O homem no ponto

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Há um homem no ponto de ônibus. O que ele faz ali parado numa hora dessas?
Ele está mexendo nos bolsos. Parece um pouco nervoso. OLha para os lados.
Não consegue ver? Ok, então eu o descreverei pra você.
Ele é meio calvo. Cerca de um metro de sessenta e cinco. Ele veste-se relativamente bem para os padrões nacionais. Um paletó meio velho, de lã. Levemente descombinado, mas não tanto que o faça parecer um pregador pentecostal. Ele deve ter de idade… Sei lá. Uns cinquanta, sessenta anos. São cabelos brancos que orbitam uma careca pronunciada. Talvez isso envelheça o pobre homem.
Mas o que mais intriga nesta figura é a postura e o olhar. A postura lembra um derrotado. Um homem fraco. Eu observo tudo, cada detalhe. Como ele anda. passos lentos e pesados. Uma vida cansada. O corpo projeta-se para frente, meio inclinado. Meio triste. Ele traz sob o braço um jornal que forçando a vista posso ver que é um classificado de empregos.
Desempregado? Isso explica a postura, o olhar de desesperança. Os movimentos lentos e a aparência inquieta que ele transmite. No rosto, as marcas de anos mais felizes.

Chega um novo homem no ponto. Este é roto.

Roto? Roto é bagunçado, rasgado, sujo. Um cão doente e magro o acompanha, puxado por um barbante. Cabelos escarafunhados para o alto saem sob um boné puído de político. Traz uns sacos plásticos sob o braço. Um mendigo, só pode ser.
O mendigo se senta no canto do ponto. Como que pedindo favor por existir para o velho senhor triste.
Se entreolham rapidamente. O mendigo recolhido sob o saco plástico. Faz frio. O pequeno cão ao seu lado. O bicho tem ligeiras pelotas cor-de-rosa sob o couro enrugado. Cachorro bicheiroso de rodoviária. MAs o dono não fica longe. Uma barba feia, preta, panos sujos sob as roupas, farrapos.

O velho enfia o pescoço sob o casaco tentando conter o que parece ser o vento gelado da noite. Dá dois passos e fica no outro canto do ponto, olhando o mendigo com certa apreensão.
O mendigo fala alguma coisa.
O velho não responde. Vira a cara.
O mendigo volta-se para si mesmo e seu cãozinho.
Então vejo o velho olhar de canto de olho.
O mendigo também vê. Levanta-se e estende um boné infecto. Dentro estão algumas parcas moedinhas e notas carcomidas. O mendigo estende ao velho pedindo-lhe algum trocado.
O velho dá um passo para trás. O mendigo para.
O velho acena. Um aceno estranho. O mendigo dá um passo atrás.
O velho olha para os lados. Acho que ele está com medo de ser assaltado.
UM estampido surdo ecoa na noite.

Tiro.

Eu me abaixo como posso com o susto. O eco começa a sumir no fim da avenida. Nanhum carro passa. Cães latem ao longe.
Um homem jaz caído ao chão em meio a poça de sangue escuro. Quando volto a enxergar, vejo o mendigo caído. Ao chão, o boné e as parcas moedinhas.
O velho está ali, no meio da rua, catando as notas infectas que voaram com o vento.
Ele recolhe uma a uma. Enfia no bolso do surrado paletó. A arma preta reluz o brilho da luz do poste. Ele enfia o revólver no pacote de jornal. Guarda no paletó. Olha para os lados e sai ganhando a noite. O mendigo fica ali, caído atrás dele. O vira-lata lhe faz companhia.

FIM

Comments

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5 respostas

  1. Legal. Parabéns Philipe. Adoro estás crônicas. Bem que a internet precisava de um pouco de originalidade e cultura (não inútil).
    A propósito, gostei também do texto do cachorro Druppy (ou Drup, ou ainda Crupp… hehehehe).
    O Mundo Gumpp já está entre meus blogs favoritos.

  2. [quote comment=””]Uau, mórbido³. Cara, se te deixa feliz, voce ta me fazendo voltar a gostar de redação no colégio. Brigadão![/quote]

    Este é o melhor elogio que eu li no Mundo Gump. Isso faz valer a pena a ralação que é inventar essas doideiras. Acredte se quiserm o Mundo Gump começou com uma redação na escola.

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