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Hoje esbarrei com um demo do trabalho do Guga no Vimeo e resolvi colocar aqui.

Se a vida da gente fosse um filme, obviamente nós seríamos os protagonistas. Ao nosso redor, teríamos um sem número de atores coadjuvantes. E eventualmente, teríamos as participações especiais. Sem falar nos bilhões de figurantes, cada qual, protagonizando seus próprios filmes.

Guga Millet foi um dos caras que fez participação especial na minha vida. Eu não me lembro exatamente quando foi e em que circunstância conheci este cara, mas me lembro claramente de ao começar a conversar com o Guga, ter uma impressão de já conhecer ele há um longo tempo. Isso pode acontecer com todo mundo, e às vezes, a sensação de ser velho amigo de uma pessoa que acabamos de conhecer é uma coisa tão intensa que parece nos sugerir aquele papo de lembranças de vidas passadas.
Me aconteceu com um punhado de pessoas até hoje, sendo uma das mais estranhas uma circunstância ocorrida em Juiz de Fora, nos anos 80, quando eu atravessei a rua pra falar com um cara que até então eu nunca tinha visto mais gordo, porém a sensação era de conhecê-lo há anos. Estranhamente, ele também tinha a mesma sensação, mas não conseguimos encontrar nenhum ponto de ligação entre nós dois. Assim, nos cumprimentamos e seguimos nosso caminho. Até hoje guardo a bizarra memória de encontrar alguém que eu conheço e simultaneamente não conheço.

O Guga entrou no meu filme justamente como diretor de fotografia cinematográfica. Desta vez não estou me referindo à minha vida, mas sim a meu filme, um filme de verdade. Um projeto absolutamente maluco de épico grego cujo orçamento inteiro limitou-se a cerca de vinte reais. O filme chamava-se “A sombra do Invasor”. Uma aventura épica na forma de curta-metragem. O filme, escrito em 2002, se passa na Grécia, num período pré-helênico. Ele conta a história de um pescador grego que tem a filha sequestrada para ser ofertada como alimento e divertimento sexual do minotauro. O cara não se conforma e parte sozinho para resgar a filha no labirinto da criatura. “A sombra do Invasor” (todo falado em grego arcaico e sem legendas) era só uma ideia maluca que iniciei com um amigo chamado Guilherme Oliveira, e que – a minha sina – acabou engavetado por falta de dinheiro para ser feito com a mínima decência que o projeto merecia.

O Guga surgiu apresentado pelo Luis Ratts, que era nosso produtor no Sombra. O Guga tinha uma grande experiência com cinema, já tendo, naquela época, trabalhado em inúmeros projetos de comerciais, Tv e cinema, onde havia ganho prêmios. Pra nós, que estávamos no primeiro degrau da longa escadaria da carreira, aquele cara na nossa equipe era como ter o Zidane querendo jogar numa pelada de várzea que nem dinheiro pra comprar uniforme tinha.

Segundo o Guga, o que o atraiu a entrar num projeto mambembe daqueles era a temática, um épico brasileiro, no melhor estilo Conan (o nosso filme até prestava uma homenagem ao filme “Conan o Barbaro”) nas cienas iniciais. Fora isso, era todo um conjunto de efeitos de fantasia, com monstros feitos em computação gráfica de 3 metros de altura, cenários escalafobéticos misturando live action e extensões digitais, matte paintings e tudo mais que a gente pudesse enfiar para fazer um épico como “nunca se viu na história deste país”.

E isso bem antes da era Lula, (quando as coisas que nunca anteriormente haviam sido vistas na história da nação atropelavam-se a cada semana).

O Guga me disse certa vez, que sempre quis trabalhar num filme assim, épico. Toda a equipe, que se resumia a umas vinte pessoas, estava com a mesma vontade. Acreditávamos que se consegíssemos fazer algo suficientemente escalafobético sem grana, atrairíamos a atenção e conseguiríamos alçar vôos maiores. Já sonhávamos em fundar uma produtora tupiniquim para fazer filmes de ficção científica e block busters padrão gringo.

Imediatamente, eu notei que o Guga não pouparia esforços para fazer meu roteiro-delírio-overdose-de-coca-cola duma madrugada pré-blog em realidade, porque ele já tinha feito loucuras na carreira, como escalar o Aconcágua com uma câmera cinematográfica de 60 Kg nas costas, afim de gravar um documentário. Guga parecia o cara certo. E era.

Não tardou para que eu convocasse diversos amigos da faculdade de Belas Artes da UFRJ para me ajudar na parte de arte. Nosso storyboard, antes simploriamente esquematizado a lápis ficou assim:

Fizemos varias ilustrações, tentando criar um “clima” para a obra. Usamos aquarela, lápis de cor, tinta acrílica, etc. Eu criei esculturas do minotauro, fiz uma quantidade enorme de versões dele em 3d, fiz até a espada do grego, em aço couro e durepoxi. A espada hoje decora minha casa.

O minotauro
Arte de pré-produção em lapis de cor sobre papel craft

 

Arte de pré-produção em lapis de cor sobre papel craft


Eu também comecei a estudar a técnica do matte painting, comecei a fazer testes de cenários 3d, misturando fotos e objetos tridimensionais. Era uma oportunidade de estudo e de tentar algo inovador.

Teste de matte painting. Acredite ou não, isso aí é em Niterói
A entrada do labirinto – Teste de matte painting
Teste de matte painting e color correction (A casa em primeiro plano é uma ruína em Niterói)
Um close do monstro com o maior realismo que eu conseguia fazer em 2003

Foi graças a produção de arte, que mostrei para um compositor de cinema americano que trabalhava para Hollywood, que ganhamos a autorização de uso da trilha dele, gravada com a Orquestra Sinfônica de Moscou.  Ele se amarrou no projeto, que nas palavras dele era “um projeto ousado” e me mandou um material que tinha, e que era uma sobra de um projeto de jogo da Atari, gravado com orquestra real, com líricos femininos reais, cantado em latim. O cara me mandou uma versão que acabou não sendo usada, mas que era uma música absolutamente fodástica, e o projeto caseiro e sem recursos ganhou ares de Lord of The Rings.

Curiosamente, foi quando o filme começou a morrer. Aquilo que inicialmente seria gravado em mini Dv (porque nem dinheiro pra DV merreca a gente tinha naquele tempo) já não cabia mais num formatinho pobre e chapado. Era necessário densidade, profundidade, grão. E isso só com câmera cinematográfica. E como qualquer Zé Ruela sabe, câmera cinematográfica envolve luz cimatográfica, envolve traquitanas, gruas, telecine, kinescopagem, envolve maquinista, motorista, eletricista, um monte de “ista” e isso custa caro.
Numa reunião no Parque Lage, o Luis Ratts o Guilherme e o Renato resolveram que iriam abandonar o projeto se ele não fosse feito em película.
O meu filme acabou não saindo, mas ele permitiu que eu aprendesse muita coisa e isso se deu com os meus amigos, e ouvindo e vendo o Guga trabalhar. Infelizmente, a ideia não foi para a frente, mas foi graças a este filme, que este blog aqui existe. Isso porque (também não lembro exatamente como) um dos componentes da nossa equipe era o Brunno Vieira, responsável técnico pelo fórum do filme. O Brunno se mostrou um grande amigo, e ele tinha um blog chamado “Virou Kibe”. Na época eu achava a “moda” dos blogs a coisa mais babaca do mundo, mas eu comecei a ler o blog do Brunno e gostei. Durante um tempo eu fui apenas leitor mas então um belo dia, resolvi criar o meu. E deu nisso aqui.

O projeto acabou me gerando diversos amigos, que hoje são leitores aqui do blog.

No fim das contas, tenho pena de não ter conseguido fazer este filme, mesmo que com recursos limitados e efeitos meia-boca. Mas se um dia eu ficar rico, vocês vão ver!

A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

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Hoje esbarrei com um demo do trabalho do Guga no Vimeo e resolvi colocar aqui.

Se a vida da gente fosse um filme, obviamente nós seríamos os protagonistas. Ao nosso redor, teríamos um sem número de atores coadjuvantes. E eventualmente, teríamos as participações especiais. Sem falar nos bilhões de figurantes, cada qual, protagonizando seus próprios filmes.

Guga Millet foi um dos caras que fez participação especial na minha vida. Eu não me lembro exatamente quando foi e em que circunstância conheci este cara, mas me lembro claramente de ao começar a conversar com o Guga, ter uma impressão de já conhecer ele há um longo tempo. Isso pode acontecer com todo mundo, e às vezes, a sensação de ser velho amigo de uma pessoa que acabamos de conhecer é uma coisa tão intensa que parece nos sugerir aquele papo de lembranças de vidas passadas.
Me aconteceu com um punhado de pessoas até hoje, sendo uma das mais estranhas uma circunstância ocorrida em Juiz de Fora, nos anos 80, quando eu atravessei a rua pra falar com um cara que até então eu nunca tinha visto mais gordo, porém a sensação era de conhecê-lo há anos. Estranhamente, ele também tinha a mesma sensação, mas não conseguimos encontrar nenhum ponto de ligação entre nós dois. Assim, nos cumprimentamos e seguimos nosso caminho. Até hoje guardo a bizarra memória de encontrar alguém que eu conheço e simultaneamente não conheço.

O Guga entrou no meu filme justamente como diretor de fotografia cinematográfica. Desta vez não estou me referindo à minha vida, mas sim a meu filme, um filme de verdade. Um projeto absolutamente maluco de épico grego cujo orçamento inteiro limitou-se a cerca de vinte reais. O filme chamava-se “A sombra do Invasor”. Uma aventura épica na forma de curta-metragem. O filme, escrito em 2002, se passa na Grécia, num período pré-helênico. Ele conta a história de um pescador grego que tem a filha sequestrada para ser ofertada como alimento e divertimento sexual do minotauro. O cara não se conforma e parte sozinho para resgar a filha no labirinto da criatura. “A sombra do Invasor” (todo falado em grego arcaico e sem legendas) era só uma ideia maluca que iniciei com um amigo chamado Guilherme Oliveira, e que – a minha sina – acabou engavetado por falta de dinheiro para ser feito com a mínima decência que o projeto merecia.

O Guga surgiu apresentado pelo Luis Ratts, que era nosso produtor no Sombra. O Guga tinha uma grande experiência com cinema, já tendo, naquela época, trabalhado em inúmeros projetos de comerciais, Tv e cinema, onde havia ganho prêmios. Pra nós, que estávamos no primeiro degrau da longa escadaria da carreira, aquele cara na nossa equipe era como ter o Zidane querendo jogar numa pelada de várzea que nem dinheiro pra comprar uniforme tinha.

Segundo o Guga, o que o atraiu a entrar num projeto mambembe daqueles era a temática, um épico brasileiro, no melhor estilo Conan (o nosso filme até prestava uma homenagem ao filme “Conan o Barbaro”) nas cienas iniciais. Fora isso, era todo um conjunto de efeitos de fantasia, com monstros feitos em computação gráfica de 3 metros de altura, cenários escalafobéticos misturando live action e extensões digitais, matte paintings e tudo mais que a gente pudesse enfiar para fazer um épico como “nunca se viu na história deste país”.

E isso bem antes da era Lula, (quando as coisas que nunca anteriormente haviam sido vistas na história da nação atropelavam-se a cada semana).

O Guga me disse certa vez, que sempre quis trabalhar num filme assim, épico. Toda a equipe, que se resumia a umas vinte pessoas, estava com a mesma vontade. Acreditávamos que se consegíssemos fazer algo suficientemente escalafobético sem grana, atrairíamos a atenção e conseguiríamos alçar vôos maiores. Já sonhávamos em fundar uma produtora tupiniquim para fazer filmes de ficção científica e block busters padrão gringo.

Imediatamente, eu notei que o Guga não pouparia esforços para fazer meu roteiro-delírio-overdose-de-coca-cola duma madrugada pré-blog em realidade, porque ele já tinha feito loucuras na carreira, como escalar o Aconcágua com uma câmera cinematográfica de 60 Kg nas costas, afim de gravar um documentário. Guga parecia o cara certo. E era.

Não tardou para que eu convocasse diversos amigos da faculdade de Belas Artes da UFRJ para me ajudar na parte de arte. Nosso storyboard, antes simploriamente esquematizado a lápis ficou assim:

Fizemos varias ilustrações, tentando criar um “clima” para a obra. Usamos aquarela, lápis de cor, tinta acrílica, etc. Eu criei esculturas do minotauro, fiz uma quantidade enorme de versões dele em 3d, fiz até a espada do grego, em aço couro e durepoxi. A espada hoje decora minha casa.

O minotauro
Arte de pré-produção em lapis de cor sobre papel craft

 

Arte de pré-produção em lapis de cor sobre papel craft


Eu também comecei a estudar a técnica do matte painting, comecei a fazer testes de cenários 3d, misturando fotos e objetos tridimensionais. Era uma oportunidade de estudo e de tentar algo inovador.

Teste de matte painting. Acredite ou não, isso aí é em Niterói
A entrada do labirinto – Teste de matte painting
Teste de matte painting e color correction (A casa em primeiro plano é uma ruína em Niterói)
Um close do monstro com o maior realismo que eu conseguia fazer em 2003

Foi graças a produção de arte, que mostrei para um compositor de cinema americano que trabalhava para Hollywood, que ganhamos a autorização de uso da trilha dele, gravada com a Orquestra Sinfônica de Moscou.  Ele se amarrou no projeto, que nas palavras dele era “um projeto ousado” e me mandou um material que tinha, e que era uma sobra de um projeto de jogo da Atari, gravado com orquestra real, com líricos femininos reais, cantado em latim. O cara me mandou uma versão que acabou não sendo usada, mas que era uma música absolutamente fodástica, e o projeto caseiro e sem recursos ganhou ares de Lord of The Rings.

Curiosamente, foi quando o filme começou a morrer. Aquilo que inicialmente seria gravado em mini Dv (porque nem dinheiro pra DV merreca a gente tinha naquele tempo) já não cabia mais num formatinho pobre e chapado. Era necessário densidade, profundidade, grão. E isso só com câmera cinematográfica. E como qualquer Zé Ruela sabe, câmera cinematográfica envolve luz cimatográfica, envolve traquitanas, gruas, telecine, kinescopagem, envolve maquinista, motorista, eletricista, um monte de “ista” e isso custa caro.
Numa reunião no Parque Lage, o Luis Ratts o Guilherme e o Renato resolveram que iriam abandonar o projeto se ele não fosse feito em película.
O meu filme acabou não saindo, mas ele permitiu que eu aprendesse muita coisa e isso se deu com os meus amigos, e ouvindo e vendo o Guga trabalhar. Infelizmente, a ideia não foi para a frente, mas foi graças a este filme, que este blog aqui existe. Isso porque (também não lembro exatamente como) um dos componentes da nossa equipe era o Brunno Vieira, responsável técnico pelo fórum do filme. O Brunno se mostrou um grande amigo, e ele tinha um blog chamado “Virou Kibe”. Na época eu achava a “moda” dos blogs a coisa mais babaca do mundo, mas eu comecei a ler o blog do Brunno e gostei. Durante um tempo eu fui apenas leitor mas então um belo dia, resolvi criar o meu. E deu nisso aqui.

O projeto acabou me gerando diversos amigos, que hoje são leitores aqui do blog.

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