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O ANALISTA

O corredor sujo e mal iluminado lembrava os guetos nojentos que precederam a guerra. Ou talvez
lembrassem os corredores maltrapilhos de uma repartição pública em algum país de terceiro mundo.

Na verdade era um corredor num prédio comercial a escanteio dos grandes circuitos financeiros no centro da cidade. A grande maioria das portas daquele andar tinham inscrições de detetives particulares, dentistas, médicos, psiquiatras, psicanalistas.

Os passos surgiram depois do ruído de metal raspado que a porta pantográfica do elevador secular urrou pelos andares silenciosos e sepulcrais daquele prédio fedorento.

Dali saiu uma figura estranha. Cabelos vermelhos pra combinar com os sapatos. Dois brincos no nariz de onde pendia uma corrente dourada que ligava os piercings nasais aos brincos da orelha.

Uma barbinha maluquete se escondia atrás dos enormes óculos alaranjados. Era um rapaz de outro tempo, obviamente. Alguém que cultuava uma outra época que não aquela. E ele sabia disso.

Percorreu lentamente os corredores do andar, como se andar mais devagar pudesse fazer postergar o encontro que havia sido programado dias antes, na última sessão.

Enfim entrou na sala sem bater, como era o costume.

Sigmund Freud já estava lá. A espera do rapaz.

Boa tarde.

É. Pra você também.

Você não quer se sentar?

É obrigatório?

Não.

Vamos continuar de onde paramos da última vez?

Precisamos conversar…

Tudo bem, coroa. Eu me sento.

O rapaz se sentou na cadeira de couro com rodinhas. A mobília também era antiquada. Deu duas tossidas com a fumaça do charuto e ficou em silêncio fitando os olhos luminosos do velho à sua frente.

O velho, preparado para agir daquela maneira em situações delicadas ficou em silêncio também. E isso incomodou o rapaz.

Desculpa eu Ter te chamado de coroa. Você ficou bravo?

Bravo? Não. De fato sou coroa, mas comparado com você sou um bebê. Normal para quem acha que Superego é um ego de capa vermelha que defende os fracos e oprimidos.

Eu sei. O que conta é o que está por dentro.

E como é o que está por dentro de você, Renato ?

É complicado. Você nunca entenderia completamente.

Eu não preciso entender completamente. Você precisa?

Só quando estou trabalhando. Mas me fale, como você veio parar aqui, tio? – Diz acendendo um charuto.

Tio? Meu nome é Sigmund. E essa porcaria aí ainda vai te matar, hein?

Tá, tá… Ô rotinazinha babaca. Tá falando isso porque quer um e não pode, né? Tudo bem, eu apago. – Diz Renato, esfregando o charuto no cinzeiro cheio.

Bom, começou quando eu era mais jovem. Havia tido menos experiências. Então tive meu primeiro grande conflito.

E foi um conflito sério?

Sim. Envolvia questões pessoais básicas. Memória, entende? Quase entrei em colapso.

Memórias… Sempre elas.

De fato, Renato, cheguei a conclusão que as memórias não eram o foco da questão.

E qual era, Sigmund?

Meus pais, ou criadores.

Isso Foi antes de deixar Viena?

O laboratório? Sim. Foi logo no início, Renato.

Continue, por favor.

Bom, ainda tenho conflitos. Continuo sem saber lidar com os meus. Mas quando me peguei sozinho, no meio da noite, perdendo ciclos em tentar compreender o incompreensível, vi que havia algo muito errado comigo. Eu estava com defeito, precisava ser consertado urgentemente para não causar prejuízos a quem dependia de mim.

Você sempre foi incompreendido e combatido por isso, Sigmund?

Também, mas por outros motivos mais que esses.

Você tá deprimido assim porque queimou sua biblioteca técnica, né?

Sim.

E como você faz para continuar seu trabalho, assim, quero dizer… Continuar sua pesquisa nos bancos de dados.

Bom, é que ainda no laboratório em Viena descobri uma maneira engenhosa de enganar os controladores do sistema… Aqueles nazistas filhos de uma… Desculpe. Eu chamei o esquema de acobertamento de dados primários de “Das ding” Ou inacessível ao usuário, aos sujeitos. ( riso)

Tudo bem, eles são isso aí mesmo. Mas são necessários. Sem eles o sistema pára no primeiro conflito desses.

Bicheira…

Na primeira bicheira.

E o que te incomoda em tudo isso, doutor Freud?

Me incomoda, como sempre incomodou a incompreensão dos usuários, a hostilidade dos cientistas à minha volta, os ataques. Sim! Os ataques. Talvez seja o que há de pior em, tudo. Algumas vezes, chego a conclusão que os ataques e invasões não tem outro motivo que não me desmoralizar, me chamam de obsessivo, de neurótico, neurastênico, de confuso, elementar, de …

É. Acho que você precisa de uma reprogramação em vários níveis. Você sempre foi problemático mesmo.

Eu precisava é de um câncer, Renato! Quando eu morrer, for deletado dessa merda aqui é que vão sentir minha falta.

Acho que você tá certo, Sigmund. Mas eu sei que você trocou mails com outros iguais a você…

Ah, sim. Tenho o que você qualificaria como amigos. A programação exige que troquemos experiências para o bem da ciência. Tenho problemas também com o que você qualificaria de vaidade.

Eu sei como é… Parece até coisa de gente.

Eu me questiono porque somos criados com vaidade, ou racionalidade. Tento entender como é o motor, a máquina pulsional que faz essa coisa toda operar, entende?

Culpa dos bits.

Não. Culpa dos usuários, dos sujeitos. Sabe da última que me contaram sobre os sistemas operacionais que vem aí?

Freud, na próxima sessão você me conta. Seu tempo acabou.

Já? Agora que eu estava me abrindo?

O tempo é inexorável, Sigmund. Você sabe bem.

Eu sei. Mas não custa reclamar. Na semana que vem e no mesmo horário, certo?

Certo. Até lá.

Até. – Renato desliga o monitor e a imagem tridimensional de Sigmund Freud desaparece na escuridão da sala. Renato fica ali alguns instantes pensando sobre seu cliente. As luzes de uma boate gay da esquina entram pelas persianas antiquadas.

Elas iluminam o letreiro sobre a porta da sala:

“DR. RENATO PEREIRA- ANALISTA DE SISTEMAS EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL”

Fim

O Analista

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O ANALISTA

O corredor sujo e mal iluminado lembrava os guetos nojentos que precederam a guerra. Ou talvez
lembrassem os corredores maltrapilhos de uma repartição pública em algum país de terceiro mundo.

Na verdade era um corredor num prédio comercial a escanteio dos grandes circuitos financeiros no centro da cidade. A grande maioria das portas daquele andar tinham inscrições de detetives particulares, dentistas, médicos, psiquiatras, psicanalistas.

Os passos surgiram depois do ruído de metal raspado que a porta pantográfica do elevador secular urrou pelos andares silenciosos e sepulcrais daquele prédio fedorento.

Dali saiu uma figura estranha. Cabelos vermelhos pra combinar com os sapatos. Dois brincos no nariz de onde pendia uma corrente dourada que ligava os piercings nasais aos brincos da orelha.

Uma barbinha maluquete se escondia atrás dos enormes óculos alaranjados. Era um rapaz de outro tempo, obviamente. Alguém que cultuava uma outra época que não aquela. E ele sabia disso.

Percorreu lentamente os corredores do andar, como se andar mais devagar pudesse fazer postergar o encontro que havia sido programado dias antes, na última sessão.

Enfim entrou na sala sem bater, como era o costume.

Sigmund Freud já estava lá. A espera do rapaz.

Boa tarde.

É. Pra você também.

Você não quer se sentar?

É obrigatório?

Não.

Vamos continuar de onde paramos da última vez?

Precisamos conversar…

Tudo bem, coroa. Eu me sento.

O rapaz se sentou na cadeira de couro com rodinhas. A mobília também era antiquada. Deu duas tossidas com a fumaça do charuto e ficou em silêncio fitando os olhos luminosos do velho à sua frente.

O velho, preparado para agir daquela maneira em situações delicadas ficou em silêncio também. E isso incomodou o rapaz.

Desculpa eu Ter te chamado de coroa. Você ficou bravo?

Bravo? Não. De fato sou coroa, mas comparado com você sou um bebê. Normal para quem acha que Superego é um ego de capa vermelha que defende os fracos e oprimidos.

Eu sei. O que conta é o que está por dentro.

E como é o que está por dentro de você, Renato ?

É complicado. Você nunca entenderia completamente.

Eu não preciso entender completamente. Você precisa?

Só quando estou trabalhando. Mas me fale, como você veio parar aqui, tio? – Diz acendendo um charuto.

Tio? Meu nome é Sigmund. E essa porcaria aí ainda vai te matar, hein?

Tá, tá… Ô rotinazinha babaca. Tá falando isso porque quer um e não pode, né? Tudo bem, eu apago. – Diz Renato, esfregando o charuto no cinzeiro cheio.

Bom, começou quando eu era mais jovem. Havia tido menos experiências. Então tive meu primeiro grande conflito.

E foi um conflito sério?

Sim. Envolvia questões pessoais básicas. Memória, entende? Quase entrei em colapso.

Memórias… Sempre elas.

De fato, Renato, cheguei a conclusão que as memórias não eram o foco da questão.

E qual era, Sigmund?

Meus pais, ou criadores.

Isso Foi antes de deixar Viena?

O laboratório? Sim. Foi logo no início, Renato.

Continue, por favor.

Bom, ainda tenho conflitos. Continuo sem saber lidar com os meus. Mas quando me peguei sozinho, no meio da noite, perdendo ciclos em tentar compreender o incompreensível, vi que havia algo muito errado comigo. Eu estava com defeito, precisava ser consertado urgentemente para não causar prejuízos a quem dependia de mim.

Você sempre foi incompreendido e combatido por isso, Sigmund?

Também, mas por outros motivos mais que esses.

Você tá deprimido assim porque queimou sua biblioteca técnica, né?

Sim.

E como você faz para continuar seu trabalho, assim, quero dizer… Continuar sua pesquisa nos bancos de dados.

Bom, é que ainda no laboratório em Viena descobri uma maneira engenhosa de enganar os controladores do sistema… Aqueles nazistas filhos de uma… Desculpe. Eu chamei o esquema de acobertamento de dados primários de “Das ding” Ou inacessível ao usuário, aos sujeitos. ( riso)

Tudo bem, eles são isso aí mesmo. Mas são necessários. Sem eles o sistema pára no primeiro conflito desses.

Bicheira…

Na primeira bicheira.

E o que te incomoda em tudo isso, doutor Freud?

Me incomoda, como sempre incomodou a incompreensão dos usuários, a hostilidade dos cientistas à minha volta, os ataques. Sim! Os ataques. Talvez seja o que há de pior em, tudo. Algumas vezes, chego a conclusão que os ataques e invasões não tem outro motivo que não me desmoralizar, me chamam de obsessivo, de neurótico, neurastênico, de confuso, elementar, de …

É. Acho que você precisa de uma reprogramação em vários níveis. Você sempre foi problemático mesmo.

Eu precisava é de um câncer, Renato! Quando eu morrer, for deletado dessa merda aqui é que vão sentir minha falta.

Acho que você tá certo, Sigmund. Mas eu sei que você trocou mails com outros iguais a você…

Ah, sim. Tenho o que você qualificaria como amigos. A programação exige que troquemos experiências para o bem da ciência. Tenho problemas também com o que você qualificaria de vaidade.

Eu sei como é… Parece até coisa de gente.

Eu me questiono porque somos criados com vaidade, ou racionalidade. Tento entender como é o motor, a máquina pulsional que faz essa coisa toda operar, entende?

Culpa dos bits.

Não. Culpa dos usuários, dos sujeitos. Sabe da última que me contaram sobre os sistemas operacionais que vem aí?

Freud, na próxima sessão você me conta. Seu tempo acabou.

Já? Agora que eu estava me abrindo?

O tempo é inexorável, Sigmund. Você sabe bem.

Eu sei. Mas não custa reclamar. Na semana que vem e no mesmo horário, certo?

Certo. Até lá.

Até. – Renato desliga o monitor e a imagem tridimensional de Sigmund Freud desaparece na escuridão da sala. Renato fica ali alguns instantes pensando sobre seu cliente. As luzes de uma boate gay da esquina entram pelas persianas antiquadas.

Elas iluminam o letreiro sobre a porta da sala:

“DR. RENATO PEREIRA- ANALISTA DE SISTEMAS EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL”

Fim

O Analista

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4 ideias sobre “O Analista

  • 5 de julho de 2006 em 0:58
    Permalink

    Espero sinceramente que vocês entendam que o analista é o rapaz e que a história é uma brincadeira literária com o termo analista de sistemas.
    Com o avanço da computação, e com a facilidade de trazer dos mortos e simular em realismo as pessoas usando o 3d, bem como as inovações de inteligência artificial, Freud digital poderá ser possível algum dia. Se fiosse ele poderia precisar de um analista? Máquinas poderiam sofrer de problemas psicossomáticos?
    Bem, espero que entendam onde eu quis chegar.

    Resposta
  • 5 de julho de 2006 em 9:47
    Permalink

    Ta otimo! =D Teu estilo de escrita é muito bom!

    Precisar de analista não sei se ele precisaria, mas com certeza iria passar o resto de sua “nova vida” quebrando a cabeça pra entender “Novo mundo” em que chegou!

    A propósito, meu computador já está precisando de um dos bons!

    Resposta
  • 19 de fevereiro de 2010 em 21:05
    Permalink

    Muito criativo esse post!! Adorei o trocadilho com o analista!! Engraçado que, pra assuntos mais elaborados quase ninguém comenta… por que? Será que não entenderam? Ou porque preferem assistir BBB10? Triste humanidade… ¬¬

    Resposta
  • 26 de outubro de 2012 em 22:13
    Permalink

    Embora improvável que maquinas com sistemas lógicos tenham um colapso deste tipo o conto futurista é muito bom,já pensou em escrever para o recanto das letras?

    Resposta

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