O correspondente – Parte 1

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Tudo que vou contar aqui é a mais completa expressão da verdade. Ou talvez não.

Não sei…

Estou a uns meses estudando o diário do Daniel e até hoje não consegui formar uma clara deia do que realmente aconteceu com ele. Não apenas porque o diário do Daniel é uma confusão meio sem pé nem cabeça, porque ele próprio sempre foi um cara bastante confuso, mas também porque muita coisa do que poderia explicar aquela série de eventos que ocorreram com ele num curto período de dois meses foi deliberadamente removida do diário e escondida em lugares insuspeitos.

Como muitas pessoas que tiveram acesso aos prontuários, eu comecei meu mergulho na personalidade complexa de Daniel pensando que ele começou a sofrer delírios e alucinações.

É estranho como certas pessoas reagem ao stress. E aquele momento específico da vida dele era extremamente estressante. Daniel trabalhava em meio período numa locadora de video, e à noite, alugava um táxi de uma vizinha, com o qual defendia uns trocados nas portas das baladas mais concorridas da cidade. Logo, é perfeitamente compreensível supor que Daniel dormisse pouco, e como todos nós aqui sabemos, a privação do sono é um dos elementos fenomenológicos que podem desencadear surtos. O estudo detalhado dos manuscritos não permite prever exatamente se Daniel era usuário de drogas. Não dá indicativo de consumo alcoólico nem mesmo apresenta qualquer indício de consumo de tabaco, maconha ou qualquer outra droga correntemente disseminada nas grandes cidades.

O que eu posso dizer acerca do que se passou com Daniel é um recorte preto e branco e fragmentado que levei alguns anos para conseguir montar. Pequenas peças colhidas com amigos, parentes, páginas ocultas no motor do carro, escondidas sob o assoalho, páginas codificadas em intrincados padrões matemáticos escondidas dentro de livros… Mas faltava muita coisa para dar uma certeza do que realmente se passou.

Com o desaparecimento dele, tudo ficou ainda mais complicado. A polícia se meteu, o suposto local do crime foi repetidamente escrutinado sem as necessárias revelações. Mas ainda assim, eu estava obcecado em formar uma ideia básica do que ocorreu, porque fui um dos poucos que conversou com ele antes do desaparecimento. Testemunhei seu medo, seu nervosismo. Sua desesperada necessidade de mostrar que não estava louco.

Só anteontem, quando no meio da madrugada recebi o telefonema de uma mulher que não se identificou,  mas que sabia meu nome, as coisas fizeram um sentido surreal. Como um prisma que decodifica a luz do sol em uma miríade de tons, aquela ligação me deu um novo ponto de vista sobre o desaparecimento de Daniel.

Ela era rouca, mas pela voz, tratava-se de uma mulher ainda jovem. A ligação foi estranha, porque ela não me disse seu nome, nem deu detalhes suficientes para que eu pudesse seguir aquela pista. Mas como ela começou do final, dizendo que Daniel estava morto, e o misterioso porquê de sua morte, eu ouvi atentamente, fazendo rápidas anotações esquemáticas no bloquinho de telefones.

Peço desculpas por me alongar tanto antes de começar a expor o misterioso caso do desaparecimento de Daniel. Mas acredito ser fundamental que esta comissão de inquérito entenda que o que trataremos aqui, caso seja um fato real, expõe um grande risco ao mundo.

 

Após tecer seus breves comentários, o professor Andreas Jacob iniciou a projeção dos slides.

-Este é Daniel. 32 anos. Divorciado.

Bem, divorciado talvez seja uma palavra inapropriada para o que de fato aconteceu. Sua mulher o traiu… Com o cachorro. – Ele disse, pigarreando, meio sem graça.

Houve um sussurro na plateia e uma certa consternação. Andreas Jacob pareceu não se intimidar e detalhou:

-Segundo os elementos que surgiram no diário, ao qual Daniel era muito apegado, ele entrou em casa voltando do trabalho mais cedo e ao ouvir um som estranho vindo do quarto, suspeitou que havia alguém na casa.

Daniel então invadiu o cômodo do apartamento e se deparou com uma cena grotesca, onde sua esposa Anna praticava uma cena de sexo com Duke, seu cão da raça Waimaranner. – Disse Jacob, mostrando um slide com a foto de Duke.

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A plateia começou a se dividir entre os que riam e os que estavam visivelmente embaraçados ante a sugestão de uma traição envolvendo zoofilia. Após beber um gole de água, o doutor Jacob retomou o ponto:

-A junta psiquiátrica que examinou o caso estabeleceu este como o ponto traumático em que Daniel rompeu pela primeira vez o laço com a realidade.

De fato, ele sofreu um grande choque ao entrar no quarto e se deparar com a esposa de quatro na cama, encaixada no seu cão de estimação. Ela ainda tentou se justificar, e conforme Daniel relatou no diário, a abre aspas, vagabunda… Disse que a culpa dela trepar com o Duke era minha, porque eu era uma merda na cama e não a satisfazia… Fecha aspas.

Daniel perdeu a cabeça e agrediu a esposa adúltera e zoófila, que numa suposta tentativa de se defender, o atingiu com a base do abajour do criado mudo, acertando-o na cabeça. Ele ficou desacordado por algumas horas, e relata que acordou assustado, em meio a uma poça de sangue no tapete. Ao se levantar, não sabia onde estava. Não reconhecia as coisas e quado se olhou no espelho, sua imagem não parecia corresponder com a pessoa que ele achava que era. Estava muito sujo de sangue, que ainda minava do corte na testa.

Enquanto se limpava na pia do banheiro, começou a lentamente se lembrar das coisas e de tudo que havia acontecido.  Ele não achou a mulher na casa e nem mesmo o cão. Concluiu o óbvio: Havia sido abandonado pela esposa, que levara consigo o cão de estimação ao qual ambos tratavam como um filho.

Daniel fez um curativo precário e saiu de casa. Andou pelas ruas sem destino, sem saber o que faria. Estava transtornado. Ainda em choque. E numa sensação de zonzeira permanente.

Quando deu nove horas, ele cumpriu sua rotina. Pegou o taxi e percorreu a cidade, em busca de passageiros.

Tentou pegar passageiros na porta do shopping, mas estava lotado, porque era perto do dia das mães, e havia muitos taxistas naquela área. Assim, ele rumou para a zona oeste, onde parou na porta de uma boate, mas ainda faltava muito tempo para a hora da saída. Isso deu a ele a oportunidade de escrever em detalhes todo seu sofrimento de descobrir que sua esposa o traía com o cachorro.

Ele  fez tudo que podia para fazer a hora passar. Tentou ler um livro, de espionagem, que enrolava para terminar fazia meses. Mas não conseguia se concentrar. A cada momento, a imagem da mulher de quatro encaixada no Waimaranner, voltava para assombrá-lo.

Daniel ligou o radio, em busca de musica, notícias, piadas, telefonemas… Ouviu uma reportagem especial sobre pessoas desaparecidas. Isso a princípio parecia apenas um detalhe corriqueiro nas anotações de Daniel, mas gradualmente este foi um dado que se revelou parte do que a junta classificou como “a base mítica do delírio”.

Quando foi quinze para as duas, Daniel pegou seus primeiros passageiros. Um casal. O cara estava visivelmente bêbado, e a mulher estava dando um ataque de ciúmes. O taxista narra que a mulher bateu boca praticamente sozinha durante todo o percurso, já que o bêbado apenas olhava pela janela em silêncio.

Ele deixou o casal num bairro próximo e retornou à boate, onde entrou no fim da fila e só foi pegar o segundo passageiro as três e meia da manhã. Esta foi uma corrida que valeu a pena, já que foi até uma cidade vizinha, levando dois casais. No meio do caminho, Daniel conta no diário que os casais começaram uma tremenda sessão de bolinação múltipla no banco de trás. Ante a cena mal iluminada, Daniel jurou ter visto as duas mulheres se beijando. Os casais chegaram a entrada de um prédio e não pediram troco, pagando com uma nota alta. Daniel ficou assistindo as mulheres se agarrando na frente dos maridos, enquanto entravam no prédio. Ele partiu com o taxi pensando sobre a situação que iria ocorrer naquele apartamento. Lembrou-se de sua mulher. Talvez, se ele tivesse sido um cara mais liberal na relação, ela não o tivesse traído com o cachorro.

Até ali, a madrugada transcorria como uma noite normal de quinta-feira, mas entretanto, o passageiro que fez a diferença surgiu quando Daniel voltava para a fila de taxis na saída da boate. UM cara veio correndo e fez sinal para o taxi. Daniel não ia parar, mas o sujeito praticamente se jogou no meio da pista.

Ele parou e o cara entrou como uma bala no banco da frente. Daniel odiava que os passageiros se sentassem ali ao seu lado. Mas não teve jeito. O cara sentou e desatou a falar.

Ele ia para um lugar meio longe. Era um lugar meio ermo, deveras perigoso. Mas o coroa sacou um bolo de dinheiro que faria Daniel levá-lo, nas palavras dele, ” até o inferno”.

O passageiro era um coroa de uns quarenta anos. Com a barba por fazer, óculos fundo de garrafa e uma vasta cabeleira branca. Ele parecia muito nervoso. Suava frio e olhava pelo retrovisor para ver se não estava sendo seguido. Daniel achou aquilo estranho e questionou o homem se estava tudo bem. O sujeito se identificou como um corretor, que estava sendo perseguido por homens estranhos que queriam pegá-lo.

Neste ponto, não sabemos se o terceiro passageiro já é uma alucinação ou se foi uma pessoa real. A descrição detalhada do passageiro era bastante rica, ao ponto de confundir a junta e a mim sobre o que seria real e o que seria delírio. Sabemos apenas que o homem que Daniel pegou contou a ele que vinha sendo perseguido, grampeado e estudado à distância por homens de terno. Esses homens a princípio apenas olhavam pra ele, seguindo seus passos. O corretor fez uma suposição de que seriam homens do governo, mas ele nunca teve prova alguma disso. Um dia, ele resolveu interceptar um dos homens. Confrontou-o num shopping, dizendo que iria denunciar o caso à polícia. A ação se revelou um tiro pela culatra. Os homens não pararam de persegui-lo mas tornaram-se visivelmente agressivos. Dali em diante, aquelas figuras passaram a persegui-lo dia e noite. O corretor temia que os homens misteriosos tentassem matá-lo.

Ele apenas não sabia o porquê, já que não tinha inimigos, e não conseguia encontrar uma razão para aquele estranho assédio.

Quando o taxi chegou no ponto combinado, o sujeito agradeceu e pediu desculpas pela “encheção”. Pagou um extra ao Daniel pela atenção e correu disparado para um beco, sumindo na escuridão. Daniel achou que era só mais um maluco, e ficou contando o dinheiro. Ele já saía com o carro quando notou, ao longe, cerca de uns duzentos metros atrás, um carro vindo devagarzinho, todo apagado. Daniel acelerou o taxi e virou numa esquina. Subiu numa calçada, desligou o carro e apagou os faróis.

Ele ficou ali, parado, a espreita do tal carro. Então resolveu sair e se esconder atrás de uma caçamba-lixeira a uns vinte metros, do outro lado da rua. Seria verdade que o coroa vinha sendo perseguido?

Alguns minutos depois, um carro preto de faróis apagados virou a esquina. Daniel estava abaixado atrás da lixeira e viu quando o carro parou perto do taxi. Do carro, desceu um homem de paletó. Ele foi até o taxi com uma arma na mão. Olhou, olhou, deu a volta no carro. Daniel estava assustado. Sentia que o coração ia sair pela boca. O homem colocou a mão no capô. Daniel Sabia que o homem fazia aquilo para saber se o carro era o taxo dele. O carro estava quente, como era óbvio. E talvez por isso o sujeito tenha começado a vasculhar a área ao redor, em busca dele.

O homem olhou para o outro, que estava ao voltante e fez um sinal negativo com a cabeça.  O cara do carro disse alguma coisa, mas o som saiu abafado e Daniel não conseguiu entender.

O sujeito armado do paletó veio pela rua, e usando uma lanterna de bolso começou a iluminar os nichos e portões das fábricas e depósitos. O sujeito veio lentamente na direção dele.

Daniel estava prestes a sair correndo em desespero quando atrás do carro preto passou o talo corretor correndo feito uma bala. Atravessou a rua correndo e entrou numa viela escura. O homem de paletó levou um susto e correu atrás, afastando-se da caçamba de lixo.

O carro preto continuou ali. Daniel também. Estava ofegante. Sua garganta ardia. Era a adrenalina.

Minutos depois, Daniel ouviu dois estampidos secos.

-É tiro! – Pensou.

O outro cara desceu do carro e correu para o beco. Daniel agora não sabia se saía de trás da lixeira ou não. Resolveu esperar para ver no que ia dar.

Levou quase uns cinco minutos até que os dois homens de paletó viessem correndo pelo beco, carregando o corpo coroa, o passageiro dele, de bacalhau. Abriram o porta-malas do carro e jogaram o corpo lá. Deram uma geral no ambiente, olhando coma as lanternas para todos os lados. Por sorte, aquela era uma região industrial da cidade, perto do cais do porto, e ninguém apareceu para ver o que acontecia. Se tivesse ocorrido algo assim, esse certamente teria morrido.

Os homens entraram no carro, limpando as mãos num farrapo de estopa. Saíram a toda velocidade.

O taxista se esgueirou atrás da lixeira quando o carro passou por ele. Daniel viu no reflexo da lua, o sujeito dentro do carro. Ele diz que teve a sensação de ter sido visto. O carro dos homens fez uma menção de parar, mas o som de uma sirene ao longe os dissuadiu. Certamente algum vigia de armazém havia escutado os tiros e chamou os policiais. O carro acelerou e dobrou a esquina.

Daniel correu ofegante para o táxi. Estava nervoso. Tinha vontade de vomitar. Seu corte na testa doía. Tudo rodava.

Ele saiu com o carro antes da polícia chegar. Voltou para a fila da boate. Já estava tarde. Era fim de noite e havia poucos taxis na fila.

Os passageiros subsequentes eram o de sempre moleques bem nascidos, bêbados como gambás, falando alto, cantando e eventualmente querendo vomitar.

Após deixar o último deles, Daniel retornou para casa. O dia já começava a querer raiar. Ele teria que pegar as oito em ponto na locadora. Isso daria apenas umas três horas de sono, na melhor das hipóteses.

Mas naquela noite, Daniel não dormiu. A imagem dos homens carregando o cadáver, a sensação de ter sido descoberto pelos assassinos. O medo do coroa… Aquilo não lhe saiu da cabeça, de modo que ele simplesmente não dormiu.

Tomou um café na padaria. Foi para a locadora. Abriu a porta e sentou no banquinho, esperando poder tirar um cochilo no balcão até que o primeiro cliente pentelho surgisse, com sorte, lá pelas duas da tarde.

Mas enquanto tentava sem sucesso cochilar no balcão, ouviu a sineta que anunciava a entrada de um sócio.

Quando Daniel levantou os olhos, mal pôde acredidar no que via:

Era o homem do paletó. Ele entrou na locadora e agora estava vindo, com uma cara de poucos amigos sob aqueles antiquados óculos escuros tipo Ray Ban, na direção dele.

(continua)

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6 comentários em “O correspondente – Parte 1”

  1. Bem ao estilo Lovecraft, de começar pelo final, dar uma geral e acabar o prelúdio com um “caso seja um fato real, expõe um grande risco ao mundo”… vide o conto “O depoimento de Randolph Carter”. Preciso colocar meus 3 contos no blog qualquer dia desses hehe

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