Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on email
Email
Share on whatsapp
WhatsApp

Houve um princípio de tumulto no auditório. As pessoas começaram a falar alto sobre a teoria da correspondência. O professor Andreas Jacob não se importou e continuou a narrar o telefonema. Logo, alguns da audiência começaram a solicitar silêncio. E a palestra prosseguiu.

– …Mas vocês não podem simplesmente matar um inocente só porque, sei lá, algum maluco diz que ele é esse tal correspondente aí. – Disse Jéssica.

-Errado. Nós podemos. Pense o seguinte, é um sacrifício necessário para que muitas vidas não sejam perdidas. Milhares de vidas. E durante gerações.

-… – Jéssica ficou sem respostas. Aquilo fazia sentido. Mas ainda assim, não lhe pareceu justo.

-Mais alguma pergunta?

-O que vocês vão fazer comigo?

-Vamos te soltar. Você precisa trazer o Daniel pra nós.

-E se eu não aceitar?

-Morre agora. – Ele disse rispidamente. O tradutor engatilhou a arma de uma forma dramática e eloquente.

Jéssica não disse nada. Apenas concordou com a cabeça. Fosse lá o que ela viesse a fazer, precisava sair do covil daqueles homens estranhos o mais rápido possível.

-Mas eu não sei pra onde ele foi.

-Talvez ele faça contato com você. Se fizer, traga-o para nós.

O velho levantou-se recusando o auxílio do tradutor da CIA. Ele disse adeus em silêncio, com um pequeno aceno e saiu da sala. Logo depois, outros dois homens entraram na sala e pegaram Jessica pelo braço, escoltando- a até a rua, onde um taxi já estava estacionado. Eles colocaram a moça dentro do carro. Entregaram a ela um cartão de visitas quase completamente em branco, apenas com um telefone.

-Ligue para este numero quando localizá-lo. Se você contar a ele sobre o que falamos a você, aproveite bem, pois será o último dia de sua vida, ok?

-…

-Ok?

-Tá, ok. – Disse Jéssica.

-Motorista, leve a moça para onde ela quiser ir. – Disse o homem, fechando a porta do taxi.

Jéssica viu o homem ficando para trás, ainda parado, de pé na calçada. Os olhos fixos no taxi. Ela sabia que os homens a estavam usando como isca.

-Pra onde, senhora?

-Cinco de Julho.

-Sim senhora.

Enquanto o taxi zanzava pela cidade, ela ia imaginando toda aquela estranha história que o velho cientista havia lhe contado. Parecia que o destino do mundo estava agora em suas mãos. Era justo atrair um amigo para uma armadilha fatal na esperança de impedir uma detonação nuclear?  Ela poderia se recusar a fazer aquilo?

Ela sabia que obviamente o motorista de taxi era um deles disfarçado. Soltá-la era a unica forma de localizar Daniel. O que eles pareciam nem desconfiar é que Jéssica não fazia a menor ideia de onde estaria Daniel à aquela altura.

O taxista a deixou na rua indicada. Era madrugada. Fazia frio. Um vento contínuo e cortante assobiava pelas calçadas, levantando papéis velhos e jogando folhas para o ar. Uma chuva se anunciava ao longe.

Jessica correu pela calçada até chegar na rua dela, não muito distante.  Foi pra casa, na esperança de tomar um banho e dormir um pouco.

Ao chegar em casa, se deparou com a mesma toda revirada. Os homens haviam jogado tudo para o ar na busca por Daniel.

Ela trancou a porta, levantou a poltrona e arrumou o abajour. Pulou os livros pelo chão e em meio as roupas jogadas por todo o quarto, procurou uma toalha limpa.

Enquanto tomava banho, Jessica refez mentalmente toda aquela estranha situação.

Daniel não fez mais contato. Nem os homens. Ela sabia que seu telefone estaria grampeado. Passou a viver numa eterna paranoia de estar sendo vigiada.

Um bom tempo depois, ela soube das buscas por Daniel. O dono da locadora contou a ela que eu estava investigando o caso. E foi assim que, no meio daquela madrugada, recebi uma ligação de Jéssica. Posso imaginar a complicação que ela se meteu para poder me ligar sem que eles soubessem. Certamente planejou durante dias esta comunicação, bem como, eu presumo, sua fuga.

Isso é tudo senhores. É tudo que eu sei até aqui. Temos uma pessoa de bem, um cidadão com dois empregos de meio período, que foi subitamente alvo de uma organização que ao que tundo indica, precisa matá-lo, antes que um terrorista detone uma ogiva nuclear nos Estados Unidos. Eu tenho consciência que contar isso em público poderá macular minha carreira nesta instituição de forma talvez, indelével. Mas por mais incerto que meu destino pareça, a história que acabaram de escutar é, como eu disse no início desta conferência, a mais pura versão dos fatos aos quais tive acesso. Daniel não era louco como a junta psiquiátrica imaginou. E talvez esteja ou não porto como a polícia supunha.  Obrigado.

O tumulto recomeçou. Alguns apludiam, outros vaiavam. Foi uma confusão tremenda. As pessoas todas falavam ao mesmo tempo. Os jornalistas disparavam seus flashes.  O Doutor Andreas Jacob agradeceu a atenção, e foi acompanhado pela saída lateral por um dos organizadores da comissão. A foto de Daniel estava aparecendo em todos os jornais, canais de Tv e sites da internet. Ele se recolheu ao gabinete e não quis atender aos jornalistas.

Ao fim do dia, quando saía do instituto pela saída dos fundos, Andreas Jacob já se aproximava para entrar no taxi, quando uma jovem correu e se aproximou do carro.

-Professor Jacob!

-Hã? – A. Jacob se virou para falar com ela.

Não houve tempo. A moça disparou um tiro na direção da cabeça de Jacob. O tiro perfurou-lhe a garganta  e ele caiu no chão entre o taxi e a calçada. O carro acelerou em fuga. A moça se aproximou rapidamente. Jacob estava no chão. Um chafariz de sangue ejaculava de seu pescoço ferido. Ele ainda tinha os olhos arregalados quando viu o cano da arma aproximar-se de sua cabeça e disparar.

A mulher pegou a pasta dele, e correu para uma rua escura. Quando a polícia chegou, dez minutos depois, não havia nem sinal dela. O caso foi registrado como latrocínio.

Muito longe dali, numa velha tv preto e branco, Daniel montava um quebra-cabeças. O assassinato do Doutor Jacob trouxe a tona, mesmo que por um breve período, toda a narrativa daquele telefonema. Agora ele sabia de tudo…

Ele sabia que era o correspondente.

Mas ainda não sabia o que fazer. O suicídio era apenas uma das várias opções possíveis. Ele precisava dar um jeito de se livrar daquilo. Se livrar daquela correspondência e de todo aquele rolo. Daniel desligou a Tv e virou-se na cama para dormir. O dia seguinte seria intenso.

Foi numa biblioteca de cidade do interior, num computador público que, num obscuro site da internet ele descobriu que talvez pudesse mudar seu destino.

FIM (?) 

 

 

 

 

 

O correspondente – parte 4

Comments

comments

Houve um princípio de tumulto no auditório. As pessoas começaram a falar alto sobre a teoria da correspondência. O professor Andreas Jacob não se importou e continuou a narrar o telefonema. Logo, alguns da audiência começaram a solicitar silêncio. E a palestra prosseguiu.

– …Mas vocês não podem simplesmente matar um inocente só porque, sei lá, algum maluco diz que ele é esse tal correspondente aí. – Disse Jéssica.

-Errado. Nós podemos. Pense o seguinte, é um sacrifício necessário para que muitas vidas não sejam perdidas. Milhares de vidas. E durante gerações.

-… – Jéssica ficou sem respostas. Aquilo fazia sentido. Mas ainda assim, não lhe pareceu justo.

-Mais alguma pergunta?

-O que vocês vão fazer comigo?

-Vamos te soltar. Você precisa trazer o Daniel pra nós.

-E se eu não aceitar?

-Morre agora. – Ele disse rispidamente. O tradutor engatilhou a arma de uma forma dramática e eloquente.

Jéssica não disse nada. Apenas concordou com a cabeça. Fosse lá o que ela viesse a fazer, precisava sair do covil daqueles homens estranhos o mais rápido possível.

-Mas eu não sei pra onde ele foi.

-Talvez ele faça contato com você. Se fizer, traga-o para nós.

O velho levantou-se recusando o auxílio do tradutor da CIA. Ele disse adeus em silêncio, com um pequeno aceno e saiu da sala. Logo depois, outros dois homens entraram na sala e pegaram Jessica pelo braço, escoltando- a até a rua, onde um taxi já estava estacionado. Eles colocaram a moça dentro do carro. Entregaram a ela um cartão de visitas quase completamente em branco, apenas com um telefone.

-Ligue para este numero quando localizá-lo. Se você contar a ele sobre o que falamos a você, aproveite bem, pois será o último dia de sua vida, ok?

-…

-Ok?

-Tá, ok. – Disse Jéssica.

-Motorista, leve a moça para onde ela quiser ir. – Disse o homem, fechando a porta do taxi.

Jéssica viu o homem ficando para trás, ainda parado, de pé na calçada. Os olhos fixos no taxi. Ela sabia que os homens a estavam usando como isca.

-Pra onde, senhora?

-Cinco de Julho.

-Sim senhora.

Enquanto o taxi zanzava pela cidade, ela ia imaginando toda aquela estranha história que o velho cientista havia lhe contado. Parecia que o destino do mundo estava agora em suas mãos. Era justo atrair um amigo para uma armadilha fatal na esperança de impedir uma detonação nuclear?  Ela poderia se recusar a fazer aquilo?

Ela sabia que obviamente o motorista de taxi era um deles disfarçado. Soltá-la era a unica forma de localizar Daniel. O que eles pareciam nem desconfiar é que Jéssica não fazia a menor ideia de onde estaria Daniel à aquela altura.

O taxista a deixou na rua indicada. Era madrugada. Fazia frio. Um vento contínuo e cortante assobiava pelas calçadas, levantando papéis velhos e jogando folhas para o ar. Uma chuva se anunciava ao longe.

Jessica correu pela calçada até chegar na rua dela, não muito distante.  Foi pra casa, na esperança de tomar um banho e dormir um pouco.

Ao chegar em casa, se deparou com a mesma toda revirada. Os homens haviam jogado tudo para o ar na busca por Daniel.

Ela trancou a porta, levantou a poltrona e arrumou o abajour. Pulou os livros pelo chão e em meio as roupas jogadas por todo o quarto, procurou uma toalha limpa.

Enquanto tomava banho, Jessica refez mentalmente toda aquela estranha situação.

Daniel não fez mais contato. Nem os homens. Ela sabia que seu telefone estaria grampeado. Passou a viver numa eterna paranoia de estar sendo vigiada.

Um bom tempo depois, ela soube das buscas por Daniel. O dono da locadora contou a ela que eu estava investigando o caso. E foi assim que, no meio daquela madrugada, recebi uma ligação de Jéssica. Posso imaginar a complicação que ela se meteu para poder me ligar sem que eles soubessem. Certamente planejou durante dias esta comunicação, bem como, eu presumo, sua fuga.

Isso é tudo senhores. É tudo que eu sei até aqui. Temos uma pessoa de bem, um cidadão com dois empregos de meio período, que foi subitamente alvo de uma organização que ao que tundo indica, precisa matá-lo, antes que um terrorista detone uma ogiva nuclear nos Estados Unidos. Eu tenho consciência que contar isso em público poderá macular minha carreira nesta instituição de forma talvez, indelével. Mas por mais incerto que meu destino pareça, a história que acabaram de escutar é, como eu disse no início desta conferência, a mais pura versão dos fatos aos quais tive acesso. Daniel não era louco como a junta psiquiátrica imaginou. E talvez esteja ou não porto como a polícia supunha.  Obrigado.

O tumulto recomeçou. Alguns apludiam, outros vaiavam. Foi uma confusão tremenda. As pessoas todas falavam ao mesmo tempo. Os jornalistas disparavam seus flashes.  O Doutor Andreas Jacob agradeceu a atenção, e foi acompanhado pela saída lateral por um dos organizadores da comissão. A foto de Daniel estava aparecendo em todos os jornais, canais de Tv e sites da internet. Ele se recolheu ao gabinete e não quis atender aos jornalistas.

Ao fim do dia, quando saía do instituto pela saída dos fundos, Andreas Jacob já se aproximava para entrar no taxi, quando uma jovem correu e se aproximou do carro.

-Professor Jacob!

-Hã? – A. Jacob se virou para falar com ela.

Não houve tempo. A moça disparou um tiro na direção da cabeça de Jacob. O tiro perfurou-lhe a garganta  e ele caiu no chão entre o taxi e a calçada. O carro acelerou em fuga. A moça se aproximou rapidamente. Jacob estava no chão. Um chafariz de sangue ejaculava de seu pescoço ferido. Ele ainda tinha os olhos arregalados quando viu o cano da arma aproximar-se de sua cabeça e disparar.

A mulher pegou a pasta dele, e correu para uma rua escura. Quando a polícia chegou, dez minutos depois, não havia nem sinal dela. O caso foi registrado como latrocínio.

Muito longe dali, numa velha tv preto e branco, Daniel montava um quebra-cabeças. O assassinato do Doutor Jacob trouxe a tona, mesmo que por um breve período, toda a narrativa daquele telefonema. Agora ele sabia de tudo…

Ele sabia que era o correspondente.

Mas ainda não sabia o que fazer. O suicídio era apenas uma das várias opções possíveis. Ele precisava dar um jeito de se livrar daquilo. Se livrar daquela correspondência e de todo aquele rolo. Daniel desligou a Tv e virou-se na cama para dormir. O dia seguinte seria intenso.

Foi numa biblioteca de cidade do interior, num computador público que, num obscuro site da internet ele descobriu que talvez pudesse mudar seu destino.

FIM (?) 

 

 

 

 

 

O correspondente – parte 4

Comments

comments

Eu dei duro aqui

Com 15 anos de sangue suor e lágrimas, eu me esforcei para fazer um dos blogs mais antigos e legais do Brasil. Mis de 5000 artigos, mais de 100.000 comentários, mais de 20 livros, canal, programa de rádio, esculturas... Manter isso, você pode imaginar, não é barato. Talvez você considere me apoiar no Patreon e ajudar o Mundo Gump a não sair do ar.
Ajuda aí?

Conheça meus livros

error: Alerta: Conteúdo protegido !!