ela contou ao amigo como foi fácil descobrir onde estão as fitas. Ela disse que teria uma nova sessão no dia seguinte.
-Perfeito! Exatamente como planejei! – Disse Carlos, empolgado.

No dia marcado, lá estava ela, tocando a campainha para curar o tal medo de baratas.
Dr Ruy atendeu. Ela entrou e minutos depois ele já começava o relaxamento, quando a campainha tocou outra vez.
Ruy pediu desculpas a Yara por interromper o procedimento e foi ver a porta.

Ao abrir, Ruy deu de cara com Carlos. O terapeuta até tentou fechar a porta, batê-la na cara de Carlos, mas ele enfiou o pé na soleira e disse que tinha consigo um mandado de juiz. Era um documento tão falso quanto uma nota de três reais, porém, ali estava um texto enorme, cheio de termos de juridiquês.
-Mas o que é isso? – Questionou Ruy.
-Leia leia, o que diz aqui, Doutor. – Falou Carlos, apontando para um parágrafo completamente incompreensível.
Enquanto isso, lá dentro do consultório, Yara já havia saltado do divã, e futucava no interior da caixa, em busca da fita de Carlos. Após abrir umas seis caixas, ela encontrou finalmente uma com o nome dele. Yara então retirou a fita com cuidado e substituiu por outra. Colocou tudo no lugar e escondeu a fita dele dentro das calças.
Ao longe, ela escutava a discussão na porta.
Dr. Ruy parecia exaltado, tentando fechar a porta, mas Carlos tentava impedir.
Yara saltou para o Divã poucos sengundos antes do mexicano entrar, muito bravo.
-Francamente…
-O que foi, doutor? – Ela pergunta, fingindo não entender a confusão.
-É um doido. Um doido varrido. – Diz ele muito nervoso. O terapeuta jogou o papel sobre a mesa e acendeu um cigarro.
-Vamos retomar… – Ele disse.

Nisso, o telefone de Yara tocou. Do outro lado ela escutou a voz de Carlos:
-E aí? Pegou?
Ela então ficou quieta. Fez força para ruborizar suas faces. E então disparou a falar em tom aflito.
-Morreu? Não! Não pode ser! Coitadinho! – Ela disse, em prantos.
Do outro lado, Carlos notou que aquilo indicava que tudo havia corrido conforme o plano.
O terapeuta mexicano ali, sem entender nada.
-Tudo bem… Tudo bem. Estou indo pra aí. Calma. Fica calma que estou chegando! – Ela disse, aflita.
-O que foi? Perguntou Dr. Ruy.
-É que o cachorrinho da minha filha, o Tonico… O Tonico morreu. Atropelado. A pobrezinha esta inconsolável.
-Coitada.
-Doutor, não tenho condição de continuar essa sessão. Será que podemos remarcar? Eu preciso sair agora!- Disse Yara.
-Claro, claro! Semana que vem, quarta, deixa eu ver… Éééé… Às seis. Pode ser? – Perguntou o terapeuta olhando a agenda.
-Perfeito, doutor. Me desculpe, sim?
-Sem problemas, dona Yara. Nos vemos na quarta então.
-Adeus e obrigada. – Ela disse, já saindo apressada para o corredor.

Minutos depois, ali estão os dois, na mesa do bar. Carlos comemora com a fita cassete na mão.
-O que será que tem aqui dentro?
-Sei lá! Tomara que tenha valido à pena. Não gosto de enganar os outros. – Yara disse, bebendo meia tulipa.
-Bibi, acho que o que está aqui vai mudar a minha vida…

fim da parte 1 _____ Continua amanhã!

Estranha obsessão

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Carlos teve sua primeira crise de pânico aos dezoito anos, quando estava num ônibus de viagem, a caminho de Governador Valadares. Era um feriado prolongado, as estradas estavam lotadas e havia muito movimento nas rodoviárias. Isso explica o gigantesco transtorno que deu quando ele começou a gritar e se tremer, suando frio dentro do ônibus. Foi um pandemônio.
Após o trauma da primeira crise, ele ainda manifestou as crises de pânico mais duas vezes, mas até aquele dia, somente a primeira crise havia sido tão traumática.

-E como que foi? – Perguntou Yara, enquanto molhava o pedaço de cebola no molho picante e enfiava na boca.
-Horrível! -Disse Carlos, tentando matar o assunto entre goles de cerveja.
-Dá detalhes, pô! Horrível como? -Yara, a curiosa.

Carlos contou. Foi súbita, sem aviso, sem sinal perceptível de que ia acontecer. Ele estava dormindo, foi beber um copo d´água e quando abriu a geladeira…
-Pá! aconteceu.
-E aí?
-Caí com tudo, copo, com água… Fui parar no chão. Eu nem conseguia me levantar.
-O que você acha que causou? – Ela quis saber.
-Não sei. Isso me intriga desde sempre. Acho que… Acho que foi a luz.
-A luz?
-A luz da geladeira.
-Mas o que tem a ver a luz? Isso de luz não é com ataque epiléptico?
-Não sei, não fode também, né Yara? Se não bastasse o pânico você ainda quer me arrumar uma epilepsia?

Yara riu com o amigo.

-O importante é que passou, né? Mais uma crise…
-Pois é.. Mais uma, mas isso me deixa sempre intrigado.
-Intrigado com o que?
-Quando será a próxima.

Yara sorriu, contemplativa. Pediu mais uma caneca de chopp ao garçom. Então se virou pra Carlos.

-Mas por que você acha que foi a luz?
-Sabe, num retrospecto assim, eu tava me lembrando da primeira crise… Eu estava no ônibus…
-Sei, você já me contou a história. -Ela interrompeu, mas o amigo pareceu não se importar e continuou.
-Eu estava lá e fiquei ali, na janela, olhando os faróis dos carros que vinham na estrada… O ônibus engarrafou na serra, e fiquei ali, ao lado dum pequeno poste de luz. Era bem perto da minha janela. Bem na minha altura. Eu fiquei ali… Viajando naquela luz… E aí…
-Sei. Aí veio aquela merda toda que você já me contou umas vinte mil vezes, Carlos.
-É. Pois é. Então… Passa o molho?

Yara empurrou o potinho de molho para o outro lado da mesa.

-Mas Carlos, por que você não procura um tratamento?
-Já fiz isso… Ano passado, fui num neuro.
-Não, digo um outro tipo de tratamento, sei lá…
-Tipo o que? Mãe de santo?
-Não, palhaço… Eu estava no metrô outro dia, e li num jornal uma materia de um cara ai que trata com hipnose, sabe? Acho que o jornal tá lá no meu carro.
-Hipnose?
-Por que não? – Questionou Yara matando o resto do chopp na caneca.
-É… Tem razão, Bibi. Por que não, né?
-Não e chama de Bibi que eu não gosto.
-Tudo bem… Bibi. Desculpa.

Pediram a conta e foram embora. Ao chegarem no carro, Yara pegou o jornal.
-Ó! Tá aqui. É esse cara aqui. O numero do consultório, tá vendo?

Carlos assentiu com a cabeça. Despediram-se animadamente.

-Beijo, Bibi.
-Beijo Cacá! Amanhã vê se chega cedo, hein?
-Ok, ok. Ele disse dando as costas, enquanto já se concentrava na matéria do jornal.

Carlos foi pra casa de ônibus, e à medida em que lia a matéria sobre a hipnoterapia se sentia mais e mais empolgado e interessado a experimentar.

No dia seguinte, Carlos apareceu no setor de Yara todo animado.
-Adivinha?? -Perguntou, debruçando-se na mesa da amiga.
-Você comprou aquela moto!
-Não, pô!
-Então não sei. Fala logo que eu tô com essa pilha de relatório de bolsa para carimbar.
-Marquei a consulta!
-No hipnotizador?
-Hipnoterapeuta! Hipnotizador é o cara que faz aqueles shows, sabe?
-Do cara que come cebola achando que é maçã, né? Tô ligada. – Yara riu.

O chefe de Yara se aproximou e eles tiveram que interromper a conversa. Yara fez um sinal girando o dedo indicador no ar, como quem diz: “depois a gente conversa”.

No fim do dia, Carlos saiu apressado. Desligou o computador, arrumou sua mesa, e desceu. Estava meio em cima da hora, mas era o único horário livre do terapeuta e ele não queria deixar má impressão logo na primeira consulta.

Carlos desceu do taxi em frente ao enorme complexo de salas comerciais. Entrou no grande edifício todo de vidro. A sala tinha uma porta escura, não havia placa ou letreiro. Ele tocou a campainha e surgiu um homem magro, de barbam, com um longo rabo de cavalo grisalho. Ele usava um terno antiquado, cinza, que não parecia combinar com as calças. O ambiente tinha cheiro de incenso.
O homem se apresentou. Era Dr. Ruy Aguirre, um mexicano.

Após a anamnese prévia que durou um longo tempo, no qual Carlos discorreu sobre seu problema, as crises de pânico e ausência que lhe perturbavam. Contou da morte trágica de sua esposa e filho, contou de sua complicada relação com a irmã, que se mudara para a Eslovênia, de seu trabalho, de sua implicância com certas pessoas e seu medo quase sobrenatural de ser observado enquanto dorme.

Ruy orientou Carlos a deitar-se num confortável divã preto, relaxar, fechar os olhos e se sentir afundando lentamente. Ali ele procedeu a primeira hipnose.
-Está ouvindo minha voz? – Perguntou Ruy.
-Sim. respondeu Carlos, prestando atenção no sotaque estrangeiro do terapeuta e seu estranho jeito afetado de falar…
-O seu nome é Carlos Rodrigues Barcellos Junior. Não precisa concordar. Apenas escute… Escute e sinta seu corpo afundar. Concentre-se na minha voz.
Carlos concentrou-se.
-Um… Dois… Três… Carlos… Rodrigues… Barcellos… – O terapeuta dizia, cada vez mais lentamente. Cada vez mais pausadamente.

Carlos abriu os olhos. Na sua frente estava o terapeuta mexicano. Os olhos esbugalhados. Ele estava na ponta da cadeira, reclinado sobre ele.
-Que foi? Que merda é essa? – Gritou Carlos.

O terapeuta pareceu levar um choque. Pulou para trás com os olhos arregalados. Não disse nada.
Carlos viu que estava molhado. Estava suado.
-Que porra é essa, mermão?? Tá me estranhando?
-Calma… -Foi o que disse o terapeuta, visivelmente constrangido.
-Você tava tentando me agarrar!
-Não, não! Não senhor. Calma!!! – Dizia o terapeuta, completamente sem graça.
-Eu vou te meter a porrada, seu filho da…
-Calma porra! – Gritou o mexicano, empurrando Carlos para o divã. – A hipnose foi feita! Você saiu do transe!
-Mentira! Eu ouvi você dizer meu nome! E contar.
-Olha a hora. Disse o mexicano, apontando um antigo relógio de parede atrás do gabinete de mogno.
Havia se passado mais de duas horas desde o início da consulta.

Carlos tentou se acalmar.
-Mas…
-É assim, Carlos. É assim. – Disse o mexicano arrumando o paletó amarfanhado e alisando os longos cabelos grisalhos. Ele acendeu um cigarro que fumou. Carlos notou a tremedeira leve nas mãos do terapeuta.
-É aí?
-Estamos avançando. Disse o homem, entre duas baforadas.
-Mas eu não lembro de nada.
-Ainda vai lembrar. Acalme-se. Teremos que marcar uma nova sessão… Mas… Você por acaso já foi hipnotizado antes?
-Não. Por que?
-Nada, nada. -Disse Ruy, olhando o cigarro.

Houve um pequeno silêncio no consultório.

-Você volta aqui amanhã. -Disse o mexicano abrindo uma agenda que estava sobre a mesa. Carlos notou que ele usava uma caneta tinteiro para riscar três nomes. Escreveu “Carlos” num quadrado e fez uma seta para o local dos nomes riscados.

Carlos pediu desculpas, meio atrapalhado.
-Não se preocupe, amigo. Eu estou acostumado.
-Mas… Doutor, que mal lhe pergunte, por que estava em cima de mim?
-Estava tentando ouvir, Carlos. Em alguns momentos, você falava tão baixo que era impossível escutar, mesmo com o silêncio do consultório.
Aquela explicação parecia-lhe convenientemente decorada, mas era plausível, de modo que Carlos cumprimentou-o pagou pela sessão e prometeu voltar.

No dia seguinte, na hora marcada, Carlos tocou a campainha do consultório.

Ninguém atendeu a porta. Ele achou estranho.
Carlos então esperou. Esperou… E nada. Ele já planejava desistir quando o elevador abriu e surgiu o mexicano, com um gravador debaixo do braço.

-Perdão, Carlos! – Ele disse, meio atrapalhado com um cigarro no canto da boca. o gravador e o paletó embolados na axila e um monte de chaves que lhe fazia parecer São Pedro. O sujeito passava as chaves de uma em uma, com o qual tentava achar a certa que abria a porta. Enquanto tentava, ele disse: – É que o gravador deu defeito e eu precisei correr para consertar a tempo.

-Gravador? – Questionou Carlos.
-Sim… Não se importa se eu gravar sua sessão, né? Será importante mais tarde… -Disse Ruy.
-Por mim, tudo bem.

A sessão se repetiu, nos moldes da anterior. Carlos deitou-se no divã confortável. Fechou os olhos e concentrou-se na voz do terapeuta. Ruy começou a contar pausadamente. Então Carlos ouviu:
-Acorde.
-Hã?
-Acabou. – Disse o mexicano, com um cigarro na boca. Parecia agitado, nervoso.
Carlos notou que novamente estava banhado de suor.
-Que foi? – Questionou Carlos.
-Nada. É que estou com um problema… Bem, vamos ao que interessa. Essa consulta foi grátis, amigo. Não precisa pagar nada.
-Hã?
-Nada, nada… Agora seu tempo acabou, muito obrigado. – Disse o mexicano, visivelmente irritadiço. Parecia ansioso. Tenso.

Carlos levantou-se e foi embora. Ele já estava na rua quando percebeu que o terapeuta nem sequer fez menção de marcar sua próxima sessão.

No terceiro dia, Carlos saiu do escritório e foi direto ao consultório.

Tocou a campainha, e esperou.

A porta se abriu, e Dr. Ruy fez uma expressão assustada ao ver Carlos.
-Que foi? – Perguntou em tom agressivo.
-Olá doutor… Sabe, é que nós não marcamos a minha sessão e…
-Não vai ter sessão.
-Hã? Como assim?
-O que eu podia fazer eu fiz, amigo. Agora é com você. -Ele disse, se apressando em fechar a porta.
Carlos tentou segurar a maçaneta. Ruy empurrava a porta com força.
-Mas doutor… Eu nem me lembro de nada.
-É assim, Carlos. Agora me dê licença que estou no meio de uma consulta. O senhor está atrapalhando… Está sendo inconveniente.
-Ah, perdão. Desculpe. -Gemeu Carlos, sem graça.
-Até logo. -Disse Ruy, batendo a porta.

Daquele dia em diante, a ideia de que o terapeuta mexicano não quis atendê-lo já não lhe saia mais da cabeça. Carlos pensava nisso todo dia. No trabalho, no almoço, no banho. O noticiário televisivo transcorria na tela da Tv, enquanto Carlos se mantinha alheio ao aumento da gasolina. Seus pensamentos apenas vasculhavam nas memórias, tentando entender o que teria acontecido naquela hipnose.

Carlos já não dormia só pensando naquilo.
Que segredo o terapeuta teria descoberto a ponto de evitá-lo daquela forma? E por que ele não se lembrava de nada?

No dia seguinte, no almoço, Carlos e Yara conversavam sobre o caso.
-Ele deve ser um charlatão, Cacá! – Yara sentenciou, enquanto partia o bife.
-Como assim?
-Ué… Um golpista, 171, sabe? Ele hipnotizou você, você sei lá, dormiu. Daí ele pegou sua grana e tchau!
-Não, não. Aconteceu alguma coisa. Isso eu sei. Eu sinto, mas não lembro o que é.
-Qual parte você não lembra?
-Nada! Mas ele disse que eu ia lembrar com o tempo.
-Caô! Isso é papo de 171, Cacá! Pô me admira você, um cara culto, vivido, cair numa dessa.
-Ah, não fode, Bibi! Você que me indicou o mexicano lá. A culpa é sua!
-Ah, mas cê pagou porque quis, eu não de obriguei a nada. Você fica com essas obsessões doidas aí e agora a culpa é minha? Não fode, né Cacá? Você já é bem grandinho pra saber…
-Não, eu acho que o cara… Acho que o cara não é 171 não. Rolou alguma coisa. Eu acho que deu alguma merda na minha hipnose…
-Agora mudou a “obsessão de Carlinhos”. Antes ele era doido pra saber porque tinha pânico, agora está doido pra saber porque levou o fora do mexicano boiola… – Yara caçoou dele.
-Pô, Bibi…
-Ah, não. Não vem com essa cara de cachorro pidão.
-Pô, Bibi, me ajuda, meu! Lembra lá do franco-argentino? Eu quebrei o maior galhão seu, né?
-Puta merda, Cacá! Pra desenterrar essa do Argentino parisiense você deve estar muito desesperado mesmo, hein?
-… – Carlos ficou quieto. Fixava o olhar num guardanapo.
-Tá, que foi? Qual é a roubada que você vai me meter dessa vez?

Carlos ergueu os olhos, tomou uma golada do suco de laranja quente e disse:

-O cara gravou!
-E daí? Muitas consultas de hipnose são gravadas. Nunca viu nos filmes?
-Eu quero ouvir a fita! -Ele disse com um sorriso nos lábios.

Yara teve um sobressalto: – Roubar???
Carlos apenas concordou com a cabeça em silêncio.
-Porra, Cacá. Roubar não, cara. Aí é crime. Eu não vou…
-Calma, Bibi. Escuta. Eu já tenho tudo planejado!

Carlos explica todo o plano.

Ao voltarem para o escritório, Yara telefonou para o Dr. Ruy, marcando uma consulta pra ela.
No dia marcado, Yara foi até o consultório.
Logo que entrou, ela lembrou da perfeita descrição do consultório feita pelo amigo. O terapeuta era meio new age, meio afeminado. O ambiente tinha imagens orientais nas paredes, uma decoração antiquada, mas de bom gosto. Almofadões e tapetes… E o cheiro de incenso entranhado em tudo.
O processo de atendimento foi similar ao de Carlos.

-O que te traz aqui Yara? – Ele perguntou.

Yara inventou uma desculpa. Disse que pensa em se submeter a uma hipnose para curar seu medo de baratas, mas que tinha medo da hipnose. Medo de entrar no transe e nunca mais voltar.
Dr Ruy sorriu. O terapeuta explicou que é seguro, falou detalhadamente sobre o método.
Yara então perguntou se a sessão era filmada. O terapeuta disse que ela é registrada sim, só que gravada.
-Mas e as fitas? – Ela perguntou.

Ele então mostrou uma caixa de sapatos forrada de couro, cheia de fitas.
-O que é isso, doutor? – Perguntou Yara, jogando o verde.
Ele disse que são fitas de hipnoses de seus pacientes.
Yara sorriu… Ao fim da sessão, ela se despediu, prometendo voltar. Dr. Ruy marcou a primeira hipnose dela para o dia seguinte.

Tão logo chegou na rua, Yara viu Carlos esperando perto da banca de jornal, conforme combinado.
-E aí? – Perguntou ele, ansioso como sempre.
Ela contou ao amigo como foi fácil descobrir onde estão as fitas. Ela disse que teria uma nova sessão no dia seguinte.
-Perfeito! Exatamente como planejei! – Disse Carlos, empolgado.

No dia marcado, lá estava ela, tocando a campainha para curar o tal medo de baratas.
Dr Ruy atendeu. Ela entrou e minutos depois ele já começava o relaxamento, quando a campainha tocou outra vez.
Ruy pediu desculpas a Yara por interromper o procedimento e foi ver a porta.

Ao abrir, Ruy deu de cara com Carlos. O terapeuta até tentou fechar a porta, batê-la na cara de Carlos, mas ele enfiou o pé na soleira e disse que tinha consigo um mandado de juiz. Era um documento tão falso quanto uma nota de três reais, porém, ali estava um texto enorme, cheio de termos de juridiquês.
-Mas o que é isso? – Questionou Ruy.
-Leia leia, o que diz aqui, Doutor. – Falou Carlos, apontando para um parágrafo completamente incompreensível.
Enquanto isso, lá dentro do consultório, Yara já havia saltado do divã, e futucava no interior da caixa, em busca da fita de Carlos. Após abrir umas seis caixas, ela encontrou finalmente uma com o nome dele. Yara então retirou a fita com cuidado e substituiu por outra. Colocou tudo no lugar e escondeu a fita dele dentro das calças.
Ao longe, ela escutava a discussão na porta.
Dr. Ruy parecia exaltado, tentando fechar a porta, mas Carlos tentava impedir.
Yara saltou para o Divã poucos sengundos antes do mexicano entrar, muito bravo.
-Francamente…
-O que foi, doutor? – Ela pergunta, fingindo não entender a confusão.
-É um doido. Um doido varrido. – Diz ele muito nervoso. O terapeuta jogou o papel sobre a mesa e acendeu um cigarro.
-Vamos retomar… – Ele disse.

Nisso, o telefone de Yara tocou. Do outro lado ela escutou a voz de Carlos:
-E aí? Pegou?
Ela então ficou quieta. Fez força para ruborizar suas faces. E então disparou a falar em tom aflito.
-Morreu? Não! Não pode ser! Coitadinho! – Ela disse, em prantos.
Do outro lado, Carlos notou que aquilo indicava que tudo havia corrido conforme o plano.
O terapeuta mexicano ali, sem entender nada.
-Tudo bem… Tudo bem. Estou indo pra aí. Calma. Fica calma que estou chegando! – Ela disse, aflita.
-O que foi? Perguntou Dr. Ruy.
-É que o cachorrinho da minha filha, o Tonico… O Tonico morreu. Atropelado. A pobrezinha esta inconsolável.
-Coitada.
-Doutor, não tenho condição de continuar essa sessão. Será que podemos remarcar? Eu preciso sair agora!- Disse Yara.
-Claro, claro! Semana que vem, quarta, deixa eu ver… Éééé… Às seis. Pode ser? – Perguntou o terapeuta olhando a agenda.
-Perfeito, doutor. Me desculpe, sim?
-Sem problemas, dona Yara. Nos vemos na quarta então.
-Adeus e obrigada. – Ela disse, já saindo apressada para o corredor.

Minutos depois, ali estão os dois, na mesa do bar. Carlos comemora com a fita cassete na mão.
-O que será que tem aqui dentro?
-Sei lá! Tomara que tenha valido à pena. Não gosto de enganar os outros. – Yara disse, bebendo meia tulipa.
-Bibi, acho que o que está aqui vai mudar a minha vida…

fim da parte 1 _____ Continua amanhã!

Estranha obsessão

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