A busca de Kuran – Como eu conheci Leonard

É engraçado escrever sobre alguém tão importante. Durante anos eu hesitei se deveria fazer isso ou não. Hoje, após pegar o maldito exame e ler o que havia nele, sinto o bafo frio da morte resfriar meu pescoço e como nunca, a vontade de contar aquilo que vivi esteve tão forte no meu coração. Mas eu não faria isso a toa.

Eu não perderia meu tempo contando sobre minha relação com Leonard, nossa história juntos e todos os problemas e apertos que passamos juntos se não fosse algo absolutamente necessário para que meu sobrinho entenda porque tomei certas decisões. E torço para que as decisões que ele venha a tomar depois disso sejam as corretas.

Se Leonard estivesse aqui hoje, com toda razão não iria gostar que eu contasse certas coisas sobre ele e sobre nossa amizade. Leonard foi muito mais que um simples amigo pra mim.

Hoje eu olho pela janela da universidade onde há muito dou aulas e me pego lembrando de como eu escapei da morte. E escapei da morte muitas vezes.

É difícil de acreditar nisso até mesmo pra mim, quando me olho no espelho e vejo aquela múmia com o qual me encontro diariamente pela manhã.

Enquanto penso como escreverei a minha aventura, sentado no silêncio do meu gabinete, minha mão velha e cheia de rugas e manchas tenta segurar a caneca com o chá fumegante. Refletindo da superfície do líquido eu vejo o lustre. E meu Deus, como o reflexo treme!

Mas houve um tempo, muitos e muitos anos atrás, quando eu ainda não tremia feito uma vara verde e não era este monte de ralos cabelos brancos, rugas, pés de galinha e manchas.  Um tempo em que eu era jovem, inocente, crédulo e forte.

Minha vida seria normal como a de qualquer pessoa comum se eu não tivesse conhecido aquele homem. Aquele dia amanheceu com os fortes raios de sol do verão entrando pela janela sem cortinas. Era um amanhecer como muitos outros, mas eu acordei diferente. Geralmente, eu acordava bem disposto e animado, mas naquele dia, tudo parecia estranhamente mais triste. Levantei para ir trabalhar ainda morrendo de sono. Eu era ajudante de uma floricultura. Eles me chamavam de auxiliar geral, mas a verdade dos fatos é que eu era um carregador de merda. Eu pegava sacos de esterco e levava para os clientes de bicicleta. A merda do boi era usada como fertilizante nos jardins dos ricaços.

Nunca fui rico. O pouco dinheiro que eu ganhava era sempre usado para comprar algumas roupas, pagar o aluguel do quartinho onde eu me hospedava, e eventualmente, comprar um gibi. Eu comia numa pensão ao lado da floricultura e minha vida se resumia a ir do quarto pra loja e da loja pra pensão e então da pensão para o quarto. Só nos domingos, eu ia a missa. Nunca fui religioso. Eu ia a missa só para ver as meninas. O domingo era o dia em que eu me permitia algumas coisas diferentes como tomar um sorvete, ir na praça e eventualmente tomar um banho no rio. Mas o mais comum era que eu pagasse um ingresso para ver os filmes na matinê.

Mas voltando ao fatídico dia em que conheci Leonard, eu estava na floricultura e enquanto empilhava uns sacos de esterco, ouvi uns passos vindo do interior da loja. Com o canto do olho reparei que uma mulher muito bonita tinha entrado na loja. Seu Epaminondas, um português muito sério e sisudo, que era o dono da Floriocultura Bragança se apressou em atender.

Ela falava baixo e pelo tom da voz dela eu percebi que tinha dinheiro. Mulheres de dinheiro sempre falavam pra dentro. Ela pediu a seu Epaminondas um arranjo floral muito caro que havia na vitrine. Ele a tratou como se tratasse uma rainha. Epaminondas era um velho odioso e ríspido que diariamente me xingava de todos os impropérios que uma mente maldosa poderia criar. Dizia que eu era molenga, que eu era fraco e burro.

Eu odiava aquele desgraçado maldito e quando ouvi pela primeira vez o velho falar como se falasse com uma rainha, mal pude acreditar. Eu vi ele ser gentil pela primeira vez na vida.

Eu olhei para trás e lá estava a mulher, enfiada num belo vestido de veludo preto. Ela esperava que seu Epaminondas retirasse o arranjo enorme da vitrine. E então ela olhou pra mim e sorriu.

Acho que foi a primeira vez na minha vida que uma mulher daquele porte me sorriu. Eu fiquei sem saber o que fazer. Sorri de volta, meio sem graça.

Nem sei quanto tempo passei perdido no meio dos olhos verdes daquela mulher. Eu sentia que ela estava me vendo por dentro. Era uma sensação estranha, como cair num buraco escuro.

Só acordei do transe quando os tradicionais gritos do senhor Epaminondas ecoaram na loja.

-Wilson! Wilson, seu molenga!

-Hã? Sim, sim senhor? – Eu respondi indo até o balcão.

-Leve o arranjo até o carro da senhora Grutzmann!

-Sim senhor! – Eu respondi. Peguei o arranjo do balcão. Era mesmo pesado para uma mulher. Ela ficou em silêncio durante todo o tempo, apenas me olhando com aqueles olhos verdes penetrantes.

Agradeceu ao senhor Epaminondas com a tradicional voz baixa. Estendeu-lhe as notas de dinheiro e saiu da loja, como uma sombra silenciosa, voando baixo atrás de mim.

Ao sair, notei um carro preto, muito bonito parado à frente da loja. Não lembro mais a marca nem o modelo, mas era um daqueles que só os ricos tem. A porta se abriu e saiu um homem de quepe. O homem deu a volta no carro e pegou o arranjo de flores de minhas mãos como se ele pesasse uma pluma.

O homem não disse nada. Apenas acondicionou o arranjo no porta-malas do carro.

Enquanto ele guardava o arranjo, a senhora Grutzmann olhou novamente pra mim e tornou a sorrir. E então ela falou comigo.

-Obrigada… Menino.

A palavra “menino” na frase daquela mulher tão deslumbrante que parecia ter saído da tela do cinema penetrou como uma faca no meu peito. Custei um pouco a notar que ela me estendia um papel dobrado. Ela agitou a mão e eu notei. Era uma nota de grande valor, dobrada ao meio.

Agradeci com a cabeça e enfiei a nota no bolso.

O chofer da senhora Grutzmann chegou perto de nós e abriu a porta de trás do automóvel. Ela entrou, ele retomou seu lugar à direção e ambos partiram. Só tive coragem de colocar a mão no bolso e apertar a nota quando o carro preto dobrou a esquina.

Era uma nota de cem. Fantástico! Com aquilo eu poderia comer no melhor restaurante da cidade e ainda sobraria dinheiro para comprar rou0pas novas.

E foi então que as coisas começaram a ficar estranhas. No meio da nota, havia um pequeno papel dobrado. Nele, escrito com caneta tinteiro, um endereço. Mas até aí tudo bem. O problema era o que havia do outro lado. Era um bilhete pra mim.

“Wilson,

Venha à minha casa hoje à noite, 20:30. Quero lhe apresentar uma pessoa. Por favor, não falte ou terei que comprar outro arranjo de flores idiota. O endereço está no verso.

Ass: Michelle Grutzmann”

Como você já pode imaginar,  mal podia acreditar nos meus olhos. A Senhora Grutzmann havia ido à loja apenas para me entregar a missiva. Mas o que ela haveria de querer me dizer? Porque simplesmente não me chamou lá fora e disse que queria que eu fosse até sua casa? Pelo endereço, eu pude perceber que o imóvel era um palacete em estilo neoclássico, encravado no meio de um imenso jardim, rodeado por muros altos e grades de ferro pretas. Eu sempre olhava para aquele lugar estranho e tenebroso quando ia entregar as flores da Senhora Ruppert no fim daquela rua. Eu não imaginava que num lugar tão estranho morasse uma mulher tão linda.

-Ainda está aí? Se mexe, imbecil! Não te pago salario pra ficar olhando a rua! – Gritou seu Epaminondas da porta da floricultura.

-Sim senhor. – Gemi entre os dentes.

Eu senti raiva dele quando as pessoas que passavam olharam pra mim com a expressão de desdém. Guardei o bilhete no bolso, baixei a cabeça e voltei para o meu trabalho, literalmente,  de merda.

Quando o expediente acabou, eu fui até o quartinho que alugava, duas ruas depois da loja. Tomei um banho e saí para gastar a minha rica comissão de carregador.

Comprei uma camisa e calças novas. O dinheiro deu para adquirir também um chapéu panamá que eu estava namorando fazia meses. Eu não tirava o bilhete e seu conteúdo misterioso da cabeça.

Por que alguém tão rica, tão bonita e tão poderosa ira querer me apresentar alguém? Eu não era nada. Eu não era ninguém. Eu não tinha nem certeza se poderia me considerar gente de verdade.

Voltei com as compras para o quartinho e olhei às horas. Ainda eram seis e pouco da tarde. O tempo parecia ter ficado congelado. Não passava. A ansiedade por saber a natureza daquele estranho bilhete havia me dominado por completo. Tomei outro banho, coloquei minha roupa nova.Vesti o paletó de ir na missa. Arrematei com meu chapéu panamá.

Eu me olhei no espelho partido da porta do armário e o que vi foi um rapagão bonito, capaz de arrancar suspiros das meninas na igreja, mas que ao mais treinado olhar revelava um jeito brejeiro de menino do interior, e cujos sapatos surrados e sujos de poeira teimavam em denunciar minha origem humilde de imigrante. Eu, o vulgo “Zé ninguém”. Daquele tipo onde o provérbio “Que não tem onde cair morto” se aplica em toda sua crueza.

Mas eu não iria esmorecer só porque não podia comprar sapatos de lustro como o dos jovens mancebos ricos do Country Club. Eu devia a mim algum amor próprio. E sabia que aquele era só o primeiro passo da minha jornada rumo ao desconhecido. Algum valor eu devia ter para atrair a atenção de tão formosa dama.

Sentei-me na cama com o bilhete nas mãos. Senti o perfume dela no papel.

E ali eu hesitei. Devia ir? Devia atender a aquele chamado estranho e misterioso?

As horas não passavam. Eu estava sendo carcomido pela mais obscura curiosidade.

Levantei-me da cama de ferro e sai do quarto. Ganhei a rua. O vento frio da noite paulistana quase me arranca o panamá. Ouvi o sino e consegui correr a tempo de pegar o bonde. Aquele era um tempo conturbado na cidade. A Guerra Paulista havia acontecido fazia poucos meses e as pessoas ainda temiam explosões nas ruas.

Quando cheguei em frente ao casarão, faltavam poucos minutos para a hora combinada. De imediato notei vários carros caros parados junto a calçada. Parecia noite de festa.

O casarão estava iluminado e escutei pessoas rindo e musica tocando lá dentro. Na porta, um homem negro trajando um uniforme mais bonito e impecável que minha roupa nova me interpelou.

-Seu nome?

-Wilson.

-Wilson de que?

-Wilson Faria. – Eu disse meio sem jeito. Ele olhava num bloco. Ficou assim por um longo e interminável tempo. Tive medo que meu nome não estivesse na lista e o sujeito me considerasse um furão.

Finalmente, voltei a respirar quando ele achou o nome.

-Wilson… Da floricultura. É o senhor?

-Sim, sim senhor! – Eu sorri apressado. O homem me olhou de cima abaixo, notando claramente que se eu o chamava de senhor não era um daqueles ricos e esnobes aristocratas que bebiam uísque escocês nos palácios laqueados. Ele apenas saiu da minha frente e estendeu a mão com luva imaculadamente branca em direção à casa, que mais parecia um palácio.

À medida em que eu me aproximava daquela casa, observava os pequenos detalhes da construção, as inúmeras janelas, o jardim impecavelmente romântico e o som melodioso das notas de piano.

Quando adentrei o salão principal, vi inúmeros convidados. Todos bem vestidos, todos felizes. Um pequeno trio formado por um violoncelista, um pianista e um violinista executavam música de câmara perto de uma janela.

Pendurei meu chapéu perto da entrada, e ingressei na casa. Imediatamente uma pessoa se aproximou e eu achei que seria alguém para me dizer que eu havia sido convidado por engano. Eu temi que fosse alguém que ia me expulsar, mas ao contrario, a pessoa me estendeu uma taça de vinho branco. Agradeci e segurei a taça de vinho firmemente. Passei alguns minutos admirando o interior da casa, que mais se assemelhava a um palácio.

Muitas pessoas conversavam animadamente, mas eu tinha dificuldade em me enturmar. Então, para disfarçar minha condição de estranho naquele ninho, me aproximei do sofá e fiquei admirando os músicos.

Após duas ou três brilhantes execuções, eu notei que um homem velho estava de pé ao meu lado. Ele tinha fartos bigodes brancos com as pontas viradas para cima. Eu pensei em falar alguma coisa, mas tive medo. E para minha sorte, o velho quebrou o gelo ao comentar:

-Belíssima execução, não é meu jovem?

-Sim senhor. Lindo.- Eu respondi já antevendo a próxima pergunta, ao qual, na época me faltava cultura para responder apropriadamente.

-Gosta de clássicos?

-Sim senhor.

-Meu nome é Bernard Fontoura da Silveira Guedes. Comendador.- Ele estendeu a mão.

Apertei-lhe a mão. O velho tinha um aperto forte e vigoroso.

-Meu nome é Wilson…

-Wilson? – Ele perguntou sorrindo, esperando um emblemático sobrenome de família tradicional. Eu tive medo. Um misto de medo e vergonha e falei:

-Wilson Pinto de Faria. Eu lido com… Plantações e coisas de gado.

O homem sorriu.

-Ah, fazendeiro!

Eu não disse nada. Virei-me para a musica.

-Diga, Wilson… Qual seu preferido?

-Chopin. – Eu disse, tentando parecer culto. Na verdade eu apenas conhecia Chopin porque o seu Epaminondas tinha uma velha vitrola e colocava este disco para tocar de segunda a segunda. Infelizmente, fui traído pela minha inocência ao pensar que poderia ludibriar uma figura daquelas.

-Chopã! – O homem me corrigiu. E só então eu – o burro – notei que o nome do pianista era francês.

Pego desprevenido, com a ignorância e pobreza de espírito estendidas ao meu redor, balancei duas vezes a cabeça e engoli um generoso gole de vinho, na tentativa vã de afogar a vergonha no álcool.Voltei-me para os músicos.

O homem me olhou de lado. Senti a mão pesada dele atingir meu ombro.

-O nome não importa, garoto! O importante é o som da musica. E é lindo!

Subitamente a musica parou. As pessoas todas pararam de falar e olharam para o alto. E foi ali que eu vi, no alto da escada, a mulher mais bonita da face da Terra, descendo, degrau. Seus pés delicadamente pisando degrau a degrau o mármore branco. Era Michelle Gruntzmann. Ela desceu e cumprimentou vários convidados. A musica recomeçou, mais animada e os garçons surgiram trazendo bandejas de prata com comidinhas diversas.

Tomei mais vinho.

À medida em que o álcool corria solto na festa, as pessoas iam ficando mais à vontade e não tardou para que eu acabasse envolvido num grupinho de homens de negócios que discutiam estratégias financeiras, citando nomes de pessoas ao qual eu nunca havia ouvido falar. Eu apenas sorria e concordava. Eventualmente um deles contava uma piada ou revelava alguma curiosidade e todos riam. Eu inclusive.   Em vários momentos me senti tão à vontade que parecia completamente compreensível a minha presença naquela festa da elite paulistana. Banqueiros, médicos, advogados, homens da política, fazendeiros, intelectuais diversos. Era um sem numero de pessoas interessantes, todas muito mais interessantes do que eu, girando ao meu redor.

Enquanto os homens conversavam meus olhos se cruzaram com as duas esmeraldas faiscantes que haviam me queimado por dentro na porta da floricultura.

-Como vai, Wilson? – Ela perguntou com sua voz aveludada.

-Muito bem, senhora Gruntzmann. Obrigado pelo convite.

-Está muito bonito meu jovem.

-Ah, bondade sua. Mas é pena que eu não possa dizer o mesmo da senhora…

A mulher arregalou os olhos de assombro. Minha frase soava como uma vergonhosa falta de educação. Ela buscou o ar, arfando o peito quando eu completei:

-…Pois a senhora está deslumbrante. A mera beleza é para nós os mortais comuns. – Eu acabava de dizer aquilo e já sentia o arrepio do arrependimento se depositando sobre mim. Só tornei a respirar quando vi que a senhora Gruntzmann abriu um maravilhoso sorriso e soltou uma discreta gargalhada.

-Nem tão comuns assim, Wilson. Bem, meu jovem, venha aqui um instante, eu quero lhe apresentar uma pessoa.

Ela me agarrou pela mão e me puxou por entre os convidados. Atravessamos a sala ante muitos olhares. Eventualmente ela parava com um ou com outro. E em momento algum largou da minha mão.

Ela foi andando e subitamente parou com aquele velho de bigode que havia conversado comigo horas antes.

-Comendador! Que prazer.

-Está maravilhosa, Michelle. Queria que seu pai estivesse aqui para vê-la.

-Como vai, meu jovem.

-Então já conhece o Wilson? – Ela perguntou.

-Ah, sim. Já conversamos um pouco sobre musica e as fazendas dele, não é?

-Fazendas? – Ela se virou pra mim. E eu apenas sorri.

-Bem, comendador, fique à vontade. Vou levar o Wilson para apresentar a um amigo. Eu já volto.

-Perfeitamente, senhora.

Enquanto andávamos, pelo corredor em direção a uma grande varanda, ela se virou e perguntou:

-Fazendas?

-Eu não disse isso. Ele concluiu. Eu disse que lidava com plantações. – Falei meio acabrunhado.

Michelle tornou a sorrir.

Quando chegamos na varanda, vi um homem que olhava para o céu estrelado. Ele certamente tinha o dobro da minha idade e também exibia um ar austero.

-Leonard! – Ela disse.

-Michelle. Quanto tempo. – Leonard a abraçou.

-Este é Wilson.

-Como vai, rapaz. Eu sou Leonard.

-Vou bem.

-Leonard, converse com o Wilson. Eu vou até ali falar com o General Tomás Peixoto de Albuquerque e volto daqui a pouco.

-Perfeitamente.

-Com licença, Wilson.

-Toda, senhora.

Michelle entrou na casa e fechou a porta da varanda. Após a mulher sair, o tal Leonard me deu uma cotovelada de leve e comentou:

-Uma mulher e tanto, né?

Eu fiquei sem ação. Ele parecia conhecer a senhora Gruntzmann e eu não queria parecer indelicado com a minha anfitriã. Apenas abanei a cabeça.

Leonard era um homem sério. Seus cabelos naquela altura já eram bem grisalhos. E ele vestia uma roupa bastante elegante.

-Então… No que posso lhe ajudar, senhor?

-Estou montando uma expedição. Preciso de uma pessoa de confiança.

-Expedição?

-Sim. Uma expedição ao lugar mais distante e perigoso da Terra, meu jovem.

-Antártica?- Perguntei inocentemente.

-Não. É também um deserto, mas em outro lugar… Bem mais quente. – Ele disse. E foi assim que eu descobri que a terra de gelo no topo do planeta era também um deserto. Aquela foi a primeira de incontáveis lições que Leonard me deu, sem que precisasse dizer isso claramente. Leonard tomou um gole do vinho e tornou a falar.

-Você acredita em Deus?

-Sim senhor.

-De verdade?- Ele questionou olhando diretamente nos meus olhos.

-Bem… Não sei, senhor. – Eu tive medo e confessei. Temi ser mal visto por ele. – Minha fé é um problema, senhor?

-Ótimo. – Ele riu.

-Hã?

-Você não mentiu. Não quero alguém que minta.

-Ah, mas eu, eu não posso… – Comecei a me desculpar com ele.

-Não pode o que? – Leonard me interrompeu.

-É que eu tenho um emprego lá na floricultura e…

-Esqueça o seu emprego. De agora em diante você trabalha pra mim. – Ele disse, retirando do bolso do casaco um enorme rubi, delicadamente lapidado. Eu não fazia a menor ideia do valor daquela gema, mas sabia que era tão valiosa que apenas os reis poderiam comprar.

Ele agarrou minha mão e colocou a pedra no centro da minha palma.

-O que é isso?-Perguntei.

-Rubi. – Ele disse, enquanto olhava atentamente para a pedra.

Eu olhei também e vi como ela era magnífica. A jóia era enorme e ocupava em quase a totalidade a palma da minha mão.

-Pare. Não se mova. Não toque. Nem respire. – Ele disse, segurando minha mão com força. ENtão pegou do bolso uma moeda que tinha um buraco quadrado no meio e passou ela em volta da minha cabeça. EM seguida guardou. O homem sussurrou alguma coisa que eu não entendi naquela hora. E eu senti o rubi esquentar.

-Tá ficando quente! – Eu disse, meio estupefato.

-Eu sei. – Ele respondeu secamente.

O rubi começou a ficar cada vez mais e mais quente.

-Ai! Tá me queimando, moço. – Eu gemi. Mas ele estava segurando firme o meu braço contra o parapeito da varanda.

-Aguenta até onde puder. – Ele se limitou a dizer enquanto jogava o peso sobre o meu braço. A pedra começou a queimar. Fechei os olhos. Eu sentia a mão ardendo em carne viva. A dor era insuportável. Parecia uma pedra em brasa. Ouvi o som de carne fritando e  a fumaça. Aguentei até onde pude. A dor era insuportável e comecei a gritar.

-Calma. Não grite. Os convidados vão ouvir- Ele falou no meu ouvido. Mas a dor era absurda. Eu senti um misto de medo, indignação e desespero. Aquela merda fritando a minha mão e o cara pensando no que os convidados bacanas iriam pensar… Eu achei  que fosse desmaiar. Abri os olhos e vi assustado que uma labareda surgia na palma da minha mão. E assustado eu gritei mais. Leonard tampou a minha boca.

-Cala a boca! Fica calmo. Já vai acabar!  – Ele disse.

O fogo subitamente ficou azul e parou de queimar imediatamente. Então reduziu de tamanho e quando eu vi, a pedra, que poucos minutos antes era vermelha, agora estava azul. E não havia nem dor nem queimadura. A pedra azul era até mais fria. Então ele me soltou.

O tal Leonard parecia feliz.

-Ótimo! Você passou.

-Hã?

-Guarde a pedra, Wilson. Ela é sua. Guarde-a para sempre.

Eu guardei a pedra no bolso, meio sem entender o que havia se passado. A porta da varanda se abriu e Michelle Gruntzmann reapareceu.

-E aí Leonard? – Ela perguntou com expressão apreensiva.

-Ele passou. – Leonard falou.

-Ah! Eu sabia! Eu sabia! – Ela sorriu animada. E em seguida ela me abraçou. Eu achei que ia ter um enfarte.

-Senhora Gruntzmann… Eu não estou entendendo nada… – Eu disse a ela, mas não adiantou. Ela não me disse nada. Apenas sorriu.

Aquela era definitivamente a noite mais estranha da minha vida.

A senhora Gruntzmann nos levou lá pra dentro e eu fui junto com Leonard para o segundo andar, onde uma série de homens estava reunida na biblioteca. A festa lá em baixo estava animada e aqueles homens estranhos pouco falavam na biblioteca escura.

A sala estava iluminada apenas com luzes de velas. Contei de imediato cerca de seis homens. Todos velhos. Um deles tinha um cabelo comprido, todo branco. Era fantasmagórico.

Michelle era a única mulher. Ela fechou a porta da biblioteca e falou um monte de coisa em latim. Eu não sabia latim, e talvez por isso tenha ficado boiando a maior parte do tempo. Mas percebi que aquilo não se tratava de uma reunião corriqueira. Embora eu fosse um jovem de 19 anos ignorante e carregador de merda, não precisava ser muito inteligente para notar que a festa era um mero disfarce para reunir um grupo de pessoas que de outra forma não poderiam ser vistas juntas. Os homens pouco falaram.

A mulher pegou uma espada dentro de um baú que estava junto a parede e estendeu para Leonard.

Leonard levantou a espada para o céu e falou uma série de coisas que eu também não entendi nada. Tive a impressão que a espada estava brilhando fracamente.

Os homens entoaram um cântico. E eu fiquei quieto, apenas assistindo. Leonard tocou a testa de um a um com a ponta da espada e em seguida, devolveu a espada para a senhora Gruntzmann.

Subitamente um vento gelado se espalhou pela sala e alguns papéis que estavam sobre a escrivaninha chegaram a voar. Como as janelas estavam fechadas, e eu percebi de imediato que estava diante de um fenômeno sobrenatural.

Leonard se aproximou de um por um. Os homens, todos bem velhos, o abraçaram. Leonard agradeceu falou mais um monte de coisas em uma língua desconhecida, e saiu da biblioteca, me arrastando pelo braço.

A senhora Gruntzmann e os homens velhos ficaram na biblioteca.

-Vem.- Ele disse.

-Mas… Calma. O que está acontecendo aqui? O que foi aquilo?

-Um ritual. Estou liberado para seguir com minha missão.

-Ritual? Missão?

-Sim. Vamos.

Eu poderia ter ficado, ter puxado meu braço e considerado aquilo uma dessas maluquices bizarras que acontecem uma vez na vida, mas movido pela curiosidade, e também pelo medo, eu concordei e segui Leonard.

Leonard desceu as escadas, passou pela festa, pegou o chapéu e o casaco dele. Eu peguei meu chapéu panamá novinho em folha e saímos.

Caía a tradicional garoa paulistana. A noite era fria.

Leonard andou em silêncio pelo jardim escuro, ignorando solenemente minhas perguntas,  até chegar ao portão, onde um homem alto e pálido o aguardava.

-Fritz, pegue o carro.

-Sim, senhor.- Disse o homem. Ele foi até o fim da rua e depois de alguns minutos, um carro surgiu na esquina. O motorista desceu e abriu a porta.

-Entre. – Disse Leonard, me apontando o interior do carro.

-Hã? Como assim? Onde vamos, senhor Leonard?

– Vamos para o deserto do Talkimakan.

-Hã? Fazer o que em … Que lugar é esse? – Eu disse, entrando no veículo.

-Fica na China.

-Quê? E vamos fazer o que lá? – Perguntei, desesperado.

-Vamos matar um demônio.

CONTINUA

Artigos relacionados

Comments

comments

17 comentários em “A busca de Kuran – Como eu conheci Leonard”

  1. Sabe philipe, você escreve incrívelmente bem.
    Você deveria lançar alguns livros de histórias (além do mundo gump), iguais esta, a do zumbi, cartão negro, e afins.

    Caí aqui de para-quedas a aproximadamente um ano atrás, e des de então sou leitor fiel do seu blog.
    Entro diariamente, duas vezes ao dia, só para ver se você postou mais um dos seus incríveis contos.

    Parabéns Philipe.
    Você merece.

  2. concordo com o Bruno, lançar um livro com os seus contos, iria ser espetacular.

    Philipe, escreve de um jeito emocionante, me lembrou muito os contos de Sherlock Holmes, descreves as cenas perfeitamente, e à alguma formalidade nas falas, o mistério é o ponto central da história, isso só me faz querer ler mais, continue com essa incrível história.

    • Fico feliz que tenha gostado. Não sei se alguém reparou, mas este conto é (não necessariamente uma continuação) ligado diretamente a serie do Caçador. Que está aqui ao lado ———————->

  3. se você fizesse livros dessas suas histórias, comcerteza seria um autor muito popular, já que o assunto dos seus livros fascinam muitas pessoas 

  4. Descobri seu blog por acaso pesquisando casos de ufologia e acabei enveredando para animais estranhos (fotografo insetos) e de repente encontro seu conto e que surpresa deliciosa! A internet consegue nos surpreender. Comecei a ler seu conto A busca de Kuran e estou encantada. Sou jornalista e adoro literatura e seu texto he muito bom (nao tem acento no meu teclado).  Enfim parab~ens. Estou muito feliz com esta descoberta e ja salvei seu endereco. Vou continuar a leitura.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.