O homem com defeito

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Era uma vez um cara que tinha um grande problema. Tudo parecia dar errado na vida dele. Ainda jovem, ele perdera os pais. Adotado forçosamente por uma velha tia viúva e lésbica, sofreu com os maus tratos. Depois foi parar num colégio interno onde sofreu violências diversas. Quando adolescente, fugiu do colégio interno e  começou a trabalhar como auxiliar de sapateiro. Apanhava constantemente. Mas ali aprendeu um ofício. Um dia, o sapateiro morreu e ele ficou sem emprego.

Agora já era um adulto, e não havia emprego em que parasse por mais de dois meses. Tudo que ele fazia dava errado. A sua aparência também não ajudava. Ele era manco de uma perna, vesgo e tinha grande dificuldade para falar. Mas isso nunca o deteve. Nunca o fez esmorecer. Ele persistia, e sem perder a calma, a cada desgraça que lhe abatia, buscava uma solução e recomeçava a própria vida.

Foi garçom, faxineiro, camelô. Camelô foi o “emprego” no qual durou mais.

No ofício de vendedor ambulante de chocolates, conheceu Selma. Apaixonaram-se e casaram-se numa pequena cerimônia para meia duzia de gatos pingados – todos da família dela. O casório ocorreu numa pequena igreja que não tinha mais que nove metros quadrados, e que ficava na beira de uma estrada. Com Selma ao seu lado, ele se sentia o melhor dos homens. Prometeu a si mesmo que daquele dia em diante, seria cada vez mais feliz. Pensou em ter uma penca de filhos e construir uma casa melhor que o casebre provisório de parcos tijolos aparentes, construído nos fundos do tereno do sogro.

Nunca teve filhos com Selma, pois menos de dois meses após o casamento, ele descobriu que ela tinha um caso com um pedreiro que morava num barraco três casas à frente. Tentou bater na mulher, mas foi espancado pelos irmãos dela.

Aquilo mexeu com a alma daquele homem e ele ficou triste por vários dias. Humilhado, saiu de casa. Perambulou pela rua sem rumo. Sem destino. Sentia-se um verme.

Perdeu a banquinha para o rapa.

Estava agora perdido na vida. Encostado numa calçada de avenida.

Tentou ganhar algum para comer. Desesperado, improvisou como flanelinha. Mas não tinha como pagar os policiais do pedaço e dançou nas mãos dos “homi”.

Saiu sem rumo, foi parar em outra praça.

No reflexo de um carrão importado cuja marca era tão sofisticada que ele nem ao menos sabia falar o nome, ele pode se enxergar pela primeira vez em vários dias. O reflexo personificado da desgraça.

Barbado, despenteado, roto e mal vestido… Era um fracasso. Um fracasso humano.

Olhou ao redor e viu belos casais. Pessoas felizes. Pais de família levando as crianças para brincar. Homens ricos passavam de ternos caros rumo aos seus trabalhos em prédios de vidro e aço.Amigos conversavam animados na mesa de bar.

Lembrou que não sabia o que era ter amigos.

E ele ali… Na praça. A perfeita personificação do fracasso. Sem dinheiro, sem amigos, sem sucesso. Sem nada. Nada além da fome.

O sino da igreja tocou e foi como se uma mágica inspiração lhe surgisse nos ouvidos: Deus!

Sim, somente Deus poderia dar jeito naquela situação miserável.

Ajoelhou-se no chão e fechando os olhos, apertou as mãos na forma de prece e orou com toda força de sua alma para que o Todo Poderoso lhe desse um destino melhor, uma pista, ou ao menos lhe explicasse a razão de todo aquele sofrimento.

As pessoas passavam e se admiravam daquele homem sujo, torto e estranho, orando fervorosamente no meio da praça.

Foi aí que aconteceu uma coisa que ninguém que tivesse testemunhado, se esqueceria jamais.

O céu se fechou em nuvens pesadas e trovões ecoaram nos céus. Trombetas místicas estouraram nos ouvidos daquele homem, e num súbito, uma voz rouca que mais parecia um trovão despejando toda a fúria jamais imaginada por um  humano fez-se ouvir. As pessoas que andavam pela praça nada ouviam ou viam. Mas ele, o desgraçado, moribundo, sujo e fedorento, não só ouvia como também via.

Após as trombetas explodirem no ar, uma luz muito branca surgiu do meio das nuvens e ele não ousou olhar na direção do facho. Não se sentia digno.

E a voz falou. Falou tão alto e claro como nenhuma outra voz havia falado com ele até então.

-Meu filho… O que queres de mim?

-Meu pai. Perdão por incomodar.

-Fale.

-Eu queria uma chance. Uma chance de mudar. De ser alguém mais bonito, mais forte, mas alto, mais rico, ou pelo menos mais feliz.

-E o que te impede, meu jovem?

-Não sei, Senhor. Sou um fracasso. Nunca dei certo em nada. Só conheci o sofrimento e os erros. Nunca acertei em nada que fiz e não posso acreditar que o Senhor em sua infinita bondade queira tal destino pra mim.

-Tem razão, meu filho. Não quero… Algo saiu errado.

-Saiu?

-Sim. Certamente que não era para você penar tanto por aí. Nunca viste o bilhete de loteria que eu joguei no seu pé?

-Não senhor.

-Nunca recebeste a proposta de emprego do homem que mandei comprar doces na sua banca? Um de gravata… Na quarta feira, se não me engano.

-Não senhor. Esse homem comprou doce na baca ao lado.

-Estranho… Por acaso nunca recebeste uma herança de uma tia distante, que morreu lá pros lados de Poços de Caldas?

-Não, meu mestre.Nunca. Sou sozinho. Não tenho ninguém.

-Muito estranho mesmo. Nem amigos?

-Não sei o que são amigos, mestre.

-Mas e os filhos? Certamente te dei varões.

-Não… Não pude ter filhos, senhor. E minha mulher foi adúltera.

-… – Deus parecia decepcionado e surpreso. Parou por um momento e então voltou a falar. -Meu jovem… Isso de fato não é normal.

-Eu sei, senhor. Certamente que tamanha quantidade de desgraças só poderia ser coisa do…  – Ficou na dúvida se falava capeta, belzebú, demo, satã, satanás, lúcifer, cramulhão ou capiroto. Ante tantas opções, todas aparentemente impróprias para se falar com o Onipotente, optou pelo eufemismo.  – O “Inimigo”? -Indagou, já temendo a reação divina.

Mas Deus começou a rir.

-Não, não. Nada a ver. Eu creio que seja algum tipo de erro. Eu criei as pessoas para serem felizes, para que tudo saia bem. Meu jovem, olhe para dentro de você e se pergunte: Você é mesmo um fracassado? Você só conheceu o sofrimento e a desilusão? Isso é a verdade?

O homem desgraçado parou e seguiu a ordem do Senhor. Refletiu sobre sua vida até aquele momento.

-Sim, mestre. Minha vida foi marcada pelo sofrimento e pela dor. Tudo que eu queria era conhecer a felicidade. Ganhar na loteria, ficar famoso, bonito, arrumar mulher e filhos, viajar pra Orlando e comer camarão…

-Então, meu caro. Não vejo outra solução que não convocar sua alma para um recall.

-Hã?

-Certamente você está com defeito! – Disse Deus, apontando-lhe o dedo.

Um clarão de luz estourou do céu, e foi assim que, naquele dia, num dia comum como todos os outros, em plena praça central, um raio caiu sobre o mendigo, pulverizando-o numa fração de segundos.

As pessoas correram assustadas.

O estranho fenômeno atmosférico incomum acabou descrito numa minúscula coluna de jornal do qual atualmente ninguém se lembra mais.

E as únicas marcas do episódio foram duas marcas de queimado no meio da praça.

FIM

Comments

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16 respostas

  1. O problema eh aquele que nasceu com a bunda virada pra lua. Tudo tem, tudo que vai fazer da mais certo que o esperado.
    Ele com certeza tambem esta com defeito, mas nao reclama.

    Acho deve existir um equilibiro, pra cada cara de sorte deve ter um com muito azar.

  2. Talvez esse sujeito fosse feliz sem ter nada e não sabia! De que adianta trabalhar num emprego chato em que você só tem esquentação de cabeça e vai te dar um enfarte? Para quê uma mulher que só sabe enganar e trair o cara (ainda por cima vai querer receber pensão)? E um deus que só põe o cara em fria, melhor nem acreditar…então esse era o homem mais feliz do mundo – só não tinha se tocado disso…

  3. Cuidado com o Recall, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Choreeeeeiiii largaaaaadoooooo!!!!!!!!!!!!!!!kkkkkkkkkk
    Essa foi boa kkk e o cara pensando que Deus ia… hahahahaha!

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