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O inferno das montanhas

Conheça a cidade precária nas montanhas onde as pessoas arriscam a vida para tentar achar ouro

Escrito por Philipe Kling David · 3 Minutos de leitura >

O lugar é predominantemente pobre e desolado. Não há água encanada ou rede de esgoto. A maioria dos habitantes da cidade vive em barracos improvisados ​​sem aquecimento, embora a temperatura média de qualquer mês do ano nunca ultrapasse os 10 graus. 

Quase todos do lugar trabalham em minas de ouro, onde, violando todas as regras de segurança, jogam na loteria com suas próprias vidas. Associado ao garimpo, a alta criminalidade, embriaguez como modo de vida, doenças crônicas e baixa expectativa de vida. Este é o retrato da cidade peruana de La Rinconada foi apelidada de “inferno na Terra”, mas este é um inferno gelado no qual perambulam, como zumbis mais de 50 mil pessoas, nutridos somente pela esperança de encontrar ouro e sair dali.

Aqui, a uma altitude de cinco quilômetros, o oxigênio equivale à metade do que se encontra no nível do mar. Com dificuldade para respirar, doenças, um frio e vento cortante, o risco de desabamentos, avalanches e até mesmo assassinato, levantam todas as red flags possíveis. Isso nos leva a questionar: Como e por que as pessoas se estabeleceram aqui?

Rinconada: A cidade mais alta do mundo

“Bem-vindo a Rinconada!” – Diz o banner que saúda a todos os desavisados que por um motivo ou outro, vêm dar com a ingrata nesse lugar. 

A placa cumprimenta todos os motoristas que entram nesta cidade. Para quem não conhece os costumes locais, vir aqui realmente parece algo muito esperado. Não há estradas asfaltadas, e o grande assentamento mais próximo fica a cerca de três horas de distância por estradas rurais escorregadias, irregulares e por que não dizer, traiçoeiras.

No entanto, logo os convidados entendem a ironia perversa do sinal de “boas-vindas”, porque todos os vícios urbanos possíveis estão concentrados em La Rinconada: da falta de condições básicas de vida à exploração desumana do homem pelo homem.

E, no entanto, as pessoas chegaram aqui, a uma altura de cinco mil metros, mesmo durante o tempo do império inca. Geração após geração, os incas foram substituídos por colonos espanhóis, novos estados independentes foram formados e, finalmente, nas profundezas dos Andes, não muito longe da moderna fronteira peruano-boliviana, surgiu uma verdadeira cidade. Não há dados exatos sobre o número de sua população, mas de acordo com várias estimativas, cerca de 50 a 70 mil pessoas vivem em La Rinconada. E todo mundo está interessado no que está escondido sob a “Bela Adormecida”, a geleira La Bella Durmiente, descendo de uma das montanhas locais: Ouro.

Segredos da “Bela Adormecida”


Por causa desse metal, as pessoas estavam prontas para cometer qualquer crime, sem falar em morar em uma encosta de montanha de difícil acesso. Se a mina de ouro sob a geleira não existisse, La Rinconada simplesmente não poderia ter surgido, porque uma pessoa está mal adaptada para uma longa existência em tais alturas. A pequena quantidade de oxigênio no ar pode causar ataques do “mal da altitude”, que se tornou crônico para muitos moradores da cidade. Não há árvores, porque lá, em princípio, o vento e o frio constantes eliminam toda a vida.  
Mas embora com tudo jogando contra, o aumento dos preços do ouro levou ao desenvolvimento explosivo de La Rinconada – naturalmente, caótica.
A geleira está recuando gradualmente, abrindo cada vez mais locais para a busca de metal, enquanto a cidade, ao contrário, está crescendo. Como um tumor canceroso que envenena seus habitantes na Cordilheira dos Andes.

Cachorreo, loteria trabalhista
La Rinconada tem um sistema de trabalho muito peculiar chamado cchorreo. Durante a maior parte do mês, os garimpeiros trabalham de graça, mas têm um dia de folga, durante o qual tudo que encontrarem nesse dia, vai para eles.
De certa forma, isso é uma loteria, porque uma pessoa pode ficar sem nada durante esses dias, mas também pode sacar seu bilhete da sorte, gerando a renda para  sua família por toda a vida. Como de costume, neste tipo de jogo há muito mais perdedores do que vencedores. No entanto, o número de pessoas dispostas a tentar a sorte não está diminuindo. No Peru, especialmente entre a população de matriz indígena, a porcentagem de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza ainda é muito alta, e para eles o ouro de La Rinconada é quase a única maneira de ganhar dinheiro para escapar do sofrimento.
Ao mesmo tempo, as mulheres da cidade não têm esse trabalho, porque não têm permissão para entrar nas minas. Elas só podem procurar seus grãos de ouro nos depósitos de minério já gastos ou se prostituir. La Rinconada lembra um pouco as cidades americanas da época do desenvolvimento da fronteira oeste e da corrida do ouro. Uma única delegacia de polícia não pode controlar o crime desenfreado. Desemprego, desordem, pobreza, rendimentos acidentais, condições climáticas provocam a embriaguez, que por sua vez só aumenta o número de crimes.

Cidade condenada


A cidade de La Rinconada só pode ser chamada de “cidade” porque muitas pessoas se acumularam nesta seção sem vida da tundra na montanha. As condições naturais e o espírito dos trabalhadores temporários que aqui reinaram condenaram a cidade à existência sem as comodidades básicas que são naturais na maioria dos outros assentamentos. Não há rede de esgoto em La Rinconada, as ruas estão cheias de lixo humano e lixo doméstico, cuja remoção centralizada também falta. Não há abastecimento de água, as pessoas são obrigadas a usar a água do lago local, agora envenenada por mercúrio e outros compostos químicos, ou derreter o gelo da “Bela Adormecida”.
Combinado com o clima, as condições de trabalho, as taxas de criminalidade e os cuidados de saúde precários, La Rinconada é considerada um dos piores lugares onde as pessoas vivem permanentemente. No entanto, é óbvio que quando o ouro se esgota ou os preços caem por muito tempo, esta cidade também desaparecerá com o tempo. Apenas os arqueólogos do futuro, talvez alguns séculos depois, encontrarão vestígios de uma civilização esquecida aqui e se perguntarão o que as pessoas estavam fazendo neste maldito ponto do planeta.

 

Escrito por Philipe Kling David
Designer, blogueiro, escritor e escultor. Seu passatempo preferido é procurar coisas interessantes e curiosas para colocar neste espaço aqui. Tem uma grande atração por assuntos que envolvam mistérios, desconhecido e tecnologia. Gosta de conversar sobre qualquer coisa e sempre tem um caso bizarro e engraçado para contar. Saiba mais... Profile

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Uma resposta para “O inferno das montanhas”

  1. O ouro ainda é o elemento mais precioso justamente pela imensa quantidade de aplicações. Um processador de pc não existiria sem os finíssimos fios de ouro em seu interior. Quem der a sorte de achar uma quantidade razoável, estará feito na vida.

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