Gringa – Parte 17

Evandro foi dormir intrigado. As imagens de seu sofrimento naquele buraco não lhe saíam da cabeça.  Ficou pensando também na mulher morta que encontrou e achou que fosse a Gringa. Quem era aquela mulher? Pelo estado de decomposição do corpo, ela parecia estar na ilha a pouco tempo. Seus membros foram cortados… Alguém matou aquela mulher, mas por que?
Ela parecia ter a mesma altura e idade da gringa, o que era estranho. Estariam ligadas de alguma maneira? Não havia roupas visíveis, apenas o corpo quase todo coberto de folhas das árvores. A gringa também foi aparecer nas pedras praticamente morta e nua… Seria só coincidência?  Ou as duas estariam ligadas de alguma maneira?
A cabeça de Evandro ia fervilhando de perguntas. Era um quebra-cabeças complexo que ele tentava desvendar.
No escuro da alta madrugada, bem na cama ao lado dele, Gringa dormia completamente nua. Ela acariciava os cabelos dele e Evandro gostava daquilo. Mas ele sabia que ela também estava acordada. Talvez estivesse perdida em seus pensamentos. Mas no que?
Ele voltou aos pensamentos da mulher morta.

“E se uma outra mulher como a gringa chegou do mesmo jeito, jogada pelo mar e Alex a matou?”

Ele não havia falado nada, a saída repentina da ilha assim que Evandro voltou despertaram suas suspeitas.  Evandro começou a refletir sobre a possibilidade concreta do Alex não voltar nunca mais.

“Será que o filho da puta fugiu?”

Estava claro para ele que a ilha, antes um oásis de tranquilidade para os perigos do mundo, era agora perturbada por uma ameaça permanente. Quem matou aquela mulher poderia ainda estar na ilha. E se houvesse mais alguém além deles dois?  Talvez o assassino estivesse apenas esperando o momento para liquidá-los, como fez com a mulher misteriosa. Será que a gringa estava sabendo ou pressentia o perigo? Talvez isso explicasse suas fugas matinais. Evandro percebeu que havia tantas perguntas num mistério que era grande demais para ele desvendar apenas pensando. Ele precisava enquadrar melhor o mistério. O ideal seria fugir da ilha.

Traçou um plano de fugir da ilha na segunda-feira assim que os trabalhadores chegassem. Ele ia inventar uma desculpa, colocar a gringa no barco mesmo que à força e fugiriam dali para um lugar seguro. Depois, em segurança, ele acionaria a polícia. O assassino poderia estar sempre à espreita. Se ele falasse no celular qualquer coisa estando na ilha, talvez isso desencadeasse sua própria morte.

O plano estava traçado, mas ele precisava entender a gringa. A morta estava morta e isso poderia esperar, mas se essa mulher morta estivesse ligada com a gringa, isso implicaria em risco direto para a gringa? Tudo parecia levar a crer que sim, e explicaria o fato dela ser tão arredia quando outras pessoas chegavam. Ela apenas sumia. Numa ilha não tão grande, para onde ela estaria indo? Estava se escondendo de quem ou de quê?

Parecia que a Gringa tinha ido parar nas pedras após algum tipo e violência. Ela poderia ter perdido a memória. Uma pancada na cabeça? Caiu de um barco? Algum problema neurológico poderia ter comprometido sua fala, afetando a maneira como ela se expressava.

“…Mas uma coisa é a pessoa não se expressar direito, outra é falar uma língua diferente, e se esconder, porque ela se esconde.”

Evandro planejou uma investigação. Ele estava disposto a seguir a gringa. Ele esperaria acordado, e fingiria estar dormindo. Quando ela saísse ele iria atrás para ver onde ela estava se escondendo.

A gringa começou a alisar seu corpo. As caricias estavam se intensificando. Ela encostou o corpo dela no dele. Agora estava se esfregando nele.  Evandro ficou firme, fingindo estar dormindo. Não estava realmente com nenhuma disposição sexual com tantas perguntas girando na cabeça. A gringa deslizou a mão pelo corpo de Evandro em busca de seu pênis. Ele então pegou a mão dela e tirou, como quem diz “não quero”.
Ela ficou parada, estática. Ficou uns dois minutos imóvel. Evandro ficou atento ao que ela faria. Ele até naquele momento nunca tinha recusado uma investida da gringa.  Ela estava ali, no escuro. Se afastou dele. Virou para o outro lado da cama.

Evandro se arrependeu. Talvez devesse ter tido mais tato ao lidar com ela. Ela era uma mulher jovem  e cheia de desejos, e não sabia nada pelo que ele passou naquele dia. Ela não tinha culpa. Talvez só quisesse fazê-lo feliz.

Evandro esticou o braço para acariciar os cabelos dela, mas a gringa pagou “na mesma moeda“.  Ela agarrou a mão dele com certa violência e deu um puxão, afastando dela.

“Ops, ela ficou brava!” – Ele pensou.

Ficou ali, ele também sem saber o que fazer. Ficou estático. Os dois como duas pedras geladas, cada um num canto do colchão, perdidos em seus pensamentos.
Evandro percebeu um movimento de leve na cama. Achou que a gringa estava chorando. Parecia soluçar baixinho, mas ele não teve coragem de uma nova investida. Resolveu deixar rolar.

“Eu tenho direito de não querer, porra!” – Pensou. Talvez fosse o melhor. Assim ela o deixaria em paz para pensar. Ele tinha muita coisa na cabeça naquela noite e precisava organizar os pensamentos para novas ideias que talvez desvendassem o mistério. E se tudo estivesse ligado de alguma maneira? A armadilha, o pirata morto, a mulher assassinada, a família que desapareceu a gringa…

Seus pensamentos se voltaram para o pirata. Com certeza ele  era um pirata, ou talvez um soldado?

Certamente, para ter três espadas na armadilha é porque homens armados num passado distante estiveram vagando na ilha. Estariam procurando o que? Só havia uma hipótese na cabeça dele: Um tesouro de piratas.

As lendas dos caiçaras de Angra sempre envolvem tesouros escondidos e coisas delirantes, como galeões fantasmas.  Será possível? Certamente, galeões fantasmas são imaginação , mas piratas ele sabia que realmente existiram. Eles pilhavam as embarcações da região, e eram um problema sério para o primeiro Império e boa parte do segundo império. Mas e se não foram exatamente piratas?  Talvez fossem  soldados, ou sabe-se lá quem foram os que habitaram o lugar.

E se a cruz na pedra indicasse um tesouro dos Cavaleiros Templários? Aquela ideia surpreendeu Evandro:

“Imagina se o Santo Graal está escondido aqui?”

Em seguida, ele mesmo achou graça do pensamento: “Estou vendo muito filme do Indiana Jones”.

Evandro se lembrou de estar no buraco da armadilha cantarolando a musiquinha do filme, mas realmente, as situações eram muito surrealmente típicas do personagem, um crânio sorrindo pra ele, cobras nadando na poça, estacas num poço de armadilha, livros em latim, espadas…  Lembrou-se dos filmes e de quando ia ao cinema com a irmã.

Ficou lembrando da Bianca, a irmã dele. Se estivesse viva, ela teria trinta e um anos. Ele certamente teria sobrinhos. Ele ficou ali, perdido em pensamentos lembrando do passado quando ele e Bianca ainda eram tão jovens que brincavam juntos. Um desses dias foi marcante na vida dele, porque aquele foi o dia do seu primeiro beijo, e ele nunca esqueceu de Isabella.

Evandro tinha doze para treze anos, quando  conheceu Isabella num um aniversário de um dos maiores fazendeiros do Brasil, Walcyr de Moraes.
Aquele dia era especial. Eles tinham ido para uma mansão que ficava perto da praia da reserva, num tempo que tudo lá era só mato. Evandro se lembrava de ter ficado o que pareciam horas no carro até que eles finalmente entraram pelos portões majestosos de uma propriedade.  De cara ele percebeu que a casa mais parecia um clube de tão superlativa. O caminho de pedras levava até um pórtico de ferro fundido, onde dois leões de mármore recebiam os visitantes. Evandro se impressionou com a imponência dos leões. O pai dele falou algo sobre terem sido comprados de um antigo palácio demolido no Rio.  O carro seguiu pela alameda de pedras até estacionar junto com pelo menos uns vinte outros, que já estavam lá, sob um caramanchão lilás.

Na entrada, diante de uma linda escadaria, eles foram recepcionados por dona Yolanda de Moraes, a mulher de Walcyr. Seria uma noite memorável para a elite carioca.

Evandro se lembrava vagamente de rostos famosos, sendo o mais famoso com quem ele deu de cara ninguém menos que o rei Pelé. Ele estava numa mesa, cercado de outros homens conversando negócios. Evandro quis chegar perto, pedir um autógrafo, mas já estava ciente das regras. “Filho de embaixador não pode pedir autógrafo nunca”.
Ele estava vestido num terninho feito sob medida no alfaiate do Avô. Era uma roupa apertada que lhe deixava parecendo um pequeno almofadinha, mas logo ele encontrou diversos outros garotos com idades parecidas. Todos estavam trajando o mesmo uniforme desagradável esporte fino.
Os garçons estavam andando de um lado para outro com bandejas repletos de coisinhas gostosas. Evandro estava perseguindo um garçom que desfilava pelo salão com um abacaxi repleto de ovos de codorna espetados, quando a dona Yolanda apareceu diante dele.

-Evandrinhoooo! Como você cresceu, meu amor! – Ela disse dando um beijo estalado na bochecha dele.  – O conde veio com vocês?

-Não. O vovô ficou na Suíça.

-Ah, que pena! O Walcyr ama conversar com o seu avô… Olha, os meninos estão brincando lá perto do lago. – Ela disse, apontando para a varanda, e abaixando-se , falou baixinho no ouvido dele: –  Pode tirar esse paletó se quiser!

-Posso mesmo?

-Claro, amor! Se sua mãe brigar, diz que eu falei que podia, pra não sujar.

-Ah, obrigado!- Ele abriu um sorriso enorme. Era sua carta de alforria daquele Tweed lazarento, num calor de quase 40 graus.

Quando ela se abaixou, Evandro notou e registrou na memória os brincos de diamante, reluzentes como faíscas mágicas. A dona Yolanda era muito bonita e elegante, em contraste com o velho, com quem ela era casada. Ele era um velho decrépito, meio turrão, podre de rico como todos os amigos do pai dele, mas inconveniente. Estava sempre com brincadeiras idiotas e costumava ser muito desagradável com as mulheres. Evandro já havia notado estranhos olhares entre o avô dele e a dona Yolanda num jantar. Talvez o velho Walcyr também já tivesse percebido, pois ao contrario do que ela dizia, ambos se abominavam.

Ela pegou o paletó dele e a gravatinha. Entregou para a Frida, uma moça alemã que sempre andava atrás dela para todo lado.

Evandro saiu pela varanda, onde muitos convidados, alguns que ele costumava ver na televisão, estavam conversando animados, espalhados em várias mesas, onde os garçons serviam vinho branco.

A mansão em estilo neoclássico era fantástica. Ele percorreu toda a extensão da varanda que parecia nunca acabar. Lá longe, viu o lago. Era um lago grande com patinhos nadando nele.
As crianças brincavam de correr em grupos de quatro ou cinco ao redor do lago, pelo enorme gramado rodeado por uma alameda de frondosas arvores. Eram meninos sempre de camisa social com as mangas dobradas e as meninas correndo com vestidões de festa. Ele ficou ali na varanda, junto à grade, olhando as crianças brincando. Devia ter pelo menos umas dezoito crianças, alguns mais velhos, outros mais novos que ele. Mas a ampla maioria delas regulava a idade com ele. A Bianca passou correndo pelo imenso gramado, com um menino de uns quinze anos correndo atras dela. Estavam brincando de “pique-pega”.

-Não vai se divertir, filho? – Perguntou uma voz trêmula.

Evandro olhou para trás e viu, sentado junto da mureta, um homem velho, com barba e bigode brancos e um engraçado óculos de armação grossa. O homem estava fumando um charuto.

-Eu… Vou.

-Bonitos óculos. – Ele disse apontando a armação. Evandro tinha vergonha deles, e baixou a cabeça.

-Ei. Ei, olha aqui, o que acha do meu? Eu coleciono. – O homem  disse, tirando o óculos e estendendo para Evandro. – Esse aqui, ó… Sabe quem foi quem me deu?

-Não sei não senhor.

-Foi a Miss Louise Ciccone.

Evandro olhou para o homem com um olhar inquisidor. Não fazia ideia de quem fosse.

-Não sabe quem é, né?

-Não senhor.

-A Madonna!

Evandro começou a rir, pensando que era uma piada. Mas o velho abriu o paletó, puxou uma carteira de couro de crocodilo preta e abriu. Ali dentro estava uma foto dele abraçado com  a Madonna. Era pra valer!

-Uau!  – O jovem Evandro arregalou os olhos.

-Nunca tenha vergonha dos seus óculos, meu filho. Eles podem salvar sua vida algum dia. O que está esperando? – Ele disse, balançando um copo de uísque. – A vida é curta. Não espere! Quem espera demais, nunca alcança!

Evandro concordou e correu lá pra fora, pulando a mureta.
Ele se juntou com as crianças e elas estavam brincando de corrida. Evandro se meteu entre os meninos e apostou corrida com eles. Mas ele não era bom de corrida, apesar da magreza que era sua marca registrada, ele nunca ganhava.

A tarde foi passando e as brincadeiras junto ao lago foram mudando.  Alguém tocou um sino na casa e as crianças correram para os fundos. Ali dona Yolanda havia colocado uma grande mesa, onde  três garçons iam trazendo refrigerantes e comidas e servindo as crianças.
Enquanto a criançada se divertia, do outro lado da propriedade, no salão de jantar, acontecia um enorme banquete de almoço, com varias mesas que eram servidas por um verdadeiro esquadrão de empregados. Evandro agradeceu por ser criança e não precisar comer aquelas comidas frescas dos ricaços. Na mesa das crianças tinha pizza, pipoca e coisas mais gostosas. E no final, uma escultura de chocolate enorme, que foi literalmente devastada por garfinhos frenéticos.
Após o almoço, os adultos assistiram palestras chatas no salão enquanto perto do lago a brincadeira rolava solta. Alguém surgiu com uma bola e eles ficaram montando times. Evandro queria jogar futebol, mas as meninas queriam queimado. Num desses bate-bocas  que ocorria a todo momento, que ele viu Isabella. Ela era uma menina um pouco mais velha que ele. Talvez tivesse treze para catorze. Ela tinha um cabelo curto à Chanel todo preto, e olhos verdes. Usava um vestido inteiramente branco, que já estava um pouco sujo das brincadeiras no gramado.

Em vários momentos das brincadeiras, Evandro cruzou seus olhos com aquele olhar de esmeraldas. Inicialmente ele não gostou dela. Sentiu um pouco de repulsa, porque eles tinham discutido sobre um ponto do queimado. Mas conforme novas brincadeiras foram surgindo, eles foram gradualmente se aproximando e ficando mais amigos.
O sol já tinha se posto e a noite estava tornando a festa mais animada conforme os convidados estavam quase todos bêbados àquela altura.  Após as palestras, um conjunto começou a tocar no salão, e montava-se o que seria um jantar dançante.

Outros convidados iam chegando. Muitos deles chegavam apenas para a festa noturna.  O gramado, antes um grande espaço descampado fundeando o lago, onde as crianças corriam como loucas, estava tomado de carros de todos os tipos, que iam sendo estacionados ali. Aquele monte de carros em vez de estragar a diversão, apenas tornou as brincadeiras mais interessantes. Após brincarem de  “polícia e ladrão”, alguém deu a ideia de brincarem de pique-esconde.

Evandro era bom no pique-esconde. Sempre foi. Ele tinha habilidade de se esgueirar e se esconder em buracos improváveis.

Logo que a brincadeira começou ele se esgueirou por trás de um carro, pulou um canteiro e encontrou um espaço ideal na escuridão de um vão sob a escadaria da entrada principal da mansão.

Minutos depois, um vulto preto saltou o canteiro e se encostou junto dele. Era Isabella. Ela se encolheu agachada perto do vão.

-Será que ele te viu?

-Não, ele está procurando perto das árvores do lago. – Ela disse.  – Será que tem aranha aqui? – Ela parecia com medo, um pouco trêmula e Evandro inocente, pensou que fosse mesmo pelas aranhas.

-Não, eu vi mais cedo. Não tem nada e nunca vão achar a gente aqui. – Ele riu.

-Que bom! Ninguém vai ver a gente aqui. – Ela repetiu. Mas ele não entendeu.

Então houve um tipo de vácuo ali entre os dois. Um incômodo silêncio, só preenchido pelos ecos da animada música do conjunto lá dentro da mansão.

Evandro sentiu a menina pegando na mão dele. Ele levou um susto, mas ficou firme. Não queria dar vexame, mas estava apavorado.

Ela sussurrou: -Você já beijou?

-Claro que eu já beijei. Não sou boca virgem! – Ele mentiu descaradamente. Não queria parecer criança.
-Você quer me beijar?
-Não sei. Você quer?
-Caro que não. – Ela obviamente mentiu também.
-Ah… – Evandro disse, decepcionado.

Então a menina o agarrou e o beijou à força. Ele levou um susto quando sentiu a língua dela na boca dele. Um misto de prazer e nojo estouraram em sua alma.   Depois do beijo, ela não disse nada. Limpou a boca com o braço e saiu correndo, pulou o canteiro e sumiu na escuridão.

Ele ficou ali, sob a escada, na escuridão do esconderijo, sentindo que agora era um novo homem. Havia beijado finalmente. Era um ponto de virada em sua vida.

Decidiu sair da escada e quando saiu pelo meio dos carrões, viu que a brincadeira já havia terminado. Eles haviam esquecido dele. Ninguém avisou que a brincadeira tinha acabado. E Evandro ficou triste. Na multidão das crianças que agora estavam brincando de outras coisas, ele não viu mais a Isabella.  As ultimas crianças que restavam perto do lago correram todas juntas e ele foi atrás, por curiosidade.

“Será que alguém caiu no lago?”

Elas estavam se reunindo na edícula do jardim. Uma bela construção de vidro e ferro fundido, cheio de plantas.  Evandro foi chegando e ouviu música.

Ali, aproveitando a acústica, longe do grandioso baile na casa principal, estava um dos meninos mais velhos. Ele devia ter uns dezesseis anos e seu nome era Carlos. Ele estava tocando bossa nova num violão. Ao redor dele, tinha um grupo de cinco amigos, todos mais velhos. Num segundo patamar estavam todas as crianças, a famosa “raia miúda”. As crianças das brincadeiras haviam sido capturados como cupins pelo brilho da lâmpada. Todos em complacente e circunspecto silêncio, ouvindo Carlos dedilhar o violão. Evandro notou os olhares das meninas mais velhas para Carlos conforme ele tocava. Ele tocou  músicas do Legião Urbana, arrancando suspiros.

Beijar na boca parecia tê-lo transportado através de um portal para uma nova dimensão de juventude. Não havia mais graça em correr e se esconder. Agora ele queria aquilo, queria musica e olhares sensuais.

As meninas mais velhas, disputavam a atenção dele, cada qual cantava mais bonito, com olhares sedutores para o rapaz. Carlos parecia concentrado na performance.

A Bianca apareceu falando alto e todos olharam para trás.

As crianças fizeram -Shhhhhh! Como se um importante ritual estivesse sendo ameaçado.

-Evandro a mamãe tá te procurando!  – Ela disse.

-Shhhhhhhhhhh! – As crianças continuavam a fazer e Carlos tocava o violão.

Evandro se levantou com vergonha sob os olhares de todos e foi com a irmã até a casa.

Chegando lá era para apresentar uma mulher que ele nunca tinha visto na vida.

-Ah, Ele chegou! Evandro essa é a dona Ruth. Lembra dela? Ela te pegou no colo!  – A mãe dele disse, segurando uma taça de martini.

Evandro sentou meio sem entender. A tal Ruth lhe beliscou as bochechas. Era uma dona meio gorda num vestido apertado estranho.

-Continua lindo!  Que fofura que ele está! Te vi desse tamaninho ó!

-Evandro, a Dona Ruth quer ser sua professora de piano. O que acha? – A mãe dele perguntou.

Evandro não costumava ver a própria mãe de pileque, ainda mais fumando. Ele só conseguia olhar para o cigarro aceso.

-Mãe a senhora está fumando? – Ele perguntou, escandalizado.

A mãe dele escondeu o cigarro atrás do corpo. – Não, não…Eu… Estou só segurando o cigarro para uma amiga que foi no… ali… No banheiro. – Ela disse. E tomou um gole no martini, trocando olhares de cumplicidade para a tal Ruth.

Evandro sorriu sem graça, fingindo acreditar para não pegar mal. Disse que sim, que gostaria de aulas de piano.

Tudo combinado, ele foi liberado novamente do compromisso social de cumprimentar uma dona que nunca tinha visto mais gorda.  Mas então, quando achou que poderia voltar para a rodinha da Edícula, chegou o momento em que um enorme bolo adentrou o salão e todos aplaudiram. Aquele homem velho foi muito cumprimentado e após soprar as velas  fazer um mini discurso ridículo sobre estar ficando velho e broxa, e beijar na boca da dona Yolanda de um jeito grosseiro e estúpido, o que a deixou claramente constrangida, ainda mais  com a piada diante de 100% da coluna social carioca. Estava claro que aquilo ia ser nota do Ibrahim Sued.

Sob fortes aplausos e gritos, a banda começou a tocar um “parabéns pra você”.  Ao fim do parabéns, um estrondo. Todos correram para a varanda onde um show de fogos de artifício estourou no céu com cores e brilhos mil. Fotógrafos clicavam loucamente. As pessoas aplaudiam felizes.  Ao fim do show de fogos, os garçons vieram com os espumantes e fatias de bolo.

Evandro voltou correndo para a Edícula, afim de se juntar aos meninos mais velhos, mas chegando lá, não tinha mais ninguém. Algumas pessoas já estavam indo embora da festa e muitas das crianças pequenas já tinham ido. A noite já ia bem alta, e muitos estavam cansados de um dia inteiro de festejos.  A banda retomou a música mais animada e agora as pessoas estavam completamente alcoolizadas dançando na festa.

Ele procurou por Isabella de um lado ao outro, mas não achou. Encontrou uns adultos perto de um carro. Eles levaram um susto. Estavam usando drogas, cheirando cocaína num espelho. Evandro passou reto.

Então, ao contornar o lago, ele finalmente encontrou Isabella, na visão mais triste de sua vida até aquele dia. Ela estava abraçada no pescoço de Carlos, o menino mais velho do violão. Eles estavam se beijando na boca encostados numa árvore perto do lago. Evandro ficou ali olhando e sentindo seu coração ser esmagado.

Ele saiu dali muito triste e arrasado, buscou refugio sob as escadarias mas ao pular o canteiro deu de cara com outros meninos ali debaixo, na maior pegação.

-Ei! Sai fora. Rapa fora, pivete!

Ele quase apanhou. Foi expulso e atordoado, foi para o final da varanda chorar.

Ele estava ali, chorando no escuro quando sentiu a mão pesada bater em seu ombro.

-Um dia e tanto não foi? – Era o homem  dos óculos da Madonna. Ele continuava ali, agora segurando uma taça de champanhe em uma mão e um prato de bolo na outra.

-Quer?

Evandro recusou, movendo a cabeça negativamente.

-Sabe, eu também não sou muito chegado nessas festas de velho. – Ele disse, colocando o prato intacto sobre a varanda.

-Quer conversar sobre esse problema aí?

-Não. – Evandro disse rispidamente, olhando para o vazio do jardim.

-Tudo bem. Tudo bem. – O homem disse, dando-lhe tapinhas nas costas. – Espero que então você faça a gentileza de me ouvir, meu caro.

Com aquele senhor falando daquele jeito com ele, o tratando como um lorde fosse, Evandro achou engraçado. E virou-se para ele com os olhos vermelhos e inchados de chorar.  O homem secou a taça de champanhe toda num só gole.  Depois, pegou no paletó um charuto, que acendeu com um isqueiro prateado.

Eu gostava de uma moça da escola. Mas ela não me dava bola. Mas eu insistia. Eu mandei tantas cartas para ela… Tantas, e tão lindas, que um certo dia, ela aceitou meu convite para sairmos para tomar um sorvete na praça.

Mas eu era muito pobre, fiquei juntando dinheiro muitas semanas, cortando grama para juntar o dinheiro e impressionar aquela mulher… Sabe como é, né?

-Sei.

-Ela tomou todo o sorvete que eu paguei na mais cara sorveteria da cidade. Nesse dia, eu me declarei para ela.

-Sério? Como foi? E ela?

-Ela tinha tomado o sorvete e começou a rir. Disse que eu tinha cara de fuinha e foi embora rindo da minha cara. Eu nem sabia o que era uma fuinha…

-Puts…

-Eu fiquei mal, garoto. Às vezes a gente sofre mesmo. Essa é a vida.  Pensei sabe o que?

-O que?

-Eu quis me matar. Eu pensei em me jogar na linha do trem. Eu ia. Eu concluí que sem ela, era melhor eu morrer logo.

-Mas e aí?

-Eu fui e deitei na linha do trem para ele passar em cima mesmo.

-No duro?

-Sério mesmo! No duro! O trilho tava no sol, tava quente pra caramba… Opa, obrigado! – O homem disse, pegando mais uma taça que um garçom lhe ofertou.

-Mas e o trem?

-O trem estava demorando. Fiquei esperando, e a morte estava demorando para me encontrar. Então eu estava ali e veio um homem andando pela linha. Ele me viu. Percebeu meus olhos cheios d´água.  Ele sentou do meu lado.  Ele perguntou se eu “também” estava lá para me matar. Eu disse que sim.

Evandro estava ficando curioso com a história. O homem deu uma baforada no charuto e soltou a fumaça, que serpenteou, desenhando caracóis no ar.

-Ele me disse que ia se matar porque sua vida tinha perdido todo o sentido. Ele havia comprado uma caixa.

-Caixa?

-Uma caixa. Ele comprou uma caixa, foi o que ele disse. Ele me mostrou a caixa. Uma caixa de prata. Estava com ele.

-Mas o que tem a caixa?

-A caixa, ele disse, era de um cigano. E segundo o cigano que vendeu,  a caixa tinha o poder de mudar a vida da pessoa, mas ela cobraria um preço caro.

-E ele abriu?

-Ele abriu.

-E aí?

-A caixa continha um bilhete da loteria. E era, imagina só, um bilhete premiado!

-Ele ganhou na loteria?

-O prêmio acumulado!

-Mas ele estava triste? Eu não entendi.

-Ele ganhou, e  era para ser o dia mais feliz da vida dele. Ele foi na lotérica conferir, e era mesmo o bilhete premiado. Quando ele chegou em casa, todo eufórico, encontrou a mulher aos prantos.  Bem na hora que ele tinha aberto a caixa, os pais dele morreram. Os dois, ao mesmo tempo, e estavam com o filho dele no carro. E nenhum dinheiro da loteria podia trazer os pais e o filho dele de volta. Ele se culpou. Ele achava que a morte era o preço que a caixa cobriu pelo premio. Então, o pobre homem rico ficou desesperado. E saiu para a rua, querendo se matar. Foi quando ele me encontrou.  Ele estava sofrendo muito. Eu tentei consolar o homem, mas eu era pequeno. Não sabia o que dizer. Então o trem apitou lá na curva.

-O trem?

-É. Eu tentei de toda maneira convencer o homem a não se matar, mas foi impossível. Eu puxava ele pelo braço, achei que ia conseguir. O trem estava vindo rápido.  Eu fui puxando ele para longe. E então ele parecia concordar. Ele me entregou a caixa sem dizer nada. Eu segurei ela e ele saiu correndo e se jogou na linha bem na hora que o trem passou e cortou ele ao meio bem na minha frente.

-Nossa!

Ele rolou por debaixo do trem aos pedaços. Era trem de carga e foi moendo aquele homem que segundos antes havia me contado o triste final de sua vida. As pessoas vieram correndo. Havia uma sangueira danada na linha do trem e eu não queria olhar. Eu só ouvi os gritos de quem vinha passando e viu a cena. Eu fiquei ali estático, olhando para a caixa de prata na minha mão.

-Meu Deus! Meu Deus! E ai?

O homem fumou mais um pouco e disse: -Eu abri a caixa.

-Você abriu? A caixa da desgraça?

-Bem… Eu pensei: “Essa era a desgraça dele, não a minha.” e Aí eu abri e ali estava o bilhete premiado. E foi assim que eu comecei a vida. Se eu não tivesse nunca sido humilhado pela menina que me chamou de fuinha, seja lá essa merda o que for,  eu não teria o meu dia de sorte na vida. As oportunidades passam. Quem se agarra a elas vence, filho.

-O senhor não ficou com medo de ter um azar igual ao do homem?

-É como eu disse, meu jovem. A oportunidade da sorte muitas vezes só passa uma vez, e quando passa, na vida da pessoa! Ela precisa se agarrar se quiser segurar a chance.  Se eu não abrisse aquela caixa, como eu saberia se não era apenas um maluco alucinado? Talvez tivesse um papel em branco na caixa.

-Mas não era.

-Não. Era o premio milionário! E eu fiquei rico. Caro que foi só o começo. Depois eu passei a investir, fiquei socio de um banco, e agora estou abrindo uma construtora… Graças ao sorvete. O pior e melhor sorvete da minha vida.

Evandro concordou.

-Bom, mas você não me contou o que lhe aflige. – Disse o homem, que agora parecia interessado em comer o bolo.

-Eu… Eu estava com uma menina. Estava gostando dela. Mas eu encontrei ela beijando um outro garoto mais velho, que tocava violão.

-Hummm. Nossa! Aí é ruim. Vejo pela sua cara que foi um duro golpe, hein?

Evandro não disse nada, apenas tentou tirar uma lagrima que teimava em escorrer no canto do olho.

-Mas por que você não vai atras e luta por ela?

-O menino é mais bonito. É mais velho e sabe tocar violão… E eu não tenho nada para oferecer.  -Ele disse baixando a cabeça.

-Ei. Ei! Qual é! Ei, rapaz! Não caia nessa! Lute pelo seu amor sempre ou você sempre vai perder ele para um mais bonito, um mais forte, um tocador de violão… Faz alguma coisa.

-Fazer o que? Já era. Eu perdi.

-Aprende a tocar violão. Toca melhor que ele. E depois, vá atrás dela! Se ela tiver que ser sua, ela será! É o destino. Confia no destino, meu rapaz! E veja o que eu te contei. O seu sofrimento de hoje pode ser a sua sorte de amanhã… Vai saber?  – Ele disse botando o prato de sobremesa sobre a mureta neoclássica.

Evandro levou um susto quando viu uma figura se aproximando, vinda da escuridão da varanda, já apagada. Ela surgiu lentamente atrás do velho de óculos.  Era ela. Isabella.  Ela vinha puxando um menino quase da idade dele pela mão.

Ela parecia atônita vendo Evandro conversar com aquele homem. Estava com os olhos verdes arregalados de espanto.

-Pai, vamos embora? – Ela perguntou.

O homem de barba branca e óculos se virou. – Vamos, Isa. Vamos. Cadê a mamãe?

-Ela tá no carro já. Ela mandou te chamar.

Tudo bem. Tudo bem. Vamos. Bem, meu caro… Foi um prazer conversar com você, amiguinho.  – O homem estendeu a mão para um aperto forte.

-Seu nome é?

-Evandro.

-Muito Prazer. Pínio Marcos.  Essa é minha filha Isabella e esse aqui com sono, quase dormindo, é o Plínio Júnior.

-A.. gente… Já se… conhece. – Ele disse, gaguejando.

A Isabella olhava fixamente para o chão, envergonhada.

-Bem, vamos indo. – Ele disse, levando a menina e o garoto pelas mãos.

Evandro ficou ali, ainda triste. Mas naquele dia, pensando na história da oportunidade, resolveu. Ia ser como Carlos. Ia aprender violão! E quem sabe, conquistar Isabella!

-Piano é o caralho! – Ele disse, decidido.

A cama estalou.

Ao lado dele na cama, a Ginga começou a se mexer. Já devia ser por volta de quatro e meia ou cinco da manhã. Lá fora, pela janela aberta, vinha o som dos passarinhos que estavam começando a cantar.   Ele ficou deitado, como se estivesse dormindo.

A gringa mexeu nele. Ele ficou firme. E sentiu pelo movimento do colchão que ela estava se levantando. Ela passou pelo chão, e ele ouviu os passos dela no piso de cimento queimado.  Ela encostou a porta e ela rangeu baixinho: “Nheeeeeeec”

Evandro ouviu quando ela encostou a porta da sala, num “plec” abafado.

Ele então saltou do colchão e vestiu rápido as roupas. Enfiou os tênis sem meia mesmo e pulou pela janela. Saiu nos fundos da casa e se esgueirou pela área da churrasqueira e fogão de lenha, abaixando-se perto da parede. Ele viu a gringa vestida na camisa preta do Guns passando da varanda para o terreiro. Ela olhou para a mata, e então caminhou rápido, pegando o caminho de pedras que dava a volta na ilha.

Evandro foi atrás se escondendo e mantendo a Gringa sempre sob a vigilância. Estava amanhecendo ainda. Era meio escuro e com ela de camisa preta no lusco-fusco do raiar do dia, ainda mais sem os óculos, era fácil perdê-la de vista.  Ela andava bem rápido, se equilibrando pelas pedras do caminho.

Evandro viu quando a gringa saiu da trilha e se embrenhou no mato. Ela foi descendo pelas pedras em direção a pequena enseada no lado leste da ilha. O céu estava começando a ficar cor de rosa.
Ela desceu pelas pedras e ficou ali, parada diante do mar, como uma estátua.

Evandro se ocultou pelas arvores e ficou observando.

A gringa então começou a andar para a frente, entrando progressivamente na água e afundando lentamente, até literalmente desaparecer, submergindo no mar.
Evandro achou aquilo completamente esquisito, pela hora e pela água fria.

“Nadar no escuro?”

Ele esperou que ela logo surgisse dando braçadas, mas ela simplesmente não voltou para a superfície. O tempo foi passando e Evandro agora já estava ficando desesperado. Passou o primeiro minuto, o segundo, o terceiro minuto e ela não voltava para a superfície. Não havia bolhas nem ondulações. Ela simplesmente desceu na agua e desapareceu.

 

CONTINUA

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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Comentários

  1. Quando surgiu o velho, eu já fiquei alerta “Será o Plínio?” E num é que era o Plínio mesmo. Alex e Evandro tem uma ligação, mesmo sem saber. Ou será que o Alex sabe?

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