As crianças da noite – Parte 19

-Venham. Cheguem mais perto. – Disse a velha.

Os três se aproximaram.

A velha ficou parada por um breve momento. A menina no colo da velha olhava fixamente nos olhos, de um por um.

-Então? – Perguntou Leonard.

-A esposa do Rogério foi levada para o espaço intermediário. Foi levada por um espectro. O espectro a salvou porque ela iria morrer queimada.
-Desculpe. Eu não entendo… Espaço intermediário? -Interrompeu Rogério.
-Shhhh! Cala a boca! Nunca interrompa. -Disse Leonard, agarrando o braço do Rogério. Leonard parecia assustado e confuso. Começou a implorar desculpas apressadamente.
-Por favor. Desculpe o rapaz… Ele não tinha a intenção de interrompê-la. Suplico que continue.

A velha sorriu. -Ah… Que saudade dos pobres mortais e sua impertinência inocente. – Ela disse.

Os três se entreolharam. De todos ali, o indiano parecia estar mais calmo.
Rogério percebeu, pela forma como Leonard agiu que ali estava uma figura mais que estranha, uma figura poderosíssima… A velha retomou a conversa, atravessando na sua mente os pensamentos.

-O espaço intermediário meu jovem… É um lugar entre uma das sete dimensões existentes, das quais só é dado ao conhecimento humano o acesso a quatro. Sua mulher está lá ainda. Num estado de dormência. Ela não sofre, mas não é feliz. Ela lutou bravamente contra a condição, mas finalmente se rendeu. Poucos são os que podem acessar o espaço intermediário, como podem os espectros e as crianças da noite. Sua filha também está lá. Ela nasceu no espaço intermediário e por isso ela já não é mais humana, como você. A ela foi dado o acesso ao espaço intermediário. Sua filha poderá ser uma ljuvbna um dia.
Ela está sob os domínios de Marenka. Marenka quer sua filha… Como é mesmo o nome? Lubna? Não… Luma. Isso mesmo. Luma. A luz do espaço intermediário. Há pelo menos dez mil anos em que nenhuma criança nasce no espaço intermediário e o nascimento dela foi um acontecimento para os seres do outro lado. Marenka quer que Luma seja esposa de Leraje, um poderoso marquês da região escura.
De Leraje e Luma virão cinco filhos, mas somente dois vão viver…
Você me pergunta em seu pensamento que nomes são estes… O que é a região escura, quem é Marenka. E eu lhe digo, jovem e fraco Rogério… Eu havia me esquecido como vocês podem ser confusos e cheios de perguntas estúpidas.
Marenka é uma Ljuvbna. Leonard quer acabar com elas, não é Leonard querido? Marenka é a Ljuvbna mais antiga e poderosa de todas. Luma, a sua filha, a irá suceder.
Pois aqui está a situação. Luma será a mais poderosa e mortal Ljuvbnas de todo o tempo existente. Ela irá desposar Leraje. A menos, é claro… Que Leonard, este senhor que está ao seu lado, mate a sua filha, o que muito provavelmente é o que vai acontecer…

Rogério olhou assustado para Leonard. Ele tinha um estranho aperto no peito. Nenhum deles disse nada. Eles apenas se entreolharam atônitos. A criança continuou a falar pelo corpo da velha:

-Sua mente está em constante confusão e eu vejo que você deseja saber se sua mulher retornará ao plano da matéria. A sua resposta é sim, mas não sem antes um sacrifício. Marenka exige um sacrifício de sangue para trazer sua mulher de volta. Já sua filha, não voltará ao seu mundo, não agora. Somente depois que consumar o casamento com Leraje.
O seu mundo chegará ao fim pelas mãos dos filhos de Leraje. Leraje atravessará para a dimensão da matéria e governará o plano físico como domina suas regiões no plano da escuridão. Ele trará as trinta legiões de demônios ao seu comando. Ampliando seus domínios, Leraje quer esmagar Naberius, o mais valente marquês do plano da escuridão. Naberius tem dezenove legiões de demônios sob seu comando.
Daqui a dois dias, será uma Lua de sangue. Sua filha casa-se com Leraje na lua de sangue. Sua mulher Regina deve voltar ao plano da matéria até a lua de sangue, caso contrario sua densidade se perderá e ela estará presa para sempre no plano intermediário.
Vejo perguntas na mente de vocês. Na mente deste senhor de turbante. Ele pergunta se Andela Dubravka sabia de tudo isso. Andela sabia que a menina estava de posse de Marenka. Andela desejava agradar Leraje, e desejava o poder de Marenka… Mas Andela sem cabeça já está morta, não é Leonard?

Leonard apenas olhou em silêncio para a criança no colo da velha e assentiu com a cabeça.

– Vamos, pergunte o que quer, Leonard.
Leonard limpou a garganta e perguntou a velha como eles fariam para encontrar Marenka.

-Há muitas passagens para o outro lado. Você conhece algumas, mas não todas, Leonard. Como eu já disse antes, e você sabe, eu sou neutra na guerra de vocês. Não me cabe ensinar como matar Marenka. Sabe que eu não vou fazer isso. Só me limito a dizer o que irá acontecer. Do jeito que eu digo ao jovenzinho bem vestido que este homem ali irá matar a sua filha. – Disse a velha apontando o dedo magro e trêmulo para Leonard.

-Não, não… – Disse Rogério. – Eu não acredito. Ele? Matar a minha filha? Meu bebê!

-Ah, pobre desgraçado que você é, meu rapaz. Ele matar sua filha deveria ser tudo que você iria querer, se soubesse a destruição que se abaterá sob seu mundo. Destruição que virá do ventre dela…

-Mas senhora… Ela é só um bebê.

-Um bebê? – Perguntou a velha antes de soltar uma horrível gargalhada que terminou num gemido abafado e gutural. – Ela já não é um bebê… Você ignora os fatos mais elementares entre o plano intermediário e o seu mundo palpável e sem graça ao qual está preso. Sua filha tem, neste momento, dezessete anos.

-O que?

-Esqueça a menina, meu jovem. Aproveite o quanto ainda resta do seu mundo. Se aceita sugestões, eu diria para se preocupar com sua esposa…

-Senhora, como vamos fazer o sacrifício para trazer a Regina? -Perguntou Aesh Pandraj.

-Ah, sim. – Disse a velha. Ela colocou a menina de lado, e pegou, sob a poltrona um cálice de ouro. – Pegue. Você deve enchê-lo com o sangue do rapazinho ali sete vezes e lançar seu conteúdo ao fogo. Então Mareka irá devolver a mulher.

Aesh esticou o braço para pegar o cálice, mas Leonard passou na frente e pegou o objeto das mãos da velha.

-Sete cálices do meu sangue? Mas isso não é muita coisa não? -Perguntou Rogério.
-Sim. Você pode morrer. – Respondeu Leonard.
-O risco é seu rapaz. – Disse a velha.
-Mas eu vou morrer?
-Vai. – Ela respondeu sorrindo.

CONTINUA

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12 comentários em “As crianças da noite – Parte 19”

  1. “-Sim. Você pode morrer. – Respondeu Leonard.
    -O risco é seu rapaz. – Disse a velha.
    -Mas eu vou morrer?
    -Vai. – Ela respondeu sorrindo. ”

    Parece eu comprando cigarros.

    Philipe, seu conto fica cada vez melhor! Parabéns!

  2. Caramba Philipe… Vc viajou muito agora e tornou o conto mais sinistro do que já estava. Isso é uma obra de arte cara. Parabéns!

    Manda a próxima parte logo… Hehehehe

  3. Caramba Philipe, o que tu andas bebendo pra sair uma coisa tão foda como esse conto? Conta aí porque eu também quero beber. Cada vez esse conto fica melhor, daqui a pouco dá até pra fazer uma enciclopédia com os termos desse universo do Leonard.

    • Cara vou falar o que eu tomo: Eu tomo banho. Serião. Eu entro no chuveiro e começo a ter ideias para o conto. Tudo que é relacionado ao Leonard eu bolei no chuveiro.

  4. Olá Philipe, tudo bem? Gostaria de uma ajuda tua. Eu li o Crianças da Noite e para esperar o capítulo 19 escolhi outro conto para ler, e por acaso li A Caixa. Em determinado capítulo percebi que a história da Caixa tem haver com a da Crianças da Noite, Leonard e as malditas bruxas e tal. Gostaria de saber se tem mais algum dos teus contos que tem haver com essa trilogia e com Leonard e as bruxas, obrigado e um abração.

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