O Crânio – Parte 4

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Bruno acendeu a luz do quarto. Pulou da cama, agarrou a pedra da caveira na prateleira e segurou ela no colo. Olhou bem dentro dos olhos brilhantes da caveira de pedra e mentalizou o pedido:

-Eu quero a Bia!

Em algum lugar no âmago de seu íntimo Bruno sentiu um “Assim seja” ecoar. Seria sua imaginação? O caveirito estava falando com ele?

Sem saber direito, Bruno recolocou a pedra em seu pequeno “altar” e foi beber água.  Ao passar pela sala, toda escura, ele sentiu um calafrio. Tinha uma coisa parada em pé no meio da sala, de costas pra ele.

Inicialmente Bruno pensou que era a mãe, mas então, assim que parou por um segundo, percebeu que não era a mãe. Era uma espécie de velha magra, que estava rindo baixinho, uma risadinha maligna. Bruno estancou na hora que viu aquilo. Não acreditava nos próprios olhos.

Ele não disse nada, apenas andou lentamente para trás, de volta para o quarto, e fechou a porta devagar.

-Puta que pariu, puta que pariu…. Que isso? – ele estava ofegante. O coração parecia querer sair pela boca. O que era aquela merda em pé na sala dele ele não sabia, mas estava claro que havia alguma coisa errada.

Bruno correu e pegou o telefone. Trêmulo, discou o numero do Gui.

-Atende, caralho. Atende, porra…

-Fala viado. Shhhh, não porra, to falando assim porque cara… Meu tu não vai acreditar, véio. Tem uma… Uma… Uma pessoa estranha la no meio da sala, moleque. Não, porra. É sério. Juro, meu! … Esquece essa porra, não, não, é, eu gabaritei! Foda-se a prova, Gui. Você ouviu o que eu falei, meu? Tem uma… Uma velha, eu acho, la no meio da sala. Não, ela não me viu… Que polícia? Que polícia, maluco? Ninguém vai acreditar. Não sei, não sei o que fazer, só pensei em te ligar, véio… Hã? Tá louco? Rá, tu é sequelado mesmo, né? Mas nem pelo caralho dourado de Pégaso que eu vou la na sala ver se ainda tá lá. Nem por um milhão de dólares! Hã? Que? Alô? Alô?

Alguém cortou a ligação. Uma série de chiados e estalos macabros se interpuseram entre a ligação de Bruno e Guilherme.

-Alô? Alô? Gui? Tá ouvindo aí?

O coração de Bruno quase congelou quando ele ouviu aquela risadinha maligna no telefone. O ímpeto de Bruno foi largar o telefone, tacar o aparelho da janela e fugir, se trancar no banheiro, mas quase urinando nas calças ele falou:

-A… Alô?

-Bruuunooooooo…. – A voz gutural parecia vir direto do inferno.

Bruno bateu o telefone no gancho. Correu e trancou a porta do quarto, bem a tempo de ver a maçaneta tentando girar.

Ele estava com os olhos arregalados de pavor. A coisa ainda ficaria pior: A porta do quarto dele começou a vibrar. Parecia que ia se partir a qualquer momento.  Enquanto isso, no interior do quarto, agachado atrás do armário, Bruno era acometido de um sentimento horrendo de morte. Era como se uma enorme e opressora sombra de tristeza e desesperança o engolfasse.

A última coisa que ele se lembrava era da porta vibrando violentamente, a maçaneta girando de modo frenético e a risada estranha que não parava de ecoar em seus ouvidos. Acordou sendo sacolejado por uma mão fria. Era o pai dele.

-Filho! Filho! Fala comigo!

Bruno estava caído entre a cama e o armário.

-Hã?

-Cê tá bem? Tá passando mal?

-Pai!

-Calma filho. Calma! O que foi? O que você tá fazendo todo torto aí atrás, menino?

-Eu… Eu… – Bruno percebeu que Gil jamais acreditaria na sua história. – Acho que eu… Desmaiei.

-Ah, meu filho. Vem, ung, que peso hein moleque? Senta aí. Senta. Tá bem agora? Como você tá? Tontura? Enjoado?

Bruno olhou ao redor. Várias coisas estavam caídas pelo chão. Já era de manhã e a luz do sol entrava pela fresta da cortina do quarto.

-Não, tô bem, pai. Tô bem, pode deixar. Tô de boa.

A mãe de bruno assistia a tudo em silêncio, enfiada num robe de seda. Os braços cruzados mais num abraço auto-confortante. – Cê tá bem mesmo, Bruno?  – Ela perguntou desconfiada.

Bruno olhou para a caveira sobre a prateleira. – Tô sim, mãe. tô com fome!

Na verdade ele queria vomitar, mas Bruno sabia que falar para a mãe que estava com fome tinha um profundo impacto psicológico na cabeça dela. Ao ouvir aquilo, dona Sandra imediatamente ganhou alma nova:

– Pode deixar, Bruno. Vou fazer Waffles que você gosta! Vem, Gil, desce e vai comprar ovo, pão, leite…

Bruno olhou as horas. Sete e meia da manhã. Ele não tinha visto a noite passar. O espanto e horror de ver a aparição na sala ainda o perturbavam, mas com a luz do sol a se derramar sobre sua perna na cama, tudo parecia mais um sonho, um pesadelo distante.

Ele se levantou e foi até o banheiro. Tomou um banho bem quente.

Saiu do banho ouvindo o telefone tocar loucamente. Antes de tirar do gancho, Bruno hesitou: E se fosse a voz do inferno chamando por ele?

-Alô?

-Opa! – Era o Gui.

-Porra, tu não morre mais!

-Por que?

-Vendi minha espingarda de matar viado na curva.

Engraçaralho pacadinho você. Isso é o que? Treino para seu show de transformista?

-Fala Gui.

-Porra meu, tive um sonho escroto demais com você essa noite.  – Ele disse.

Imediatamente Bruno voltou a sentir o calafrio percorrer a espinha. A coisa piorou quando ouviu Gui dizer:

-Você me ligava no meio da noite para me falar que tinha uma mulher…

-Uma mulher no meio da minha sala?

-Não uma mulher pelada no seu banheiro. Aí quando eu me dava conta, tinha mesmo, mas não era uma não, eram tipo umas oito. E eram todas orientais, cara, mas elas eram tipo umas bonecas, tá ligado? Umas bonecas de silicone, mas elas se mexiam, e começaram a agarrar a gente e uma segurou no meu pa…

-Para, para, Gui! Foda-se seus sonhos pervertidos com japinhas, cara.

-Mas você não quer saber da parte da dupla penetração?

-Ah, Gui, não enche cara. Oito da madrugada e você vem com esse papo…

-E a prova? Tomou na tarraqueta, né?

-Aí que você se fode. Eu me dei bem, xará!

-Impussibiru!

-Meu, sei lá como, nem espero que você acredite, mas tá ligado na pedra da caveira?

-Sei, tua macumbinha.

-Então, eu pedi pra caveira, veio… – Nisso do outro lado da linha, Guilherme teve um ataque de riso que durou quase um minuto.

-Hahahahahahahahahahahaa….

-Não vai parar não otário?

-Não tô acreditando.

-Então, vacilão. Eu pedi pra pedra quebrar meu galho, e foda-se o que você vai rir, mas quando cheguei la a prova tava fácil, e não só isso.

-Fácil? Prova daquela carrasca do caralho? Impussibiru!

-Tô te falando, ninguém que tava na Vf acreditou. E como eu tava dizendo, todas, todas as questões eram a letra C. Letra C de…

-Cu.

-De caveira, seu jumento.

-Cu também é com “c”, sabia?

-Tá, mas você ta ligando que quando o professor manda a prova para o departamento ele landa com as respostas….

-Sei, sei. O PC  que namorou a Sarita contou que os professores mandam para a mecanização a prova toda na mesma letra. Nos concursos também é assim. É o padrão.

-Isso, é isso mesmo. Exatamente o que eu ia falar. Deve ter dado alguma merda lá. Mas daí a você dizer que foi tua caveira feia pra caralho que…

-Ah, esquece. Foda-se. O que importa é meu dez!

-Bom, deixa eu te falar, ontem lguei para o cabeça. Ele ta todo bolado achando que tu não vai na festa dele, véio. Por causa daquela treta com… Você sabe quem.

-Mas ela vai?

-Ela vai. O cabeça confirmou. E pior, vai levar o assistente de palco do Bozo lá.

-Hahahaha quem?

-O pintor de rodapé, o jóquei de hamster… O povo ta dando apelido pra ele.

-Ele é baixinho?

-Digamos que ele senta no chão e balança as perninhas. Ninguém entendeu o que a Bia viu naquele cara… Deve ter um pau grande pra….

-Ow! Respeito aí!

-Desculpa. Mas e aí? Tu vai? Fiquei de ligar para confirmar tua presença com o cabeça.

-Eu vou.

-Aí sim, moleque! Mostra pra ela que tu é o cara! Não vai ficar sofrendo feito um cantor sertanejo universitário não! Vamo pegá mulé! As primas do Cabeça vão, meu. Lembra? lembra daquela altona magrela da colônia de Férias? Virou maior gostosa, meu! Eu vi no Orkut dela que o Cabeça me passou. Tem que ver as fotos dela, toda safadeeenha. Mas aqui… E a consulta lá, vei?

-Uma merda. Linfoma de Hodkin. Ainda tem que fazer mais exames e tal. Mas já ta adiantada a caralha.

-… – Gui fez um silêncio no telefone.

-Alô? Gui? Alô?

-Porra meu. – Agora a voz de Guilherme era digna de velório.

-Foda, né?

-Foda, mas tu vai superar, cara. Eu te conheço. Sei que tu é o cara!

-Tá, vamos mudar de assunto. Não quero ficar falando de doença.

-Bom, eu devo passar aí umas dez e meia, onze, no mais tardar.

-Vou estar esperando.

-Valeu, Brunão. O dono do seu cu desliga.

-Dono do meu cu? Não, o beijador de calouro de medicina desliga, né Gui?

-Tomanocusefudê!

-Tomanocusefudê!

Bruno acabou de mudar de roupa e foi até a sala. A mãe ja estava esperando ele com um copão gigante de Nescau e três waffles mais um pão francês com queijo, presunto e requeijão.

-Nossa! Queijo e presunto no café mãe? É meu aniversário?

-Come tudo pra ficar forte! – Disse Sandra.

Lentamente Bruno reuniu toda força de vontade que tinha no sangue para poder dar conta daquele monte de waffles com Nescau.

O pai de Bruno entrou pela sala enfiado num terno. Pediu para Sandra arrumar o nó da gravata.

-Nunca consigo acertar essa merda, fica sempre meio torto pra esquerda.

-Boa sorte, Gil. – Disse Sandra, após ajustar a gravata do marido.

-Onde é a entrevista, pai?

-Seu tio Alfredo que conseguiu pra mim. Na Avantx.

-Nunca ouvi falar. É banco?

-Não, parece que é uma empresa que faz sistema de controle de inteligência Artificial  para mísseis, eles trabalham para a Halliburton. Surgiu uma vaga para diretoria financeira lá!

-Boa sorte, pai! É hoje! Vai na fé! Tô sentindo que hoje vai!

-Obrigado filho. Beijos! – Disse Gil, fechando a porta atrás de si.

Bruno e Sandra se entreolharam em silencio. A mãe tinha uma expressão de quem acha que vai ver o mesmo filme se repetir.

-Ele tá tentando, mãe.

-Eu sei. Tá tentando, mas não está conseguindo.

-Tô pensando em arrumar um emprego, mãe.

-Esquece isso. O que você tem que fazer é acabar logo essa faculdade. Concentra na sua parte. – Ela disse, friamente.

-Mas as coisas não andam bem… Eu poderia ajudar.

Sandra o interrompeu:

-Não se preocupe, Bruno. Eu e seu pai vamos dar um jeito. O tio Carlito emprestou um dinheiro pro seu pai.  Vai dar pra segurar uns dois meses.

-Mas mãe…

-Já disse que não. Fica na sua. Você tá doente, filho. Tem que focar na recuperação. Saúde em primeiro lugar. A obrigação com as dívidas é nossa. E hoje eu vou la no síndico, vamos negociar em parcelas o atrasado. Eu e Marisa do sexto andar conversamos ontem. Ela queria uma parceira para um negócio de chocolates que ela montou em casa mesmo. Nem falei com seu pai ainda, mas eu ja topei. Vou ficar na produção. Ja tem até encomenda entrando.

-Sério? Maneiro, mãe!

-Por isso que eu estou dizendo. Você tem que viver sua juventude. Curta essa fase, que ela passa rápido, Bruno. E aquela menina?

-Não rolou.

-Não? Mas o que foi?

-A Bia ta ficando com um cara mais velho. Um baixinho da Engenharia…

-Então parte pra outra, Bruno. Toma, come o pão aqui que eu preparei, ó.

-Você acha que é fácil, né?

-Mas não são vocês que tem o lema de “a fila anda”?

-Eu não consigo tirar a Bia da cabeça, mãe.

-Ah, meu filho. Amor não correspondido é… Como vou dizer? Ah, dane-se! É uma merda mesmo!

-É foda.

-Olha a bocaaaaa!

-Foi mal, mãe.

-Você tem que se conscientizar que não pode fazer a Bia gostar de você, se ela não te quer, você vai achar uma que te queira, filho. Mas você só consegue ver uma estrela quando parar de olhar para o sol. Aí, talvez, ela até corra atrás de você.

-É, tudo bem, mãe.

-Onde você vai?

-Vou no shopping, procurar um presente pro cabecinha. Vou pegar a fantasia lá no Marquinhos depois.

-É aniversario do Gabriel hoje?

-É sim, hoje a noite é aquela festa que eu tinha falado.

-Ah.

-O Gui vai me pegar com o carro novo.

-O Corsa?

-Ele ta todo empolgado.

-Olha lá hein, Bruno? Não confio muito nele. Aquele menino tem um parafuso solto!  Vê se ele não vai beber. Não deixa. E falando nisso, olha, pega aqui os remédios.

-O Gui é gente boa, mãe. Ah, ontem eu encontrei com o vizinho. Ele tava no ônibus. Mandou um abraço. E perguntou porque vocês não tem ido no bingo do bloco C.

-Ah, com condomínio atrasado, quanto menos a gente sair de casa melhor, menos cara feia nos corredores. – Disse Sandra, tirando as coisas da mesa e levando para a cozinha.

-Tchau, mãe. – Disse Bruno com um aceno de mão.

-Vai com Deus, filho!

—-

Quando anoiteceu, Bruno estava tomando banho quando bateram na porta do quarto.

-Brunooo! – É o Guilherme! – Gritou Gil.

-Manda subir, pai!

-Tá bom.

Minutos depois, Enquanto Bruno se arrumava, Gui entrou no quarto dele. Usava boina preta, cigarrilha no canto da boca, trajava uma jaqueta militar puída, coturno e um pênis de plástico cor de rosa pendurado no pescoço.

-Hahahaha. Que figura! Isso aí é o que?

-Chê qué vara! – Ele disse, segurando aquele troço. – Tá servido?

-Nem vou perguntar onde você comprou essa merda aí! Eu vou de gari. Consegui um macacão emprestado, e vou levar uma vassoura da minha mãe.  – Bruno disse, enfiando a perna no macacão laranja.

-Sem graça pra caralho tua fantasia, hein Bruno? Cê devia ir de abelhinha como te sugeri.

-Essa vou guardar pro bloco das piranhas.

-Porra mal posso esperar pra ver do que o cabeção vai se vestir! – Disse Gui, sentando na cama de Bruno. – Você aposta em que? Buda? Jabba? Ei… Que porra é essa? Então essa é a caveira, né?

-Pois é.

-Meu, maneiro o lance, hein véio? Não esperava que fosse tão radical. Muito irado! Tirando esse olho, que tá ultra-aviadado!

-Pois é, mas sabe como é. Foi ela que pediu.

-Cara…. Tu ta mesmo levando essa merda a sério? Não acredito.

-Pô, sei lá, né? Sei que rolou aquele lance da prova lá… Daí, “vai que”, né?

-Já ouviu falar de coincidência, meu chapa?

-Tá, tudo bem, pode até ser… E é por isso que hoje eu vou tirar a prova dos nove!

-Hã? Como assim?

-Adivinha só o que eu pedi pro meu amigão caveirito?

-Ah… Não fode.

-Fodo sim!

-A Bia? Tu pediu pra caveira trazer a Bia de volta?

-Vamos ver do que o caveirito é capaz!

-Prevejo um gari quebrando a cara. Bom, que você já vai de vassoura e pode varrer os cacos do teu ego… Porque ela vai com o anão de bonsai! Nelson. O cara chama Nelson. Fala sério, quem da nossa geração chama Nelson cara?

-Deve ser CDF. Nelson é nome de CDF.

-Será novidade. A Bia só pega looser. Todo mundo sabe. Que? Que foi.

-Looser é teu cu.

-Falando no meu cu, a madame já acabou de se arrumar, pentear, perfumar e tudo mais?

-Já, Chê qué Vara… Tá perfeita a fantasia para o cara que até beija homem cabeludo na boca. Depois diz que tava bêbado. Esquecendo que o do bêbado não tem dono, hahahaha.

Gui mudou de expressão. Ficou sério. Então fez uma cara estranha chupando as bochechas e fazendo imitação do Clodovil estendeu aquela piroca de borracha na direção de Bruno.

-Porra, meu. Tu tem um prazer meio mórbido de ficar lembrando isso, né? Conta aqui pra lente da verdade, isso te excita, né?

-Bora. Vira essa porra pra lá!

Ao saírem do quarto, os dois deram de cara com dona Sandra.

-Cruzes, que isso? – Ela disse, arregalando os olhos para o consolo pendurado no pescoço de Gui.

-Boa noite tia. – Ele disse, todo envergonhado.

-Esse é o Chê qué vara!- Riu Bruno.

-Nossa que criativo… -Disse Sandra. – E você de gari tá ótimo, filho!

-Deixa eu ver! – Nossa é meu perfume que vai aí? – Perguntou seu Gil.

Bruno concordou com a cabeça.

-Tá bom, vai com tudo, filho. Aproveita. Manda meu abraço pro Gabriel Cabecinha. Nada de beber demais, hein? E olha lá as más companhias, hein? Cuida dele, hein Gui?

-Sim senhor. Trago inteiro.

-Rá! Ele cuidar de mim? Esse pirado? Tá bem de zoeira hein pai? E a entrevista?

-Acho que impressionei.

-Show, pai. Bom, vamos nessa! – Disse Bruno, abraçando os pais.

Ele e Gui pegaram o elevador.

Ao chegarem no térreo Bruno se impressionou. – Não… Não é possível!

Gui tirou a chave do carro do bolso lentamente, sorrindo feito James Bond. – Pode crer, chapa!

-Tá de zoeira que é aquele Maverick ali!

-Você acreditou mesmo que era um Corsa? Vamos chegar em grande estilo, maluco!

Eles entraram no Maverick ainda cheirando a gasolina.  – Uhuuuu! Partiu festão!

Minutos depois chegavam na casa de Gabriel Cabeção, no Joá. Era uma mansão. A entrada estava iluminada com refletores e tinha até dois seguranças na porta conferindo os nomes na lista. Em frente a garagem, um balcão com valets pegavam os carros para estacionar. De cara Bruno já viu a fila de carros desembarcando meninas com fantasias luxuosas na porta.

-O Cabeça joselitou, maluco! Tá dando pra ouvir a musica daqui. Tem até valet esse ano.

-Meu, ele mandou vir DJ de Londres, véio. Imagina o puta som monstro que devem ter montado no jardim!

-Porra, Gui,  rico é outra coisa, né?

-Ôôô… O Cabeça falou que esse ano o pai dele comprou uma cervejaria do sul! Mais uma!

-Gui, se liga só ali naquele carro, não para de sair mulher, véio! Só gata!

– Rapaz, nós vamos quebrar tudo! É hoje que eu me arrumo!

Após esperarem o engarrafamento de carros, o valet finalmente pegou o mavericão preto do Gui.

-Cuidado com minha carreta, hein chapa?

-Sim senhor. Disse o sujeito sem nem mesmo olhar na cara dele.

Os dois entraram, deram o nome na porta para o sujeito da lista. Logo de cara encontraram Gabriel, enfiado nbuma toga, vestido de imperador romano.

-Ave césar! – Berrou Gui se prostrando na frente dele.

-Hahahaha mas que marmota é essa, Gui?  – Perguntou o gordão.

-Chê qué vara!

-Hahahaha. Puta que o pariu, Gui! Você se supera, cara! Brunão! Que bom que você veio cara! – Gritou Gabriel, abraçando o gari.

-Parabéns amigão! – Disse Bruno, sendo esmagado pelos poderosos braços do amigo.

Cara aqui um presentinho, não repara…

-Ah, cara… Sua presença é meu presente! Depois daquele desmaio lá eu fiquei mega preocupado contigo, bicho. E aí? O que deu o exame?

Gui interrompeu: -Cara, não vamos falar nisso, né? Hoje é dia de festa! -Vamos comemorar que o Brunão tá aí com a gente firme e forte!

Cabeça fez uma cara estranha para Gui, mas tentou recuperar as aparências.

-É isso aí! Animação, Brunão! Ó, tem Dj gringo no salão de festas. Ali atrás na quadra de tênis vai rolar um show de rock, anos oitenta. Um paralamas, um Capital… Sabe como é. Aliás, já ta rolando lá. No segundo andar, é um lance mais seleto, um grupo de jazz do caralho que eu conheci. Uma da manhã eles entram.  O Open bar é ali perto da piscina. Chopp tem, mas sabe como é, só das marcas do meu pai. E lá perto das plantas eu instalei umas barracas de comida, tem crepe, tem churrasco, tem hamburguerias, pizza, tem o caralho a quatro.  Três e meia vai rolar o concurso da fantasia mais foda. Se quiser caipirinha, drinks, é spo pedir no balcãozinho aqui. Mas dica: Esse ta lotadaço, então sobe ali e vai no segundo andar que tem outro mais vazio. Se quiser um uisquinho me fala que eu tenho um Ardberg especial da diretoria, só pros chegados, belê?

-E pode botar um energético? – Perguntou Gui.

-Vai… como que você fala mesmo, Gui?

-Tománocusifudê! – Disse Bruno.

-Isso! Tá maluco botar porra de boi no meu uisque de dez anos?Gente, fiquem à vontade aí. A casa é de vocês. Qualquer problema só me dar um toque.

Bruno e Gui entraram festa adentro, percebendo a fila de gente esperando para cumprimentar Cabeça na entrada do jardim.

-Cara, não consigo me conformar com a imensidão desse palácio!  – Disse Bruno, pegando uma tulipa de chopp da bandeja do garçom.

-A nós! – Gui puxou o Brinde.

-Saúde!

Após uma grande golada, Gui completou: -Sempre que você vem aqui, você fala isso. Meu, olha só aquela diabinha…. Puts, meu, acho que o Cabeça contratou agência de modelos! Só pode.

Eram centenas de mulheres maravilhosas em toda sorte imaginável de vestido curto e provocante andando de um lado pra outro da mansão.

-Tô me sentido na festa da Mansão Playboy, Gui.

-Olha aquela galera em frente ao palco! Vamos lá?

-Vamos lá no salão primeiro ver o que tá rolando, depois a gente vai ver o show.  -Sugeriu Bruno.

Assim que eles chegaram no salão, Bruno estancou.

-Puts. Agora fodeu. -Gemeu Gui, mas sua frase foi engolfada pelo som ritmado das batidas da musica.

Diante deles estava Bia, vestida de princesa, linda. Os cabelos cuidadosamente trabalhados em cachos, e um vestido enorme, antigo, parecia saído direto de um conto de fadas. Ela parecia radiante. Mas estava beijando o tal Nelson.

Gui olhou para Bruno. O amigo não estava preparado para a cena que viu logo de cara na festa.

Os dois estavam saindo da pista de dança que fervia, e Bia passou e parou bem diante de Bruno. Foi como uma colisão de placas tectônicas. Nenhum dos dois disse nada, mas os olhares se encontraram com uma força aniquilante.

-Oi Bruno. – Ela disse.

Bruno não falou nada. Apenas ergueu discretamente o copo de chopp, e baixou levemente a cabeça, numa saudação silenciosa. Os olhos travados no Nelson galalau, que de cara não parecia fazer nenhuma questão de ser cumprimentado por ele.

-Nelson, esse é o Bruno, aquele que eu te falei…  – Disse Bia, tentando apresentar o estudante de Engenharia baixote ao Bruno.

Meio a contra gosto, talvez por pura educação, Nelson estendeu a mão para cumoprimentar Bruno.

Gui viu estupefato, quase em câmera lenta,  que em vez de apertar a mão do sujeito, Bruno cerrou o punho…

 

CONTINUA

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5 comentários em “O Crânio – Parte 4”

  1. Conto tá ótimo. Acabei de perceber que, tirando o linfoma, eu sou o Bruno na vida, e a amizade dele com o Guilherme é praticamente igual a minha amizade com o meu melhor amigo, o que diferencia é que o tanto eu quanto o meu melhor amigo somos dois fudidos na vida.

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