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Sempre gostei de brincar de fazer “bolinhas de sabão”.

Era uma brincadeira recorrente na minha infância. Naquele tempo, minha mãe enchia uns copos com água e sabão em pó e nós três (eu Raphael e o Andre) ficávamos, com canudos de caule de mamona, soprando aquelas bolinhas por horas e horas. A brincadeira chegava ao fim quando um de nós percebia que dava para enfiar o canudo na solução e soprar dentro, o que produzia uma cascata de bolhas e que cagava a varanda toda. Nisso, grande parte do sabão ia embora e as bolhas passavam a esferinhas mixurucas.

Foi inclusive num dia desses que o Raphael resolveu derramar o conteúdo do copo dele no nosso aquário do peixinho, esperando que o infeliz fizesse “bolhinhas”. Claro que o peixe beiçou na hora.

A brincadeira de bolhas de sabão tem um sabor retrô pra mim. Mas ao mesmo tempo, é engraçado, pois não tem tanto tempo assim. Hoje, ainda vejo crianças brincando com isso, mas quase sempre com kits prontos, que formam bolhas grandes, bonitas e tal. Ou aqueles aparelhinhos que disparam milhares delas de uma só vez e deixam o exercício pulmonar em segundo plano, ante um simples apertar de botão.

Não podemos esperar menos da “geração do botão”, que em vez de brincar que pique e corrida, joga mata-mata na live do videogame.

Nada contra. Jogar na live é massa. Mas bolhas de sabão também são.

Aliás, o meu fascínio pelas bolhas de sabão aumentou com a idade, ao contrário do que percebo olhando distante aqui do meu casulo de carne para as outras pessoas, que não ligam. Eu olho para aquilo e só consigo pensar em metaballs, em hypervoxels. Eu olho para bolhas de sabão e vejo mais que uma esfera flutuante. Ali está uma conjunção material de compostos, ar aprisionado, dispersão da luz, tensão superficial, e mais que isso. A bolha de sabão é a poesia concreta do pensamento. É a metáfora da vida. As bolhas e sua curta e efêmera vida, são como nós. Algumas se perdem subindo, outras caem, outras parecem medíocres mas realizam grandes feitos acrobáticos. Aquelas em que apostamos todos nossos desejos não raro nos decepcionam, e quando menos se espera, somos surpreendidos por bolhas perfeitas que parecem surgir do nada, e dançam no espaço carregadas pelo vento invisível e insondável do mistério.

Um dia, todos nós já fomos parecidos com bolhas de sabão...
Um dia, todos nós já fomos parecidos com bolhas de sabão…

Por esses dias, meu filho ganhou de surpresinha em algum dos aniversários que ele foi, um tubinho com um líquido para fazer bolinhas de sabão. Não preciso dizer que o Davi nem chegou perto dessa joça e eu que monopolizei o brinquedo (até pq é para criança acima de 3 anos e o Davi só tem 1). Se eu dou isso na mão dele ele bebe na hora.
Fiquei ali na varanda com ele, com a desculpa perfeita de vigiar o moleque. Comecei a soprar bolhinhas, que ele achou legal por um minuto e logo depois cagou solenemente.
Mas aí eu já estava agarrado por uma cadeia enorme de pensamentos.

Me intriguei com as bolhinhas de sabão do brinquedo do Davi, ao ver que duravam pouco. Bem menos do que eu esperava.

Comecei a “estudar” o bagulho, porque eu desconfio que a chave para a duração da superfície da bolha está na mistura e também na umidade do ar. Daí comecei a me perguntar se eu conseguiria dar uma “aditivada” na fórmula de modo a obter uma bolha de sabão gigante com tempo de vida “Niemeyer”. A minha primeira ideia foi criar um liquido composto em parte de um poderoso umectante de glicerol associado a um surfatante, para estabilizar o liquido. Minha ideia foi incluir um polímero solúvel na formula para trabalhar em conjunto com o surfatante, criando uma parede de superfície “parruda”.

Eu tava ali, pensando nisso, tentando mentalmente construir uma formula paralela com base em polímeros e álcool, quando vi que a vizinha da varanda da frente tava me olhando, sozinho, soprar bolhinha de sabão na varanda. Fiquei com vergonha e entrei.

Entrei mas já não tinha mais jeito. A semente da curiosidade científica havia germinado em mim.
Reuni alguns materiais químicos que eu tinha e comecei meus experimentos de bolhinhas de sabão (fazendo uma sujeira ferrada na casa, o que me rendeu algumas esculhambações, mas é aquilo: “Não mandei casar com nerd”).

O primeiro passo foi estudar diversas formulas disponíveis na NET envolvendo bolhas de sabão. Não sou do tipo que prefere bater cabeça sozinho, mas também não sou do tipo que busca solução pronta. Na verdade, eu estava em busca era de um gancho onde eu pudesse adicionar os meus materiais e substituir elementos de algumas receitas, mais para ver o que ia acontecer.

Após algumas horas de testes, cheguei numa formula própria que envolvia entre outras coisas, açúcar, àlcool polivinílico, àlcool gel, água, glicerina, emulsificante alimentício, carboximetilcelulose (sim, eu tenho essas merdas em casa) e outras coisas, como compostos derivados de shampoo+sabão líquido+detergente neutro.

Bom, eu ainda estou desenvolvendo a formulação correta, e ainda tem muito treco doido para turbinar as bolhas na minha lista de “e se?”. Minhas experiências em situação mediamente controlada (na cozinha) me mostraram que o maior vilão da durabilidade da bolha é a água. A água tem a tendência natural a evaporar. Quando a água da superfície da parede da bolha evapora, ela se torna fina ao ponto de se rasgar. Então ela se rompe em bilhões de micro rasgos. O sabão, que opera como uma liga, mantendo tudo junto começa a sofrer para segurar. Ele vira um queijo suíço numa escala fractal. E aí ela estoura. Na verdade, ela não estoura, mas colapsa. (Obs: Isso pode estar fisicamente errado, isso é só minha observação, escondido dos olhares da vizinha)

Minha ideia é entrar com o composto trocando a água que é em 99,9% das receitas o “veículo” da bolha, por outra coisa. Minha solução é uma mistura de varias coisas, entre elas o álcool polivinílico, que é um pó usado para fazer cola branca. Esse pó é solúvel em água fria, e vira borracha plastica em água quente. Após diluir o álcool polivinílico, eu posso adicionar à gosma que fica parecendo um gel de cabelo a glicerina. A glicerina é um umectante muito usado em remédios e em comidas e doces. A glicerina entra na brincadeira reduzindo dramaticamente a evaporação da água na mistura. Logo, menos água, mais vida na bola.
Outros produtos podem ter efeitos curiosos, como aumentar a colorização da bola. A cor da bolha, é gerada pela dispersão da luz branca do sol como um prisma. Isso explica porque a bolha tem as cores do arco-íris. Porém, percebi que certas formulações produzem bolhas quase translúcidas, como vidro, sem reflexo nem nada. Já certas combinações fazem bolhas assim:

 

Outra constatação é que ao criar uma superfície de alta longevidade para as bolhas, (nos corpos de teste, uma delas durou mais de meia hora intacta)  eu consigo fazer bolhas grandes. Não me parece, à primeira vista, haver um limite claro de tamanho para as bolhas. Há equipamentos para fazer bolhas do tamanho de carros ou até baleias. Mas não são práticos.  Para um teste de fim de semana, eu fiz esse arco aqui:

 

 

É um arco simples que fiz em uns minutos usando arame de alumínio.

Após testar alguns compostos para ver como se comportavam com variados graus de mistura neles, fiz um hoje que me tornou o “herói do play”. A criançada surtou o cabeção. Ó:

 

Aí sim eu consegui deixar o Davi bolado.

 

Meu arco faz bolões do tamanho de bolas de parque, maravilhando a molecada que grita “caraaaca!” a cada bolão que nasce.

 

Note que ela não estoura por igual e sim numa sequência linear. É lindo.

As minhas bolhas já atingiram um grau de resistência bom, algumas se chocam com paredes sem estourar, mas ainda está bem instável. Não sei explicar, mas tem horas que elas ficam frágeis, horas que elas tem mais resistência, o que é meio intrigante ainda.

Dá pra notar isso nessa bolha que o Caíque tentou estourar com um macaco de pelúcia.

 




Há ainda uma série de inovações para implementar nas bolhas gigantes. Já tive algumas ideias que requerem testes, mais precisos. Uma dessas ideias acho que tem potencial até para uma patente. Vamos ver no que dá.

Bolhas de sabão gigantes

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Sempre gostei de brincar de fazer “bolinhas de sabão”.

Era uma brincadeira recorrente na minha infância. Naquele tempo, minha mãe enchia uns copos com água e sabão em pó e nós três (eu Raphael e o Andre) ficávamos, com canudos de caule de mamona, soprando aquelas bolinhas por horas e horas. A brincadeira chegava ao fim quando um de nós percebia que dava para enfiar o canudo na solução e soprar dentro, o que produzia uma cascata de bolhas e que cagava a varanda toda. Nisso, grande parte do sabão ia embora e as bolhas passavam a esferinhas mixurucas.

Foi inclusive num dia desses que o Raphael resolveu derramar o conteúdo do copo dele no nosso aquário do peixinho, esperando que o infeliz fizesse “bolhinhas”. Claro que o peixe beiçou na hora.

A brincadeira de bolhas de sabão tem um sabor retrô pra mim. Mas ao mesmo tempo, é engraçado, pois não tem tanto tempo assim. Hoje, ainda vejo crianças brincando com isso, mas quase sempre com kits prontos, que formam bolhas grandes, bonitas e tal. Ou aqueles aparelhinhos que disparam milhares delas de uma só vez e deixam o exercício pulmonar em segundo plano, ante um simples apertar de botão.

Não podemos esperar menos da “geração do botão”, que em vez de brincar que pique e corrida, joga mata-mata na live do videogame.

Nada contra. Jogar na live é massa. Mas bolhas de sabão também são.

Aliás, o meu fascínio pelas bolhas de sabão aumentou com a idade, ao contrário do que percebo olhando distante aqui do meu casulo de carne para as outras pessoas, que não ligam. Eu olho para aquilo e só consigo pensar em metaballs, em hypervoxels. Eu olho para bolhas de sabão e vejo mais que uma esfera flutuante. Ali está uma conjunção material de compostos, ar aprisionado, dispersão da luz, tensão superficial, e mais que isso. A bolha de sabão é a poesia concreta do pensamento. É a metáfora da vida. As bolhas e sua curta e efêmera vida, são como nós. Algumas se perdem subindo, outras caem, outras parecem medíocres mas realizam grandes feitos acrobáticos. Aquelas em que apostamos todos nossos desejos não raro nos decepcionam, e quando menos se espera, somos surpreendidos por bolhas perfeitas que parecem surgir do nada, e dançam no espaço carregadas pelo vento invisível e insondável do mistério.

Um dia, todos nós já fomos parecidos com bolhas de sabão...
Um dia, todos nós já fomos parecidos com bolhas de sabão…

Por esses dias, meu filho ganhou de surpresinha em algum dos aniversários que ele foi, um tubinho com um líquido para fazer bolinhas de sabão. Não preciso dizer que o Davi nem chegou perto dessa joça e eu que monopolizei o brinquedo (até pq é para criança acima de 3 anos e o Davi só tem 1). Se eu dou isso na mão dele ele bebe na hora.
Fiquei ali na varanda com ele, com a desculpa perfeita de vigiar o moleque. Comecei a soprar bolhinhas, que ele achou legal por um minuto e logo depois cagou solenemente.
Mas aí eu já estava agarrado por uma cadeia enorme de pensamentos.

Me intriguei com as bolhinhas de sabão do brinquedo do Davi, ao ver que duravam pouco. Bem menos do que eu esperava.

Comecei a “estudar” o bagulho, porque eu desconfio que a chave para a duração da superfície da bolha está na mistura e também na umidade do ar. Daí comecei a me perguntar se eu conseguiria dar uma “aditivada” na fórmula de modo a obter uma bolha de sabão gigante com tempo de vida “Niemeyer”. A minha primeira ideia foi criar um liquido composto em parte de um poderoso umectante de glicerol associado a um surfatante, para estabilizar o liquido. Minha ideia foi incluir um polímero solúvel na formula para trabalhar em conjunto com o surfatante, criando uma parede de superfície “parruda”.

Eu tava ali, pensando nisso, tentando mentalmente construir uma formula paralela com base em polímeros e álcool, quando vi que a vizinha da varanda da frente tava me olhando, sozinho, soprar bolhinha de sabão na varanda. Fiquei com vergonha e entrei.

Entrei mas já não tinha mais jeito. A semente da curiosidade científica havia germinado em mim.
Reuni alguns materiais químicos que eu tinha e comecei meus experimentos de bolhinhas de sabão (fazendo uma sujeira ferrada na casa, o que me rendeu algumas esculhambações, mas é aquilo: “Não mandei casar com nerd”).

O primeiro passo foi estudar diversas formulas disponíveis na NET envolvendo bolhas de sabão. Não sou do tipo que prefere bater cabeça sozinho, mas também não sou do tipo que busca solução pronta. Na verdade, eu estava em busca era de um gancho onde eu pudesse adicionar os meus materiais e substituir elementos de algumas receitas, mais para ver o que ia acontecer.

Após algumas horas de testes, cheguei numa formula própria que envolvia entre outras coisas, açúcar, àlcool polivinílico, àlcool gel, água, glicerina, emulsificante alimentício, carboximetilcelulose (sim, eu tenho essas merdas em casa) e outras coisas, como compostos derivados de shampoo+sabão líquido+detergente neutro.

Bom, eu ainda estou desenvolvendo a formulação correta, e ainda tem muito treco doido para turbinar as bolhas na minha lista de “e se?”. Minhas experiências em situação mediamente controlada (na cozinha) me mostraram que o maior vilão da durabilidade da bolha é a água. A água tem a tendência natural a evaporar. Quando a água da superfície da parede da bolha evapora, ela se torna fina ao ponto de se rasgar. Então ela se rompe em bilhões de micro rasgos. O sabão, que opera como uma liga, mantendo tudo junto começa a sofrer para segurar. Ele vira um queijo suíço numa escala fractal. E aí ela estoura. Na verdade, ela não estoura, mas colapsa. (Obs: Isso pode estar fisicamente errado, isso é só minha observação, escondido dos olhares da vizinha)

Minha ideia é entrar com o composto trocando a água que é em 99,9% das receitas o “veículo” da bolha, por outra coisa. Minha solução é uma mistura de varias coisas, entre elas o álcool polivinílico, que é um pó usado para fazer cola branca. Esse pó é solúvel em água fria, e vira borracha plastica em água quente. Após diluir o álcool polivinílico, eu posso adicionar à gosma que fica parecendo um gel de cabelo a glicerina. A glicerina é um umectante muito usado em remédios e em comidas e doces. A glicerina entra na brincadeira reduzindo dramaticamente a evaporação da água na mistura. Logo, menos água, mais vida na bola.
Outros produtos podem ter efeitos curiosos, como aumentar a colorização da bola. A cor da bolha, é gerada pela dispersão da luz branca do sol como um prisma. Isso explica porque a bolha tem as cores do arco-íris. Porém, percebi que certas formulações produzem bolhas quase translúcidas, como vidro, sem reflexo nem nada. Já certas combinações fazem bolhas assim:

 

Outra constatação é que ao criar uma superfície de alta longevidade para as bolhas, (nos corpos de teste, uma delas durou mais de meia hora intacta)  eu consigo fazer bolhas grandes. Não me parece, à primeira vista, haver um limite claro de tamanho para as bolhas. Há equipamentos para fazer bolhas do tamanho de carros ou até baleias. Mas não são práticos.  Para um teste de fim de semana, eu fiz esse arco aqui:

 

 

É um arco simples que fiz em uns minutos usando arame de alumínio.

Após testar alguns compostos para ver como se comportavam com variados graus de mistura neles, fiz um hoje que me tornou o “herói do play”. A criançada surtou o cabeção. Ó:

 

Aí sim eu consegui deixar o Davi bolado.

 

Meu arco faz bolões do tamanho de bolas de parque, maravilhando a molecada que grita “caraaaca!” a cada bolão que nasce.

 

Note que ela não estoura por igual e sim numa sequência linear. É lindo.

As minhas bolhas já atingiram um grau de resistência bom, algumas se chocam com paredes sem estourar, mas ainda está bem instável. Não sei explicar, mas tem horas que elas ficam frágeis, horas que elas tem mais resistência, o que é meio intrigante ainda.

Dá pra notar isso nessa bolha que o Caíque tentou estourar com um macaco de pelúcia.

 




Há ainda uma série de inovações para implementar nas bolhas gigantes. Já tive algumas ideias que requerem testes, mais precisos. Uma dessas ideias acho que tem potencial até para uma patente. Vamos ver no que dá.

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Com 15 anos de sangue suor e lágrimas, eu me esforcei para fazer um dos blogs mais antigos e legais do Brasil. Mis de 5000 artigos, mais de 100.000 comentários, mais de 20 livros, canal, programa de rádio, esculturas... Manter isso, você pode imaginar, não é barato. Talvez você considere me apoiar no Patreon e ajudar o Mundo Gump a não sair do ar.
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