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Anastácio
Olá péssoal. Aqui está um pequeno pedacionho de uma história sobre um capitão do mato. Escrevi esta história quando tinha uns vinte e dois anos. Era pra ser apenas um pequeno conto rápido, mas eu me empolguei em escrever uma história de época e isso acabou gerando um livro, chamado Capitão do Mato, o primeiro livro que eu publiquei. Digo isso, pra que não me tomem por um imitador de novelas globais. Tá passando Sinhá Moça e o que eu menos gostaria é de ser encarado como influenciado por uma novela, hehe.
ANASTÁCIO
Longe dali, em uma estrada de fazenda, surgia o Anastácio. E de fato o sentiam. O silêncio era perturbador. O cavaleiro, imóvel em sua sela, com os olhos a perscrutar o vazio que se estendia defronte o morro, nu em pedra. Em sua cabeça, sons, e lembranças entremeados a gritos que ouvira, contas em ouro e réis. Mulheres. Lembrava de uma ou outra ao olhar uma bosta de vaca aqui, outra acolá. Imaginava o futuro. Faria o que fosse necessário e voltaria para a fazenda grande, o mais rápido possível. De súbito, parou o cavalo sobre uns tocos e gravetos. Olhou em volta. Achou o que esperava. Um pé. Grande e com certa profundidade. Podia vê-lo em pegada no chão. O dedão, muito separado do conjunto de quatro dedos. Olhou em volta e viu todo o chão recoberto por aquelas folhagens amareladas. Olhou então para cima. Sorriu novamente. Estava particularmente feliz naquele dia. Sorrira duas vezes, mas a razão era que sobre ele, a difundir em buracos a luz sem graça do sol, estava uma árvore de folhagens completamente diferentes daquelas sob ele. -Nego burro. -Balbuciou, levantando o corpanzil do chão. Virando-se para sua direita, viu o desbarrancado. Acima do barranco, estava a tal árvore das folhas amarelas ali do chão. Desarrolhando a garrafa que pendia da sela, tomou um gole ardente da parati. Amarrou o cavalo ali, pois sabia não ser longe a toca do fujão. Trepou o barranco, agarrando-se em umas raízes ali. E ficou quieto. Olhou o capoeirão ao redor. Ele estava ali. -Pensou. -Perto da estrada. Tá esperando a carroça de frutas que vai passar pra fazenda. – Abaixando-se, pegou um pedaço médio de tronco de árvore. E arremessou-o no mato. -Sai agora. Sai agora que já te vi! – Vira nada. Porém, sabia ser o negro um africano de raça. E experiência era experiência. Esperou, ouvindo o silêncio. Um grilo, um passarinho pulou dali e saiu voando. Nada. Só o silêncio. -Ô crioulo! Quer morrer? Então tá bem. Prepara aí sua justificativa pro satanás! – Passou a mão em uma das garruchas que lhe adornavam a cintura. Mirando no mato bem à sua frente, falou em tom mais baixo: -Já mandei sair. É um…..É dois…É …-Sentia-se a criatura mais imbecil apontando a garrucha para um mato alto e gritando talvez com uma preá ou um passarinho. -Não, faisfavô! Atira não seu capitão! -Pulou o crioulo gritando bem do meio do mato, com as mãos na cabeça e deitando-se, uns dois metros adiante. Realmente ele estava feliz naquele dia. Sorriu mais uma vez. Desta, soltou um riso, que tornou o negro fujão ali deitado uma tábua sêca de medo e pânico. Ninguém jamais o vira rir. Diziam dele muitas coisas, besteiras, como entendia ser, mas que assim mesmo gostava de conservar. Diziam ser ele, filho do diabo em pessoa, dotado de poderes, como o de voar e ver o pensamento dos crioulos fujões. Diziam dele não poder ser morto, e caso fosse, reapareceria horas depois para o assassino, e levaria seu algoz para conhecer seu pai, o Capeta. -Acho que vô matá ocê! -Falou, com prazer na orelha do crioulo. -Vô matá e comer suas tripa! O coração deixo pro meu pai, o Diabo! -E pisou na cabeça do pobre negro, que estribuchava de medo e pavor. O infeliz escravo fujão já via seu coração na boca em chamas do Cramulhão. Aquela imagem dos dentes podres e pontudos do demo a mastigar-lhe as entranhas era algo mais terrível que a morte ou surra de açoite. -Nnnnnão, Capitão, faisfavô, capitão, comi eu não. Eu juro que não fujo mais. Discurpa. Tô cum medo…-As lágrimas corriam e transformavam-se em lama quando alcançavam a boca cheia de terra do fujão. -Tá certo. Vô te dá uma chance. Vô dá chance porque vozmecê tá perto. Se fosse mais meia légua estrada abaixo, eu e o capeta iamos comer vozmecê!-Falou sério. Olhando nas fuças do negro fujão.-Limpa essa cara, animal! -SimsinhôSimsinhô, brigado. Vô fugir mais não. -Vira as costas pra eu amarrá!-E tomou o laço do embornal sobre o lombo do cavalo e passou em nó sobre o pescoço do negro. -Tá fugido faz dez dias. -Cumé que o sinhô sabe, capitão? -Meu pai diabo me contou. – Mentiu. -Simsinhôsimsinhô, ai, ai…-O negro morria de medo, cada vez que ouvia o som “diabo”. Lá foram eles naquele fim de tarde, a avermelhar as nuvens no céu. O negro gemendo na frente, a cada pedra no caminho. O cavalo a trotar feliz para a maçã que iria comer. E o capitão do mato a pensar numa mulher que vira na janela de um casario de manhã. E por falar nisso, ali no chão estava a passar mais uma bosta de vaca. Fim
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