Ganzu

Primeiro dia

-Porra, para de mexer no rádio, cara! – Berrou Armando.
-É que eu não gosto dessas musicas de merda que você curte, Zé ruela! – Respondeu Greg. – Tem duas horas que só toca sertanejo!
-Nãããão! Porra! Tirou da estação. Olha aí! Puta que pariu. Vou te falar, meu…
-Porra Greg! Teu vacilão! Nós ficamos um porradão de tempo para conseguir sintonizar a radio nesta bosta de van alugada enquanto você dormia!
-Cala a boca, Nareba! Não te perguntei nada. – Respondeu Greg.
-Vai babaca! Agora acha aí outra estação que pegue neste fim de mundo. Esse rádio ta mais estuprado que…

Da direção, Armando olhou sobre o ombro: – Não fode, Nareba! Vai dizer que não tá bom? Ok, esse rádio toca fitas aí é uma merda mas pelo menos o ar condicionado ta funcionando. – Disse, sorrindo com o cigarro de maconha entre os dentes.

Ao fundo, no terceiro banco, alheias ao balanço socado da van pelas estradas de terra, as duas meninas estavam dormindo.
Sentado ao lado delas, Russo estava lendo um grosso livro.

-Meu, dá pra encostar a van só um pouco? – Perguntou Greg.
-Que foi? Quer cagar? – Riu Nareba no meio dos dois.
-Não, é que essa bosta de estrada é muito esburacada. Ta foda achar uma rádio.
-Não falei? Aí a merda!
-Tudo bem, vou aproveitar pra dar uma regada naquela bananeira ali. – Respondeu Armando, parando a Van na estrada esburacada.

Nareba também desceu, para esticar a coluna.
Greg ficou ali, curvado sobre o rádio da van, tentando em vão sintonizar uma rádio.Mas só pegava ruídos e chiados.
Então, uma voz rouca veio lá dos fundos da van: Não perca o tempo com o rádio. Essa é uma área de sombra. Estamos entre duas serras. – Disse Russo.

Bosta, caralho! – Gritou Greg, perdendo a paciência. Começou a chutar o painel. Em fúria ele quebrou o visor do radio, os botões e sintonia voaram.
As meninas acordaram com o barulho: – Ei!
-Que merda é essa, Greg?
-Rádio vagabundo do caralho! Agora também não vai tocar porra nenhuma mais! – Gritava ele, chutando o painel da van.
Nareba e Armando vieram correndo.

-Ei! Ei! Para com isso, Greg! Porra! – Gritou Nareba.
-Tá maluco? Ou! Para, meu! – Berrou Armando entrando na van ara tentar segurar o Greg. Mas Greg, além de violento, era forte demais.
-Essa porra de rádio filha da puta! – Berrava Greg com ódio, ainda socando o radio já todo destruído.
-A Van é alugada, caralho! Eu vou ter que pagar essa merda aí! Olha aí, porra. Olha aí o que você fez!
-Fodam-se!
-Para com essa babaquice, Greg! Que merda cara! – Gritou Aninha. – Você está sendo infantil!
-Vai se foder você também! – Greg saiu do carro, bateu a porta e andou uns vinte metros pela estrada de terra até a frente da van. Sentou numa pedra na beira da estrada e acendeu um cigarro.
Do carro, os outros cinco ficaram olhando em silêncio.

-Eu falei que não era pra chamar ele. Sabia que ia dar merda! – Disse o Russo, sem tirar os olhos do livro.
-O cara é meu amigo. Eu chamo quem eu quiser. – Disse Armando.
-É… Você que sabe. Você que tá bancando e tudo mais, mas olha aí o radio, cara! Esse teu amigo Greg é destemperado, meu! – Falou Nareba, apontando o radio destruído.
-Alguém tem que ir lá falar com ele. – Sugeriu Sarah.
-Eu voto no Vladão. – Armando sorriu de um jeito sacana.
Imediatamente o nerd russo pulou lá atrás: – Opa! Que isso? Tá louco? Esse cara me mata, véio! Só porque e falei que não era pra mexer no radio… Olha o estado do aparelho. Se eu for la encher o saco dele, ele me agarra pelo pescoço e me trucida. Ele é lutador de MMA, esqueceu? Campeão estadual, bicho!
-…E maluco. – Completou Nareba.
-Isso. – Respondeu o Russo.
-Ah, crianças… – Gemeu Aninha. Ela abriu a porta lateral da van e saiu andando pela estrada. Seus cabelos pintados de azul caneta brilhavam com reflexos irreais quando atingidos pela luz do sol escaldante. Ela levava nas mãos uma meia garrafa de uísque barato.
Greg estava parado, imóvel sentado na pedra, como uma impávida escultura de Rodin.
Aninha foi até ele. Ela parecia um anão perto de um gigante. Greg parecia um viking, mas com cabelo curto e barba grande. Seus braços eram grossos e peludos e ele era muito musculoso e forte. Aninha era o posto. Pequena, magra e bonita. O corpo naturalmente belo, cheio de tatuagens.
Aninha parou ao lado dele. Estendeu a mão pedindo o cigarro. Greg passou para ela sem dizer uma palavra. Do carro os amigos acompanhavam a cena.
Aninha passou o uísque para Greg, que bebeu no gargalo.
Aninha falou alguma coisa. Conversaram por uns dois minutos, mas estavam muito longe e da van era impossível ouvir, até porque naquele lugar perdido no meio do nada, só se ouviam os pássaros em algazarra do meio da tarde. Greg se levantou cabisbaixo. Veio andando. Aninha atrás.
Sem que Greg visse, aninha fez um sinal de joinha para a galera da Van.
Armando imediatamente virou a chave no contato e ligou o veículo.

Antes de Greg entrar na Van, Armando disse: – Gente, nem uma palavra, ok? Vamos segurar a moral. Ok nareba? Ok Sarinha?
Marcelo Nareba concordou em silêncio. Abraçou Sarah e ficou olhando pela janela.
-Armando, posso falar só uma coisa? – Perguntou Marcelo.
-Fala cara.
-Nareba é a puta que te pariu, ok?!
Armando caiu na garalhada, mas parou de rir a tempo do gigante adentrar a van.
Greg entrou no carro em silêncio. Todos se entreolharam, mas ninguém deu uma palavra. Aninha entrou, bateu a porta e a van partiu para mais quatro horas de estradas esburacadas.

O carro cortava estradas bem apertadas, e o mato crescia com exuberância dos dois lados da estrada. A pequena van percorria o caminho com sofrimento, soltando fumaça preta quando subia morros cheios de pedras e deslizando no chão enlameado nas grandes descidas pelo caminho.

-Falta muito, Armando? – Perguntou Aninha, rompendo o silêncio no veículo.
-Cara… Então, tem mais de dez anos que eu não venho aqui… Mas eu acho que já estamos chegando. Pelos meus cálculos, deve levar ainda uma meia hora…
-Porra cara, você falou que faltava meia hora há umas duas horas atrás. – Riu Nareba.
-Mas agora é sério. Ali a ponte ó!
-Meu… Calma aí! Freia! Freia! – Berrou Vladmir lá atrás.

Armando meteu o pé no freio tão forte que a van deu um soluço e morreu.

-Que foi, russo?
-Cara. Calmaí. Deixa eu sair aqui pra ver essa parada! – Disse Vladmir Obrushev.

Aninha abriu a porta lateral e Vlad desceu. Foi até a ponte. Era uma ponte de madeira, quase toda coberta pelo mato. Havia pedaços dela que tinham se prendido e caído no rio, que estava numa vala profunda de uns seis metros lá em baixo.

Todo mundo desceu da van. Chegaram perto da margem. Vlad estava olhando a estrutura da ponte, preocupado.

-Que foi, Russo? – Perguntou Sarah.
-Essa ponte. Acho que ela não vai aguentar a van, meu! Caíram varias partes. Ali!
-Hummm. Parece meio podre mesmo.
-Tem outro caminho?
-Não que eu saiba!
-O que você acha, Armando? – Perguntou Aninha.
-Meu… Não sei. Essa porra tá abandonada há pelo menos uns cinco anos. Eu avisei vocês. Ninguém veio enganado, hein? É adventure na casa mal assombrada! Ponte podre é parte do show.
-Porra, cara. Se a gente não atravessar vai ser foda. Estamos no meio do nada, o único jeito é atravessar ou voltar.
-Quê? Vinte horas de estrada de chão fodida? Nem pelo caralho! – Riu Sarah.

Eles ficaram ali, olhando a ponte. Então, um barulho veio da van. Greg tinha acordado. O lutador veio até eles.
-Que houve?
-Tá bem, Greg? – Perguntou Armando.
-Tô. Tirando a vontade de vomitar o uísque de merda da Aninha…
-É que o Russo acha que a ponte pode não aguentar a van, meu. – Disse Aninha, fingindo ignorar a provocação do Greg.
-Ah, é isso? Hummm. – Gemeu Greg.
-Ei! Onde você vai, porra? – Berrou Nareba, vendo Greg ir decidido em direção ao meio da ponte.
-Volta, Greg! – Gritou Sarah.

Greg ignorou o apelo dos amigos. Foi até o meio da ponte, que era toda de madeira. Greg deu uns pulos. Viu pedaços de lascas caindo, rodopiando no ar até cair no riozinho abaixo.

-Parece forte pra mim. – Disse Greg.
Nareba olhou para Armando. – Eu acho que a van passa. Mas não vai ser muito fácil. Acho que tem que passar meio rápido.
-Talvez se a gente tirar as coisas da van, e deixarmos o carro passar só com o motorista… Aí atravessamos com as coisas e recolocamos no carro lá do outro lado. – Disse o Russo.
-É, o Vladão tá certo. Isso deve baixar bem o peso do carro. Essas vans não são muito pesadas. Sem ninguém no carro, a ponte deve aguentar melhor. – Concordou Armando.

Então o som de uma madeira se partindo ecoou no ar.
-Greeg! – Gritou aninha.
Todos se viraram. Greg estava pendurado. A madeira podre da ponte havia se partido e agora ele estava agarrado ao assoalho podre da ponte, que estalava.

-Caralho! Socorro! Me fodi aqui! – Berrou Greg, sem agitar muito os pés no ar, por medo da ponte cair.

Vamos, ajudem! – Gritou Armando, correndo até a van. Ele pegou uma corda no porta-malas.
As meninas correram até a ponte, mas Nareba fez sinal para que elas parassem. – Ei! Ei! Calmaí! A ponte tá podre.

Armando e o Russo vieram correndo com a corda. Greg estava tentando se erguer. Agarrava-se agora a uma das grandes vigas de madeira da precária ponte.
Armando jogou a corda e ela caiu ao lado de Greg. Enquanto isso, Nareba e Russo amarravam a outra extremidade da corda ao tronco duma grossa arvore nas margens do rio.
-Tá preso aí? Perguntou Armando.
Os meninos fizeram sinal positivo com o polegar.
-Vai, Greg! – Acenou Armando.

Greg agarrou-se na corda. Com algum esforço, conseguiu se erguer e voltou para a ponte. Rastejou por ela até a beirada.
-Porra Greg. Você é foda mesmo!- Disse Sarah.
-É… Eu dei mole. – Respondeu Greg, arfante e sem graça diante da moça de cabelos louros, que era quase uma sósia da Catherine Deneuve.

Minutos depois, eles estavam tirando todas as malas do carro.
Greg conversava com Armando sobre a travessia.

-Quando eu estava pendurado, pude dar uma olhada na estrutura debaixo da ponte. Você tem que mirar ali, na viga central. Alinha com aquele matinho lá no final. Acho que só ali vai aguentar o peso do carro. O resto são tábuas e está tudo podre. O cupim comeu a ponte toda.

Nareba que era um sujeito magro, quase esquálido, levava as mochilas e malas das meninas pela ponte. Enquanto atravessava, ele ia reclamando: – Porra que peso! Não sei porque mulher gosta de viajar com tanta mala.

Meia hora depois, todas as bolsas estavam do outro lado. As meninas atravessaram a ponte, seguindo o caminho indicado por Greg. Pedaços podres da ponte iam se soltando e caindo no rio, à medida em que eles atravessavam.

Agora estavam todos do outro lado. Somente a van vazia e Armando ainda estavam na outra margem.

Greg e Russo sinalizavam para que Armando conseguisse manter os pneus da van alinhados com o tronco que ainda sustentava a velha ponte.

Enquanto a van passava, a ponte estalava. Aninha e Sarah estavam de mãos dadas. Todos os amigos tinham os olhos fixos na ponte e prendiam a respiração a cada pedaço que se desprendia e caía.
Quando a van finalmente chegou ao outro lado. O alívio do grupo foi total. Se abraçaram, cantaram e comemoraram. Enquanto Armando e Greg colocavam tudo de volta dentro da van, Nareba pegou umas cervejas no isopor.

Vamos nessa meu povo! A casa fica a uns dez minutos daqui!

A van acelerou e sumiu em meio a densa vegetação que recobria a trilha que levava para a fazenda.

Quando eles finalmente chegaram na porteira, o casarão podia ser visto no meio de um grande pasto, onde em boa parte dele, o mato havia crescido. Ao redor da casa da fazenda, o mato era mais curto e parecia bem cuidado.
-Quem corta aquela grama? – Perguntou Nareba.
Armando disse que o tio dele, quando era vivo, pagava um sujeito que era o caseiro, chamado Seu Zezé.
-Pelo que eu sei, Seu Zezé ainda deve estar morando em alguma das casas anexas à propriedade, porque daqui até a cidade de médio porte mais próxima, são dois dias de carro com tempo bom. Não compensa.

Armando contou que a Fazenda Cavaral era propriedade da família dele havia muitos anos. Ela havia ficado de herança para um tio, mas este quando morreu, sem filhos, deixou a casa em testamento para ele.

A van se aproximava da casa, que parecia crescer diante deles. Era toda branca e parecia bem cuidada, apesar do tempo de abandono. Sarah e Aninha ficaram em pé no banco da van para olhar a casa pelo teto solar do veículo.

-É linda. – Disse Aninha.
-Parece meio… Mal assombrada mesmo. – Respondeu Sarah.
Todos riram.
-Isso são coisas que os velhos contam. Não é verdade. – Respondeu Armando. -Tinha que ver no tempo em que eu era criança, quando o tio Abdias criava gado por aqui. – Respondeu Armando, estacionando a Van diante do casarão. – Mas aí foi morrendo um a um. A fazenda ficou abandonada à sua própria sorte.
-E você planeja mesmo fazer um hotel aqui cara? Não é muito longe? – Perguntou Nareba, pegando sua mochila no porta-malas da van.
Armando concordou.

-Que é longe, é. Mas o público alvo que pretendo focar tem helicóptero. Sabe como é. Não são uns merdas feito vocês. – Disse, sorrindo, enquanto colocava os óculos escuros.
-Tinha que ser! Anota mais essa aí no livro “Pérolas inesquecíveis de Armando Giraud III”, Vadão! – Riu Aninha.

O Russo sorriu. Todos estavam nas escadas que davam acesso a uma grande varanda na frente da casa. A casa tinha dois andares, e era feita de madeira e alvenaria.
-Dá pra fazer um puta parque aquático ecológico, meu. Amanhã levo vocês nas cachoeiras da serra. Vocês vão ficar bolados com o que vão ver. É muito potencial! -Disse Armando, empolgado.
-Alguém trouxe repente de pernilongo? – Perguntou o russo.
-Aqui está. – Sarah estendeu o vidro de loção para o gordinho.

Enquanto Armando abria o grosso cadeado que fechava a porta da fazenda, Nareba, Greg e Russo tiravam as coisas da van.

A casa estava com cheiro de poeira, mofo e bem suja.
Assim que a porta se abriu, Aninha começou a tossir.
-Vamos ter que fazer uma boa limpeza! – Disse Armando.
Após apresentar a casa aos amigos, Amando mostrou quais seriam os quartos de cada um. A casa, apesar de grande, tinha somente três quartos. Todos eles eram no andar de cima. Na parte baixa ficavam a sala, a cozinha e um banheiro. Minutos depois do reconhecimento inicial, todos se reuniram diante da porta da casa da fazenda. Armando começou a dividir as tarefas.

Sarinha, você e Aninha vão varrer o segundo andar. Eu e o Greg vamos varrer e passar um pano na cozinha. Russo e o Nareba vão ajudar, e depois vão fazer a fogueira ali na frente da casa.
-Deixa que o churrascão é comigo! – Disse Nareba.
-Demorou!!! Temos que ir rápido, porque está anoitecendo. Vamos dar um gás na faxina para depois começarmos o churrasco! Mãos à obra!

Horas depois, Nareba e Russo estavam juntando galhos e troncos secos para montar a fogueira. Estava escuro e os dois usavam uma lanterna para localizar os galhos nas imediações da casa da fazenda.

-Mas cara… Cê acha que dá dinheiro? – Perguntou o russo.
-Meu, não sei. Mas que outra chance eu tenho? A firma faliu, mandou geral embora. Eu rodei. Pelo menos peguei meu seguro desemprego. O lance da loja de camisetas pode ser que dê certo. O investimento é baixo, e tu sabe que eu curto desenhar.
-É, to ligado. – Disse Russo, pegando um grande galho de árvore do chão. – Acho que pode dar certo se você focar mais nos lances de super heróis como eu te falei. Tem que dar uma diversificada. Só camiseta pode demorar pra retornar o investimento… Talvez uns bonecos.
-Vamos torcer. E você? Quais seus planos cara?
-Meu… É como eu tava te falando na van ontem quando furou o pneu. Meu plano é meter a cara estudar Geologia numa universidade legal e depois voltar pro Brasil para tentar carreira numa grande companhia de petróleo.
Tipo Petrobrás?
-Tipo isso, Nareba, mas tem muitas. Muitas companhias gringas, tá ligado? Tem umas empresas russas vido pra cá, e eu acho que ser filho de russos pode ser um diferencial, né?
-Certeza, meu.
-Por isso que eu penso em terminar lá o curso do inglês, para ir direto pro exterior, fazer um intercâmbio. Já tenho estudado bastante sobre o básico da geologia e coisa e tal.
-Tu é muito nerd, Vladão.
-Mas e a Sarah, cara? Tu falou com ela que foi demitido da firma? O que ela disse?
-Meu… Sei lá. Não falei. Não deu chance ainda. Sei que ela vai ficar meio bolada. A Sarah quer que eu estude, que faça faculdade igual ela, tá ligado? Mas sei lá. Acho que não é minha praia.
-Mas e o namoro?
-Cara o namoro tá de boa, mas sabe como é. Tem dado uns rolos aí. Ela é meio ciumenta…
-Tô ligado. O que é meio surreal, já que ela é a maior gata, né? -Disse Vladmir Obrushev.
-Cara, acho que tá bom de lenha, hein? Bora lá fazer o “churras”?
-Só se for agora! -Respondeu o russo.

Duas horas depois, os seis amigos estavam sentados ao redor da enorme fogueira, onde Nareba e Russo estavam assando grandes pedaços de carne.
As meninas tinham feito acompanhamentos e todo mundo estava comendo com pratinhos nas mãos, menos Armando, porque pra ele “churrasco com pratinho não é churrasco”.

-Ao típico churrasco gaúcho, mermão! – Comemorou Armando, erguendo um brinde com uma garrafinha de vodka de limão.

-Saúde!
-Uhuuu!

-Eu proponho um brinde à pior faxina já feita no universo! – Riu Aninha.
-Ei, calmaí, eu e o Greg demos um capricho na cozinha! Né Greg?
-Certeza, irmão!

-Ah, foda-se! Um brinde ás faxinas mal feitas e ás fazendas mal assobradas!
-Saúde! -Todos brindaram.

-Ei, Nareba, não vai sair linguiça não, cara? Tô morrendo de fome, porra! – Disse Greg.
-Que fique registrado nos autos que Greg deseja desesperadamente a minha linguiça! – Riu Nareba. As meninas caíram na gargalhada. Mas o lutador não pareceu levar na esportiva.
-Qual é, babaca? Faz logo essa porra de churrasco aí e cala sua boca grande.
-Ou, ou, ou! Calmaí Greg! Estamos comemorando, cara! – Interviu Armando, empurrando Greg para trás.
-Esse cara é folgado! – Respondeu o lutador, sentando novamente na cadeira de praia junto ao fogo.

Houve um momento de silêncio, onde ninguém parecia saber o que dizer. Definitivamente, Greg e Nareba não se davam bem.
– Aninha pega o violão lá! – Sugeriu Armando, apontando a van com a garrafinha.
-Tem certeza? -Perguntou a garota de cabelos azuis, colocando o pratinho de arroz com vinagrete de lado.
-Desde que você toque Raul… -Disse Nareba, açoitando a carne diante do fogo crepitante da fogueira.
A moça levantou-se e foi até a van buscar o violão.

O calor do crepitar do fogo dava lugar ao frio da noite a poucos passos para longe da fogueira.

Sarah se virou para o Russo e perguntou: Ei, Vladão, como vocês gelaram as bebidas tão rápido?
-Ah, é porque usei gelo, álcool de sal. Misturando tudo isso num isopor, dá pra gelar qualquer coisa rapidinho.
-Sério? – Perguntou a bailarina.
-Verdade. É tudo uma questão de Física, disse Vladmir. O sal e o álcool aceleram o processo de gelar a bebida.
-Mas tipo… Tu sabe o que acontece com o gelo? – Perguntou a moça. Todos os olhares convergiram para o nerd russo, que pigarreou e começou a explicar:
-O sal no gelo faz com que ele derreta, porque a temperatura de fusão, que é a passagem da água do estado sólido para o líquido diminui. A temperatura de fusão da água é de 0°C, mas, quando se joga sal no gelo, a fusão ocorre a uma temperatura inferior a essa.Isso nem é novidade. A descoberta foi feita por Farenheit…

-Quem? – Perguntou Armando, enrolando um baseado.

-Um cientista. Ele concluiu que a temperatura necessária para congelar uma mistura de água, gelo e sal era de -32°C.

O líquido resultante da mistura de gelo e sal está a uma temperatura abaixo de 0°C. Tudo isso faz com que a energia térmica da bebida seja “removida” com maior velocidade, tornando esse gpor´[o aí mais gelado, e em menos tempo! – Disse Vladmir Obrushev

-Porra cara… Como você sabe essas merdas? – Perguntou Greg.
-Eu leio muito. -Respondeu o nerd russo, sem esconder algum orgulho.
-Se meus professores falassem que eu aprenderia a gelar cerveja rápido, eu teria me aplicado mais no colégio. – Riu Armando.
-Falando nisso, oga uma latinha aí pra mim. O fogo ta quente pra caralho! – Disse Nareba do outro lado da fogueira.

Armando abriu o isopor e jogou uma lata para Marcelo. A lata girou no ar sobre o fogo e caiu nas mãos do rapaz.

-Belo lançamento! – Riu Sarah.
-Lançamento? Isso não é nada, Sarinha. Olha aqui um bom lançamento, ó! – Disse Greg, pegando uma latinha e isolando longe. A latinha girou no ar até sumir de vista na escuridão.
-Porra…
Nisso chegou Aninha com o violão e um bolo de folhas encadernadas com cifras.
-Só não me peçam para tocar Legião, que é muito batido, hein?!

Sarah passou o baseado para Aninha que deu uma profunda tragada. Então olhou para as estrelas, prendendo a respiração.
Todos olharam para cima. O céu estava coalhado de estrelas.
-Porra… É muito lindo né? – Perguntou Nareba, sentando-se no chão, numa canga ao lado da cadeira de Sarah. Os dois entrelaçaram os dedos.
Aninha olhou para a mão deles e soltou a fumaça para o ar.

-Este céu que estamos vendo hoje é de sei lá… 2004. É que graças à velocidade da luz…- Dizia o nerd russo, com a boca cheia de carne mal passada.
-Não importa de quando é. Sei que é lindo! -Interrompeu Marcelo Nareba.
-Obrigada por nos trazer aqui, Armandinho. – Disse Sarah.
-Cheers! -Respondeu Armandinho, erguendo a latinha de cerveja.
-E aí? Vamos ouvir a Aninha ou não, porra? – Perguntou Nareba. -Toca aí minha filha!
-Tá. Escolham a musica aí. Enquanto vocês decidem eu vou ali pegar um pedaço da picanha, antes que o Greg coma tudo, né Greg?
-É que eu tô em fase de crescimento! – Disse o enorme lutador, com a boca cheia.
-Ei, que tal esta aqui? Bandolins do Oswaldo Montenegro. Amo esta musica! Toca essa, Aninha?- Perguntou Sarah apontando uma musica do caderno.
-Tá de sacanagem, né? Sou mais essa aqui do Raul, ó: How could I know. -Disse Nareba.
-Você não sabe de nada, seu… Seu prego.
-Tô ligado. E você sabe muito, né? Mó mela cueca essa musica aí!
-Calma crianças! Posso tocar as duas! – Gritou Aninha do outro lado da fogueira. A propósito, achei boa a escolha da Sarinha.
-Porra não entendo esse namoro de vocês. Vocês dois brigam por qualquer merda! -Gemeu Armando, atiçando as brasas do fogo.
-Ei, onde você vai, russo? – Perguntou Nareba vendo o amigo se levantar da cadeira de praia e se dirigir para o casarão.
-Vocês são meio idiotas! Não tenho saco. -Disse ele.

Todos da fogueira se entreolharam.
-O que deu nele?
-Acho que ele não tá acostumado a beber, meu. -Disse Sarah.
-É que a gente interrompeu ele. -Respondeu Armando. – E ele ficou puto.
-Porra ele também com essa mania de querer ficar dando aula é um saco, né?
-Cara, é o jeito do Russo. -Disse Armando.
-Sei lá. Esse cara é estranho.Dá pra ver que ele se acha muito melhor que todos nós. -Completou Aninha, pegando mais uma latinha de cerveja do isopor.
-Como se fosse. É só um nerdzinho de merda… – Disse Greg, sorrindo para a lata em suas enormes mãos.
-Pelo menos ele é inteligente. Onda que você não pode tirar, né Greg?- Disse Nareba.
-Cala a boca aí, ô nariz gigante! Ninguém falou com você, prego!
-Meu nariz é grande, mas pelo menos eu não tenho essas orelhas de couve-flor!
-O que? Repete! Repete se você é homem, sua bicha!

-Eeeei! – Meninos! Ajuda aqui Armando! – Gritou Aninha, tentando conter o gigante enfurecido, que partia para cima de Marcelo Nareba.
Sarah se empenhava em segurar Marcelo.
-Calma, Marcelo! Calma cara!
-Vem Brutamontes. Seu saco de merda! Só porque leva umas porradas na academia vai querer se achar?
-Eu vou te mostrar quem é saco de merda! – Disse Greg, empurrando Aninha no chão. A menina caiu estatelada na grama.

O clima estava ficando pesado, mas um estrondo fez com que todos parassem e olhassem para o céu. As estrelas haviam sumido. Acima deles somente uma tenebrosa escuridão, onde ao longe, perto do horizonte, clarões azulados já iluminavam os céus.

-Vem uma tempestade! – Disse Armando, apontando para o céu. – Tava mesmo fazendo muito calor.
-Essa festa já deu o que tinha que dar. Eu vou entrar. – Disse Sarah
-É! Vamos logo. Já tá começando a pingar! – Gritou Aninha, correndo para colocar o violão de volta em sua capa de couro.

Minutos depois, todos corriam entre a casa e a fogueira do jardim. A chuva caía violentamente, estourando sobre as chamas ardentes da fogueira, que teimava em queimar. Eles estavam buscando as últimas cadeiras de praia. Nareba e Armando voltaram lá, tiraram o gelo espalhando-o pelo jardim. Depois correram com a enorme caixa de isopor cheia de bebidas de volta para a casa.

Sarah jogou uma toalha para Marelo Nareba. -Você tá defumado. Vai tomar um banho Marcelo!

-Se quiser tomar um banho quente, sugiro que não demore, Nareba. A luz da casa já piscou duas vezes. Tô achando que pode faltar luz. – Disse Armando.
-Ok, mas nareba é a puta que te pariu!

Marcelo correu para o andar de cima. O banheiro ainda estava meio sujo. Ele fez xixi e olhou o chão de pequenas pastilhas. Era um piso bem antiquado que revelava a idade daquele casarão erguido no meio da fazenda, agora rodeada de matas.
Assim que Marcelo abriu o chuveiro, saiu uma lacraia preta enorme de dentro do ralo. Ele imediatamente esmagou o animal com o sapato. – Bicho nojento dos infernos!

Marcelo conseguiu tomar um banho rápido. Mantinha os olhos bem abertos e estava pronto para pular feito louco caso outra lacraia viesse pelo ralo. Mas não veio.
Saiu do banheiro da suíte enrolado na toalha e deu de cara com Sarah vestida numa camisola transparente, lendo uma revista na cama.

-Nossa.
-Que foi, Marcelo? Nunca viu não?
-Essa camisola aí, não!
-Quer que eu tire então? – Perguntou a moça, com um sorriso sacana.
Marcelo caminhou em silêncio até a porta do quarto. Puxou o trinco e apagou a luz. Em seguida ele se deitou ao lado da namorada, no escuro.
-Esse som da chuvinha lá fora me excita. – Ela sussurrou no ouvido dele.
-Chuvinha? Parece até o Dilúvio do Noé!
-Cala a boca e me beija!

Se abraçaram e fizeram amor.

Marcelo estava dormindo nu, de barriga para cima quando acordou com um estrondo. Sarah deu um pulo na cama do lado dele.
-Que foi isso, Marcelo?
-Eu… Eu não sei. Bota a roupa. Rápido.

Marcelo correu até a janela. Não dava para ver nada. A chuva tinha piorado. Chovia abundantemente.
Marcelo tinha acabado de enfiar a bermuda e a camiseta quando bateram na porta do quarto deles. Era o Russo.

-Marcelo! Sarah! Abre!

Marcelo foi até a porta. Apertou o interruptor. Não tinha luz. Tateando, achou o trinco e abriu.
Diante dele estava o Russo, fantasmagoricamente iluminado pela chama de uma vela.

-Caras vocês ouviram essa explosão?
-Sim, o que foi isso?
-Não sei. Acho que caiu um raio aqui perto. Tá chovendo muito, cara. Posso dormir aqui com vocês? Tem goteira no meu quarto.
-Claro véio. Se joga aí onde quiser.
-Tem horas aí, Vladão?
-Três e meia.

Nisso, chegou o Armando no quarto.
-Vocês também ouviram?
-Claro cara. O Russo disse que foi raio. – Falou Sarah
-Não… Não foi. Raio não faz esse barulho, meu.
-O que você acha que foi, Armando?
-Acho que… Sei lá. Pode ter caído um meteoro. -Disse Armando.
-Cara no meio da tempestade?
-As chances de ser um raio são infinitamente maiores! -Disse o russo.
-Eu conheço som de raio. Faz tipo um “traaac”. Esse foi um “Cabuuuuum”, tá ligado? Acho que não foi raio!

-Ei! Venham ver! Venham ver! – Era Aninha saltando na porta com uma vela na mão.
-O que foi?
-Dá pra ver alguma coisa pegando fogo! Tá pegando fogo! – Ela disse, correndo para o ultimo quarto do corredor.
De fato, dava para ver por entre as árvores cerca de duzentos metros da casa um grande clarão de fogo.
-A explosão foi foda! – Falou Greg.
-Eu cheguei a cair da cama! – Disse a moça do cabelo azul. Então, se virando para Armando ela perguntou: – O que é que tem lá?
-Eu acho que era uma das casas da fazenda. Acho que era a casa do caseiro!
-Temos que ir lá! Senão o fogo vai destruir tudo! -Disse Sarah.
-Porra tá a maior chuva. É perigoso! – Afirmou Greg.
-Eu vou com você, Sarah. – Disse Nareba.
-Não. As meninas ficam. Vamos só nós! – Falou Armando.
-Como assim? Que merda é essa? – Aninha estava brava. -Vai vir de machismo babaca agora, Armando?
-Não, não. Preciso que alguém fique na casa. Se formos todos, podemos precisar de alguma coisa aqui.
-Mas a chuva vai apagar o incêndio! -Disse Greg.
-O problema não é o incêndio. Eu não sei se tinha alguém morando lá! O Caseiro devia estar lá.

-Vamos, vamos! – Disse Nareba, descendo as antigas escadas de madeira.
Russo voltou ao quarto para apanhar sua potente lanterna.

Os quatro rapazes saíram, deixando na casa escura as duas moças.
-Vou lá em baixo, preparar um café para quando eles voltarem. -Disse Aninha, ainda inconformada de ser deixada para trás.
-Vou com você. Essa casa assim vazia me dá calafrios!

Lá fora, os jovens atravessaram um grande matagal com o que restava do pomar, invadido pelo capoeirão. A chuva caía sobre eles, inclemente.

Chegaram até a casa. Estava pegando fogo. Já havia sido quase completamente destruída. Apesar da chuva, o fogo estava consumindo a casa rapidamente, pois ela era de madeira.
-O chão virou mingau cara! – Disse o Russo, apontando a lanterna para o chão. Eles estavam afundando na lama até as canelas.

Os rapazes ficaram olhando as chamas consumindo o que restava da casa. Deram a volta nela, sem poder se aproximar, pois o calor era altíssimo. Havia muita fumaça.
-Caras, nem bombeiros podem apagar essa merda! – Gritou Greg tentando se fazer ouvir diante da sinfonia de barulhos e estalos cortados pelos trovões da tempestade.

Armando concordou. -Seja lá o que tenha acontecido, a casa foi pro saco! Espero que o Seu Zezé não estivesse nela.

-Ei! Ei! Vejam. Ali! O que é aquilo? – Apontou Nareba.

Os rapazes precisaram forçar a vista para reconhecer. Havia um pedaço de braço pegando fogo perto da frente da casa.

-Puta que pariu!
-Caralho!

Os rapazes ficaram olhando. Sem duvida era um braço humano, que agora queimava no meio da enorme caldeira de fogo que a casa de madeira havia se convertido.

-O que a gente faz? -Perguntou Nareba
-Não tem o que fazer. – Respondeu o Russo. -Essa deve ser a única parte dele que sobrou da explosão.
-Vamos voltar. -Disse Armando, cabisbaixo.

Eles voltaram numa fila, seguindo o russo, que iluminava o caminho com sua potente lanterna made in China.

Chegaram na casa ensopados. As meninas estavam com café quente e toalhas secas.
Os rapazes se secaram como puderam.
Todos sentaram ao redor da mesa de centro na sala.

-E aí? Apagaram o fogo? – Perguntou Aninha.
Nenhum deles estava com coragem para contar os detalhes mais mórbidos.

-Não tem o que fazer. A casa esta completamente em chamas. Nem os bombeiros conseguiriam apagar. – Disse Russo.
-Mas tinha alguém lá? Morava alguém? -Perguntou Sarah. -Que? Que foi? – Ela achou estranho os olhares.
Nenhum deles respondeu. Todos olharam para baixo. Greg encheu a boca de biscoitos. Nareba segurou firme na mão de Sarah.

-Foi tão ruim assim? -Indagou Aninha.
Somente Armando respondeu, movendo a cabeça afirmativamente.

Ao longe caiu um raio.

-Porra a chuva não tá dando trégua. Disse Sarah pegando mais um biscoito no pote sobre a mesa de centro.
– Foi muito calor ontem. – Disse o Russo.
-Amanhã vamos ter que ver essa luz. Deve ter queimado algum fusível. – Falou Armando. E completou em seguida: -A merda é que quem sabia onde estavam essas coisas era o caseiro.
-Será que ele estava mexendo com explosivos? – Perguntou Nareba.
-Talvez ele estivesse mexendo com toneis de combustível para ativar o gerador… – Disse o russo.
Ninguém quis acrescentar nada. Greg deu de ombros.

-Bom… Acho que não temos o que fazer. Eu vou capotar.
-É! O Greg tá certo. Vamos todos dormir. Amanhá teremos um dia cheio.

Armando trancou a casa. Após lavarem os pés de lama, todos se recolhem.

—-

Dia dois

O dia começava a amanhecer. Ainda chovia, mas fraco.
Nareba estava na cama. A imagem do braço decepado em chamas não lhe saía da cabeça. Ele não havia pregado os olhos.
Ao seu lado, Sarah dormia, emborcada com a cabeça no travesseiro.
Roncando no colchão no chão, estava o Russo.
Marcelo Nareba olhou as horas no pulso do amigo. Cinco e quarenta da manhã.

Marcelo se levantou, mudou de roupa, escovou os dentes, colocou os tênis nos pés. E desceu. A escada de madeira rangia a cada passo.
Chegou ao primeiro andar e destrancou a porta. Ainda estava choviscando sem parar.
Marcelo sentiu o ar puro. A fogueira do churrasco de comemoração era só uma massaroca de cinzas em frente à casa.
A chuva fazia com que os passarinhos não cantassem. A luz que se filtrava nas densas nuvens do céu era azulada. Fazia frio.

Ele desceu as escadas e caminhou na direção do pomar. Atravessou o caminho que fizera com os amigos poucas horas antes.

Chegou a tempo de ver as últimas tábuas queimando. O fogo ainda ardia forte. O Braço do seu Zezé ainda estava lá. Já não queimava mais e era agora somente um amontoado de ossos carbonizados e retorcidos. Muitos destroços ainda fumegavam apesar da chuva fraca que não cessava.
Na luz do dia, Marcelo notou que havia pedaços de coisas quebradas espalhadas por todas as direções. Partes de madeira da casa que não queimaram.

Marcelo estava em silêncio contemplativo. Era uma magnífica destruição.
-Talvez ele estivesse mesmo mexendo com combustível. – Pensou.

Ele andou pelos arredores da casa. Então, chutou alguma coisa brilhante. Abaixou-se para ver. Limpando a lama, percebeu que era um porta-retratos. Uma foto de família. Um homem careca que provavelmente era o Seu Zezé, a mulher e dois filhos. Crianças pequenas. Um parecia ter três e o outro cinco anos de idade.

Uma súbita ideia passou pela mente de Marcelo. O pobre homem podia não estar sozinho na casa no momento da explosão.
Ele subiu na pilha de madeiras queimadas e partidas. Estava disposto a investigar se os filhos do caseiro estavam mortos. Seria ainda mais trágico.

Não demorou, até que, ao remover uma grossa tábua ainda quente, Marcelo deu de cara com o cadáver de uma das crianças. Carbonizada.
Horrorizado, ele caminhou para trás, tampando a boca. Seu desejo era de vomitar.
Pisou em falso e caiu de bunda. Uma plataforma de madeira que estava atrás dele se partiu e Marcelo desabou de cabeça num buraco fundo cheio de lama. Bateu com a cabeça em alguma coisa. Estava tonto e sentiu o gosto de terra na boca. Custou a conseguir se apoiar para se levantar. Estava completamente encharcado, numa vala cheia de água da chuva, sob os destroços da casa.

Marcelo tentou sair, mas foi em vão. As paredes de barro estavam muito moles. Quanto mais ele se movia, mais afundava na poça de lama que já batia em seu peito. Sentiu o sangue escorrendo da testa. Ficou preocupado.
-Puta… Puta que pariiiu! Socorro! – Resolveu gritar por ajuda, mas longe de lá, na casa grande, todos os seus amigos estavam dormindo.
-Socorro! Socorro!!!

Marcelo percebeu que tinha sido uma ideia idiota ir até os destroços da casa sem comunicar a ninguém.

-Eu sou um idiota mesmo. – Pensou.

Ele precisava fazer alguma coisa. Começou a cavar com as mãos uma série de buracos no paredão de lama mole. A testa ardia. A lama do buraco tinha consistência de chocolate derretido, mas à medida em que escavava, ia ficando mais dura e mais firme. Seu plano agora era cavar buracos onde pudesse encaixar os pés, e assim escalar a borda do buraco até conseguir sair. Seu grande medo é que a chuva poderia se tornar forte novamente, e o buraco se encher de água ao ponto de afogá-lo.

Continuou a cavar. Incansavelmente. A chuva lá fora parecia que estava aumentando novamente.
Marcelo continuava cavando sem parar até que suas mãos bateram em alguma coisa.
Estava enterrada no meio da lama. Era fria. Parecia uma pedra.
Marcelo estranhou quando tocou na coisa. Agarrando um toco de madeira que estava boiando ao seu redor, Marcelo começou a escavar grandes pedaços de terra, afim de expor aquela coisa.
Após cerca de dez minutos cavando a terra e a lama, ele desenterrou a coisa.

CONTINUA

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12 comentários em “Ganzu”

  1. Eu entro diariamente no “Mundo Gump” pois adoro as reportagens e curiosidades. Mas confesso que o que me deixa realmente ansioso são os contos!

    Seu talento para escrever é impressionante! Acompanho sempre e quando vejo que está abrindo um novo conto eu sei que ficarei obcecado por mais postagens.

    Valeu e por favor, continue o quanto antes!

  2. Eu tinha um amigo, o Sylvio, que a galera também chamava de Nariz, Nareba, Ladrão de Oxigênio, ehehehehehe…

    Ele cagava e andava. Era um sacana da porra.

  3. Conto novo! Oooobaaaa!

    Mas Philipe, vou dar uma idéia aqui. Não coloca o Leonard nesse conto não. O coroa é massa e tal, mas além do conto original, por assim dizer, que falava sobre ele, houve outros 2 onde ele marcou presença. Já tá ficando meio previsível, sabe? Toda vez que dá merda o Leonard aparece pra resolver. Não me leve a mal, ok? Sou fã do MG. Falow Philipe!

  4. Cara, eu viajo nesses contos, eu entro na história, me sinto exatamente no ambiente. Sinto até a temperatura do ambiente onde se passa a história, porra Philipe seus contos são foda…

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