O crânio – Parte 7

Bruno segurava a caveira e estava prestes a fazer um novo pedido quando ouviu o que parecia ser um choro. Vinha da sala.
Ele foi até a sala e viu a mãe sentada no sofá. Ela tentou disfarçar, limpar as lagrimas dos olhos.

-Que foi, mãe?
Dona Sandra evitou responder. Saiu-se com uma resposta evasiva, levantando apressada do sofá, enxugando as lágrimas.
-O que foi o que, Bruno? Quer café? Já vou fazer…
Bruno levantou-se do sofá e puxou o papel da mão da mãe.
-Que isso aqui?
Era uma notificação judicial. O condomínio estava processando eles por não pagamento.
-Me dá isso aqui, Bruno!
-Que merda, mãe. Que merda…
-Calma, filho. Calma. Seu pai vai dar um jeito. – Ela disse, tentando disfarçar o desespero.
-Cadê ele?
-Já saiu. Disse que ia conversar com um… Um amigo. Sei lá.
-Mãe. Ele não foi atrás de agiota, né?
-Não se mete nisso, Bruno. Não se mete. O problema é nosso.
-Não, mãe. É meu também!
-Seu pai vai dar um jeito. Eu te disse.
-Mãe, vão se aproveitar da gente. Onde que ele foi?
-Já falei, Bruno. Quer nescau?

Bruno sentou-se à mesa. Sua cabeça dando voltas. A coisa estava ficando feia.
A mãe chegou com algumas frutas num pratinho e um copão de Nescau, mais a pilha de remédios que ele tinha que tomar.
-É hoje que sai o novo exame de sangue. – Ela disse. – Toma tudo, Bruno.

Bruno bebeu o café e comeu uma maçã. A mãe sentou-se no sofá e pegou uma revista velha, já lida e relida dezenas de vezes e começou a folhear. Estava claro para Bruno que a mãe estava fingindo normalidade. Ela era péssima em disfarçar seus sentimentos. Tudo aquilo só mostraram a Bruno que o pai talvez tivesse ido pedir dinheiro emprestado com o Abelardo Jardim.
Abelardo Jardim era um homem com uma fama não muito boa. Ele emprestava dinheiro a juros, mas costumava a ser bem eficaz em cobrar suas dívidas, e andava sempre na companhia de pelo menos cinco capangas muito assustadores. Abelardo Jardim era ex-marido da prima de segundo grau do pai do Bruno. “Quase da família” como o pai gostava de lembrar. Mas todos detestavam aquele sujeito, porque quando era casado com a Yolanda, ele batia nela, queimava com cigarro… Quase matou Yolanda. Abelardo, ou Junico – seu apelido, era o tipo de pessoa detestável, um dono de supermercado e agiota nas horas vagas, com um toque de psiocopatia evidente por trás de seus olhos frios.

Bruno preferiu não falar nada com a mãe. Voltou para o quarto. Ligou um som em alto volume. Era como se o som pudesse fazê-lo esquecer.
Sentou-se na cama. Olhou para a foto de Bia novamente. Queria falar com ela, mas estava sem graça de ligar.
Nisso, ele teve a ideia novamente. E se pedisse à caveira para que Bia voltasse a ser a namorada dele?
Ele já ia pegar a caveira em seu pequeno altar quando Bruno ouviu um grito. Um grito na sala.
Correu e deu de cara com a mãe, amparando o pai. O pai estava machucado. Sangrando pelo nariz. O olho era um inchaço escuro horrível. A roupa toda suja.

-Pai! Pai! Senta ele, mãe! Senta, aqui. Calma pai!

Gil se sentou, e desabotoou a camisa toda suja de sangue. Estava sem ar.

-O que foi, pai? O que foi? – Bruno sacudia o pai, que apenas olhava para eles com os olhos arregalados. Gil parecia apavorado.
-Calma, Gil! Calma! – Sandra gritava, abraçada com o marido.
-Mãe, pega um copo de água com açúcar pra ele!
-Gil! Gil!
-Vai mãe! Vai logo porra!

Minutos depois, Gil estava se recuperando. Ele havia bebido o copo de água com açúcar. Ainda estava trêmulo.
-Foi o Junico, não foi? – Perguntou Sandra.
Gil negou com a cabeça.
Bruno colocou pedras de gelo em um pano de prato e encostou no olho do pai para atenuar o inchaço. Gil, entre gemidos, começou a contar o que havia acontecido.
Ele tinha sido bem tratado por Junico, que se solidarizou com a situação deles. Junico emprestou oitenta mil ao Gil, cobrando os mesmos juros do cheque especial. Gil pegou o bolo de dinheiro num envelope. Meteu dentro da camisa e saiu do supermercado. Ao cruzar dois quarteirões, Gil foi cercado por dois homens que desceram de uma moto. Ele foi surrado violentamente e o dinheiro, roubado. O bandido que estava no carona da moto ainda apontou um revolver para ele e atirou, mas errou o tiro, talvez de propósito ou não… Eles subiram na moto e fugiram.

Sandra abraçou no marido e chorou copiosamente. Se a situação estava ruim antes, agora havia passado do ponto desesperador.

-E agora? E agora? – Gil gemia.

-Calma, Gil. – Disse Sandra entre soluços, olhando fixamente o tapete.
-Oitenta mil! Oitenta mil! Filhos da puta! – Gritou Gil, socando a mesinha de centro. Os bibelôs caíram.
Sandra foi até a bolsa que estava na mesa da sala. Pegou uma cartela de calmantes e entregou os comprimidos ao Gil.
-Vem, vamos para o quarto, Gil. Gritos e socos não vão mudar nada agora. Temos que dar parte. Vamos tomar um banho, tirar essa roupa de rua. Vem.

Sandra fez sinal para bruno se afastar. Ele se levantou do sofá e voltou para o quarto. Talvez fosse melhor os pais ficarem sozinhos mesmo.

Bruno voltou para o quarto e viu a caveira. Teve a ideia de pedir um emprego para o pai. O romance poderia esperar…

Bruno olhou fundo nos olhos brilhantes da caveira de pedra e desejou do interior de seu coração que o pai conseguisse o desejado emprego.
Nisso o telefone tocou.

-Será que é o zé ruela de novo? – Bruno Pensou. – Alô?
Do outro lado da linha era uma moça. Ela queria falar com o pai dele.
-Ele… Ele não pode… Ele não pode falar agora. É só com ele?
-É sim. – Ela disse. Falou que tinha uma boa notícia para ele. E então pediu que Bruno anotasse o recado, que era para ligar para ela: Janice Stewart, da Montreal Headhunting.
-…Montreal Headhunting. Ok. Anotado. Ele tem o telefone, né? Ok… Obrigado. Adeus.

Bruno saltou da cama. Não, não podia ser tão rapido. A caveira estava mostrando sua eficiência.
Com a felicidade explodindo no peito, Bruno correu para o quarto dos pais. O pai estava no banho. A mãe recolhia as roupas sujas de sangue e lama para levar pra lavar.
-Pai! Pai, a Janice ligou!
-Quem?
-Janice, da Montreal Headhunting…
-Opa!
-Pai, eles devem ter aceitado você!
-Calma, Bruno. Calma, meu filho. Pode não ser nada disso… Pode ser só uma documentação que está faltando e…
-Pai, ela mandou você ligar pra ela urgente! E falou que tinha uma boa notícia.
-Ela disse boa notícia?
-Disse.
-Com essas palavras?
-Foi.

Seu Gil saiu pelado e molhado debaixo do chuveiro. Correu feito um atleta pelado pela casa.

-Gil! Gil, que isso, Gil? – Gritou Sandra ao ver o marido nu correndo pela casa.

Gil passou direto pela esposa e se jogou no sofá. Discou apressado alguns números.
Bruno e sua mãe ficaram perto da mesa, abraçados em suspense.

Minutos depois, Gil estava saltando feliz como nunca. Completamente molhado e nu no meio da sala.

– Eles aceitaram! Eles aceitaram! Estou contratado!!!! Começo semana que vem! Obrigado Senhor!

Bruno e Sandra se juntaram ao pai na comemoração. Todos choravam. Bruno sabia, no fundo, ele sabia que tinha sido o crânio.

CONTINUA

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