Ganzu – O terceiro dia

-Uuung – Greg gemeu caído sobre a mesa.
-Greeg! – Gritou Aninha, segurando o amigo.
-Ah! Ainda bem que ele tá vivo. Porra! – Disse o russo.
-Vem, gente! Ajuda aqui. Vamos levar ele lá pro sofá! – Disse Armando.
Aninha, Armando e Sarah levaram Greg e o colocaram no sofá, de barriga para cima. Ele parecia desacordado.
-Ele tá desmaiado. – Disse Sarah
-Também, tá bebendo igual um gambá a tarde toda! – Riu Aninha.
-Russo, traz um pano lá pra limpar a cara do Greg. Ele caiu no prato de molho de salsicha. – Disse Armando.
Vladmir voltou com o pano molhado.
-Quando ele acordar ele vai me meter a porrada.
-Que nada cara. Ele tá de pileque. Quando esse cara acordar não vai lembrar de nada. Vamos deixar ele aí no sofá.
-Eu é que não vou levar esse bebezão lá pra cima!
-Ninguém aguenta, querida. – Disse Sarah.

Sarah deu boa noite a todos e disse que ia subir. Ela subiu sem olhar na cara de Marcelo.
-Sarah? Sarah?

Vladmir se aproximou. – Cara, ela tá meio puta contigo.
-Pode crer.
-Tu bebeu muito véio.
-Porra, mas quer o que? Numa casa no meio do nada, cheia de birita… Só faz chover.
-Ah… Cara vou dormir, mas tô sem graça. Ela ta la no quarto, meu. tu vai fazer as pazes com ela, eu vou ficar segurando vela.
-Dorme no meu quarto, russo. – Disse Aninha.
-Sério? Posso?
-A cama do Greg tá vaga. – Disse a roqueira.
-Então fechou.
Todos se despediram de Armando, que ficou na sala limpando a sujeira de taças quebradas de pratos partidos.

Marcelo entrou no quarto. Sarah estava deitada de costas para a porta.

-Tudo bem? – Ele perguntou.
-… – Ela não respondeu.
-Desculpa, Sá.
-Sá é a puta que te pariu. – Ela disse. Estava chorando.
-O cara é um babaca, porra.
-Você acha que não foi um babaca também? Ele quase morreu por tua causa!
-Vai ficar toda doída pelo cara agora? Ele me dá um soco na cara e você vai ficar com peninha dele.
-Não seja cretino.
-Tá afim do marombado? Então fala logo, porra!
-Vai à merda!
-Já vim! – Disse Marcelo.
-Você tá sendo muito otário. – Ela gritou.
-Não é com ele que você quer ficar? Pode ir lá. Vai lá na sala. Pode se servir, sua piranha!
-Idiota! – Gritou Sarah, mas Marcelo não ficou para ouvir. Saiu batendo a porta do quarto.

Desceu as escadas e encontrou Armando na sala, sentado à mesa, lendo um livro com a luz da vela.

-Brigaram, né?
-Tem mais vinho nessa porra?
-Tem, tá lá no quartinho. Mas tu não acha que tá de bom tamanho a merda que deu por causa do vinho não?
-A culpa não é do vinho.
-A culpa é de quem então?
-A culpa é do capeta, que “botô pra nóis bebê”! – Disse Marcelo, pegando a garrafa do vinho.
-Hahahahaha… Então traz meu copo!

Três garrafas depois, Greg, Armando e Nareba dormiram na sala.

TERCEIRO DIA

Alguém deu um soco na mesa.
Marcelo acordou com gosto de cabo de guarda chuva na boca.
-Unnng… Ressaca de vinho é foda. Ai, minha cabeça tá explodindo! Marcelo ainda tinha a boca inchada pelo tapa.

-Que isso velho? – Perguntou Armando, com a cara toda babada.
Era Vladmir, que estava diante deles, segurando o bule de café.
-Bom dia criançada!
-Que foi, porra? Viu passarinho verde? Não… Peraí Deixa eu adivinhar…Não… Não é possível. Esse sorriso… Tu comeu a Aninha maluco?
-Infelizmente não.
-Então o que foi, cara? – Perguntou Armando.
Vladmir deu um grito: -A chuva parou, porra!

-Sério? – Marcelo se levantou da mesa num pulo.
-Ei, cadê o Greg? – Perguntou Armando.
-Sei lá! Quando eu desci ele ja não tava na sala.
-Porra… Cadê o maluco?

Os três rapazes foram lá fora. O céu ainda estava cinza e carregado, mas pelo menos não chovia.

Tá vendo alguma coisa? – Perguntou Marcelo.
Nada pra este lado. – Disse armando do outro lado da varanda.

-Porra meu. – Disse Marcelo, voltando para dentro da casa.

Marcelo resolveu verificar lá em cima. A cabeça explodindo de dor. Subiu os degraus com cuidado e entrou nos quartos. Não havia nenhum sinal de Greg nem no banheiro, nem na suíte principal, e nem no quarto da Aninha.
Quando Marcelo abriu a porta do quarto deparou-se com a pior cena de sua vida. Sarah estava deitada, nua ao lado de Greg na cama deles. Ao chão, ao lado da cama, a garrafa de uísque nacional.

Marcelo nem teve reação. Ficou parado, estático. Com os olhos arregalados para aquela cena.
-Não acredito nisso. – Nareba pensou.

-Filha da puta! – Sussurrou.
Nareba fechou a porta e desceu. Estava puto. A vontade era de matar os dois. Pegar um machado e descer a machadada naquele maldito ogro e naquela puta que se dizia namorada dele.

-Achou ele? – Perguntou o russo no primeiro andar.
-Achei. – Disse Nareba com voz de enterro.
Vladmir notou na voz de Nareba que algo estava errado. Ele subiu correndo os degraus. – Que foi, cara?
-Olha aí. – Disse Marcelo, apontando a porta do quarto.
O russo foi até lá e espiou pela greta.
-Caralho! O maluco comeu tua mulher, cara!
-… – Marcelo não conseguia falar nada.
-Mas que filhos da puta… – Disse o Russo.
-É. – Falou Marcelo, com o coração em frangalhos, descendo para o primeiro andar.
-Não sei o que te dizer, cara.
-Nada. Não diz nada.
-Meu… Quem sabe não rolou nada. Ele pode ter errado de quarto, entrou grogue e se jogou do lado dela, que tava dormindo.
-Ela tava pelada cara. Ele também.
-Porra. Aí é foda mesmo. Então agora faz sentido… O Armando trouxe esse cara para pegar tua mina, véio.
-Hã?
-Cara esse Greg é amigão do Armando. Ele é fissurado na Sarinha desde sempre. Certamente convenceu o Armando a trazer ela para poder dar em cima dela… E pelo visto deu certo. Por isso que ele tava te escrotizando direto. Concluiu Vladmir.
-Foda, meu… Como não fui perceber isso?
-Relaxa, cara. Vamos tomar um café e botar a cabeça no lugar. Se ela topou te sacanear assim, na frente de geral, ela não te merece, cara! Toma, come uma torradinha. Bebe um cafezinho aí! Tá fraco…
-Não quero torradinha nenhuma, caceta.

Aninha desceu as escadas correndo: – Gente! Eu não acredito no que eu acabei de ver! O Greg tá beijando a Sa… Ops, foi mal. Você já sabe, né?
Marcelo concordou em silêncio.

-Puts, meu… Que merda. Mas como que isso foi acontecer?
Nisso, Armando voltava lá de fora: – Povo, procurei o Greg pelos arredores da casa, e nem sinal do cara. Será que o doido foi embora correndo?
-Achamos ele.
-Onde?
-Tava comendo a Sarah. – Disse Nareba.
-Quêêê?
-Comendo não, pô. Ela tava dormindo do lado dele no quarto.
-Ah, veio, entre dormir e trepar tem uma pequena diferença. – Riu Armando.
-Estavam nus. E a Aninha viu eles se beijando agora a pouco.
-Sério.
-Hum-hum! – Disse a menina de cabelo azul com a boca cheia de torradas.
-Caraca, bicho. To passado. Como que vc tá, meu?
-Como que vc acha?
-Força, meu! Tu supera isso.
-Se eu tenho uma arma… Cara eu faço uma besteira.
-Relaxa, Marcelo. Você não vai estragar sua vida assim a troco de nada, cumpadi.
-Ué. Parou de chover? – Perguntou aninha olhando lá pra fora.
-Parou! – Disse o nerd, todo feliz.
-Pelo menos essa é uma boa notícia. Se ficar assim por muitas horas, vamos conseguir sair daqui.
-Eu não quero nem olhar pra cara daquela puta.
-Vem, vamos la na casa destruída comigo, Marcelão. Vamos ver se encontramos alguns mantimentos. Alguma coisa que podemos precisar. Você tem que superar essa merda, cara. – Disse Armando.
-Eu vou conversar com eles. – Disse Aninha.

Armando, Nareba e o Russo saíram.

Minutos depois desceu Sarah.

-Que papelão, hein? – Acusou Aninha, sentada na ponta da mesa do café.
-Hã?
-Ele viu. Ele tá transtornado, meu.
-Eu… Eu não sei o que foi que me deu.
-Porra, cara. Não precisava fazer isso com o Marcelo. O moleque ta fodido da cabeça agora. E o Greg ainda deu porrada nele ontem. Pensa só no teu namorado. – Disse, fazendo aspas no ar.
-Me dá café. Preciso de um café. E um cigarro.
-Cadê ele?
-Dormindo.
-E ele trepa bem, pelo menos?
-Não sei direito. Eu tava doidona…
-Foi muita filhadaputice da tua parte. Você sabe, né Sarinha?
-Aconteceu, pô.
-Sei. Se coloca no lugar dele. Pensa se você pega ele me comendo.
-Ah, tu não gosta da fruta que eu sei, amiga.
-Imagina, porra! Nem imaginar você consegue, né? Foi Sacanagem Sarah!

Enquanto isso, nos destroços da casa que pegou fogo, os três estavam explorando a montanha de entulho carbonizado.
-Não tem muita coisa que preste. – Disse Armando.
-Eu achei uma corrente. -Disse Marcelo, levantando uma longa e grossa corrente de ferro enferrujada.
-Aqui tem uma barra de ferro meio derretida também. Talvez dê para aumentar a altura da antena. O que você acha, Vladão? – Perguntou Armando.
-Dá sim… – Disse o russo. – …Mas vamos ter que amarrar bem. É importante que a antena fique bem isolada e estável.
-Tem umas latas aqui. – Disse Marcelo. Eram enlatados de milho, feijoada e latas de sardinha que haviam sobrevivido ao colapso incandescente da casa.
-Isso pode ser útil mesmo! Vamos, vamos, levar essas coisas para a casa.
-Querem ajuda? – A voz surgiu do outro lado. Era Greg.
-Oi Greg.- Disse Armando.
-Aí Nareba… Tenho uma novidade pra te contar! – Disse o lutador.
-Segura, segura cara! – Sussurrou Vladmir no ouvido do amigo, que só fechou os olhos e cerrou o punho.
-Ela trepa bem cara! Disse que não fodia assim desde antes de conhecer você e seu chassi de frango! – Riu o gigante.
-Porra Greg. Pega leve meu! Você está sendo inconveniente. – Disse Armando, empurrando o amigo.
-Que é? Que foi? Vai encarar mermão? Vem pra dentro. Tô aqui. – Disse Greg, empurrando Armando de volta.
-Faça bom proveito, Greg. – Marcelo parecia incrivelmente calmo e centrado. – Espero que você tenha lembrado da camisinha e que ela tenha te falado que tem HPV.
-Aids? Aids? Ela tem aids? – Greg mudou de expressão. Agora ele esbugalhava os olhos de pavor. O lutador saiu correndo.
-Mandou bem, moleque. – Disse Armando.
-Hahaha é muito burro mesmo! – Riu o russo. – Confunde até HPV com HIV. É muita estupidez, meu!
-Não vou nem zoar. Vai que é doença.
-Mas, nareba, ela tem HPV mesmo cara? – Perguntou Armando.
-Não, cara. Mas o filho da puta já deve estar lavando o pau com Pinho Sol bem agora! – Riu Marcelo. – E “Nareba”, é a tua mãe.
-Isso aí, cara. Bola pra frente. – Disse Armando.
-Gente, não quero atrapalhar esse romance de vocês, mas bem que podíamos aproveitar a trégua dessa chuva para montar a antena super mega power de celular!
-Certo!
-Vamos nessa.

Minutos depois, Armando, Vladmir e Marcelo estavam trepados no telhado sobre a varanda do primeiro andar. Dali era preciso escalar a parede da casa e chegar ao telhado principal, onde lá em cima estava a antena de radioamador.
Vladmir estava sentado no parapeito da janela, absorto no trabalho de desmontar seu celular, para localizar o circuito da antena. Ele havia desmontado o radioamador queimado usando seu canivete suíço. Dali o russo retirou fios finos, que pretendia prender nos conectores da antena grande.
Armando estava apoiando os pés de Nareba, que trepava na lateral da casa. Lá de baixo, Aninha e Sarah apenas observavam em silêncio a operação.

-Você não vai falar com ele? – perguntou Aninha.
Sarah não respondeu. Ficou apenas olhando os meninos trepados no telhado, se equilibrando precariamente.
Aninha notou que uma lágrima escorreu sob os óculos escuros enormes da amiga loura.

Lá de cima, Nareba evitava olhar para elas. Precisava se concentrar. A chuva havia molhado o telhado que estava coberto com sujeira, limo, folhas e pequenos galhos, que formavam uma espécie de massa escorregadia como sabonete. Para piorar, a casa era antiga, e o telhado estava se soltando em varias partes. O medo de Marcelo é que ao pisar errado, as ripas podres se partissem e o telhado afundasse com ele em cima.

-Vai com cuidado aí Nareba! – Gritou Armando, sinalizando para o amigo os lugares onde ele tinha que pisar.
-Ok, pode deixar. Tudo sob controle.
-Meu, cuidado, porra! Aí não! Pisa mais pra direita! – Gritou Armando, nervoso.

Dava para entender a razão da preocupação de Armando. A casa antiga era muito alta e um escorregão ali poderia significar uma queda de quase oito metros no chão.

Lá em baixo, as duas meninas assistiam, apreensivas, em silêncio. Nisso, chegou Greg. Estava puto.

-Ô viadinho filho da puta! Desce aí!
-Porra Greg! Não atrapalha!- Gritou Aninha.
-Não enche! Ei, nareba! Tô falando com você, ô seu palhaço.
-Pára Gregory! – Disse Sarah.
-Não, porra. Agora eu quero saber que merda é essa de dizer que você tava com Aids.
-Vai se fuder cretino! – Gritou Nareba lá do alto.
-Aids? Ele disse que eu tava com Aids? – Perguntou Sarah Surpresa.
-Disse. – Acusou Greg.
-Marcelo! Você disse pra ele que eu tava com Aids?
-Não!
-Disse sim! – Gritou o lutador.
-Não disse não, seu mongol! – Gritou Nareba lá de cima.
-Porra! Vocês aí! Não precisa ajudar, mas não venham atrapalhar, caralho! Calem a boca! Estamos tentando fazer a antena de celular aqui, meu! – Berrou Vladmir a plenos pulmões da janela do segundo andar.
-Cala boca, balofo. A conversa não chegou no chiqueiro ainda! – Greg respondeu aos berros lá do jardim.
-Você falou o que pra ele, Marcelo? – Sarah parecia transtornada.
-Vai se foder, sua puta! Eu não vou falar com você. – Berrou Nareba, irado, do alto do telhado.
-O que? Espera aí! – Disse Greg, saindo do jardim.
-Greg! não, Greg! Onde você vai? Calma, Greg! – Berrava Aninha, tentando segurar o lutador. Ele saiu carregando ela e tudo mais. Foi até o canteiro de flores perto da árvore onde estava a van. COmeçou a pegar um monte de pedras.

Lá no alto do telhado, Marcelo abaixou-se segurando no ferro da antena. O cano de metal havia enferrujado e colado no soquete de ferro fundido que a prendia ao telhado.
Marcelo teve que dar uns chutes no ferro da antena, para tentar soltá-la da base metálica.

Lá em baixo, Greg estava pegando pedras do jardim.
-Não! Não! Ei! Greg, não cara! – Gritou Armando já prevendo o que ia acontecer.

-Cuidado Marcelo!- Berrou o Russo, quando viu que Greg estava atirando pedras nele.
A primeira pedra passou longe.

-Ei! Seu puto! – Gritou Nareba

A segunda pedra atingiu Marcelo em cheio na cabeça. Tudo começou a girar.

-Greg!!! – Gritou Sarah e Aninha.

Marcelo tentou se segurar na antena, mas sua mão escorregou. Ele caiu sentado no telhado.
Lá em baixo, Greg continuava a tacar as pedras: – Desce daí que eu vou te meter a porrada, desgraçado!

Sarah e Aninha tentavam em vão conter Gregory, mas era impossível, pois ele era muito forte.

Marcelo estava tonto.
-Cê tá bem cara? – Gritou Armando.
-Eu… Eu… – Dizia Marcelo, completamente tonto. Havia perdido a noção de profundidade. Tentou se levantar, mas escorregou.

-Nããããão! – Gritou Sarah quando viu que Marcelo estava rolando e ia cair do telhado.
As telhas despencaram do alto do telhado e se partiram em pedaços no chão.

Marcelo conseguiu se agarrar parcialmente quando um braço dele agarrou num buraco do telhado, e ele ficou pendurado.

Greg se preparou para lançar outra pedra, mas foi atingido de surpresa por uma voadora na cara. Era o Russo. O lutador caiu de lado, deitado no jardim. As meninas pularam em cima dele. Greg já ia levantar com as duas, quando O russo também pulou sobre eles, fazendo um montinho humano.

-Me soltem filhos da puta!

Enquanto isso, no telhado, Armando trepava precariamente, tentando chegar onde estava Marcelo.
-Segurem ele aí! Eu vou Buscar o Nareba! – Gritou Armando.

Lá em baixo, a confusão estava comendo solta. Todos tentavam segurar Greg que com todos eles em cima ainda estava em vias de se levantar.

Foi Aninha que solucionou o problema, aplicando um mata-leão em Greg. Ela apertou o pescoço dele até que ele perdeu as forças e desmaiou na grama.

Lá em cima do telhado, Armando se equilibrava junto ao beiral para agarrar as pernas de Marcelo.

-Peguei! – Disse o rapaz.
Sarah começou a aplaudir Armando.
-Eu… Eu tô meio zoado. – Marcelo Balbuciou.
O Russo veio correndo segurando a corrente que havia encontrado nos destroços da casa. Com a ajuda das meninas, amarraram Greg.
Eles estavam tentando amarrar os elos grossos e enferrujados da corrente quando um novo trovão estourou no céu.
Todos olharam para cima.
Uma nova tempestade começava a se anunciar.

-Tenho que ir! Prendam ele! – Gritou o Russo para as meninas, que assentiram com a cabeça.

Vladmir correu pelas escadas para chegar no quaro do Armando, onde saltou para o telhado da varanda.
-Precisam que eu suba aí? – Perguntou o russo.
-Não, Não. Ele tá melhorando. – Respondeu Armando. – Passa o ferro aí!

Vladmir Obrushev passou a barra de ferro para Armando. Enquanto isso, Marcelo estava tentando soltar a antena no soquete, no alto do telhado.
Armando foi até lá com o ferro.
-Soltou?
-Tá agarrado! O ferro oxidou e travou tudo aqui. – Disse Marcelo, ainda um pouco zonzo.
-Já sei! – Disse Armando. Ele foi até o outro lado do telhado, onde pegou uma das pedras do Greg.
-Que você vai fazer com isso, cara?
-Tira a mão! – Disse Armando, antes de começar a desferir violentas porradas com a pedra na base. Na terceira batida o cano se soltou.
-Vai, Puxa!
-Unng! Tá muito… Preso ainda!
-Mais rápido, vamos! Força!

Então começaram os raios. O primeiro raio caiu num morro perto da casa, fazendo um barulhão enorme.

-Desce! Desce! – Aninha começou a gritar lá de baixo.
-Armando! desce daí! Tá caindo raio, porra! – Berrou o Russo.
Mas Armando era cabeça dura demais para deixar rolar e preferiu ignorar os amigos.
-Não, não! Vamos, cara, vamos descer! Se essa porra de raio cai na gente viramos torrada! – Disse Nareba, convicto do perigo.
-Vai você! Eu vou ligar esta bosta!
-Não, cara! Vamos agora. – Disse Marcelo, enquanto a chuva torrencial caía sobre eles. Lá em baixo as meninas puxavam o corpo de Greg amarrado com as correntes para dentro da casa.

Os trovões e relâmpagos começaram a ficar tão fortes que Armando finalmente aceitou desistir.
Largou o cano amarrado com o fio no telhado e desceram. Como chovia muito, descer estava cada vez mais difícil. Marcelo escorregou, mas retomou o equilíbrio rapidamente. Vladmir ajudou os amigos na volta para dentro da casa.

Agora todos estavam frustrados e desmotivados.

-Porra de chuva. – Disse Marcelo, sentando na cama.
-Meu! Não senta aí não! Tu ta todo molhado, veio.
-Ah, não enche, Russo.
-Calma, cara. Quando a chuva der uma nova trégua a gente trepa lá e monta o booster da antena.
-Marcelo. Vamos conversar. – Era a voz de Sarah. Ela estava na porta do quarto, junto com Aninha.

-Sai fora. Não tenho nada pra falar com você.
-Podem dar uma licença? – Perguntou Sarah. Todos saíram do quarto.
-Vem, vamos fazer o almoço que já passou da hora! – Disse Armando.

Marcelo sentou no canto da parede.
Sarah Fechou a porta do quarto. Foi até perto dele e sentou-se na cama.

Ela não disse nada por um longo tempo. Nem ele.

-Eu cometi um erro.
-Foda-se.
-Por favor. Comporte-se como um adulto, Marcelo. Ninguém é bebê aqui.
-Eu não esperava isso de você.
-Nem eu. Eu sei que o que eu fiz não tem conserto. Nós brigamos, você desceu e eu fiquei chorando.No meio da madrugada ele veio… Quis saber porque eu estava chorando…
-Me poupe dos detalhes sórdidos!
-Não, eu quero tentar te explicar.
-Foda-se. Acabou. Fique com ele. Foi bom, não foi? Então? Tá esperando o que? Aproveita, porra! – Marcelo tinha lágrimas nos olhos.
-Ele é um idiota, Marcelo.
-Nooossa! Só agora que você notou? Estou impressionado com sua perspicácia.
-Porra, Marcelo. Se é pra agir assim então nem vale a pena falar nada.
-Olha… Tudo bem. Você quer explicar o inexplicável. É “batom na cueca”. Você vacilou, pediu desculpa…Ele se aproveitou da sua fragilidade, da nossa briga. Ótimo. Não precisa ficar falando mais nada. Você acha o que? Que eu vou perdoar essa porra? Você me bota esse lindo par de chifres no meio da viagem com meus amigos e quer que eu fique o que? Feliz e contente, Sarah?
-… – Sara não disse nada. Só começou a chorar. -Eu não queria… Não queria.
– Olha aqui. Ele pode ser um mastodonte, pode ser burro feito uma porta, mas ele não é estuprador. Você ficou com ele porque quis. Não queria mais ficar comigo, era mais certo chegar e me dar a real. Foi um papelão. Agora já era. Não adianta chorar sobre o leite derramado. Agora espero que saiba lidar com ele. O babaca estava contando pra todo mundo o que você disse pra ele na nossa cama.

Sarah chorou mais ainda.
Os dois passaram quase dois minutos em silêncio. Só se ouviam os soluços da loura.
Marcelo se levantou e saiu, deixando Sarah sozinha no quarto.

Ele foi até o quarto deles, pegou o Geodo debaixo da cama e desceu para a sala. Lá em baixo, Armando estava terminando um arroz de forno com filé.

-Cheiro bom pra caralho! – Disse Marcelo.

Aninha e o russo jogavam baralho. No sofá o Greg enrolado nas correntes ainda estava desmaiado. A casa estava toda fechada e a sala estava iluminada por velas em toda parte.
Aninha olhou para as velas e disse:

-Foda é esse fedor de vela. Me sinto numa igreja…
-… Ou num cemitério – Gritou Armando da cozinha.
-Cruzes, cara!
-Dessa vez ta chovendo absurdamente!- Concluiu o russo.
-E aí, Marcelo? Se acertaram? – Perguntou aninha ao amigo.
-Não tem o que dizer, né cara?

-Vem, gente! Tá na mesa! – Disse Armando trazendo os pratos.
Sarah desceu as escadas e sentou-se em silêncio. Marcelo não deu um pio.
Todos comeram e só Aninha e Armando falavam, tentando acabar com aquele climão.
-Aninha, e a banda?
-Tá legal… A gente tá terminando as musicas do novo disco. Falta umas três musicas, eu acho. Aí vamos pro estúdio.
-Que bacana. Que tipo de som é? – Perguntou o Russo.
-Punk lesbian. – Disse a menina do cabelo azul.
-Deve ser legal, seja lá o que isso for! – Riu Marcelo.
-Não vai comer a carne, Sarah?
-Muito mal passada pra mim, desculpa.
-Quer que eu asse mais? – Perguntou Armando.
-Não… Não. Tô sem fome mesmo. Obrigada.

-Ei? Que isso? Que isso? – Perguntou Greg. Ele estava acordando e viu que estava acorrentado. Tentou se levantar e caiu no tapete.

Todos se levantaram.
-Calma Greg. Olha só. Peraí. Deixa eu te ajudar aqui. – Disse Armando sentando o amigo acorrentado no sofá.
-Me solta! Me Solta, porra!
-Seguinte…
-Me soltaaaaa!
-Cala a boca, porra! – Disse Armando, dando um belo tapa na cara de Greg.
-Que merda é essa? – Ele parceia confuso.
-Você quase matou o Marcelo, meu. Você tava jogando pedra no cara que tava consertando a antena, lembra?
-Lembro! Lembro que acertei! E aí Gostou da pedrada, mister chassi de frango?
-Obrigado. Eu quase morri por sua causa. – Disse Nareba, lá da mesa.
-Olha aqui, Greg… O negócio é o seguinte, cara. Eu te convidei para vir aqui na minha fazenda, nós nos conhecemos a sei lá… Oito anos? Mais?
-Mais.
-Então, porra…Tenha um pouco de respeito, cara! Olha a situação escrota. Estamos presos na fazenda, sem luz, incomunicáveis. Já deu explosão, já teve morte. Agora você está tornando essa merda muito pior, cara. Ninguém aqui tem culpa dessa porra, véio.
-Esse pau no cu aí, que…
-Cala a boca, porra! Não vê que eu tô falando? Que merda, Greg. O lance é o seguinte. Não sou de fazer isso, mas vou ter que dar a real pra você e para o senhor Marcelo ali. Não quero mais saber de brigas aqui. Vocês vieram para me ajudar a planejar o empreendimento. Agora só falta os dois se matarem para eu ter que me foder com polícia.
-Ok, cara. Foi mal. – Disse Greg, sem graça.
-E você? – Perguntou Armando, apontando para Marcelo.
-Eu tô de boa, cara.
-Então o lance vai ser o seguinte: Vocês vão apertar as mãos. Não quero e nem estou pedindo para vocês virarem os melhores amigos, mas não quero mais briga. Vocês vão me prometer que irão agir como pessoas civilizadas. Não quero saber quem fez o que, quem disse o que, quem bateu primeiro ou quem é gordo, magro, isso e aquilo. Vocês me dão a palavra de vocês que acabou a babaquice aqui?
-Tudo bem.
-Me solta.
-Meninas vamos soltar o Greg! – Disse Armando.
O Russo pegou a chave do cadeado e elas soltaram as correntes.
Assim que foi solto, Greg foi até Marcelo Nareba decidido.
Sarah pensou que a porrada ia recomeçar, mas o gigante barbudo estendeu a mão com a cara fechada. Marcelo apertou a mão dele. Foi um aperto de mãos silencioso. Olhos nos olhos e uma estranha energia de raiva contida podia ser sentida no ar.

-Muito Bem.
-Agora vamos comemorar! – Gritou o Russo, levantando uma latinha de cerveja quente.
-Tô com fome. Disse Greg!
-Pega teu bifão aí então, bicho! – Falou Armando estendendo a caçarola de carnes ao lutador.

Após o almoço, todos se reuniram ao redor da mesa. Armando acendeu um cigarro. Aninha também.

-E essa porra de pedra hein? – Perguntou Greg, apontando o geodo em cima da mesa de centro.
-É mesmo. Devíamos abrir!
-Tem uma marreta lá no quartinho dos fundos. – Disse Armando. – Eu achei quando estava desenterrando o radio.
-Mas a gente vai abrir na marreta? – Perguntou Marcelo.
-Tem vários jeitos de abrir. Marretando é um deles. – Disse o russo.
-Cara… Não sei.
-O outro jeito é cortando com serra de diamante, mas esse corte não sai por menos de mil pratas!
-É… Acho que vai ser na marreta mesmo.
-Mas antes, tenho uma pergunta. – Disse Greg.
-O que?
-Bom… Vamos dizer que o Russo vai abrir a bagaça aí. Essa porra vamos dividir entre nós, né?
-É… – Disse Armando.
-É o caralho! – Gritou Marcelo, Pegando a pedra e colocando no colo dele.
-Não, gente. O Marcelo que achou, pô. A pedra é dele. – Disse o Russo.
-Ah, tua opinião não vale. Tu é amigo dele! – Disse Greg.
-E você é amigo do Armando e nem por isso sua opinião deixa de valer. Tô dando a minha.
-Mas tá todo mundo no mesmo barco ou não está? – Perguntou Armando.
-Não… Tipo assim, tá todo mundo na mesma foda, é verdade. – Aninha Respondeu. Tomou um gole de cerveja quente e continuou: – Mas o cara achou a pedra sozinho. Acho que é justo que a riqueza que ela venha a revelar seja dele.
-Vamos votar. – Disse Marcelo.
-Quem vota a favor da grana ser do Marcelo levanta a mão. – Disse o Russo.

Levantaram as mãos a Aninha, o Marcelo e o Russo.

Sarah, Greg e Armando acham que ele tem que dividir. Empatou. E agora?
Ah, foda-se. E mudo meu voto! – Disse Marcelo. – Vamos dividir essa merda mesmo.
-Muito bem, rapaz! -Disse Aninha.
Uma lição para todos nós. – Comentou Armando. – Agora eu vou dizer uma coisa: Abro mão da minha parte para o Marcelo.
-Eu também. Disse Aninha.
-E eu. – Falou o Russo.
-Eu também. – Disse Sarah, levantando-se da poltrona. Ela foi até a mesa e pegou o maço de cigarros.

-Valeu galera. Agora precisamos abrir a bola! Como vamos fazer, Vladão?

-Bom, a primeira coisa: Pegar umas toalhas. Faremos uns rolinhos, e aí vamos apoiar a pedra nesses rolinhos para ela ficar estável. Depois a gente pega lá a marreta e começamos a bater de leve até ela rachar. Isso não é difícil de abrir não… Pelo menos é o que parece.

Armando voltou com as toalhas e a marreta.

-Quem vai abrir?
-Se quiserem, eu meto a porrada. – Disse Greg.
-Eu! -Disse o russo. – Deixa comigo! Tem que ser de leve. Se ela fragmentar muito, perde valor de mercado. – Disse ele, ajustando a pedra sobre os rolinhos de toalha.

-Ok… Preparados? Protejam-se, pois podem voar fragmentos! – Disse o Russo, pegando a marreta das mãos de Armando e erguendo a ferramenta no ar.

-Afasta os móveis aí! Pronto! – Disse Armando.
-Cuidado todo mundo. É agora, hein? – Gritou Vladmir Obrushev.

Então, ele desferiu a primeira batida.
Nada aconteceu.
Vladmir Obrushev olhou para os amigos. Todos distanciados mais de um metro da pedra. Estavam com a respiração presa.
-Vai logo, russo! – Disse Nareba.
-Ok, lá vai! – Disse ele, dando outra porrada na pedra. Dessa vez bem mais forte. Então ela rachou, mas não quebrou.

-Rachou, galera! – Disse Vladmir. – Acho que abre na próxima!
-Vai!
-Vai logo, porra!

-Um, dois três e… – Vladmir deu outra batida na pedra. E então, ela se quebrou em duas partes, sobre a mesa de centro. Uma parte era maior que a outra.

-Mas… Que porra…
-Que isso?
-Credo!
-Traz as velas, traz as velas!

Ali, diante deles, estava um geodo amarelo. Era uma pedra de um tipo raro. Só que ninguém comemorou.
Todos estavam petrificados olhando para uma coisa que estava dentro do geodo. Era uma coisa gordurosa, imersa num óleo grudento que escorria mesa abaixo. A coisa era branca, cheia de fiapos e parecia oval.
-Que isso russo? – Perguntou Armando.
Todos estavam olhando aquilo.
-Que cheiro! Puta que pariu! – Gemeu Aninha, tampando o Nariz.
-Não é possível. Isso simplesmente não é… Possível! – Dizia Vladmir, estupefato, com a marreta na mão.

Todos estavam olhando aquela coisa, enfiada dentro da metade mais grossa da pedra.
-Nunca vi isso… – Disse o Russo.
-Parece um ovo…- Falou Sarah, tampando a boca com a mão. – Acho que vou vomitar.
Greg não dizia nada. Estava com os olhos arregalados olhando aquela coisa. Horrorizado.

-Deixa eu pegar minha lanterna! Calmaí. – Disse o Russo, empolgado.
-Véio… Isso aí é muito nojento! – Armando estava longe, lá perto da mesa, morrendo de medo.
O Russo subiu as escadas correndo como uma bala. Minutos depois, ele voltou com a potente lanterna de leds.

-Pago mil reais para quem provar esse caldinho! – Riu Armando, lá dos fundos.
-Pago dois mil pra você provar! – Respondeu Sarah.
-Nem por dois milhões eu chego perto dessa joça! Já vi “Alien”, tá querida?

-Shhh! Queitos. Vamos ver melhor esta merda.

O Nerd posicionou a lanterna atrás da coisa.

-Dá para ver que é meio translúcido! – Disse Marcelo.

Então a coisa dentro do ovo subitamente se contorceu. Todos começaram a gritar de susto.

CONTINUA

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15 comentários em “Ganzu – O terceiro dia”

  1. Estes textos são geniais! O que sinto ao ler cada capitulo dos teus textos é o que eu sinto quando leio qualquer obra de Julio Verne, ou seja, sinto como se estivesse dentro da história, da narrativa, como se eu fosse um espectador passivo. Tive imensa pena do Nareba. Com consegue ser tão calmo levando porrada por todos os lados, moral e fisicamente e ainda aguentar um par de espetos na cabeça.

    Muito bom Philipe, espero que daqui surja um livro e quiçá um filme. Genial!

  2. O Philipe tá empolgadão, escrevendo um capítulo atrás do outro. Assim é que é legal! Quase não acreditei quando entrei aqui e vi o terceiro capítulo.

    Russo pro Nareba: -Relaxa, cara. Vamos tomar um café e botar a cabeça no lugar. Se ela topou te sacanear assim, na frente de geral, ela não te merece, cara! Toma, come uma torradinha. Bebe um cafezinho aí! Tá fraco…
    kkkk rachei!

  3. Conto sensacional Philipe, como disse o amigo acima, me sinto na estoria.
    Engraçado como um conto desse pode provocar tantas emoções, to com uma puta raiva desse Greg ai, coitado do Marcelão.

      • Me parece o personagem mais FDP, mas ao mesmo tempo, o mais sincero. Tenho a impressão de que cada um dos outros fará uma escrotice em algum momento, e que muitos ali escondem algo. Bom, é impressão minha, quem está escrevendo o conto é o Philipe!

  4. Tô adorando esse conto, já estava com saudades dos seus contos. Esse tá seguindo um caminho bem diferente dos seus últimos contos. Você está escrevendo daquela mesma maneira de escrever sem saber o final?

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