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Contos

O crânio – Parte 9

O pensamento de que estava morto foi tão aterrador que Bruno parou. Não fazia sentido andar pela escuridão.

Escrito por Philipe Kling David · 6 Minutos de leitura >

O pensamento de que estava morto foi tão aterrador que Bruno parou. Não fazia sentido andar pela escuridão.

Ele parou e se sentou em meio ao escuro. Não havia o que fazer, nem para onde ir. Sentiu uma saudade forte apertando o peito e temeu pelo que o pai e a mãe sofreriam quando soubessem. E a Bia? Ele nunca mais tornaria a ver a Bia.

Bruno estava ali sofrendo e chorando quando ouviu alguém passando atrás dele. Alguma coisa nitidamente passou andando atrás dele. Ele pode sentir muito clara a vibração das passadas no chão metálico.

Bruno se levantou. – Quem está aí?

Mas não obteve resposta.

Teria sido sua imaginação? Não. Não poderia. Havia mais alguém ali.

-Quem é? Quem está aí?

Então Bruno sentiu alguma coisa tocar-lhe o braço. Era uma mão gelada.

Ele estremeceu na hora.

-Cruz credo! – Foi o que ele disse, tentando se desvencilhar, mas então sentiu-se sendo segurado novamente. Ele tentou soltar a mão que o agarrava, mas ela era muito forte.

Ele sentiu que era uma mão peluda e quase desmaiou de medo.

Não era um mas dois os indivíduos que o seguravam no escuro. Cada um agarrou num braço e começaram a puxá-lo pelo escuro.

-Quem isso, quem é você? Que isso! Me solta? Ei!

Eles andaram o que Bruno estimou como sendo uns trinta metros e subitamente pararam. Eles não soltaram Bruno, apenas ficaram parados. O silêncio era sepulcral. As mãos agarravam seus braços de forma firme apesar de serem geladas.

Então algo estranho aconteceu. Uma tênue luz que pareceu sair do nada iluminou o lugar num cone perfeito. E no meio do cone, estava uma velha sentada. Era aquela velha que ele tinha visto no pesadelo, mexendo na casa dele. A velha nada disse. Ninguém dizia nada. Mas era um alento ver alguma luz. A velha ficou ali olhando pra ele, sentada na cadeira. Bruno então olhou para os lados e teve um choque. As duas criaturas que o seguravam eram um homem e uma mulher, mas eles não tinham cabeça. Eram apenas corpos, sem as cabeças. Ele ficou aterrorizado com aquilo, tentou se soltar, mas as figuras macabras seguravam forte.

A velha rompeu o silêncio.

-Você vai morrer em dois dias, menino.

Ele não sabia o que dizer. Olhou para a velha espantado.

-Eu… Eu… O que é isso aqui?

-Shhhhh! Silêncio. Você pediu pela sua vida. É isso mesmo que tu queres?  Sim ou não? 

-Sim.

-Há um preço a pagar. O mestre quer uma oferenda pela sua cura. O mestre esta feliz com você, meu garoto.

-Preço? Pagar? O-o que?

-Vida se paga com vida. Mate um bode preto. Meia noite. Na quarta feira. Recolha o sangue, da oferenda num copo. O primeiro copo você derrama na cabeça. O segundo, joga-o no fogo dizendo “assim cumpro o pacto pela minha saúde”. Chame pelo mestre três vezes.

-Assim? Mestre, mestre, mestre?

-Assim. Aceita ou não aceita?

-Aceito.

-Você está curado. Cumpra sua parte ou a doença voltará. Quarta feira, meia noite.

-Sim.

-Repita e não se esqueça. Quarta, meia noite.

-Quarta… Meia…

-Noite…

-Aleluia! Puta que pariu! Puta que pariu. Graças a Deus, você voltou, meu brother!  – Bruno não conseguia abrir os olhos. Mas reconheceu a voz. Havia muita luz cegando-o. Era Gui.

-Meu filho! – Bruno sentiu o aperto. Era sua mãe abraçada com ele. Ela estava chorando. Ele gradualmente recobrou a consciência em meio aos cabelos da mãe. O lugar escuro tinha dado lugar a um quarto de hospital. Ele estava no soro.  Estava numa cama hospitalar cercado de pessoas. Seu pai e sua mãe estavam ao lado da cama. Bia chorava sentada no sofá e Gui agarrava o outro braço dele. Todos pareciam fortemente abatidos.

-O que houve? Que que isso, gente? Calma!

Todos se entreolharam. Pareciam compartilhar algum segredo. Logo uma enfermeira entrou no quarto.

-Acabou a hora da visita, pessoal. Só amanhã. Vamos…

Todos despediram-se de Bruno com frases prontas como “você vai vencer!” , “Te vejo amanhã!”, “Força campeão!”.

Só ficou dona Sandra. Ela estava abatida. Bruno olhou para a mãe e ela tentou sorrir.

-O que foi, mãe?

-A coisa não esta boa, filho. Você entrou em… Não sei. Uma ausência. Achamos que… Pensamos que você… – A mãe não conseguia falar. Ela agarrou forte a mão do filho e beijou.

-Não se preocupe, mãe. Eu estou bem. – Ele disse, confiante.

Diona Sandra não aguentou ouvir aquilo e começou a chorar convulsivamente. Pediu desculpas e saiu do quarto.

Bruno ficou só no quarto do hospital. Era um quarto bom, com televisão e frigobar. Apesar do soro enfiado no braço ele não estava desconfortável.

A porta do quarto abriu e entrou um medico de cabelos brancos e bigode, e uma enfermeira. A enfermeira trazia uma maleta azul parecida com mala de pesca. Ela colocou no sofazinho e começou amontar uma geringonça que não dava para ver. O médico se aproximou do  pé da cama.

-E aí campeão? – Perguntou o doutor.

-Opa.

-Tá legal? Acordou, né? Ta tonto?

-Não. Tô bem.

-Você deu um susto na galera. Quase foi parar no CTI, sabia?

-É… Meio que percebi pelas reações quando acordei.

-É o Linfoma de Hodkin 4 B… – Disse o médico consultando anotações do bolso.

-Ai! – Disse Bruno ao notar que a moça havia espetando o braço dele. Ela estava colhendo sangue.

-Nós vamos fazer de tudo para você ficar confortável, meu amigo.

Pelo tom do médico Bruno percebeu que a coisa não estava boa.

-O senhor está me desenganando?

-Olha, rapaz… Não pensa nisso. Pensa em como você viveu sua vida tão linda até hoje…

-Hum. – Disse Bruno, pegando o controle para ligar a tv. O médico percebeu o desdém e colocou-se à disposição de Bruno. Depois saiu, junto com a moça do laboratório.

Bruno se distraiu vendo um programa de calouros na Tv. Então foi ficando tonto, tonto e tudo se apagou. Quando ele abriu os olhos, estava com a maca andando. Os médicos estavam levando ele, parecia um centro cirúrgico.

-Ele acordou! – Disse o maqueiro para uma enfermeira que acompanhava a maca.

-Oi. Tudo bom? – Ela perguntou.

-Oi. Onde… Pra onde estão me levando.

-Calma. Relaxa. Não se preocupa. É só um examezinho…

-Bruno fechou os olhos. Sentia-se tonto. Não estava entendendo. Sentiu frio. Estava na sala do aparelho. Ouviu o barulhão, mas tudo estava confuso. Ele parecia grogue, dopado. Ouviu os médicos falando mas não conseguia entender.

Acordou no quarto novamente. Uma enfermeira usava um esfigmomanômetro para anotar a pressão dele.

-Doze por oito! Coisa linda. – Ela disse.

A mãe de Bruno dormia no sofazinho. Ele olhou a hora no relógio da parede três e vinte da madrugada.  Virou para o lado com cuidado para não repuxar a mangueirinha do soro e dormiu.

-Acorda, filho. Chegou seu café. – Disse a mãe dele.

Bruno abriu os olhos e viu a moça trazendo o café numa bandeja. A mãe ajudou a colocar sobre a cama. Um botão ajustou a cama na inclinação perfeita. A mãe de Bruno parecia curiosa. Estava olhando para ele sem parar enquanto ele comia.

-Tudo bem mãe? Que foi?

-Nada… Nada… O medico veio aqui e…

-Veio? Aqui?

-Você estava dormindo. Eles vão refazer os exames. Parece que… Parece que aconteceu uma coisa no seu sangue. O medico acha que foi erro do laboratório.

-Hã? Vão tirar mais sangue?

-Não. Já tiraram. Estamos esperando os resultados. O medico vai vir aí. Já está descendo. Fizeram exames em você a madrugada toda.

-Eu… Eu acho que me lembro, mas…

-Come seu pão.

-Tá…

Minutos depois chegou o medico, mas não estava sozinho. Havia pelo menos outros três com ele. Médicos que ele nunca tinha visto.

A mãe de Bruno caiu sentada no sofá quando os viu entrar. Ela estava tremendamente aflita e tremia feito vara verde.

-Bruno… Tudo bom amigão?  – Disse o Médico.

-Sim. Tudo bem.

-Você lembra da coleta que fizemos do seu sangue ontem, né?

-Lembro… Lembro sim.

-Então… Depois que saiu o resultado do laboratório… Eu vi e achei que tinha alguma coisa errada. Pensamos que era um erro do laboratório. Seu sangue… Eu nem sei como vou dizer isso, vai parecer maluquice. Nós falamos com sua mãe…

-Fala logo!

-Seu sangue está diferente! A análise do seu sangue era uma quando você deu entrada na emergência desacordado. Depois de acordar era outro. Repetimos o exame e o resultado mostrou outra mudança. Não há como explicar isso sem usar a palavra…

-Milagre! – Disse Sandra, tentando enxugar as lágrimas.

-Exatamente. Aqui estão os laudos. O seu linfoma… Eu não entendo como. Ninguém sabe bem como foi que aconteceu, mas…

-Ele sumiu? Ele sumiu? Eu tô curado?

-É como se você nunca tivesse tido nem gripe! – Disse um dos médico com o prontuário na mão.

-Vamos ter que fazer mais exames complementares, ver o que foi isso, como aconteceu essa recuperação espantosa. É uma reação inédita do corpo.

-Eu, eu estou de alta?

-Não tem porque prendermos você aqui. Não tem doença alguma a ser curada. Nós reviramos você no petsacan. Eu já vi muita coisa interessante e curiosa em trinta anos de carreira, mas nada foi igual a isso, meu rapaz. Sua doença fez “pluft”!

A mãe de Bruno se jogou sobre ele chorando, e o abraçou fortemente.  – MIlagre, Milagre, ela gemia. Meu filhinho….

CONTINUA

 

Escrito por Philipe Kling David
Designer, blogueiro, escritor e escultor. Seu passatempo preferido é procurar coisas interessantes e curiosas para colocar neste espaço aqui. Tem uma grande atração por assuntos que envolvam mistérios, desconhecido e tecnologia. Gosta de conversar sobre qualquer coisa e sempre tem um caso bizarro e engraçado para contar. Saiba mais... Profile

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13 respostas para “O crânio – Parte 9”

  1. Philipe, o conto tá excelente! Estou super curioso pela continuação!
    Apenas uma dúvida: no meio do texto, aparece que o Bruno acordou num quarto de Hotel. Não seria um quarto de hospital?

  2. Engraçado que mesmo sendo uma ficção, e um modo tenebroso de se curar de uma doença, a parte final desse texto me arrepiou todo. É que coisas assim deveriam acontecer mesmo todos os dias(não to falando do bode preto), cura!

    1. PArece que acontecem. A remissão espontânea ocorre e é muito comum. O lance é que na ampla maioria dos casos, nego entra em desespero logo no diagnostico, sai tomando tudo que é chá, levando passe corre para a igreja do pede-dízimo. E aí quando rola a remissão espontânea, só pode ser: O chá milagroso, o pastor ungido, a cura dos irmãos de luz… Enfim.

      1. Philipe, vai me desculpar mas remissão espontânea realmente não existe. O indivíduo coloca em marcha uma força que tem como resultado a cura. Acredite, este universo é um modelo de ordem, nada acontece por acaso, nem por acidente ou coincidência, não é porque não vemos a causa que ela não existe. Por isso, não acredito em doenças espontâneas nem muito menos curas espontâneas. Sofri bastante para aprender isso.
        Existem dois livros, “Com a vida de novo” Carl Simonton e “Amor, Medicina e Milagres” , Bernie Siegel, que ilustram bem do que o ser humano é capaz, interiormente, de produzir tanto o bem quanto o mal para si mesmo.

        1. Alarico, acho que você deve dizer que você não acredita. Isso não significa que não exista.

          1. Cara, eu não soube me expressar, estou escrevendo mal. Conheço pessoas desenganadas que se curaram, mas não foi “espontâneo”, elas tiveram participação ativa na cura, de uma forma ou de outra, e foram terapias alternativas, não convencionais.

  3. O conto está muito fera cara, e eu acho muito foda a sua idéia da caixa. Ela veio de alguma referencia? É realmente sensacional

  4. Esse conto tá muito foda!
    ps: Tive que pesquisar o que é um esfigmomanômetro, que nome complicado para um aparelho tão comum!

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