Zumbi- Parte 7

Quando David Carlyle abriu os olhos, estava num outro lugar. Sua cabeça estava zonza e ele não conseguiu ficar em pé. Tudo parecia rodar.
Notou que estava vestindo um macacão branco. E vestia sapatilhas brancas de feltro. Não tinha nada escrito na roupa.
Levou a mão até o peito, abriu o macacão e viu que ali estava a marca do dardo tranqüilizante que o nocauteou.

Era um quarto branco, sem janelas. Havia apenas aquela cama junto a parede e bem à frente dela, a porta.
Levou um tempo para que ele conseguisse finalmente firmar o corpo sem cair. David andou até a porta, mas ela estava trancada.
Ele olhou ao redor em busca de uma saída daquele lugar. Notou que aquele ambiente era iluminado por energia elétrica. David não via a eletricidade operando desde que as coisas ainda estavam no lugar.

A única luz que iluminava o quarto vinha de uma luminária na parede.
O lugar parecia uma cadeia. O quarto era bem pequeno, talvez três por três metros.
David sentou-se na cama.
Agora ele estava lembrando o que havia acontecido. A última coisa que se lembrava era daquele astronauta branco surgindo com uma arma e atirando nele.
Sua mente era marcada por pensamentos angustiantes. Teria ele sido o único? Seriam os tais homens brancos? Teriam matado alguém?

David Carlyle estava em silêncio, tentando escutar qualquer coisa ao redor, mas não havia nenhum som.
Então bateram na porta. David retesou seus músculos a espera que algo acontecesse. Ele escutou o barulho de uma chave penetrando na fechadura e a maçaneta lentamente girou.

A porta se abriu e diante dele estava um homem. Ele vestia um terno antiquado, com colete e gravata de listas. Sobre a roupa, um jaleco branco longo, que ia quase na barra da calça. O homem usava uma barba cuidadosamente aparada e tinha um tufo de cabelos brancos surgindo da frente da cabeça. O resto dos cabelos eram pretos como a asa da graúna. Ele não trazia nem prancheta, nem arma, nem nada que desse para perceber. Estava com uma mão no bolso do jaleco e a outra na maçaneta. E não disse nada. Só ficou ali, olhando para David, talvez esperando alguma reação. O homem de terno tinha olhos negros, penetrantes e assustadores.

David, por sua vez estava meio perplexo, e talvez por isso ficou parado, sem ação, olhando para aquele homem que não fazia muito sentido ali.
Os dois ficaram assim, um olhando para o outro em completo silêncio.

Foi David que decidiu romper o silêncio.

-Onde eu estou?

Mas o homem não respondeu. E por isso, David tentou novamente.

-Quem é você? Que lugar é esse? – Perguntou, levantando-se da cama.

O misterioso homem de terno agora olhava pra ele com uma expressão de surpresa. Então, ele finalmente falou.

-Estranho. Não era pra você estar acordado. Muito menos em pé…
-Minha cabeça está doendo.
-Sente-se tonto?
-Sim. Mas quem é você? Que lugar é esse?
-Vamos combinar uma coisa? Eu faço as perguntas por aqui.
-…Tá.
-Seu nome?
-David Carlyle.
-Idade?
-Trinta e um.
-Profissão?
-Nad…Quer dizer… Sou vocalista de uma banda de rock.
-Qual a última coisa que você comeu?
-… Eu, eu não sei. Acho que… Estava tomando soro.
-Você estava doente? – O homem de terno tinha um olhar inquisidor. David sentiu que aquela pergunta faria diferença no destino dele.
-Não. Eu nunca fico doente.
-E porque estava tomando soro?
-Fui torturado por uns caras. Eles me bateram muito, fiquei fora do ar um tempo, o medico do acampamento me colocou no soro.
-Você só tomou soro ou algum remédio?
-Não sei. Eu estava fora do ar como eu disse, talvez tenham me dado alguma coisa.
-Por que está com o corte na boca? E o olho roxo?
-Foram eles. Os caras que me bateram. Por isso que eu estava preso.
-… – O homem de terno ficou quieto por alguns segundos. E então perguntou:
-Havia um medico naquele grupo?
-Sim senhor.
-E quem era?
-Um velho… De óculos. O nome dele é Clarck. Ele é Geriatra.
-Ah, sim. Sei quem é. Por enquanto é só. Eu já volto. Não fique em pé. – Disse o misterioso homem de terno, batendo a porta e trancando a mesma em seguida.

David estava novamente só no quarto branco, sentado na cama, sem entender nada do que acontecia ao seu redor.
Ficou pensando no homem do jaleco e no jeito estranho, excessivamente formal de falar que ele tinha. Parecia um doido. Ou um robô. Ou melhor, um robô doido.
Quando a sociedade acabou, o que restou foi uma latrina carcomida e decadente, repleta de mortos e malucos. David refletiu sobre uma coisa que até então não havia parado para pensar: Quanto tempo ele realmente havia ficado naquele armário?
O mundo não chega no estado em que chegou em um ou dois dias. Nem em semanas. Talvez tivesse passado meses fora do ar na boca de fumo da obra. Mas como uma pessoa consegue se manter viva tanto tempo?
David era um buraco negro infinito de indagações. Buscava dentro de si respostas para seus problemas, mas não as encontrava. Quando isso acontecia ele se sentia mal, irritado e aborrecido.
David refletiu sobre sua situação, e percebeu que estava bem melhor quando estava por conta própria. Só havia entrado em roubadas ao buscar pelos semelhantes. Decidiu que quando saísse dali, ele iria dar um jeito de fugir para o norte. Ele sabia que no Canadá ou no Alasca havia poucos habitantes. Talvez ainda houvesse um ou outro povoado distante em que pudesse viver o resto dos seus dias sem incomodar-se com defuntos canibais. Aquela era certamente a coisa mais certa a se fazer.

A porta do quarto tornou a abrir e dessa vez surgiu o homem do terno, e ele estava acompanhado do Clarck. Que também estava usando um jaleco.

-Clarck! – Disse David levantando-se para cumprimentar o amigo.
-Olá David. – Disse Clarck.

David percebeu na hora que Clarck estava diferente. Não parecia o mesmo. O homem de terno estava ao lado dele, apenas observando.

-Onde estamos? – Perguntou David ao Clarck. O homem de terno olhou para Clarck de um jeito estranho.
-Não interessa, David. – Disse Clarck.
-E os outros? E os sobreviventes? Onde estão?
-Estão mortos, David.
-O que? – Assustou-se David.
-Mortos. – Disse Clarck, olhando para o chão enquanto movia a cabeça negativamente. David caiu sentado na cama. Seu mundo desabava. Ele teve uma sensação de um frio no peito, a sensação era a de perder alguém que ama muito.
-Mas o que aconteceu? Que porra é essa? Alice está morta?

Clarck olhou de soslaio para o homem de terno.
-Vou deixar vocês a sós. Vocês dois tem muito a conversar. Com licença. -Disse ele, do jeito sempre formal, batendo a porta e trancando.

– Que porra é essa? – Disse David saltando pra cima de Clarck e agarrando-o pela gola do jaleco.
-Calma, calma. Fica frio! – Gemeu Clarck. Mas David já começava a estrangulá-lo.
-Como assim fica frio? Vocês mataram os outros!
-Ung, espera, solta meu pescoço. Ai… Pare.. Não consigo… Respirar.
David soltou Clarck, que bateu na parede e se apoiou na cama, arfante.
Clarck estava mudo, tentando recuperar o fôlego.

-Se tivesse feito… Isso na frente… dele… você teria… morrido. – Disse Clarck.
-Grande merda. Pelo que eu estou vendo, qualquer coisa que eu faça, o resultado será sempre este.
-Não… Aqui é diferente. As pessoas lá fora estão morrendo por motivos fúteis.
-Motivos fúteis?
-Sim, David. Comida, abrigo, remédios, essas coisas. O mundo lá fora regrediu.
-Isso è verdade. Mas quem são esses caras?
– David, David… – Disse Clarck, colocando as mãos para trás. Ele andou pelo quarto como se procurasse cuidadosamente as palavras. – David quando o caos se instalou, as pessoas entraram em pânico. Isso já aconteceu outras vezes na história deste planeta, meu amigo.
-O que?
-Isso mesmo que eu disse. Esta não foi a primeira vez. David, presta atenção, pois eu não terei saco para explicar duas vezes. Há muitos e muitos anos atrás, muito antes do Homem andar pela Terra, o planeta foi povoado pelos dinossauros.
-Tô ligado. Aí veio um meteoro e…
-David, o meteoro é só uma das milhares de hipóteses para a extinção dos dinossauros. Existem outras, mais… plausíveis, eu diria…
-Tá, mas o que a gente tem a ver com isso?
-A rigor, nada. Mas se você parar para pensar no que deve ter sido a luta pela sobrevivência num planeta em que as coisas começam a mudar dramaticamente, verá que sobreviveram os que eram mais adaptáveis. O velho mundo dos dinossauros se tornou gradualmente um mundo que permitiu a super especialização. Então havia dinossauros com bocas grandes, dentes grandes e braços pequenos. Por que? Porque eles não precisavam dos braços… Mas quando tudo entra em colapso, aquela configuração que foi se moldando ao longo de anos, vai para o ralo.
David, você sabia que existe uma mariposa em Madagascar que tem uma tromba de 25cm?
-Não…
-Ela tem uma tromba de 25 cm porque existe na ilha uma flor cujo néctar se localiza a exatos 25cm em seu interior. Quem evoluiu primeiro?
-Não sei.
-Exato. Ninguém sabe, David. As coisas evoluem sem que haja um controle claro para a Ciência. Por que você está aqui? Porque eu estou aqui? Será apenas o acaso? Ou uma obra cuidadosamente arquitetada por uma inteligência superior?
-Mas… Eu ainda não entendo onde você quer chegar.
-David, presta atenção, está claro, meu rapaz. As pessoas adaptáveis são as que vão sobrar. Quando você me conheceu, agindo como um burro de carga, certamente pensou que eu era um lacaio daquele brutamontes bigodudo e careca que nunca deve ter visto uma escova de dentes na vida.
-O Sam?
-Isso mesmo. David… Eu sou o ser mais adaptável que você já viu. Eu não bato de frente, eu não fico ao alcance. Minha sobrevivência está acima de tudo… Eu faço qualquer coisa para sobreviver, meu jovem.
-Filho da puta… Você… Foi você!
-Sim, fui eu. Eu entreguei a eles o local da base, em troca de sobreviver. Obviamente que ser medico facilitou isso.
-Mas como?
-O radio do helicóptero, meu jovem. Quando minha filha morreu, não me restava mais nada a fazer senão buscar a sobrevivência.
-Mas e aquelas pessoas? Elas não tinham culpa! Elas estavam, como você falou…
-…Eu disse o que você precisava ouvir, David.
-Mas então, não era verdade?
-Sim, era. Mas apenas uma face da verdade. Eu sempre direi o que você precisar ouvir. Aquelas pessoas estavam sob o controle e os caprichos de um monstro. Um homem mal. Nicolas era um louco. As pessoas gradualmente perderam o contato com o mundo real lá fora. A sanidade hoje é algo a ser conquistada a cada dia. Mas elas não morreram em vão. Elas morreram por uma causa, para trazer de volta a aurora da humanidade a este planeta…

-Eu não sei do que você está falando. Você também pirou… Eu quero sair daqui. Me tira daqui. Me tira daqui!
-Calma David. Calma. Gritar vai piorar as coisas para o seu lado.
-Me tira daqui…
-David, esses homens, os homens de branco… Você quer ou não quer saber a verdade, David? – Indagou Clarck.
David acenou positivamente com a cabeça.
-… – Agora David estava quieto, sentado, encolhido no canto da parede. Clarck retomou o diálogo.
-Os homens de branco querem recuperar o mundo, David. Esta é a última chance da humanidade retomar o planeta. Nós vamos curar a praga… Mas é como diz o ditado, “não se faz um omelete sem quebrar alguns ovos”! O que eu vou lhe mostrar, não é algo fácil de ver. Tem que ter estômago. Então eu lhe dou duas escolhas. Você pode optar por não saber e deixar a vida seguir seu curso, arcando com as conseqüências da sua escolha. Ou pode tentar entender o “nosso” lado e então se juntar a nós em nossa causa.

David estava impassível. Assistia com perplexidade aquele homem frágil de cabelos brancos, que tinha derramado lágrimas no alto do prédio ao lembrar da filha, que demonstrava um medo e receio quase neurótico e que agora falava com extrema segurança. David finalmente compreendeu que este era o verdadeiro Clarck. Naquele dia, David avançou um passo na compreensão do mundo ao vislumbrar que só se conhece de fato as pessoas quando elas estão numa posição superior nas relações de poder. Aquilo era uma enorme lição que Clarck havia deixado pra ele. David não pretendia abrir mão desta lição.

Dessa forma, David Carlyle, acenou positivamente com a cabeça. Clarck lhe estendeu a mão, e o jovem David levantou-se.
Clarck bateu na porta. E minutos depois a chave girou na tranca e ela se abriu.
David viu que uma pessoa vestida com o traje branco de contaminação e máscara de gás segurava um fuzil. Este sujeito os acompanhava de perto, em silêncio. Ali estava um grande corredor, em curva, com portas de um único lado.
-Que lugar é este?
-Eles chamam de ponto zero.
– E o que eles fazem aqui?
-Bem, esses caras estão há algum tempo resgatando os humanos sãos. Já são poucos. A taxa de expansão da contaminação é altíssima. Se eles não fizessem isso, as pessoas iriam acabar. Ou por falta de comida, por falta de remédios, iriam se matar por loucura, ou seriam atacados pelos selvagens.
Os dois chegaram num grande átrio. O segurança ficou para trás. O lugar era enorme. Parecia um shopping. Era tudo muito limpo. Havia um permanente cheiro de hospital no ar. Em cada andar homens de macacão branco e mascaras de gás seguravam armas.
Nas proximidades de onde estavam, tinha uma ponte que atravessava o átrio e levava direto a um andar com salas com portas de vidro, onde alguns cientistas discutiam apontando telas com gráficos que se assemelhavam a moléculas.
– Está vendo essas portas? São laboratórios. – Disse Clarck apontando.

– Mas Clarck… Me diga uma coisa. Que doença é essa?
-David… Nós estamos justamente tentando entender o que se passa. Sabemos que o surto vazou de uma experiência científica militar, que vinha sendo desenvolvida em sigilo. A coisa saiu de controle, creio que não intencionalmente. Pelo que eles me contaram, inicialmente foi uma bactéria geneticamente construída, e liberada em vários países de modo proposital. Ela foi disseminada para se espalhar devagar. A bactéria, que chamaram de CIG998-T, foi sintetizada pela primeira vez em 1972 num laboratório dos Estados Unidos. Durante todas as décadas de 80,90 e 2000 essa bactéria foi liberada na água, nas estações de tratamento, nos produtos industrializados, em doces, em restaurantes… Ela foi aspergida sobre plantações e até mesmo implantada nos alimentos servidos em aviões. Várias campanhas de vacinação pelo mundo tiveram como objetivo colher informações estatísticas sobre locais ainda não atingidos pela bactéria e implantá-la nesses locais. Até nas tribos distantes da Amazônia ela foi inserida.
-Mas o que essa tal CIG não sei das quantas faz?
-Ela não faz nada. Aí está a genialidade do projeto. Ela é inerte. Esta bactéria está em mim, em você, e em todos aqui. Ela passou a fazer parte do arcabouço biológico que permite a vida humana. Seu intestino está cheio delas, seus olhos, sua boca, seu nariz, sua saliva, seus ouvidos, sua pele é lar para milhões de pequenos seres, alguns com funções específicas, como as que regulam suas funções intestinais. As pessoas pensam em si mesmas como indivíduos únicos, mas David, nunca estamos sozinhos. Não existe um “eu” apenas um “nós”.
-Tá, mas então, nos anos 70 alguém cria uma bactéria que não faz nada? E implanta o bichinho no mundo todo. E daí? Por que?
-Aqui está a pior parte: Era uma arma de guerra. Imagine as perspectivas do embate nuclear da Guerra Fria. O que poderia ser pior que bombas atômicas? Uma doença que matasse a todos. Primeiro fizeram a bactéria. Depois trabalharam para dar um jeito de deixá-lam letal. Isso è como construir um barco dentro de uma garrafa. Se faz aos poucos, com calma. Com paciência. A bactéria tinha um gatilho, e o gatilho era um virus feito em laboratório.
O projeto deveria ter sido paralizado, desativado, mas deu merda.
Alguém liberou o virus. Não sabemos como isso aconteceu, de onde ele veio e nem por quem ele foi lançado. Tudo que temos são especulações. Também não estamos certos se o virus que está agindo agora é o mesmo que desencadeou a epidemia. Ele pode ter sofrido uma mutação. Minha hipótese é que alguém projetou o virus para usar o material genético da CIG998-T e se espalhar em grande profusão. Acho que a idéia era surgir logo depois com uma cura. Você pode imaginar o poder de uma companhia que tem um remédio que todas as pessoas do mundo necessitarão?
-Nossa…
-Mas o imponderável aconteceu, meu caro David. A coisa saiu do controle. Talvez fosse tarde demais para oferecer a cura. Talvez a doença tenha se acelerado a um ponto imprevisto, ou o virus se ligou a algum outro tipo de enfermidade, tornando-se algo novo e potencialmente mais letal, e até agora… Sem cura.

Os dois chegavam ao outro lado da ponte. Ali estava um jovem oriental.
Clarck fez as apresentações.
-David , este é o doutor Mayong.
-Olá.
-Como vai o senhor?
-Bem.
Clarck interrompeu – David, este é um dos principais pesquisadores do ponto zero. Ele vai nos detalhar os processos do virus.
-Ah….
-Sim, mas não estou sozinho. Sou membro de um time. Venha, vou explicar a vocês o que é esta coisa. Sigam-me, venham por aqui, por favor.

O jovem oriental saiu andando com passos rápidos na direção de uma porta. Ele digitou uma senha num pequeno painel de números na parede. A porta destrancou e os dois entraram.
Estavam agora numa sala.
-Sentem-se. – Disse o cientista oriental.
Clarck e David tomaram seus lugares em confortáveis poltronas de couro.

– Você falou a ele sobre o CIG998-T? – Perguntou o cientista. Clarck acenou positivamente.

-Bem, David, o que acontece é que o virus TEGEN – este é o nome que demos para ele – não faria nenhum efeito num ser humano sadio se ele não estivesse contaminado com a CIG998-T. O problema ocorre quando o virus entra em contato com a bactéria. Ao entrar em, contato, ele penetra na bactéria e altera seu código genético. Por sua vez, ele sofre a primeira das três grandes mutações de seu ciclo. A bactéria se torna uma fabrica de TEGENS-T1, agora sendo espalhados pelo corpo na forma de TEGEN-T1. Em poucos minutos, bilhões deles estão passeando pelo corpo, rumo ao cérebro.
Ao chegar no cérebro, o TEGEN-T1 vai direto para a substância negra. A substância negra é um componente essencial dos gânglios da base, um circuito bastante complexo que fica nas profundezas do cérebro, e são responsáveis pela sintonia fina, e coordenação dos movimentos. Nesta fase da contaminação, surge a febre e os primeiros espasmos musculares. Em seguida, outras duas partes importantes do cérebro são afetadas: o hipocampo e o córtex entorrinal. Ali, o TEGEN-1 vai se ligar aos axônios neuronais, bloqueando o influxo elétrico numa ação que lembra um incêndio florestal. Os primeiros centros a cair são os relativos às recordações, a linguagem e às emoções. Apenas ficam intactas as regiões responsáveis pelos órgãos sensoriais, como a visão, o tato, a audição e as que controlam os movimentos.
-Cruzes.
-E isso não é tudo! Pense na doença como uma mistura dos males de Parkinson e de Alzheimer somados numa única, devastadora e veloz dose.
Nesta fase, temos o que chamamos de “zumbi bom”. O indivíduo já não possui mais a dimensão de si mesmo, e nem do outro. Nesta fase, a pesquisa mostrou que uma terapia focada em inibidores de acetilcolinesterase conseguia aumentar a concentração de acetilcolina. Como o TEGEN-1 operava como um bloqueador do neurotransmissor, os inibidores baseados na galantamina afetavam o funcionamento dos sinais e observamos uma melhora nas funções intelectuais residuais. Com isso, os doentes voltavam a responder quem eles eram, e lembravam-se coisas dos seus últimos dias. Mas assim que a terapia de inibidores da acetilolinesterase era interrompida, o processo se mantinha em evolução e o quadro de degradação cerebral evoluía até o total desaparecimento de qualquer função intelectual mais complexa.

Após as primeiras horas, o TEGEN-1 sofre a primeira alteração estrutural e evolui para TEGEN-2. É esta forma que irá afetar especialmente o eixo adrenal-pituitário-hipotalâmico. Isso é mais ou menos como jogar um menthos numa garrafa de coca-light. O TEGEN-2 vai provocar um excesso brutal de atividade no eixo, explodindo a produção de corticotropina. Aqui eu tenho que explicar uma coisa, quando um ser humano, ou animal detecta uma ameaça séria ao seu redor, em uma fração de segundo, o hipotálamo amplifica a produção da corticotropina, que induz a pituitária a secretar o ACTH. Este hormônio é uma instrução química, que instrui a glândula adrenal, que está em cima de cada rim, a liberar o cortisol. São essas alterações que preparam o corpo para lutar ou fugir. Basicamente, este é o mecanismo natural do stress, mas multiplicado trilhões de vezes.
Então o zumbi bom dá lugar ao zumbi agitado. Mas ainda estamos num ambiente tratável. Ele fica como louco, se debate, ataca tudo e a todos em volta como se fosse um bicho selvagem, mas o principal efeito do virus não foi desencadeado até aqui. Ele só é desencadeado quando a explosão da produção de corticotropina no eixo adrenal-pituitário-hipotalâmico atinge um nível tão elevado que de alguma forma ainda desconhecida para nós, provoca uma resposta do córtex, que dispara a produção da noraepinefrina, que vai agir sobre a amígdala, desencadeando uma agressividade fora do comum.
Então o que temos agora é um zumbi fora do controle. È como se tivesse raiva num estágio avançado. É nesta fase que se dá a mais estranha das mutações do TEGEN. O TEGEN-2 ficou diferente e ele desce pela corrente sanguínea, tirando proveito da disparada da adrenalina. Agora ele está permeável e espalhado por todo o corpo. Ele vai penetrar nos neurônios, e ali irá provocar um aumento da produção de uma proteína chamada beta-sinucleína, que terá uma dobra incomum.

-Pera. Calmaí! Dobra? Beta não sei das quantas, cotico-sei-lá-o-quê… Porra, eu não tô entendendo lhufas! – Interrompeu David Carlyle.
-O senhor está entendendo pelo menos? – Perguntou o Dr. Mayong ao Clarck.
-Estou sim, por favor, continue, não ligue pra ele.

Mayong prosseguiu:
– O TEGEN-2 também vai inibir o proteassoma celular de decompor a proteína. A produção de beta-sinucleína será tamanha, que a célula deveria morrer, mas não é isso que acontece. O TEGEN-2 abre uma passagem que libera a saída da beta-sinucleína para a corrente sanguínea. Então essas proteínas irão se acumular nas áreas nervosas dos músculos. Uma vez que aderem nas células nervosas que ativam os feixes musculares, elas estimulam um influxo de sinais de dor ao cérebro. E aqui ocorre um pequeno milagre, o TEGEN-2 se divide e uma parte dele vira o TEGEN-3. O que o TEGEN-3 faz? Ele é um antídoto para o problema causado pelo TEGEN-2!
O TEGEN-3 se espalha, seguindo o fluxo das beta-sinucleínas e vai aderir nelas. Basicamente, o TEGEN-3 é um mero interruptor neuroquímico do sinal da dor. Ele vai bloquear esta emissão, substituindo o influxo elétrico, que de uma maneira que nós ainda não compreendemos direito, simulará uma descarga de dopamina.
Imagine um prazer de um orgasmo como sendo o pingo de um conta-gotas. O que o TEGEN-3 faz, é mais ou menos como abrir as Cataratas do Niágara na mente do cara. Só que dura pouco.
A parte mais curiosa é que o TEGEN 3 só é ativado quando a ubiquitina-Y entra em contato com ele. E adivinha onde que ela está? Na CIG998-T não afetada pelo TEGEN-1.

-Então é isso que explica por que o zumbi quer comer gente?
-Sim. Apenas a carne de um não-zumbi contém a uniquitina-Y capaz de conter a dor. E isso também explica porque o zumbi não come zumbi. E também a pressa deles, já que em pouco tempo, um cadáver terá as células da CIG998-T contaminadas e isso não produzirá efeito no TEGEN-3.

-Nossa. Eu tava achando sua explicação super chata, mas agora tá fazendo um certo sentido aqui na minha cabeça. Mas é muito nome maluco. Como vocês decoram isso?

-Nem eu sei. – Mayong riu do jovem David.
-Mas professor, como e por que os zumbis ficam parados? E afinal de contas, eles estão mortos ou estão vivos?
-Esta é uma pergunta difícil de responder com certeza. A rigor, estão mortos e vivos. Uma parte deles está viva, isso significa que o coração bate, os pulmões inflam, o sangue circula. Mas a mente fica obliterada para sempre. Eles regridem a um estágio primitivo, não tem pensamentos, nem memórias. Sabemos que quando o TEGEN-3 não entra em ação, acontece alguma coisa na sua temperatura corporal que cai drasticamente e o córtex pré-frontal induz um sinal que funciona como uma espécie de freio-de-mão no cérebro do zumbi.
Ele entra num estágio catatônico que pode durar horas ou mesmo dias. Neste estágio, seu ritmo cardio-respiratório aproxima-se do zero, como em pacientes acometidos de certos venenos neurotóxicos. Para você ter uma idéia, o coração da criatura chega a bater só uma vez ao dia. E ele só vai respirar uma vez a cada três dias. Como o organismo dele não reage a degradação, nos não sabemos ainda. Isso pode ter alguma relação com os efeitos do CIG998-T.
A atividade cerebral nesta fase é zero. Então, do ponto de vista médico, esta pessoa está oficialmente morta.
Não sabemos se nesta fase ele sente a dor. Também não sabemos como este efeito é desligado. Os estudos práticos mostraram que os estímulos externos provocam a liberação desse freio-de-mão. Em poucos segundos, o zumbi sai do estágio de hibernação e retorna ao frenesi. Inicialmente, nós pensamos que isso era apenas uma curiosidade, mas à medida em que estudávamos a evolução da doença, percebemos que é um mecanismo poderoso, capaz de estender a vida dessas horrendas criaturas por um longo tempo. Isso também as deixa praticamente imunes a outras doenças, gases e etc. Na natureza existem animais que desligam partes de seus cérebros para poupar energia. O Golfinho, por exemplo, consegue desligar um lado de seu cérebro de cada vez e graças a isso, ele está em permanente estado de alerta e não parece dormir nunca. Na verdade, ele dorme com um pedaço da cabeça de cada vez. Neste caso, o cérebro inteiro do zumbi se desliga e ocorre um minúsculo efeito de atividade elétrica no tronco cerebral. É dali que parte o impulso de “religar” o zumbi.
É por conta disse que somente ataques que afetem diretamente o cérebro produzem efeito imediato, pois interrompem os processos dos mecanismos neurais. O zumbi não vai parar com tiro no peito, nem corte nos braços. Isso não segura as feras.

-Muito interessante, professor. – Disse Clarck, levantando da poltrona. Ele andou pela sala e abriu a porta. Entraram dois homens com os macacões brancos da escolta. – Venha, David. Vamos mostrar as pesquisas… Tenho certeza que você vai se amarrar.
Os cinco saíram da sala de Mayong e desceram por uma escada até o nível inferior. Ali havia uma espécie de enfermaria gigantesca, onde centenas de pessoas deitadas em camas com grossas cintas de couro os continham nos leitos. Muitos gritavam, outros choravam. Algumas pessoas gemiam e muitos estavam dopados.
David se horrorizou ao ver aquela cena. Mas Clarck parecia gostar.
-Vejam aqui é a triagem, onde verificamos as condições gerais das cobaias. – Disse Clarck. Aquela palavra, “cobaia”, soou muito mal aos ouvidos de David, mas ele fingiu não se importar. Ele estava petrificado vendo o horror daquelas pessoas debilitadas, presas como animais em suas camas. Clarck agarrou-o pelo braço.
-Venha é por aqui. Rápido garoto, venha rápido que vai começar o show!
Os cinco continuaram a andar apressados pelo nível inferior do complexo. Clarck abriu uma porta e ali estava um corredor que dava em uma espécie de jaula de vidro reforçado. Ali dentro estava uma garotinha amarrada numa cama. Ela devia ter uns sete anos, talvez oito e vestia uma roupa hospitalar. A menina podia ver os três homens do outro lado do vidro, olhando pra ela. Ela olhou para David e sorriu. David acenou para ela. Nisso, a porta da jaula se abriu e ela desatou a gritar feito louca quando um zumbi saltou ali pra dentro.
A menina olhava a criatura, olhava para eles e gritava:

-Aaaaaaaahh! Socorro! Me tira daqui! Me tira daqui! Eu quero a minha mãe! Mããããe! Aaaaahhhhh!

David, Mayong e Clarck assistiam a cena horrenda do camarote.

O zumbi tinha uma grossa corrente no pescoço, que saía de um buraco na parede. Ele avançou rapido para cima da menina. Quanto mais perto o monstro chegava com sua boca escorrendo uma gosmenta bile negra, e seus olhos vermelhos injetados de sangue, mais ela gritava de pavor. Porém, a corrente limitava o movimento da criatura e ele parou a poucos centímetros da cama da menina. O zumbi tentava desesperado chegar mais e mais perto. Ele estava com os braços presos numa algema para trás do corpo. Mas a menina estava fora do alcance.

-Ele não alcançou! – Disse David com alívio.
-Ainda não… – Comentou Mayong com um sorriso nos lábios.

A cama da menina estalou e lentamente começou a subir. A boca grotesca da criatura desferia dentadas no vazio, tentando acertar aquela carne branquinha. A menina chorava, gritava e tentava se soltar, mas a criatura estava cada vez mais perto.
David não agüentou e tampou os olhos quando finalmente o monstro acertou a dentada e arrancou um enorme naco do braço da menina. O sangue espirrou longe. Assim que o zumbi mordeu, um estalo ocorreu e o motor elétrico que controlava a altura da cama começou a baixá-la. A menina gritava em estado de choque, com os olhos vidrados naquela criatura. Imediatamente, a corrente começou a ser tracionada e a criatura foi gradualmente sendo arrastada para trás pela corrente presa ao pescoço.
Em menos de um minuto, naquela sala só restava a menina na cama, com a ferida aberta ejaculando sangue e os homens de branco, do outro lado do vidro.
Uma porta lateral se abriu, e dois homens de trajes de proteção entraram na sala. Eles vinham com uma seringa. Um deles cobriu a ferida no braço da menina, que continuava a gritar até perder as forças. O outro injetou aquela coisa no pescoço da pobre criança.

-O que vai acontecer com ela?
-O que acontece com todos os que são mordidos.
-Ela vai virar um zumbi?
-Vai.
-Meu Deus! Isso é crueldade!
-Lembre-se do que eu te falei, David – Disse Clarck colocando a mão no ombro do rapaz. – Não se faz omelete sem quebrar os ovos. – Mas aquilo não conformou David Carlyle.
Tentando conter a vontade de vomitar, David perguntou:
-E agora o que acontece?
-Entre agora e mais ou menos duas horas ela vai ter a febre. Então os espasmos, o descontrole. Perderá os sentidos. Ela vai para a ala de observação, onde o medicamento que está sendo testado aqui será avaliado. Depois, se o medicamento fizer efeito, nós daremos um tiro nela e faremos uma necropsia. Se não fizer efeito, então ela será mais um pequeno zumbi para nossa coleção.
-Coleção? Você disse coleção?
-Sim, venha, por aqui. – Disse o oriental.
Eles andaram cerca de trinta metros por um corredor sem portas e ao final havia uma porta enorme, de aço que mais parecia a de um cofre. Novamente o cientista digitou uma senha no painel e a pesada porta se abriu. Ali estava uma espécie de arena, com uns trinta e seis zumbis cambaleando no meio.
Tinha uma pequena montanha de zumbis acumulados num canto, uns sobre os outros.
Alguns cientistas de avental anotavam de um camarote de vidro mais acima os comportamentos.
-O que eles estão fazendo?
-Estudos comportamentais dos grupos. Observe.
O Dr. Mayong pegou um telefone na parede.
– Olá. Aqui é o Mayong. Liberem um no coliseu pra mim, por favor. -Disse ele. Em seguida colocou o aparelho na parede novamente.
Uma luz amarela se acendeu e uma sirene tocou. David olhou assustado para o cientista.
-Que merda é essa?
-Clama, rapaz. Olha lá pra baixo…
Os zumbis ficavam olhando pra cima. Para a luz da sirene, que girava.
-Veja… Note como eles são atraídos pela luz…
-Fascinante! – Disse Clarck.
-É agora. Façam suas apostas! – Disse rindo.

Lá em baixo uma porta se abriu e dois homens de traje de proteção jogaram uma pessoa de avental lá pra dentro do coliseu dos zumbis.

-Puta merda! Aquela pessoa! – Apontou David horrorizado.
-Sim… Observe! Eu acho que ele dura dez segundos. – Disse Mayong.
-Não, não vai agüentar nem cinco! – Comentou Clarck. – David, olha bem, não está reconhecendo um “velho amigo”?

A montanha de criaturas subitamente pulou quando a porta abriu e a pessoa foi jogada pelos homens truculentos. Ele estava caído no chão, mas se levantou correndo.
David reconheceu aquele homem. Era o desgraçado barrigudo do Joe, que havia surrado ele. Agora o sujeito tinha uma expressão de horror no rosto. Ele começou a correr pela arena.

-Olha lá, veja como eles se agrupam. Olha ali, os mais fortes se movendo pelas laterais… – Mayong estava excitado.
Em poucos segundos o sujeito estava sendo seguido por uma multidão insana. Ele tropeçou e as criaturas saltaram sobre ele como se fosse rugby. Um monte de zumbis nus saltavam uns por cima dos outros e a montanha virou uma espécie de vulcão de sangue, que mais lembrava uma bola de vermes se remexendo em frenesi.

-Olha lá, David! Estão comendo o filho da puta que bateu em você. Que coincidência, né rapaz? Nunca gostei daquele puto. Mas a mulher dele era gente boa…
-… – David não conseguia falar. Apenas olhava a carnificina, com zumbis puxando as tripas com os dentes e tentando correr para os cantos para saborear. Como a carne não dava para todos, alguns zumbis brigavam como cães raivosos, tentando guardar grandes nacos de carne para si.
Clarck e Mayong debatiam sobre o modo como os zumbis cercavam suas presas. Alheio à conversa, David apenas olhava aquela cena grotesca. David observava aquilo tentando não pensar no ódio que nutria por aquele miserável. Mas por pior que ele fosse, vê-lo sendo repartido como “ração” de zumbi era algo forte demais.
E foi nesta hora que David percebeu que aquele homem era parte das pessoas da base. E até segundos atrás, ele não estava morto. Sendo assim, ao contrário do que Clarck lhe havia dito, eles não estavam todos mortos.
O pensamento de que talvez Alice estivesse em algum lugar ali, a espera de ser devorada ou transformada, atingiu em cheio seu coração. Ele precisava fazer alguma coisa.

CONTINUA

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33 comentários em “Zumbi- Parte 7”

  1. Ai cara esse conto ta muito bom, eu fico entrando aqui toda hora pra ver se ja tem continuação. O engraçado é que semana passada eu terminei de ver aquele anime de zumbi (high school of the dead) e fiquei com a maior vontade de ver mais coisa sobre o assunto, mas só tava achando coisa trash, dai vc surge com esse conto, parece ate que leu minha mente!!
    Valeu mesmo, Philipe!!!!

  2. Olha, o conto é tão bom e detalhado que parece até um plágio enchertado com resident evil, walkind dead, exterminio, eu sou a lenda, madrugada dos mortos, REC, a noite dos mortos vivos e despertar dos mortos. Isso foi um elogio Philipie. Parabéns. Daria um bom filme de zumbis.

  3. que explicação mais complicada de se entender, nomes de substâncias, proteínas, etc… Essas substâncias existem ou você inventou? Como sempre, está muito Foda esse conto. Parabéns.

  4. MEU DEUS DO CEU O QUE É ISSO! A história tá ficando cada vez melhor! Eu gostaria de um pouco mais de ação envolvendo os personagens principais, mas assim mesmo tá FANTÁSTICO! Isso ainda vai virar filme. Me escuta hein!

  5. Rapaz, essa explicação é nova para mim. Deixou um arzinho de “zumbis não estão mortos”, mas estão clinicamente mortos! XD

    E arrancar naco do braço da menininha foi MUITA maldade sua! XD

    Um super abraço,

    tio .faso

  6. Poxa Philipe, muito bom a tua história, voce está alimentando meu vício por zumbis. kkkkkk

    Já vi o mundo ser atacado por zumbis enquanto uma pessoa estava em coma.

    Mas em um armário foi hilário.kkkkkkk

    Parabéns

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