Os Outros – parte 6

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Hug olhou para trás. O alien estava se aproximando rapidamente.

-Não há mais o que fazer. – Disse Sirina, sentando-se.

Hug sentiu-se tão desapontado de ver a mulher desistindo, abandonando completamente toda sua esperança de sobrevivência que não lhe restou outra coisa a fazer senão jogar a arma no chão e levantar as mãos.

Agora o alien estava prostrado na frente deles, de pé. A criatura enorme empurrou violentamente Hug contra a pedra, forçando-o a se ajoelhar.

E eles observavam, com medo, o alienígena, que também não dizia nada. Ele estava em silêncio olhando os dois encolhidos, vulneráveis, junto a rocha.

O alienígena não sorriu, nem esboçou qualquer reação. Hug olhou em seus olhos grandes e escuros e percebeu algo neles de satisfação. Ele vencera. Era a satisfação da caçada na escuridão daquela alma.

O alienígena abaixou-se lentamente. Um de seus quatro braços agarrou a arma de Hug no chão.

Ele ficou alguns minutos olhando para a arma. Os dois pequenos braços manipulavam a arma com habilidade, movendo-a de um lado a outro.

-Ele está estudando. – Pensou Hug.

O ser jogou a arma ao chão. E voltou sua atenção para os três.

Hug estava com o desejo de pular sobre  criatura e descer a montanha com ela, rolando… Morreria em combate. Mas, àquela altura, tudo ja parecia bastante sem sentido. Sirina havia se entregado. Sua filha estava doente, fraca demais para escapar. Sirina chorava em silêncio, tentando conter os soluços que balançavam a criança desmaiada em seu colo.

O alienígena estava de cócoras na frente deles. Olhou para sirina e para Hug. Seus movimentos eram lentos e pareciam estudados.

O alien esticou o braço e agarrou a cabeça de Sirina.

Hug apenas olhava, aflito e impotente diante do ser.

O alien pegou sirina como um jogador de basquete segura uma bola. Sua mão enorme com dedos compridos praticamente davam a volta na cabeça dela.  Sirina chorava e começou a implorar.

-Não… Me larga, me larga… Piedade!

Hug teve o ímpeto de agarrar o alienígena com as mãos e tentar aplicar uma joelhada com toda força no pescoço do ser, mas era como se ele pudesse ler seus pensamentos. Imediatamente o ser estendeu um dos braços e apontou um dos cilindros em sua testa.

Ele não dizia nada, e aquilo por si só já era aterrador. Tudo parecia um terrível pesadelo. Sirina começou a gritar desesperadamente quando a criatura lentamente começou a apertar sua cabeça. Ela gritava cada vez mais alto. O alien  fazia isso sem sequer olhar para ela. Ele só fixamente para Hug, enquanto encostava o cilindro na testa dele.

-Ele não vai me matar agora. Ele está se divertindo conosco. – Pensou Hug, assustado.

Sirina foi parando de gritar, começou a gemer e então perdeu os sentidos. Hug pensou que ela tinha desmaiado, mas houve um som que mais parecia uma casca de noz se partindo. Os olhos dela saltaram para fora, e uma enorme massa de sangue rosa ejaculou para todos os lados.

O alien estourou a cabeça dela como se fosse um ovo.

Pedaços de miolos foram subitamente esmagados quando a caixa craniana cedeu. O alien fez aquilo sem tirar os olhos dele.

Hug estava chorando em silêncio. As lágrimas desciam de seus olhos, e Hug ainda ofegante tentava se conter, mas seu ímpeto era de gritar. Ele sabia que era isso que o alien queria.

O alien puxou Sirina para trás e lançou-a ao ar, como quem larga um farrapo velho. Seu corpo cheio de sangue e fraturas girou no ar e bateu na colina, descendo rolando até parar junto as pedras.

Hug tentava se manter impávido. Tentava se controlar usando sua mente. – Isso não está acontecendo. isso não está acontecendo… – Pensava repetidamente, tentando se manter são ante ao horror e a impotência.

O alien voltou aos seus movimentos lentos. Estiou seu longo braço e agarrou Tarim.

Hug olhou para ela. A menina estava no chão, desmaiada, mas o alienígena agarrou a criança pela cabeça, do mesmo jeito que fizera com Sirina…

Hug voltou seu olhara para ele. Estava claro que em algum lugar naquela aparência de estátua bizarra, havia um prazer sádico em matar lentamente, deliciando-se com todas as demonstrações de raiva, medo e desespero que emanavam de Hug.

-Nããããão! – Hug gritou. O alien apertou o cilindro contra a cabeça dele a ponto dela colidir contra o paredão de pedra.

A criança era mantida erguida pelos dois pequenos braços do alienígena, enquanto seu braço esquerdo espremia a cabeça de Tarim.

-Não, não faz isso! Por favor! Não… Ela é só uma criança! – Hug disparou a falar.

O ser estava impassível e começou lentamente a apertar seu torniquete ao redor da cabeça da menina. A criança começou a gemer de dor.

-Me mata! Me mata desgraçado! – Hug gritava desesperadamente.

Mas ele viu que não ia adiantar. Virou o rosto para não ver a morte da própria filha. Mas o alienígena agarrou-o pelos cabelos e o puxou, obrigando-o olhar a morte agonizante da menina.

Hug fechou os olhos. Se recusava a ver. Se era para morrer, que matasse logo. Ele não aguentava mais aquilo.

Hug estava com os olhos fechados quando percebeu um ruído de castanha se partindo. A menina parou de gemer.

O alien então liberou a pressão sobre o cilindro na testa dele e Hug custou a abrir os olhos. Temia que Tarim estivesse morta.

-Pode abrir os olhos, filho!

Era a voz de Nigel.

Hug abriu os olhos e viu Nigel de pé, na frente dele. Ao chão jazia o enorme alienígena, com a cabeça transpassada por uma flecha. Nigel trazia consigo um dos arcos.

-Pai!

-Meu filho! – Disse Nigel, abraçando Hug.

Hug olhou para Tarim. Ela estava no colo de Brom.

-Ela está bem! Ele não a machucou!  – Disse Brom, aplacando a aflição do cunhado.

-Temos que dar o fora daqui… – Falou Nigel. – Não demora eles voltarão.

-Mas… E o nosso povo? E as mulheres? as crianças?

-Eles estão bem, meu filho. Eu disse que também iria até o fim do mundo por um filho. Quando você não voltou, eu vi que seria forçado a cumprir minha promessa. Vem, levanta. Vamos embora daqui!

-Pai… Olha! Isso é a arma deles.  – Disse Hug pegando o cilindro da mão da criatura sem vida.

 

 

Na noite do dia seguinte, houve festa na caverna quando os homens retornaram com Tarim.

Após comerem e festejarem ao redor da fogueira. Hug parou e sentou ao lado de seu pai. O velho Nigel estava quieto. Seus olhos escuros prescrutavam as estrelas, penduradas silenciosamente no firmamento.

-Pai?

-Sim Hug? – Nigel olhou para Hug de uma forma terna.

-Por que os outros são maus?

-Eu não sei, meu filho. Por que o céu tem tantas estrelas? Por que ? Por que? Vivemos cheios de “por ques”… Talvez eles só queiram equilibrar as coisas no planeta. Reduziram os homens ao que deve ter sido nosso numero nos primórdios desta bola. Eles não matam animais. Eles só matam gente. Seu avô sempre dizia que os Homens estavam destruindo o planeta. Durante milhões de anos experimentamos o topo da cadeia alimentar. Desenvolvemos as maiores tecnologias. Hug, olhe para nós! Voltamos a ser meros índios. Viajamos atrás da comida como faziam os seres mais primitivos…

Hug ficou em silêncio pensando em toda a sabedoria de seu pai e em como ele sabia mais do que Hug. Pensou em seu avô e em como o velho ancião sabia mais que Nigel… Percebeu que Nigel estava certo em predizer um destino de involução para a espécie humana.  Seus pensamentos foram interrompidos quando Nigel retomou a conversa.

-Sabe… Antigamente, os homens brancos também dizimaram muitos índios…  Eles chegavam e matavam todos. Não sobrava nenhum. Até que os índios, que ocuparam grandes extensões de terra no passado se tornaram uns poucos e foram deixados em paz, porque eles não ameaçavam mais. Os brancos criaram reservas e os índios foram confinados a estas reservas, onde poderiam habitar como se fossem animais, sabe?

-Sim pai…

-Olhe à sua volta, filho. Vivemos numa reserva. Seu avô nunca entendeu por que eles não vem aqui. Este é o espaço que nos cabe. Enquanto estivermos aqui, estaremos seguros… Mas até quando? Até quando aguentaremos isso? – Perguntou-se Nigel retoricamente, olhando uma estrela cadente riscando a imensidão do céu.

Hug ficou em silêncio. Olhou o estranho cilindro metálico dentro de seu embornal.

-Um dia isso mudará, meu pai! Um dia.

 

FIM

 

 

 

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15 Comentários


  1. “O alien estourou a cabeça dela como se fosse um ovo.” chorei de rir nessa parte. kkkkkkkk O final ficou “normal”, parecendo qualquer outra história quando chega a hora que tudo está quase fudido surge uma salvação inexperada. Mas mesmo assim, está ótimo, daria um bom filme prá passar na Sessão da Tarde.

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  2. Letargia

    Voltaram aos primórdios.
    Muito legal, gostei.

    Sua imaginação e’ incrível, parabéns por esse dom.

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  3. thalles braga

    hey, muito bom o conto, uma pequena dica para o site, por que vc não coloca aquele “bagulho” que faz a pagina escurecer na bordas para vc focar só no texto, tipo tem no minilua? ficariam legal ler os contos assim ;D

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  4. Hermínio

    Muito interessante e original o conceito de “reserva para humanos” em um planeta invadido por aliens!

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  5. Aline

    Gosto imensamente dos seus contos, Philipe. Você tem muita criatividade e sabe o que atrai o público, mas desse conto, em particular, não gostei muito, porque esperei bem mais. Como é que a menina tá doente, levaram ela por isso e, do nada, acaba o conto sem explicação nenhuma? Eu sei que você sabe tudo isso e até acho que deve tá uma loucura sua vida, mas nós, seus leitores, sabemos esperar a continuação. É só uma crítica construtiva, pois adoro seu blog, indico sempre e quero continuar lendo textos maravilhosos que você escreve.

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    1. Aline, não levaram a menina porque ela estava doente. Isso é o que disseram para justificar. Os visitantes levaram a menina porque o casal havia perdido os filhos deles e tentaram roubar a criança. A doença foi só uma desculpa. Ela estava doente mesmo, e provavelmente iria morrer. A taxa de mortalidade infantil era gigantesca nos tempos primitivos e isso reflete o grau de retração tecnológica que ocorreu no pós-apocalipse.

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  6. A gente sempre vê esta comparação de “homem branco vs índio”, em histórias de invasão alienígena, como em Independence Day por exemplo. Mas a sacada das reservas foi muito boa cara!
    Essa teoria do Nigel sobre equilíbrio é uma motivação mais interessante do que a busca por recursos; acho dificil algo daqui interessar a uma civilização de “além-cosmos”, que teria evoluído de forma tão diversa da nossa (apesar do visual bem clássico dos seus ETs).
    Legal colocar o ser humano como uma praga a ser contida mas- e aqui atribuo aos aliens um certo pensamento ecologicamente correto- não extinta.

    Parabéns, meu caro!

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    1. Pois é, o que eu acho mais interessante neste post, é que do ponto de vista do alien, eles estão totalmente certos. Pegaram uma população que explodiu em crescimento populacional e saíram matando para “reequilibrar o sistema”. E veja só que curioso, nós humanos fazemos o mesmo com tudo que vira praga, de gafanhoto a coelhos da Austrália, passando por javalis no sul do Brasil e crocodilos na Florida.
      O Et é mau? Só se olharmos enquanto vítimas. Para o contexto global eles só estão fazendo a “parte deles”. E do mesmo jeito que nós humanos fazemos com os animais e até com nossa própria espécie (vide os nazistas), em certos casos, com requintes de crueldade ou interesse científico amoral. Isso era de se esperar para uma raça que vinha caçando e abatendo populações humanas através de gerações. Com a repetição do ato de matar, ela se torna uma atividade impessoal e sem questionamento. O alien mata quase que burocraticamente, e parece muito mais interessado na reação emocional – algo que para ele pode ser uma completa abstração cultural – do que na morte em si.
      Eu uso o alienígena, mas no fundo, estou falando dos aspectos mais sombrios da sociedade humana.

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  7. flavio

    Muito bom o conto , mas o final foi meio previsivel mas gostei muito e espero que tenha uma segunda parte.
    Me lembrou bastante a série Falling Skie da tnt, muito boa por sinal.
    Mas parabéns pelo conto.

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  8. Jordan

    Nós que estamos no papel de vítima, vemos os aliens como criaturas ruins, sem moral.. Interessante é tentar inverter os papéis. Imaginem só, a humanidade descobrir um planeta onde existe seres em um estágio tecnológico próximo a da nossa primeira revolução industrial. E destruindo quase completamente o planeta. O que faríamos? Na nossa cultura de pseudo-liberdade, todo mundo se mete em tudo, sabemos que existe todo tipo de gente doida, tipo esses eco-terroristas, religiosos fanáticos… Como esse tipo de gente iria se comportar nessa situação?

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  9. Arnaldo -

    Philipe, te juro que se tivesse grana pra investir, com certeza seria em seus roteiros, quem sabe não ganho na mega qualquer dia desses e te procuro.

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