Gringa – Parte 5

Evandro desceu pelas pedras. Alex estendeu seu braço esticando ao máximo possível para segurar a mão de Evandro.

O rapaz desceu para o platô de pedra mais baixo e pegou a mulher no meio dos mariscos.

Assim que Evandro levantou o corpo da jovem, uma forte onda o atingiu.  Por pouco que Evandro não foi tragado pelo mar. Ele caiu de joelhos sobre a barreira de mariscos e segurou o corpo da mulher contra a força da água.

Alex se agarrou na pedra e estendeu a mão. Evandro passou o corpo da jovem para o amigo, que a ergueu com facilidade, de depositou seu corpo sobre a rocha molhada.  Uma nova onda vinha.

-Cuidado!

Evandro saltou e agarrou a mão de Alex. Com algum esforço, ele conseguiu puxar Evandro para cima.

Os dois tentaram examinar a mulher, mas a chuva era tão violenta e as ondas estavam batendo com violência cada vez maior no costão da ilha. Alex fez um sinal com o dedo sobre a garganta, indicando que ela estava morta. Os dois pegaram o corpo com cuidado. Alex  levantou o corpo dela e colocou sobre as costas. Evandro pegou a lanterna e foi na frente, iluminando a trilha.

Escalar a trilha com a mulher não foi fácil. Enquanto na descida o perigo era de escorregar, para subir não se via onde pisar de tanta água que estava descendo da mata.  A trilha havia se transformado num pequeno córrego alaranjado que descia caudaloso, manchando a rocha escura e descendo para o mar ao lado do píer.

Quando finalmente os dois conseguiram chegar na casa, estavam completamente ensopados e sujos de lama.  Evandro tinha novos cortes sangrando nos joelhos, misturando um amarelo ocre com rajadas de vermelho que escorriam pelas canelas também feridas.

Estavam completamente exaustos.
Alex colocou a mulher deitada no chão da varanda e os dois rapazes se sentaram no chão, na chuva do lado de fora da varanda.
Raios estouraram nas proximidades da ilha, em enormes explosões.  O vento vinha inclemente, e em certos momentos, a sensação é que chovia até debaixo para cima.
Evandro pegou um dos baldes que estava transbordando de agua da chuva e jogou sobre os joelhos, esfregando com força a lama.  Ele fez uma expressão de dor. Do outro lado, Alex também jogava a água de outro balde sobre o corpo.

Minutos depois eles haviam entrado e trocado de roupa. Colocaram roupas secas e estavam parados, em silêncio, junto a porta da casa. O corpo da mulher estava estendido na varanda com o rosto caído de lado. Nenhum dos dois conseguia falar nada. Não era apenas cansaço.  Era um misto de tristeza e perplexidade.

Alex finalmente quebrou o silêncio, enquanto acendia um cigarro.

-Como é que pode?

-Tão linda. Olha aí…

-Quantos anos você acha que ela tinha?

-Uns dezoito?

-Não, acho que uns vinte e dois.  Não mais que vinte e três… – Disse Alex, olhando para ela.

-Com certeza.  Parece albina.

-Albina acho que não é, mas é muito pálida. Moça de apartamento com certeza.

-Será que é porque morreu?

-Não, não. Defunto é amarelado. Disso eu tenho experiência. Já vi tanto defunto…

-Tô ligado.

-Sabe o que eu acho curioso? Não tem anel, nem pulseira. Nunca furou a orelha, não tem relógio, cordão, nem queimadura, nem marca de biquini…  – Disse o ex-policial, puxando a mão da moça. – Outra coisa… Nunca se depilou…

-Faz lembrar até aquelas playboys dos anos 70… Olha que mãos lindas que ela tem… – Disse Evandro, sentando ao lado do corpo.

-…Ela nunca fez a unha. Não tem esmalte, e as cutículas estão todas aqui. E olha que estranho… Tá vendo aqui?

-Tô…

-Não está com a mão enrugada.

-Hã?

-O corpo enruga quando fica muito tempo na água, mas ela não tá enrugada. A mão não está, o pé não está… Essa mulher morreu tem pouco tempo. Se fica muito tempo na água o corpo incha. A cara da pessoa morta na água fica quase como a de um sapo com o olho estufado.

-Faz sentido até porque morto não grita. Ela morreu antes da gente chegar lá em baixo.

-Talvez o grito não fosse dela. Poderia ter mais alguém lá…

Os dois se entreolharam preocupados com aquela ideia.

-Será?

-Pode ser… Mas descer lá é risco de vida pra nós agora. Você viu o tanto de onda já subindo o costão.

-Alex, onde você vai?

-Vou fazer café.

-Café? Agora?

-Café. Quer café?

-Não, pô.

-Pois eu quero café! Na real, eu queria mesmo é uma pinga pra acalmar os nervos. Preciso pensar o que vamos fazer com essa porra aí!

-Melhor café.

-Melhor café! – Concordou Alex, e entrou para a cozinha, para ligar o fogareiro de camping.

Evandro ficou admirando o cadáver. Ele virou o rosto dela. Era estranhamente familiar. Os cabelos pretíssimos espalhados pelo rosto como filamentos e pedaços de algas contrastavam com a palidez da pele. Ela era macia. Evandro deslizou os dedos sobre o corpo molhado da moça. Estava gelada, e lembrava mais uma estátua de mármore do que uma pessoa.

“Como alguém pode chamar essa perfeição de porra?” – ele se perguntou mentalmente.

Evandro passou a mão sobre os seios da jovem, e desceu pelo braço, acariciando sua pele molhada até chegar na mão da jovem, que ele segurou com carinho.

Subitamente, ela apertou a mão dele com tamanha força que Evandro deu um grito e pulou de costas batendo a cabeça na porta da varanda.

-Ahhhhhhh!

Alex chegou correndo.

-Que porra é essa?

-Ela ta viva maluco! Ta viva! Tá viva! – Ele disse, segurando a a cabeça para ver se estava sangrando.

Alex deu uma sonora gargalhada.

-Ta rindo de que, panaca?

-Ela ta morta, doido. Olha aí, mortinha.

-Não, não! Ela apertou minha mão.

-Calma. Eu estudei isso na academia. Tanto a contração como o relaxamento dos músculos gastam moléculas armazenadoras de energia, conhecidas por ATP. Mas, quando a pessoa morre, as reservas de ATP se esgotam, os filamentos musculares de contração ficam permanentemente unidos. É nesse instante que pode haver uma movimentação brusca dos membros, se eles estiverem estendidos. Esse movimento tende a ser sempre em direção ao centro do corpo e pode ser influenciado por fatores como a temperatura ambiente. No caso dela, estava muito gelada e está esquentando. É por isso esse espasmo cadavérico.

-Que diabo! Quase vomitei meu coração nesse bagulho de ATP! Do coração já sei que não morro nunca mais. O maior susto da minha vida.

-Olha com a lanterna a pupila dela como está dilatada. – Disse Alex, passando a lanterna para Evandro.

O jovem abriu os olhos da moça.

-Oloco, olhos azuis! Vem ver.

Alex abaixou-se sobre ela para olhar os olhos da falecida.

Evandro acendeu a luz nos olhos da moça e em um segundo, a pupila se contraiu.  Os dois gritaram de susto.

-Puta que pariu! – Alex deu um salto para trás!

-Ela não tá morta!

-Eu falei, eu falei! Eu falei porra! Eu te disse, não disse? Olha aí caralho! Ela ta viva!

-Rápido! Rápido, vamos botar ela no sofá! Ela teve uma hipotermia!

Os dois pegaram a moça com cuidado e colocaram no colchonete sobre o sofá de alvenaria.

-Pega uma roupa, pega o casaco de lã. Joga por cima dela! Temos que aquecer ela!

-A água do café!

-Isso!

Alex pegou um grande saco plástico que eles tinham trazido para impermeabilizar uma das mochilas de acampamento. Ele derramou a água quente no saco e depois foi lá fora e pegou um balde da água da chuva e foi enchendo até formar um saco grande de água morna. Evandro colocou o saco de água morna sobre o corpo gelado da mulher.  Depois cobriram com os casacos por cima para abafar.

-Será que vai dar certo?

-Só podemos torcer.

-Será que ela ressuscitou?

-Cara, eu acho que não. Mais provável que ela estava com catalepsia, que é um problema do sistema nervoso que diminui drasticamente os batimentos cardíacos, dando a ilusão de que a pessoa morreu.

-Que loucura. – Evandro sentou na banqueta da sala. – Ela ta respirando, se liga. Ta respirando, olha a ponta do casaco. Ta mexendo!

-Se a gente contar ninguém vai acreditar.

-Faz um café lá porque agora quem precisa do café sou eu, cara! – Disse Evandro, sem tirar os olhos da moça.

Alex foi para a cozinha pegar a água do galão.

Ela agora parecia estar dormindo em paz. Gradualmente, a pele dela parecia estar ganhando um pouco mais de cor, mas era difícil de ter certeza, devido a luz de velas que tonalizava todo o ambiente de alaranjado. Evandro arrumou os casacos sobre o corpo dela. Foi até o quarto, pegou duas meias e enfiou nos pés dela.

Alex retornou com as canecas cheias de café fumegante.

-Que horas tem aí?

-Uma e meia da manhã. – Disse Alex, tomando um gole de café.

-Nossa, tô pregado.

-Eu também. Aquela onda… Achei que ia te puxar.

-O mar aqui não é brincadeira. Quem vê em dia de sol, aquela água paradinha…

-É traiçoeiro. A gente não pode dar mole.

-Que merda! – O rapaz apontou para as feridas nos joelhos. Estavam em carne viva com peles penduradas.

-Olha o lado bom…Pelo menos você ta vivo. Vamos cuidar desse joelho, que se isso infeccionar vai dar ruim.  – Disse, indo até o quarto. Alex saltou o balde de aparar as goteiras no centro da sala e voltou com a caixa de primeiros socorros.

-Que isso?

-Morde aí. – Alex estendeu para Evandro um rolinho de gaze.

Evandro mordeu a gaze e fechou os olhos. Alex derramou álcool nos cortes.

O jovem gemeu de dor. Mordia forte o rolo de tecido. O álcool queimou nas feridas como um ferro em brasa. Em seguida, Alex enfaixou as pernas de Evandro e colou com esparadrapo.

-Vai arder um pouco ainda, mas com certeza não vai ter infecção.  Toma mais café. Tu tá branco. Não vai desmaiar, hein?

Evandro tomou um gole de café que desceu queimando na garganta. – Deus me livre! Nunca mais!

-Se arrependeu de ter pescado esse peixão aí, né? – Alex apontou com o cigarro a moça no sofá.

-Não. Nunca.  Olha pra ela. Será que está em coma?

-Não sei. Sem equipamento não dá pra saber. A gente precisava de um médico aqui nesse buraco. Mas me parece que ela tá dormindo…

-Como vamos saber?

-Bom, se ela não acordar, é porque está em coma. -Alex riu com o humor negro de sempre.

Ela estava imóvel como uma estátua de cera.

-O colchão de água morna deve estar funcionando bem!

-Magáiver tá de parabéns!

-Agora, de onde você acha que essa garota saiu? – Perguntou Evandro, segurando os joelhos que ainda estavam ardendo.

-Tá na cara… O Manel falou que virou um barco dos gringos. Ela certamente tava no barco e nadou até aqui. Ia morrer nas pedras se a gente não chega. -Disse Alex entre goles no café.

-É. Faz sentido.  Temos que avisar o seu Manel. Tem que informar pra Capitania dos Portos;

-Sim, mas cadê o sinal que não volta?

-Com essa tempestade lá fora, é impossível! Mas vou te falar, estou aliviado pra caralho. Ia ser foda explicar essa mulher morta aqui…

-Parece que ela está suando, olha.

-Verdade. Ela ta meio brilhosa.  Tira um dos casacos. A água morna já deve ter aquecido ela.

Eles removeram um dos casacos que cobriam o corpo da jovem. Alex foi até o quarto e voltou.

-Ué. Que isso?

-Vamos vestir ela.  – Disse, mostrando uma camiseta dele.

-Muito grande pra ela. – Evandro riu. – Ai, ai, porra… – Se levantou com dificuldade da banqueta com os joelhos enfaixados e foi até o quarto. Voltou com outra camisa, dessa vez, dele.

-“Guns N´ Roses”?

-Espero que ela goste.

-Acho que essa vai ficar melhor mesmo. Não é gigante mas é comprida.

Os dois tiraram o saco de água morna e os casacos que cobriam o corpo da moça e vestiram com alguma dificuldade a camiseta de Evandro nela.

-Olha, olha ali! – Disse Alex mostrando os cortes no corpo da jovem. Seu flanco esquerdo estava repleto de arranhões e feridas, que agora estavam bem vermelhas e minando sangue, que já havia manchado o colchonete.

-Eu vou segurar ela na posição. Você faz o curativo. – Evandro segurou a jovem, expondo seus cortes.

Alex pegou a caixa de primeiros socorros da mesa e derramou álcool. Com um chumaço de algodão, ele foi limpando as feridas. A moça não esboçou qualquer reação de dor. Depois, Alex  derramou água oxigenada. A água ferveu sobre os machucados. Eles limparam com cuidado, depois cobriram com curativos. Finalmente, a deitaram no colchonete sobre o sofá e colocaram apenas um dos casacos sobre ela. Ela parecia dormir profundamente.

-O pulso dela já voltou ao normal. – Disse Alex, segurando o braço da jovem.  – Vamos monitorar ela de perto.

Os dois ficaram ali, apenas ouvindo o barulho da chuva lá fora. O ping-ping incessante da goteira no balde tornava o ambiente maçante. O vento assoviava sem parar, sacudindo a mata. Já passava das duas e meia da manhã quando o sono e o stress acumulado do resgate finalmente cobraram seu preço.

Estavam todos dormindo. Evandro esticado chão sobre o colchonete da barraca e um travesseiro. Alex dormiu sobre a mesa de madeira rústica da sala.

De vez em quando, um dos dois acordava e verificava como a moça estava. Ela estava sempre igual, desmaiada como uma estátua.

Quando Evandro acordou, encontrou Alex brincando com sua faca e fumando perto da janela. O tempo havia melhorado. Não havia sinal da chuva. O sol entrava pelas frestas do telhado salpicando o chão de pequenos pontos de luz. A primeira coisa que ele fez foi olhar para a jovem. Ela estava rigorosamente igual. Não havia mudado de posição.

-Ela tá dormindo. – Alex sussurrou.

-Viu o pulso?

-Acabei de ver.

-Que horas são?

-Nove e quarenta.

-Caraca! Nove da manhã?

-Perdemos a hora, mano.

Evandro se levantou e foi escovar os dentes.

-E as pernas?

-Hum…. – Ele gemeu em resposta, fazendo um joinha com o polegar.

-Tá legal mesmo ou tu ta com medo de ter que fazer outro curativo, Evandro?

Ele não respondeu. Apenas cuspiu a água pela janela e limpou a boca no braço.  Passou a mão no cabelo.

-Meu, eu tô um lixo. – Disse, indo até o saco de biscoitos onde pegou um punhado de rosquinhas de coco.

-Tô vendo.

-Meu cabelo parece concreto.

-Devia ter lavado com shampoo ontem, na chuva.

-Eu tava com tanta dor que nem conseguia pensar direito. Esses mariscos são muito afiados. Quer uma?

-Opa! Valeu. São milhões de anos que essas porras estão ali grudadas, o costão tá cheio de conchas de ostras. Os mariscos nem são tão problemáticos. O lance são as ostras, que formam tipo umas faquinhas… Cortam igual gilete.

-A chuva passou.

-Abriu um clarão no céu agora a pouco. O sol veio com força. Mas não sei se vai durar. – Disse Alex olhando pela janela para o céu. -Dependendo do vento…

Evandro pegou o telefone celular e ligou.

-Nada de sinal.

-Tá sem sinal nenhum… Desliga, pra poupar a bateria.

Evandro desligou o celular. Depois foi até a banqueta e se sentou na varanda, perto de Alex.

-O balde ali ta quase transbordando.

-Foi muita água, mané.

-Muita.  Tava aqui pensando no seguinte. A gente tem que fazer um plano aí pra Gringa.

-Sim, eu estava pensando isso aqui. Vamos que o Manel aparece aí com o barco. Se ela não tiver acordado? Como que nós fazemos? Acho perigoso mandar ela assim, toda mole no barco do velho.

-Não sei nem como descer com ela pro píer nesse estado. Ela ta toda machucada ali nas costas.  O barco do Manel não tem como levar ela deitada no fundo por causa das travessas.

-O ideal era ele trazer uma lancha. A gente pegava uma lancha maior e botava a gringa na cama.

-O Manel não deve ter habilitação de pilotar lancha. Ele é pescador. – Disse Evandro.

Alex estocou a madeira podre da porta com a ponta da faca. -Mas a gente resolve isso! Quando o Manel vier trazer os mantimentos, você vai no barco com ele. Chega lá na vila e tenta desenrolar uma lancha. Uma vez na vila, explicando lá pelo rádio da pensão com a capitania dos portos que encontramos uma sobrevivente do naufrágio, eles mesmos podem vir com a lancha da Marinha buscar ela.  Temos que mandar a Gringa direto para um hospital.

-A gente não tem capacidade de tratar dela aqui. Tem que ser num hospital mesmo, você tem razão. O ideal mesmo era o Manel já vir com um médico da vila pra cá para ele atestar o estado de saúde dela. Ela não moveu um músculo essa noite toda. Acho que está em coma.

-Isso seria o ideal. Mas quando será que aquele velho vai aparecer? Essa é a questão!

-Pois é.  O que me preocupa é isso. Antes a gente tava sem água, foda-se, a gente bebe água da chuva. Acabou a comida? A gente pesca qualquer porra aí. Agora, essa gringa, a gente alimenta como? Como vamos hidratar ela sem soro? Quanto mais o tempo passar, mais complicado vai ficar o problema!

-Bom…  Como dizem, “o ótimo é inimigo do bom”. Vamos fazer o que pudermos. Vou dar uma limpeza geral no quintal. Caiu muito galho com a chuva. Vou subir no telhado para fechar esse buraco infeliz. Tenho que esticar o almofadão do sofá em cima daquele galho lá para ele secar… Aproveitar o sol.

-Eu vou dar uma arrumada aqui dentro e fico de olho nela.

Alex se levantou, esticou o corpo musculoso e se espreguiçou ao vento gelado que vinha do mar.

Nas horas seguintes, cada um foi para seu lado. Alex coma vassoura removia montanhas de folhas e galhos quebrados dos arredores da casa.

Evandro com alguma dificuldade ia arrumando as coisas. Passou um pano molhado no chão da sala. O vento da chuva tinha enchido a sala de folhas e areia. A areia vinha sabe-se lá de onde, já que a ilha não tinha praia ao redor.

Quando era cerca de meio dia, o sol estourou no céu com grande potência, trazendo uma onda de calor violenta.  Alex chegou na varanda com o machado na mão.

-E aí o rango?

-Pensei em comermos algo das latas. Atum?

-Atum com o que??

-Atum com ervilha?

-Pode ser.  E a gringa? Nada, né?

-Nada. Só paradona ali.

-Bom, vamos comer. – Disse Alex, indo até o galão de água para lavar as mãos.

Eles abriram as latas , derramaram um pouco em cada prato e começaram a comer.  Lá fora, as aves faziam grande arruaça nos galhos.

-Elas estão animadas.

-É o sol. Com certeza.  – Disse Alex, entre uma garfada e outra. – Acho que de tarde eu vou lá no píer pegar uns peixes para essa noite.

-Ué. mas isso ai no teu prato é peixe!

-Tô falando peixe de verdade, não esse negócio aqui.  ruim pra caralho. Olha essa ervilha cinza… Tudo da marca mais vagabunda. Economia lazarenta. Que ideia de jerico de trazer peixe enlatado para uma ilha…

-Porra tu só reclama também, puta que pariu! Você com fome fica chato pra caralho. Dá um tempo.

-Ui. Tá nervosa!  Qual é?  Vai encarar? Come aí essa gororoba você então, caralho.

Alex se levantou, jogou o prato com resto e comida sobre a mesa e foi lá pra fora. Pegou a reta da trilha do píer.

Evandro continuou a comer. Foi na varanda e jogou os restos de comida no mato. Ia lavar os pratos com a água do galão, mas estancou. Ela estava acabando. Evandro estimou que o galão principal ainda tinha uns três litros. Havia ainda mais uns três no outro galão.
Eles haviam deixado os baldes enchendo com água da chuva, para fazer uma reserva, tomar banho e lavar as coisas, mas se a água mineral acabasse, teriam que começar a beber a água da chuva. Talvez fosse bom começar a racionar. Evandro sabia que essa região a chuva é sempre uma constante, mas poderia passar facilmente duas semanas sem uma única gota e isso colocaria a vida deles em risco caso Manel não aparecesse.

Evandro pegou um copo e coletou água do balde da goteira e usou essa água para lavar os dois pratos e talheres.

Em seguida, pegou o violão. Sentou-se na varanda e começou a tocar para espairecer. A tarde parecia estar se esticando anormalmente. Evandro se empenhava em um novo arranjo para Carinhoso, do Pixinguinha.

“O tempo não passa quando você está preso numa ilha” – Pensou.

Ficou ali dedilhando o violão, quando uma voz falou dentro da sala:

-Mgsmk e mgs ckgcjz!

Assustado, Evandro deu um pulo e olhou pela porta adentro.

A gringa estava sentada no sofá olhando para ele com aqueles olhos azuis que mais pareciam duas jóias de águas marinhas.

-Mgsmk e mgs ckgcjz?

-Puta merda, a Gringa acordou! – Evandro gemeu, sem saber o que fazer.

CONTINUA

Este livro está disponível na Amazon https://www.amazon.com/-/pt/gp/product/B0BY61P1KH/ref=dbs_a_def_rwt_bibl_vppi_i1

Receba o melhor do nosso conteúdo

Cadastre-se, é GRÁTIS!

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade

Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.
Previous article
Next article

Artigos similares

Comentários

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Últimos artigos

Gripado

O dia da minha quase-morte

Palavras têm poder?