As crianças da noite – Parte 25

Leonard sentiu o cheiro peculiar. Era um cheiro que ele conhecia bem. O cheiro das criaturas do inferno.  Se levantou em silêncio, pois sabia que o que estava ali não era deste mundo.

Precisou forçar os olhos, já cansados, para reconhecer a forma. Era um pequeno diabrete, que se curvava diante dele em uma solene reverência.

Aesh Pandraj ainda dormia quando o diabrete os encontrou na cabana.

O diabrete era escuro como ébano. Seu corpo era o de uma criança de cerca de nove anos, muito magro e careca. Sua pele era lustrosa como a de uma salamandra.  Os olhos eram apenas duas pupilas avermelhadas. Ele não tinha chifres nem nada que se assemelhasse aos diabos artisticamente representados. As orelhas eram levemente pontudas, e a única coisa que parecia fora do lugar eram as asas de penas escuras em suas costas. O diabrete só tinha quatro dedos em cada mão, todos terminados em garras afiadas.

-O que você quer? – Perguntou Leonard.

-Trago uma mensagem para o senhor.  – Ele disse.

-Mensagem?

-Uma mensagem do mestre.

 

O diabrete retirou de uma pequena bolsa que trazia no cinto um pergaminho pequeno, enrolado em forma de canudo preso com um laço de fita preto.

Ele leu. Estava escrito na antiga língua dos demônios. A caligrafia era elaborada, tão complexa que Leonard teve dificuldade de compreender algumas partes.

Leonard então olhou nos olhos avermelhados da criatura que aguardava uma resposta.

-Diga ao seu mestre que eu vou. – Leonard respondeu, devolvendo a missiva à criaturinha.

O diabrete nada disse. Novamente se curvou em reverência, como que pedindo licença e saiu, movendo-se rápido para a porta. Leonard ouviu o som estranho do bater de suas asas antes dele sumir na noite e a cabana voltar à normalidade fria com a sinfonia dos roncos de Aesh Pandraj.

Leonard se levantou e foi até a janela. O vento frio soprava continuamente na montanha. Os primeiros raios de sol começavam a vencer a escuridão. As estrelas gradualmente perdiam o seu brilho já tênue. Eram poucas agora e pereciam uma a uma, ante as nuvens espalhadas como pinceladas de tinta rosa no céu.

-Bom dia.  -Leonard ouviu a voz atrás de si. Era Aesh Pandraj, que se levantava entre gemidos de dores na coluna.

-Espero que seja mesmo bom… Dormir no chão não é mole, né? -Disse Leonard.

-Realmente não. Eu tinha me esquecido de como é ruim.

-Dormir no chão me lembra maus momentos de minha vida durante a Guerra.

-Vocês dormiam no chão?

-Deixa pra lá. Não quero falar disso. Vamos falar de outra coisa. -Respondeu Leonard, sentando-se na beira da pequena cama improvisada.

-Tipo o que? Tipo a polícia estar apertando o cerco?

-Não… Esta noite, nós tivemos uma visita.

-Visita?

-Visita.

-Ah, não brinca, senhor Leonard. Não vai dizer que o fantasma do velho da cabana…

-Não, nada disso! – Interrompeu Leonard.

-Então o que foi?

-Um pequeno diabinho esteve aqui. Me trouxe uma mensagem.

-Aqui? Aqui na cabana? Um diabo veio aqui? – Aesh parecia desassossegado. Ele tinha muito medo dessas coisas “do além”.

-Sim, aqui, bem aí onde você está.  Você nem acordou. Até que ele foi simpático. Geralmente, essas criaturinhas são um pé no saco. Ele trouxe uma mensagem de Naberius.

-Naberius? aquele que a velha com a menina disse que estava em guerra?

-Pois é… Esse aí mesmo.

-E o que ela dizia?

-Isso não vem ao caso. O fato é que eu vou precisar de você de novo. Daquela ajudinha… Você sabe.

-O senhor vai morrer outra vez?

-Não é exatamente morrer… Dessa vez é um pouco diferente.

-O que nós vamos fazer?

-Nós vírgula. Eu vou. Você só vai ajudar, dar uma força.

-Tudo bem, estou aqui para o que der e vier. – Disse Aesh.

-Que horas são?

-Seis e quinze.  – Respondeu o motorista consultando o relógio.

-Bom, faltam duas horas ainda. Pena que não temos nada para comer. Será que o coroa aí não tinha nada que possamos usar?

Os dois começaram  a procurar na cabana. Aesh encontrou um pote com pó de café. Ele abriu e cheirou. Estava bem vedado e não havia mofado.

Leonard achou um antigo bule, mas não havia coador. Aesh improvisou um com um pano que estava dobrado na gaveta.  Leonard pegou água num pequeno regato que descia a uns dez metros, no meio da mata, atrás da cabana.

Os dois fizeram uma fogueira junto a entrada e ali conseguiram fazer um café.

Aesh bebeu, e fez uma cara de nojo: – Ung… Sem açúcar. Blearg!

Leonard bebeu e se satisfez. – Café bom é sem açúcar,  meu caro.

Entre goles do café, Aesh perguntou a Leonard: – Senhor, o que pretende? O que vai fazer? Não acha arriscado tratar direto com os demônios como fez?

-Você nem sabe o que eu fiz, garoto.

-Ah, você disse que se encontrou lá com aquele tal Naberius, agora vem esse demoniozinho aqui na cabana… Sei lá, isso não é perigoso?

-Olha Aesh, eu vou ser franco com você… É perigosíssimo! Se eu errar no que estou fazendo, o mudo vai dar uma desandada como nunca se viu.

-Droga… Eu já estava suspeitando. Estou sentindo que algo esta indo muito mal.  -Disse Aesh, cuspindo no jarro de margaridas ressecadas preso no ressalto da janela.

-Eu fiquei com pena do senhor Rogério ter morrido. Essa história toda de pegarem a filha dele, a mulher dele, botarem fogo na casa dele…

-Eu também, mas… No fundo, é algo que ele mesmo arrumou.

-Como assim, senhor Leonard?

-O Rogério comprava antiguidades. Começou a se interessar por itens raros e perigosos. Ele não tinha o domínio das coisas que estava experimentando… Mexeu com muita coisa. Está cheio de itens perigosos e com cargas vibratórias estranhas naquele porão, Aesh. Cedo ou tarde, isso era algo que ia acontecer.

-O senhor acha que a bruxa descobriu ele assim?

-Eu tenho certeza. Ele deve ter comprado alguma coisa de uma ljuvbna. Quando elas morrem, as outras disputam os itens. Certamente essa coisa que ele comprou, ganhou ou roubou, e que não sabemos o que é, devia ser muito importante. A Marenka mandou as crianças da noite em busca do item, mas algo parece ter dado errado. Assim, eu suspeito que a Marenka pegou a mulher do cara, primeiro para fazer uma chantagem, trocar pelo item, mas então surgiu a Andela Drubavka…  O desafeto sem cabeça.

-Aí deu rolo.

-Sim, eu acho que as coisas embolaram. A Marenka tirou o time de campo, certamente, em algum momento ela percebeu que era mais negócio a filha dele do que a mulher. Acho que ela percebeu que a menina tinha potencial…

-Talvez até a tal Andela estivesse atrás do mesmo item que a Marenka.

-Normal, as Ljuvbnas vivem às turras. E essas duas não são nem metade do que foi uma  ljuvbna eslava que eu enfrentei uma vez. Aquela desgraçada era carne de pescoço. Ela acabou com três caçadores antes de sucumbir. Eles tem umas lendas lá… É tudo inspirado nessas desgraçadas do espaço intermediário. Uma tal de Baba Yaga. Já ouviu falar?

-Não, não. Folclore eslavo não é muito minha praia…

-Que seja… Mas a Marenka viu que a menina tinha potencial.

-Um potencial que talvez o próprio Rogério tenha despertado.

-Ele realizou rituais sem saber direito o que estava fazendo. Pode facilmente ter feito algo errado. Nunca saberemos ao certo, se o dom da menina era mesmo natural ou não. Seja como for, a Marenka notou o trunfo e fez o que tinha que fazer para se tornar mais influente no círculo negro das bestas.

-Eu vou dar fim naquela Marenka filha duma… Nem que seja a última coisa que eu faça.

-Não sei se vingança vale o risco.

-Vingança? Vingança? – Leonard deu uma gargalhada.  – Você acha mesmo que estou nessa por vingança?

-E não é?

-Claro que não! Eu tenho um plano, uma meta, uma agenda. As coisas que me movem tem um porquê. Vingança não faz parte das coisas. Meu lance aqui é acabar com as ljuvbnas antes que elas acabem com tudo.

-Bem… Você que sabe.  Ei? Onde vai?

-Eu preciso… Me preparar.

-Vai entrar no mato sozinho, senhor Leonard?

-Não me siga, Aesh.

-E eu faço o que aqui sozinho?

-Sei lá! Por que não fabrica uma pá? – Gritou Leonard, já sumindo entre os arbustos.

-” Me preparar”… Sei.  Aposto que vai cagar. Velho cagão… – Aesh pensou alto, jogando o resto de café do bule enferrujado na fogueira.

O indiano entrou na casa e começou a dar uma arrumada na bagunça. Em meio a escuridão da noite anterior, muita coisa havia ficado fora do alcance da visão. A começar pelos papéis. Aesh estava varrendo quando viu um papel surgindo debaixo do tapete embolado no canto da cabana.

Ele abaixou-se e pegou o papel. Era a folha de um diário.

O motorista ficou ali, lendo o diário do velho eremita. O velho falava muito em seus netos e na saudade que sentia. As folhas estavam arrancadas e machadas após uma certa parte, de modo que ele largou o diário de lado e foi procurar uma ferramenta.

Aesh andou pelo lado de fora da casa, em busca de alguma pá, uma ferramenta, qualquer coisa. Achou uma picareta enferrujada jogada nos fundos. A cabeça de metal havia se soltado do cabo, mas com uma ajuda de um calço e uma pedra, Aesh conseguiu consertar.

Ele estava entretido com a busca por novas ferramentas quando um som estranho chamou sua atenção. Eram passos na cabana.

Aesh estava na parte de trás, em meio ao mato, e primeiro pensou que fosse Leonard, mas então, percebeu que não era. Eram duas pessoas. Dois homens.

Aesh olhou por uma estreita fresta entre as madeiras atacadas de cupim.  Ali dentro estavam dois homens. Nenhum dos dois era conhecido. Ambos estavam vestindo jaquetas de couro, usavam óculos escuros e pareciam mal encarados. Os dois reviravam a cabana, olhando tudo. Um deles tinha um bigode grosso e preto.

O sangue de Aesh Pandraj gelou quando ouviu o bigodudo falar: – Eles subiram pra cá.  Devem estar em algum lugar aí fora! – Em seguida, ele retirou um revólver enorme do interior da jaqueta.

CONTINUA

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6 comentários em “As crianças da noite – Parte 25”

  1. Ta mto bom Philipe! As aventuras do Leonard já estão tão boas quanto o conto do Zumbi! Mas to curiosa até agora pra saber mais sobre o irmão desaparecido do Aesh! Será q é o indiano q apareceu na caixa? Foi a primeira coisa q pensei! rsrsr
    Parebééééénnnsss!
    Bjos
    Juju

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