Tarrare, o glutão esfomeado que desafiou os limites do bizarro

Ele comia de tudo, sem preconceito. Conheça o maior glutão que já existiu.

O mundo está repleto de figuras históricas curiosas, e uma das mais intrigantes é, sem dúvida, Tarrare, o glutão francês. Neste artigo, mergulharemos nas profundezas da vida e peculiaridades desse personagem extraordinário que desafiou os limites do apetite humano. Prepare-se para uma jornada única pelo bizarro universo de Tarrare.

O que é um glutão?

Um “glutão” é alguém que tem uma propensão excessiva ou voraz para comer, caracterizado por um apetite insaciável e um consumo desmedido de alimentos. Essa palavra é comumente utilizada para descrever uma pessoa que demonstra uma tendência extrema para a gula, consumindo grandes quantidades de comida de maneira compulsiva.

O termo também pode ser usado de forma mais ampla para se referir a alguém que é ávido ou voraz em relação a qualquer tipo de consumo excessivo, não apenas alimentar.

Quem foi Tarrare?

Tarrare, nascido por volta de 1772 na França, sempre foi um moleque diferente. Ele comia insanamente dentro de casa. Sua capacidade de comer grandes quantidades de carne, e o fato de que estava permanentemente faminto, levou aos seus pais perceberem que não podiam sustentá-lo.  Então ele deixou sua família ainda na adolescência. Viajou pela França na companhia de uma gangue de ladrões e prostitutas até se tornar um charlatão viajante; ele engolia rolhas, pedras, animais vivos e um numero que o tornou famoso era quando engolia uma cesta cheia de maçãs.

Tarrare
Tarrare

Foi, então, para Paris, onde trabalhou como um artista de rua. Ele ganhou fama durante o final do século XVIII devido ao seu apetite insaciável e comportamento peculiar.

você talvez se espante com o fato de que apesar de comer sem parar, o Tarrare era magro! Isso contrastava drasticamente com sua capacidade de consumir quantidades absurdas de comida.

O Apetite Insaciável: Um Fenômeno Único

Desde jovem, Tarrare demonstrou um apetite insaciável, devorando quantidades que deixavam seus contemporâneos perplexos. Ele frequentemente buscava comida em lixeiras e era capaz de engolir pedaços consideráveis de carne crua sem mastigar.

Uma coisa extremamente intrigante a respeito de Tarrare era que ele não conseguia parar de comer. Estava sempre fraco e desesperado de fome, por mais que comesse montanhas de comida, que ele garimpava até em lixões.

Ele comeu a comida de 15 homens de uma só vez

Sua condição continuava se deteriorando pela fome. Sofrendo de exaustão, ele foi hospitalizado e se tornou objeto de estudos e experimentos médicos para testar sua capacidade de comer, nos quais, entre outras coisas, Tarrare comeu uma refeição que serviria 15 pessoas de uma só vez. Mas não só isso. Ele comeu gatos, cobras, lagartos e até filhotes de cães vivos e, até mesmo, uma enguia inteira sem sequer mastigar.

Apesar de sua dieta incomum, Tarrare tinha tamanho normal e não aparentava sinais de doença mental, apesar de ser descrito como uma pessoa de “temperamento apático”.

Experimentos Médicos e a Busca por Saciedade

Tarrare

Intrigados por seu apetite sem fim, médicos e cientistas começaram a realizar experimentos em Tarrare para entender a origem de sua condição. Apesar de testes e observações, a verdadeira causa de sua fome constante permaneceu um mistério até hoje.

Uma ideia genial: empregar o cara no exército!

O general Alexandre de Beauharnais decidiu utilizar as habilidades de Terrare, então ele foi empregado como mensageiro pelo Exército Revolucionário Francês.

Mas por que eles queriam empregar um maluco que podia comer a comida de 15 soldados? Isso não era prejuízo? 

De fato, o Tarrare comia feito um desgraçado, mas não era exatamente pelo apetite que eles o empregaram no exército, mas sim por sua capacidade de engolir coisas grandes sem mastigar.

A ideia era que ele poderia engolir documentos, passar através de linhas inimigas e vomitá-los, uma vez a salvo em seu destino.

Tarrare foi convocado pelo general Beauharnais para demonstrar suas habilidades perante uma reunião dos comandantes do Exército do Reno. Depois de ter engolido uma caixa contendo um documento secreto que foi recuperada com sucesso, Tarrare recebeu um carrinho de mão com 14 quilos de pulmões e fígados crus de touro como recompensa, que imediatamente comeu na frente dos generais reunidos.

A primeira missão

Tarrare recebeu a ordem, como sua primeira tarefa, de levar uma mensagem para um coronel francês preso pelos prussianos perto de Neustadt; foi informado de que os documentos eram de grande significado militar, mas, na realidade, Beauharnais enganou Tarrare, que levou dentro de si uma nota perguntando ao coronel para confirmar que a mensagem foi recebida com sucesso e, se assim fosse, que devolvesse uma resposta de qualquer informação potencialmente útil sobre movimentos de tropas prussianas.

Infelizmente, Tarrere não falava alemão, e logo na sua primeira missão foi capturado pelo exército da Prússia. Aí vem uma parte engraçada da história desse cara:

Ele achava mesmo que tinha na barriga informações valiosas. A principio, Tarrare aguentou a tortura para não revelar o segredo de sua missão, mas conforme o negócio evoluiu e ele achou que iam matar ele, acabou revelando que tinha “segredos valiosos” em uma caixa que ele engoliu. Então o inimigo mandou acorrentá-lo numa latrina e esperaram 40 horas até ele evacuar a caixa com o “tal segredo importante”.  Imagino que os generais prussianos estavam empolgados para saber o que poderia haver dentro daquela caixa repleta de cocô. Ao recuperarem o nauseabundo documento secreto, a surpresa: Não era nada demais além de um “você recebeu nossa mensagem?”

Imagino como os caras da Prússia devem ter ficado putos com isso.

Tarrare foi levado para uma forca e uma corda foi colocada ao redor de seu pescoço. (Algumas fontes afirmam que o general inimigo, Zoegli nunca recuperou a tal caixa, já que Tarrare teria se recuperado e comido as próprias fezes que continham a caixa antes de poder ser apreendida pelos prussianos.)

Seja como for, no último minuto, Zoegli cedeu e Tarrare foi retirado da forca e deixado perto das linhas francesas. Eles devolveram o maluco!

Após este incidente, Tarrare estava desesperado por evitar o serviço militar e voltou para o hospital, dizendo a Percy que tentaria qualquer coisa possível para curar o seu apetite incontrolável.

Assim, ele concordou em se submeter a diversos procedimentos que poderiam curar seu apetite, sendo tratado com láudano, pílulas de tabaco, vinagre de vinho e ovos levemente cozidos.

Nada deu certo

Ele passou a tentar comer os defuntos no necrotério!

Os procedimentos falharam e os médicos não conseguiram mantê-lo em uma dieta controlada; ele voltou a vasculhar por restos de comida lixos de em açougues e chegou a tentar beber o sangue de outros pacientes no hospital, além de comer corpos no necrotério. Após se tornar suspeito de comer uma criança de 1 ano e 2 meses, foi expulso do hospital.

Tarrare reapareceu anos mais tarde em Versalhes sofrendo de uma severa tuberculose, morrendo pouco tempo depois, tendo sofrido de uma diarreia brutal em decorrência de comer alguma coisa muito lazarenta que ninguém sabe bem o que foi, mas a julgar por ele ter comido defuntos… Você pode imaginar que esse cara não tinha limites.

Tarrare acreditava que tinha ficado doente depois de comer um garfo dourado que devia estar agarrado dentro dele. Mas logo perceberam que ele estava com tuberculose avançada, num grau irreversível.

Decadência e Morte Prematura

A vida de Tarrare foi marcada por uma decadência progressiva. Seu corpo esquelético, devido à sua condição médica desconhecida, tornou-se cada vez mais frágil. Ele sofria de diarreia constante, e seu hálito exalava um odor insuportável.

Em 1798, aos 26 anos, Tarrare faleceu, deixando para trás um legado de mistério e espanto.

Possíveis causas médicas? Um enigma não resolvido

O artigo original do barão Percy sobre a história médica de Tarrare, Mémoire sur la polyphagie (1805).

Apesar dos avanços médicos desde a morte de Tarrare, a verdadeira causa de seu apetite insaciável permanece desconhecida. Teorias sugerem condições como polifagia extrema ou síndrome de Prader-Willi, mas nenhuma explicação conclusiva foi encontrada.

Tarrare era um homem magro e de estrutura média, mesmo com sua dieta incomum. Aos 17 anos, pesava apenas 45 kg. Sua aparência incluía cabelos claros excepcionalmente suaves, uma boca anormalmente grande com dentes manchados e lábios quase invisíveis. Quando não estava se alimentando, sua pele ficava tão solta que poderia ser puxada do abdômen e envolvida ao redor da cintura, como uma borracha mole. Após as refeições, seu abdômen distendia-se como um balão, e sua pele enrugada nas bochechas podia segurar ovos ou maçãs. Ele tinha um odor corporal insuportável, agravado após comer, quando seus olhos e bochechas ficavam avermelhados, ele se tornava letárgico e depois, sofria de diarreia crônica.

Apesar da ingestão massiva de alimentos, não apresentava sinais de doenças mentais, exceto por um “temperamento apático”. Sua apatia, eu acredito, se dava em duas fases. Quando estava sem comer ele estava em agonia, fraco. E depois de comer, estava como uma sucuri, com o bucho tão cheio que mal conseguia falar.

A causa de seu comportamento não é conhecida, e especula-se que ele poderia ter uma amígdala danificada. O hipertireoidismo, que induz um apetite extremo e perda de peso rápida, também foi considerado como uma possível explicação. Não há casos modernos semelhantes a Tarrare, e outros comportamentos parecidos na época não foram autopsiados.

Ele estava pode por dentro

A autópsia daquele corpo revelou algo realmente anormal:

Um mês depois de aparecer pedindo ajuda no hospital, Tarrare começou a sofrer de diarreia exsudativa contínua. Seu cadáver apodreceu rapidamente; os cirurgiões do hospital se recusaram a dissecá-lo.

Tessier, no entanto, queria descobrir como Tarrare diferia das outras pessoas internamente e também estava curioso sobre se o tal “garfo dourado” que poderia estar agarrado dentro do corpo daquele homem.

Na autópsia, ele descobriu que o esôfago de Tarrare estava anormalmente largo e, quando seus maxilares foram abertos, os cirurgiões podiam ver um canal largo no estômago.

Seu corpo estava cheio de Pus

Seu corpo foi encontrado cheio de pus, seu fígado e vesícula biliar eram anormalmente grandes e seu estômago, era colossal, coberto de úlceras e preenchendo a maior parte de sua cavidade abdominal.

O garfo, nunca foi encontrado.

Legado de Tarrare

O bizarro legado de Tarrare transcendeu seu tempo, inspirando artistas, escritores e cineastas. Sua história foi imortalizada em diversas obras, destacando a fascinação duradoura que sua vida despertou.

 O Enigma permanece

Tarrare, o glutão francês, permanece como um enigma na história da medicina e da cultura popular. Seu apetite extraordinário desafia as explicações convencionais, deixando-nos com uma história fascinante e um mistério não resolvido. Ao explorar a vida desse personagem peculiar, somos levados a questionar os limites do corpo humano e a complexidade das condições médicas únicas. Tarrare, em sua estranheza, continua a intrigar e inspirar, reforçando a ideia de que, às vezes, a realidade supera a ficção nos anais da história.

O caso Domery: um outro Tarrare? 

Tarrare, ao que parece,  não foi um caso isolado. Em menos de trinta anos após sua morte, surgiu um homem de nome Antoine Langulet, que foi detido pela polícia de Paris e posteriormente internado em um asilo para criminosos insanos.

Langulet, era um homem alto e magro com cerca de 77 quilos, ficou conhecido por consumir algumas das substâncias mais repugnantes.

Ele demonstrava uma preferência peculiar por carne podre infestada de larvas em detrimento de um bife fresco. Passava seus dias observando pela janela de sua modesta residência, mas ao anoitecer aventurava-se pelas ruas, coletando restos e carne podre das sarjetas, enchendo os bolsos com seus achados malcheirosos, como descreve Jan Bondeson em seu livro “The Two-Headed Boy, and Other Medical Marvels”.

O autor também relata sobre Charles Domery, um soldado francês, que compartilhava um apetite igualmente voraz. A partir dos 13 anos, Domery tinha um apetite incomumente grande, tal qual Tarrare. MAs aqui há uma curiosidade interessante: Ele era um de nove irmãos, todos os quais, segundo Domery, sofriam da mesma condição.

Essa informação pode contribuir para a investigação da misteriosa fome de Tarrare e apontar para uma causa física em detrimento a um problema de matriz psicológica do francês.

 Domery lembrou que seu pai comia muito e geralmente comia carne meio cozida, mas era muito jovem para se lembrar da quantidade. A única doença que Domery tinha conhecimento na família foi um surto de varíola em sua juventude, ao qual toda a família sobreviveu.

Ele suava muito

Observou-se que logo após ir para a cama, geralmente por volta das 20h, Domery começava a suar profusamente. Depois de uma a duas horas acordado e suando, ele adormecia antes de acordar por volta da 1h da manhã com muita fome, independentemente do que tivesse comido antes de ir para a cama.

Nessa altura, ele comia qualquer alimento disponível ou, se não houvesse comida disponível, fumava tabaco.

Por volta das 2h, ele voltava a dormir e acordava novamente entre 5h e 6h, suando muito; assim que ele saía da cama, a transpiração cessava, recomeçando sempre que ele comia.

“Enquanto estava acampado nos arredores de Paris, Charles Domery consumiu incríveis 174 gatos em um ano“, escreveu Jan. “Cães e ratos eram vítimas de suas mandíbulas impiedosas, e ele chegava a ingerir de 4 a 2 quilos de grama por dia quando pão e carne eram escassos. Sua preferência recaía sobre carne crua em detrimento da cozida, sendo o fígado de boi cru seu prato favorito.”

No entanto, o relato mais chocante envolve seu serviço a bordo de um navio da marinha. Quando a perna de outro marinheiro foi atingida por uma bala de canhão, Charles a agarrou e começou a consumi-la avidamente, como se fosse uma iguaria, até que outro marinheiro, enojado, a arrancou dele e a lançou ao mar.

Em outubro de 1798, um esquadrão da Marinha Real capturou o navio em que ele estava e ele foi preso em um campo de prisioneiros perto de Liverpool. Os guardas britânicos também ficaram chocados com o apetite de Domery e concordaram em dar-lhe rações duplas.

 Estas eram insuficientes, e suas rações foram aumentadas até que finalmente ele recebeu rações de dez homens por dia.

Domery continuou com fome e foi registrado como tendo comido o gato da prisão e pelo menos 20 ratos que haviam entrado em sua cela.  Domery também comeu os remédios dos prisioneiros na enfermaria do campo que se recusaram a tomá-los, não sofrendo nenhum efeito adverso aparente como resultado. Também foi registrado que ele comia regularmente as velas da prisão e que, se sua ração de cerveja se esgotasse, ele recorria à água potável para engolir sua comida.

A causa do apetite de Domery não é conhecida também. Embora existam outros casos documentados de comportamento semelhante deste período, nenhum dos sujeitos, exceto o Tarrare, foi autopsiado, e não houve nenhum caso moderno documentado de polifagia (apetite excessivo) tão extremo quanto Domery.

Acredita-se que o hipertireoidismo pode induzir um apetite extremo e rápida perda de peso, enquanto Bondeson especula que Domery possivelmente sofria de uma amígdala danificada ou núcleo ventromedial. Sabe-se que lesões na amígdala ou no núcleo ventromedial em animais podem induzir polifagia.

Não se sabe o que ocorreu com Domery, seus rastros se perderam na história.

Que coisa louca, né? Se você leu até aqui, obrigado por sua atenção. Não deixe de ver também meus posts sobre o cara que literalmente  comeu um avião, e a mulher que comeu um sofá.

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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