O homem educado

Eu atravessei um portal para um mundo onde todo mundo é educado.

Saí de casa cedo para levar o Davi na escola e de lá segui para o outro lado da cidade, para levar uns exames da Nivea num laboratório. Peguei um transito relativamente bom, porque era muito cedo e cheguei no prédio do laboratório exatamente sete e meia da manhã.
Ao chegar na portaria, uma mulher que ia entrando me viu e disse:

— Senhor, o prédio só abre as oito.
E aí eu:
— Ah, tudo bem. Obrigado.
Me preparei para ficar do lado de fora um sol tão brutal que já estava me fazendo suar sete e meia da madrugada. O dia hoje já promete uma escalada saariana que deve chegar quase nos 40 graus.
Então o porteiro do prédio me chamou e disse:
–“Ei, senhor, espere aqui dentro, tem sofá e ar condicionado.”

Eu entrei ele abriu pra mim e sentei-me no sofá. Dali fiquei esperando o tempo passar e como eu não gosto de esperar as coisas fiquei prestando atenção em tudo.
De imediato o que me chamou a atenção foi a gentileza das pessoas. Todo mundo que chegava ele tratava com absoluta amabilidade. As pessoas estavam também todas elas agindo com impressionante educação com ele.
Chegou a moça da limpeza. Ela conversou com ele e ele elogiou o sorriso dela, segundo ele “porque é sempre mais bonito na sexta-feira”. Pensei que talvez fosse uma cantada (de boa qualidade, aliás) mas ela realmente estava com um sorriso no rosto encantador. Se aproximou de mim e me deu um bom dia animado, e me pediu para levantar, pois ia passar pano bem ali onde eu estava. Me levantei rápido porque o que eu mais abomino na vida é atrasar a vida do outro.
Depois chegaram mais e mais pessoas e cada pessoa que vinha ele cumprimentava, perguntava da família, desejava um bom dia de trabalho.
“–Que pessoa abençoada!” — Pensei.
Então ele veio: “Senhor, já deu oito horas, pode subir!” Agradeci e subi. Chegando no laboratório fui tão bem tratado que parecia que eu tinha ganhado na megasena e eles sabiam. Me ofereceram café, a moça pegou o material, pediu pra eu assinar, enquanto esperava batemos papo sobre os planos de saúde e o movimento no laboratório. Tudo certo ela me agradeceu e me desejou um bom dia.
Desci no elevador pensando que talvez eu tivesse num tipo de sete além da felicidade. Todo mundo estava sendo amável, todos estavam felizes, todo mundo de alto astral. O que houve com as caras-feias, os olhares de soslaio, a má vontade, o nosso bom dia negligenciado, a pressa, o revirar de olhos diante de uma simples pergunta?
Não sei. Caí num void de educação, e foi tão surpreendente que pensei que talvez fosse estranho o bastante para citar aqui.
Cheguei no saguão agradeci a gentileza e ele me devolveu o agradecimento me desejando uma sexta-feira gloriosa.
No jardim em frente passei pela faxineira do sorriso de sextou, e ela mais uma vez se despediu rogando que Deus me abençoasse e a minha família. Agradeci e desejei o mesmo a ela.
Voltei pra casa pensando como seria bom se todos os dias fossem assim.

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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