Como foi que eu fiquei surdo

Se você não me segue no Facebook, talvez não saiba que eu fiquei surdo, do nada, anteontem.

Eu nunca imaginei que ficaria surdo. Sempre pensei que surdez fosse algo que vinha com o tempo, como quando você vai parando de ouvir certas frequências, uma degeneração natural do envelhecimento, ou se dá um azar e já nasce sem ter o sistema auditivo funcionando. Claro, também sei de acidentes e doenças que podem causar surdez e tudo mais.

Mas ir dormir de boa e acordar surdão é foda.

Surdez surpresa: Novo medo desativado

Pois bem, foi exatamente isso que aconteceu comigo. Eu viajei com a Nivea e Davi para ficar uns dias vendo a chuva de dentro de um quarto de hotel. Tudo estava normal, fizemos uma comemoração íntima dos meus 48 anos com um micro bolinho simbólico que o hotel ofereceu e fomos dormir.
Naquela noite eu tive um pouco de febre, mas nada fora do comum. Só que quando eu acordei, tava surdo. Simplesmente meu ouvido tinha parado de funcionar.
Inicialmente achei que tinha água no ouvido, mas não. Eu não ouvia nada. A agonia se deu quando botei o dedo no ouvido e era com encostar na minha perna. Meu ouvido agora era só um pedaço de carne inerte, que não dava nenhuma resposta. Eu estava tonto e um pouco confuso. O outro ouvido também não estava lá “essas coisas”. Parecia que todo som estava alto demais, barulhos normais estavam me incomodando terrivelmente. A Voz da Nivea, que eu amo, parecia de taquara rachada. O barulho da televisão me dava vontade de pular pela janela.
O Davi estava jogando aqueles jogos de celular altíssimos e irritantes e eu testei. Sentei do lado dele e tampei meu ouvido que estava ouvindo e… NADA.  Não vinha som nenhum pelo lado direito. Só um chiado estranho.
Todo barulho que vinha do ouvido esquerdo  – o único operacional – estava mais alto do que devia e com um som bosta. Me dei conta que agora o mundo pra mim não era mais estéreo, mas sim mono.

De brinde fui presenteado com uma náusea e uma dor de cabeça generalizada. E aí o que eu fiz? Fui pra praia.

Claro que eu não estava muito satisfeito de ficar sentado numa cadeira vendo a Nivea e o Davi se divertindo na praia e pensando que não ia mais ouvir boate azul com toda qualidade que a musica merece.  Eu fiquei lá pensando: Como assim alguém vai dormir normal e acorda assim todo fodido? Mistérios, meus amigos, mistérios!
Acho que a Nivea só levou fé pra valer, quando viemos embora e ela conseguiu pra mim um encaixe no Otorrinolaringologista dela, que me examinou, fez audiometria e tudo mais  e sentenciou:

Tá surdo mesmo!

Então é isso, o nome dessa beleza é surdez súbita monolateral idiopática. Acontece. É a loteria do azar. Pode ter um monte de causas, pode ser de algum medicamento, uma reação autoimune do corpo, pode ser herpes, doenças virais conhecidas como sarampo, catapora e caxumba, e pode ser algo que ninguém sabe o motivo.
O meu medico desconfia de algum vírus, e eu também, já que tive febre.

É incrível como muita coisa que eu achava que via, estava na verdade ouvindo.

Dirigir ficou desafiador. A sensação é que tomei uns gorós e peguei no volante. Voltar de Angra com chuva e sem escutar direito foi brabo. O mais irritante pra mim é que sempre pensei que a surdez fosse não ouvir nada, tipo um vácuo, mas não. É um barulho, como um radio fora do ar (ruído branco) permanente, com um ruído fininho no meio, que é super alto, e fica contínuo. Ás vezes, o sinal varia e fica tipo um “bluoubluoubluou… junto comum SHHHHHHHHHHH….”

Eu me lembrei do meu livro “O despachante da morte” que o cara fica ouvindo exatamente assim e do nada, a morte fala com ele. Já estou até me preparando para do nada uma voz falar aqui na rádio, pq sabe como é… Vai que…

Existe uma hipótese de que isso possa ser um efeito cagado da vacina da Pfizer, mas sinceramente, não tem como provar isso, e esmo que seja, adianta o que agora? Nada. A surdez surpresa já existia antes da pandemia.

O médico acha que deve ser algum vírus bizarro e me passou um remédio antiviral de lago espectro que é tipo um Baygon mata-tudo, serve até pra AIDS. Espero que ele esteja certo e vai que funfa, né?

Vai ser quase isso aqui

É tanto remédio que ele me deu que estou com medo de ser soterrado num mar de capsulas e pílulas coloridas. Como não se sabe a causa direito, o jeito é socar um remédio diferente em cada frente e torcer que algum tiro mate o bichim.

E se não der certo?

Eu estou conformado, afinal, o que adianta reclamar se meu ouvido parece um carro da Hyundai que no dia seguinte depois de vencer a garantia dos 48.000, pifa?

Vou aceitar meu destino sem perder a esportiva. Será que com isso posso dar uma encostadinha no INSS? Pela logica devia, já que se o mindinho do Lula deu aposentadoria pra ele, pq meu ouvido morto não pode me dar também?
Se alguém souber, me avisa. Tô precisando dum dindim.

Ficar surdo é muito ruim. O pior de tudo é a insegurança que foi inaugurada na minha mente. Se eu posso acordar surdo, o que garante que não posso acordar paraplégico, ou mudo? E se acontecer comigo igual aconteceu com meu amigo Eudes, que um belo dia acordou e tinha ficado cego (depois a visão dele voltou)?

Essa porra alugou um triplex no condomínio do medo da minha cabeça, e eu que me sentia seguro sendo eu já não estou me garantindo tanto agora. A vida é uma roleta-russa, Mané.
Sempre imaginei que meu corpo fosse de melhor qualidade, mas pelo visto, sou um windows 98, onde do nada, do mais absoluto insólito desígnio do roteirista, dá pau no driver de som.

Uma bosta, mas vamos seguindo e torcendo para voltar. Não tem reboot (na real, até tem, mas espero não precisar fazer um para não dar depoimento no canal “Afinal, o que somos nós“)

Bom, é isso. Vou ficando por aqui, ouvindo tudo em Mono. Deixo você com essa poética que eu fiz ontem antes de dormir, porque a gente se fode mas La zoera no tendrá fin jamás!

A merda d’amanhã

Quando eu acordei
Naquele dia
Eu nada ouvia
Nem os sabiás nem cotovias
Nem samba, nem batucada.
Nem os carros lá na estrada.
Nem a tempestade chegando
O vento soprando
A chuva caindo
Nada eu ouvindo.
As árvores dançando eu só via
Pareciam mímicos da melancolia
Num balanço complexo
Envolvidas em perpétuo remelexo
Figurantes de cena de novela
A caçoar da minha mazela
Não tinha barulho nem curto nem comprido
Nem canto, berro ou gemido
Nem pranto nem som
Nem nota, nem tom
Mas também vazio não definia
A surdez que me surgia
Veio do nada, sem avisar
De mala e cuia na orelha se instalar
Não era vácuo, o estranho ruído
Que na ausência do meu sentido
Virou quase condenação
Sequestrou minha audição
Me deixando desesperado
Tinha um chiado desgraçado
e contínuo no ouvido direito
Que sem nenhum respeito
Veio com um apito de fundo
O barulho mais chato do mundo
Deveras irritante
Repetindo em todo instante
E que não desliga…
Há que se diga
Que já estou conformado.
Chega a soar engraçado,
Tamanha resignação.
Numa vida cheia de emoção
Um dia tô surdo, no outro, febril
Parece até primeiro de abril.
É perrengue sem fim
Sem falar na pedra do rim
Já operei o furingo, o saco e o bilau
Vesícula, e até hérnia umbilical
Tudo bem não ouvir mais o grito do Tarzã
Mas eu me pergunto é
”qual será a merda de amanhã?”

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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Comentários

    • Ta meio que na mesma. Não sei mais. Na real estou curioso, porque a barulheira esta se reduzindo, mas pode ser meu cérebro que está acostumando e filtrando ela. Tipo gente que não sente cheiro de cachorro em casa.

  1. Olá Philipe, aconteceu comigo exatamente como vc descreveu. Fiquei surdo do nada, dos dois ouvidos. Marquei uma consulta com um otorrino do meu plano de saúde, só que ia demorar 5 dias. Me desesperei nesse tempo mas não acreditei que era surdez do nada, sempre pensei que era só um entupimento de cera, já que sou viciado em usar cotonete. Como eram os dois ouvidos a probabilidade de ocorrer me tirava um pouco a fé nisso. Depois de dois dias surdo não aguentei, comprei um remédio que amolece cera, coloquei algumas gotas, fiquei de lado para a gravidade ajudar e fiquei ali por 1 hora ou mais. Nada, estava tudo igual mas sei lá alguma coisa me dizia que ia funcionar. Fiz isso por mais 2 dias e dai escutei quase como uma explosão dentro do ouvido. Era mesmo só cera. Até o dia do exame eu continuei colocando o amolecedor e tirando cera. A audição voltava e depois sumia, até que estabilizou e eu estava curado. Minha consulta foi só para ter certeza que estava tudo bem. Tomara que dê tudo certo com vc também.

  2. Hoje de tarde apareceu umas manchas na minha visao comose tivesse jogado um jato de sangue numa porta de vidro .ela muda de formato o tempo todo e gira um pouco como3d qquando movimento os olhos , oque sera isso? nao encontrei nada nainternet

  3. puta merda mano! que coisa terrível. mas vim comentar exatamente o que o amigo acima disse. Eu tenho os canais aditivos meio tortos(?) e acumula muita cera, nao uso cotonete, só a ponta da toalha no dedo depois do banho e ainda assim do nada sinto entupir. Fica tudo abafado, longe, com chiado e esse agudinho de merda, umas frequenciad meio estranhas de algo que estamos acostumados também acontecem, tipo como se esse som não fosse daquilo. Tenta usar Cerumim umas 3 vezes por dia deitado, 3 gotas e fica ali uns 15 min. talvez va soltando. espero que melhore e encontre o que foi isso pra fazer mais posts até sobre isso.

  4. Só pra constar, o Lula não se aposentou por invalidez por causa do dedinho (que ele perdeu quando tinha 18 anos). É um mito comum. Melhorar!

  5. Philipe, primeiramente melhoras a você cara. Sou um leitor assíduo do blog há alguns anos e desejo que tudo ocorra da melhor forma. Olha, caso realmente não tenha jeito e queira dar entrada na aposentadoria, você tem direito! Qualquer coisa me manda um e-mail que eu te oriento. sgtorresadv@gmail.com

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