A cadeira obscura – Parte 9

Não houve tempo para pensar o que era aquilo.

A coisa agarrou Renato pelo pescoço e o suspendeu no ar. Era uma mão de proporções gigantescas, que apertava seu pescoço, impedindo-o de respirar. Renato sacudia as pernas freneticamente, tentando se soltar, mas era impossível. A criatura era forte demais.

Então houve um clarão súbito e Renato sentiu um puxão. Seu corpo sentiu um baque, como se tivesse sido atropelado por um caminhão.
No instante seguinte viu uma luz muito forte direto nos seus olhos. Queimava.
Renato tentou desviar da luz que parecia um farol.

-Ele tá voltando! Ele tá voltando! – Alguém gritou em meio a um burburinho que foi lentamente aumentando até se tornar uma ruidosa confusão de pessoas falando.
Ele não entendia. Não sabia o que estava acontecendo.

A luz era uma lanterna, apontada para seus olhos por um velho.

-Seu Renato! Seu Renato! O senhor tá me ouvindo?

Renato fez menção de levantar, mas não deixaram. Uma pessoa o empurrou para baixo.

-Espera, espera. – Disse.
-Me solta, porra! – Gemeu Renato. Estava enjoado. Achou que ia vomitar ali mesmo.

-Calma! Calma pessoal! Dá um espaço aí! – Gritou a poderosa voz do Junior.

As pessoas se afastaram. Renato lentamente se levantou. Estava deitado no banco de concreto armado da pracinha.

-Ai minha cabeça. – Ele gemeu.
-Acho que foi uma concussão. – Disse o velho, com a lanterninha na mão.
-O senhor é médico?
-Não… Mas eu vi que faziam isso nos filmes. – Respondeu o velho.

Renato não disse nada. Apenas olhou em volta para ver uma pequena multidão assustada, todos olhando para ele.

-O povo achou que você tinha morrido. – Disse Junior.

Renato olhou para o homem. – Cara… Eu vou te falar que quase que eu me fodi de verdade. Se eu te contar o que eu…
-O que?
-Nada. Deixa pra lá.
-Você ta se sentindo bem?
-Só um pouco enjoado. O que foi aquela gritaria lá?

Junior deu uma sonora gargalhada.

-Eu levei um susto do caramba lá dentro. Quando entrei no quarto, tinha uma quantidade enorme de cobras lá dentro. E o senhor sabe, só tem uma coisa que me tira do sério…
-Cobras? Que cheiro é esse?
-Então, os meninos entraram lá mataram tudo a paulada e fizeram uma fogueira. Tacamos as cobras no fogo.
-Mas não tinha cobra la dentro… Eu, eu… Eu entrei lá, eu vi…
-Bom, quando nós entramos tinha mais de umas duzentas cobras pretas la dentro do quarto.
-Que estranho…- Disse Renato se levantando. Ainda estava zonzo.
-Não quer sentar mais um pouco? Quer uma água?
-Não. Tô bem. Só preciso de um apoio. Meu braço ta latejando.
-O senhor caiu em cima dele. Por pouco não quebra…
-Como está a retirada do material?
-Já tiramos tudo.
-Já?
-Enquanto o senhor ficou desmaiado aí, os meninos continuaram o serviço.
-E os móveis?
-Já tá tudo no caminhão. Agora vamos derrubar essa merda toda aí.

Renato não disse nada. Apenas foi andando, mancando até o caminhão. Jamil estava acabando de desmontar uma estante para jogar no baú da carreta. Enquanto andava, renato ainda sentia as garras da criatura da escuridão apertando seu pescoço como um torno.

-E aí Jamil?
-Tá melhor, seu Renato?
-Tô… Tô bem. Meio tonto.
-O senhor deu um susto e tanto no povo aí!
-Eu não. Teu pai que deu quado gritou.
-Pois é… Ele tem esse problema com cobra.

E a cadeira do bode? Tá aí?
-Tá sim senhor. Negócio feio hein! Esconjuro!
Um grande barulho chamou a atenção dos dois. Do outro lado da praça, o casarão vinha abaixo, levantando uma enorme nuvem de poeira no ar.
-Caralho! A casa caiu! – Gritou Jamil, pulando do caminhão.
Renato e Jamil correram para a casa. Mas na nuvem branca que havia levantado não se via ninguém.

-Tinha alguém na casa? Tinha alguém? – Perguntava Renato, mas ninguém sabia dizer.
O vento da noite que se aproximava se encarregou de espalhar a poeira.

Junior estava reunindo os filhos. Felizmente ninguém havia ficado ferido quando a casa caiu.
-Como que essa porra caiu? – Perguntou Junior ao Jeremias, o filho mais forte.
Jeremias apontou a marreta de demolição com cabo de ferro.
-A casa tava toda apoiada numa única coluna. As outras eram de madeira e estavam podres. Foi só eu dar uma boa marretada no lugar certo e…

-Bom, agora que a casa veio abaixo, só resta amanhã combinar com o homem do trator e e retirar o entulho. -Disse Renato.

-Ainda bem que ela caiu logo. O meu medo era ter que ficar dando porrada nesse casarão a noite inteira. – Riu Junior.
-Bom, vamos todos para o hotel, amanhã eu acerto o lance do trator e do caminhão do entulho e vamos direto para Curitiba. -Respondeu Renato.

Junior concordou. Ele fechou o portão de metal com uma corrente e cadeado.

-Cabô a festa, pessoal! – Disse Jamil, tocando os curiosos.
Eles entraram no caminhão e ficaram esperando Renato.

Renato foi até o outro lado da praça. Seu Flávio assistia tudo distante, quase que contemplativo, de um banquinho rachado perto duma árvore seca.
-Acabou, seu Flávio. Agora é só a gente tirar o entulho e o seu estacionamento estará nascendo.
O velho apenas assentiu com a cabeça. Parecia um pouco triste.
Renato preferiu não perguntar. Estava com as assinaturas e autorizações, e assim, se despediu do idoso com um aceno.

-Até amanhã!
-Adeus. – Disse o velho, sem tirar os olhos dos escombros.

Renato correu para o caminhão, e eles partiram em direção a cidade.

Uma hora depois, Renato havia desembaraçado quartos para todos no “Hotel Bretas duas estrelas”.

Eram oito horas da noite, e ele estava tomando um banho para se encontrar com os meninos. Iriam até o Tião comer a famosa pizza do teto.

Renato saiu do banho sentindo a garganta ardendo. Olhou no espelho e viu uma mancha escurecida ao redor do pescoço.

-Não é possível essa merda. – Pensou, lembrando-se da criatura da escuridão.

Nisso, Renato ouviu batidas desesperadas na porta.
-Seu Renato! Seu Renato! Abre seu Renato!

Renato amarrou a toalha na cintura e foi até a porta. Era a voz de Jamil.
Ao abrir a porta, Renato viu Jamil pálido. O baixinho barrigudo de óculos parecia ter visto assombração.
-Que foi, homem?
-O caminhão, seu Renato! O caminhão!
-O que tem o caminhão, rapaz?
-Tem… Tem um negócio lá dentro do caminhão, seu Renato! Tá batendo na parede do baú. Ta socando direto. Mas eu que fechei o caminhão, não tinha nada lá, só os móveis da casa!
-O que?
-É verdade! Eu juro. Fui no caminhão pegar a mochila com as roupas e ouvi as batidas. Eu achei que era alguém brincando comigo, mas as batidas estão vindo do baú mesmo!
-Cadê seu pai?
-Eu chamei ele pra ver ele mandou eu vir aqui em cima chamar o senhor. Ele quer abrir o bau e ver quem está la dentro… Mas o povo fala que… É o Diabo.
-Vamos lá que eu quero ver essa merda! – Disse Renato.

CONTINUA

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10 comentários em “A cadeira obscura – Parte 9”

  1. “-Bom, vamos todos para o hotel, amanhã eu acerto o lance do trator e do caminhão do entulho e vamos direto para Curitiba. -Respondeu Renato.”

    Vixe, eu moro em Curitiba! Onde fica a loja do Renato? Me passa aí o endereço! kkkkkk

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