O cartão negro – parte 5

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Paulo e Clóvis voltaram para a empresa. No percurso que levou do local do acidente até a companhia, os dois não trocaram uma única palavra, mas o cérebro deles estava a mil.

Quando Paulo e o amigo chegaram na empresa, o expediente já estava terminando. Assim que entraram no setor, a recepcionista os olhou com uma cara estranha.

-Que foi? – Questionou Clóvis. A mulher não disse nada. Apenas contraiu a boca de um jeito bizarro e apontou para a baia dele.

Paulo foi andando na frente. Logo atrás, vinha Clóvis. Ao chegarem nas baias, viram que Cardoso estava na porta, tal qual um leão de chácara. Os braços cruzados. A tradicional cara de poucos amigos. O olhar traiçoeiro de sempre.

-Onde vocês estavam?

-Bom, doutor Cardoso… Sabe o que é? – Começou a se explicar Malucão.

-Não. Não precisa começar com desculpa esfarrapada não. Estou de saco cheio de vocês. Sair no meio do expediente, sem avisar, nem pedir. Que porra é essa? Vocês tão pensando o que?

Paulo e Clóvis baixaram a cabeça como crianças que levam bronca. Paulo ainda olhou ao redor. Todas as pessoas do setor agiam como escravos quando o feitor resolvia chicotear algum infeliz. Todo mundo fingia trabalhar sem perceber a cena. Cardoso era do tipo sádico, que dava a esculhambação em público sempre que podia. Isso dava a ele uma inebriante sensação de poder.

-Essa foi a última vez que os dois aprontaram. Chega. Estão demitidos.

-Mas doutor Cardoso, é que… -Tentou argumentar Clóvis.

-Não tem mas nem meio mas. Está resolvido. Os dois estão na Rua. R-U-A, rua!

-…A culpa foi minha, chefe. O Paulo não tem nada a ver com isso… – Clóvis continuava tentando argumentar.

-Foooodam-se! Eu tô demitindo os dois. Tá surdo ô ruivo?-Berrou Cardoso socando a parede da baia.

Paulo apoiou o braço no ombro do amigo.

-Bora, cara. Não adianta falar nada.

Os dois viraram as costas e começaram a juntar as coisas.

-Amanhã podem passar no departamento de pessoal. -Disse o chefe, indo para a sala dele.

Os dois saem do predio e pegam um taxi.

-Cara posso ir pra tua casa?

-Claro véi.

-É que vai ser foda falar pro meu velho que eu fui demitido. Vai começar o interrogatório. É foda, viu?

-Tá safo, cara. Vamos, bota tua caixa aqui no porta-malas.

Durante o percurso, Malucão foi atrás, escrevendo coisas num bloco de papel. Paulo evitou fazer perguntas. O amigo estava visivelmente chateado com a situação. Sentia-se culpado pela demissão do melhor amigo.

Horas depois, os dois estão na casa de Paulo. Eles comentam o súbito ataque de pelanca de Cardoso.

-É muito babaca mesmo…

-Pô cara. Foi mal. A culpa foi minha. Eu que te carreguei pra rua na hora do serviço, meu.

-Ah, véio. Esquece. Você me fez um bem me tirando daquele ambiente, cara. Não tem salário que pague a convivência com aquela ameba gigante.

-Isso é… Mas teremos que correr atrás do nosso. Vamos precisar procurar emprego já.

-A gente dá um jeito. Fica frio, Malucão.

Malucão levanta e vai até a geladeira do amigo.

-Tem cerveja aqui, Paulo?

-Tem, acho que tem umas garrafinhas aí na porta, em baixo. Se não tiver, tá no engradadinho ali no gavetão. – Paulo gritou da sala.

-Ah. Tô ligado.

Malucão volta com as cervejas para a sala.

-Porra, sofazão maneiro hein Paulo? Dá pra fazer até sexo grupal nesse sofá. Eu tava pensando em te pedir o apê emprestado para finalizar um pessoal aí… Agora que eu vou pedir mesmo.

-Ah, cara. Deixa de bobeira. Tu não pega ninguém, meu. Tu nunca para com mulher nenhuma, véio.

-Cara, o lance é que eu tenho três mulheres. Eu não namoro nenhuma, mas tem um lance estranho com as três.

-Como assim, Malucão?

-Tipo, cada uma tem uma coisa que eu gosto, meu. Aí não dá pra me decidir, tá ligado? Tipo, uma tem a bunda que eu gosto, a outra os peitos que eu sempre sonhei e tem uma que é a mais velha, que eu sempre quis ter pra conversar… E tem também a faxineira da minha madrinha que…

-Ah, tá bom, tá bom. Entendi.Você é o fodão, o pegador. E eu sou o amigo zé mané.

-Cara mulher é como uma equação matemática. Cada mulher tem um vetor, saca. O esquema é você ajustar seu algorítimo para encaixar naquele vetor…

-Pô, cara. Você tem sempre uma teoria maluca pra tudo. Então vamos falar de coisas mais importantes, né? E o acidente? Como você me explica o acidente?

-Pois é. O acidente dos dois, né? Muito bizarro aquilo. Bom, de cara podemos dizer que a morte deles causa um problema numa das teorias. Ao mesmo tempo que reforça outra.  Lembra daquela minha teoria onde o nome não está no site e sim no seu cérebro?

-Hã, e daí? O que tem?

-Pois é. Então, cara. Vamos imaginar o universo. Tudo que nós conhecemos é feito de átomos, certo?

-Certo.

-E todos os átomos são feitos de pequenas partículas, certo?

-Certo.

-Pois é. Mas não é só isso. Eu tenho um livro que diz que o universo e todas as coisas que existem nele são produtos de ondas vibracionais. Nesse aspecto, os átomos não existem até que alguém queira olhar pra eles.

-Cara essa cerveja deve estar estragada, hein?

-Não, Paulo. Se liga, cara. Tô falando sério. Tô te dando a real mesmo. Se você arranjasse uma lente de aumento poderosa o suficiente para olhar os seus átomos, perceberia que eles estão muito longe uns dos outros. Há mais espaço vazio em você do que espaço ocupado, cara. E não é só em você. É em mim, nesta mesa, no seu sofá novo e em tudo mais.

-Hummm. Vai, prossiga.

-…Daí que a pergunta é: O que faz com que estes átomos aí sejam você e não uma outra coisa qualquer? Outra pessoa?

-…Nunca tinha pensado nisso, Malucão.Você realmente não tem nada de Clóvis. Mas de Malucão…

-Por isso me chamavam de Malucão lá no Cursinho. Eu sempre pensei nisso. Agora escute, o que faz você ser você é algum tipo de conjuntura cósmica ainda desconhecida. Há teorias sobre isso, mas nada concreto. Lembra de Matrix? Quando o Keanu Reeves tenta dobrar a colher?

-Ele não consegue.

-Ele não consegue, mas o menino consegue, lembra? O menino diz pra ele que o importante é saber que a colher não existe.

-Pode crer… Nem me lembrava disso.

-Esta é uma sabedoria ancestral, cumpadi. O que o menino disse não se aplica só a colher, cara. Se aplica a tudo. Inclusive você e eu. A gente pode não existir como pensamos que existimos. E é justamente o fato de acreditarmos nisso que nos faz existir…

-Agora você forçou, meu velho. Esse papo tá muito new age. Daqui a pouco você vai sacar um maconhão aí e tocar “stairway to heaven” no violão.

Malucão apenas sorriu. E continuou como se não tivesse escutado a piadinha do amigo.

– …E se o que nós chamamos de realidade for apenas uma tendência de fatos?

-Como assim?

-O que nós pensamos que é o “Aqui agora” é na verdade a nossa consciência viajando na velocidade da luz, através de múltiplos universos paralelos infinitos, que se estendem pela eternidade. Se isso estiver certo, existem infinitas versões suas e minhas. E é possível que nós até já estejamos mortos em algum universo paralelo.

-Mas nós estamos vivos, cara.

-Vivos neste. Mas em outro podemos ter morrido, ou mesmo, nem existir.

-Mas e daí?

-Daí que eu penso que de uma certa maneira, a nossa mente é a construtora disso que fomos educados para pensar que é a realidade. Se nós mudarmos nosso pensamento, o universo todo muda.

-Não sei como te dizer sem te magoar que você pirou…

-Cara, tem um ditado que diz: “Não há esperança para teorias que à primeira vista não pareçam malucas”. Pense, Paulo. Pense! O universo é feito de átomos. Mas o que são átomos? Coisas que não podemos ver. Coisas que não tem contornos definidos. Que ora se comportam como partícula, ora se comportam como ondas… E quando se comportam como partículas, não se comportam como ondas e vice-versa. Parece maluco, não? Mas é algo comprovado, reconhecido cientificamente. Meu amigo, o universo é complexo. A verdade é que em se tratando da Física que explica o cosmos, se não parecer maluco, é porque provavelmente está errado.

-Eu só queria saber onde que este monte de átomo vai se ligar ao fato de haver um site que mostra as pessoas que vão morrer.

-Simples. Hoje nós fomos atrás de duas pessoas às quais que você viu no site os nomes. Você viu. Eu não vi. Eu apenas acreditei que elas iam morrer. Nós fomos atrás imaginando que veríamos as pessoas mortas. Nós perseguimos aquele carro pensando que as pessoas já estavam mortas. Nós e o nosso pensamento podemos ter causado a morte daquelas pessoas. Entende? Nós começamos a matar os dois, sejam eles um casal ou não, quando você viu os nomes no site.  Agora, se o  que chamamos de “realidade” é uma pequena versão de infinitas possibilidades, nós apenas forçamos com que o nosso “aqui, agora” seguisse pela trilha de possibilidades onde o casal morria. E é isso que explica a cura pela fé.

Paulo parecia compenetrado tentando entender a teoria do amigo. Clóvis continuou:

– O que eu estou dizendo é que há uma medida de probabilidade para qualquer coisa. Para que um evento ocorra é necessário que uma coisa chamada onda quântica, que está na nossa mente e também fora dela, se mova mais depressa que a luz e esta onda é o que conecta a nossa mente com o que chamamos de realidade. Esta onda permite que a consciência viaje através do passado e do futuro, cara. Não espero que você entenda isso que eu estou contando em detalhes, pois leva tempo para absorver tudo. Mas o que eu preciso dizer é: A onda quântica pode ser a explicação para o fato de você captar, tal qual uma antena, o que acontece em outros universos paralelos, pois ela está presente em todas as infinitas possibilidades de universos.

-Mas por que eu, cara?

-Por que você? Isso eu não sei. Mas o que eu acho é que ao abrir o site e desejar muito, você estabelece um contato com algo fora da nossa realidade limitada e ao fazer isso você empurra a passagem da onda quântica para aquele universo, onde a possibilidade de fato ocorre.

-Puta que pariu. Acho que…

-Entendeu?

-Não. Acho que preciso de outra cerveja. -Disse Paulo, indo até a cozinha pegar mais cerveja.

-Ah, véio. Eu tô falando sério, cara. Você não queria uma conversa séria?

-Foi mal, cara. Foi só pra descontrair. Mas você acredita mesmo nessa coisa de onda quântica?

-Cara eu e muito mais gente. Tem um cara chamado Eugene Wigner que disse que a mente pode afetar a onda quântica.

-Ah, meu. Mas o que interessa as idéias dos seus amigos do motocross?

-Cara, Eugene Wigner foi o ganhador do prêmio Nobel de Física. Não é qualquer um não, meu chapa.

-Hummm. Tudo bem. Mas essa de universo paralelo eu não engulo, Malucão.

-Pensa no seguinte, a teoria do universo paralelo é assim. Imagine que você pega esta moeda. se eu jogar ela pra cima,  e deixar cair, ela vai cair de um lado ou de outro, né?

-Lógico.

-Pois é. A teoria dos universos paralelos de Everett diz que a moeda realmente cai de um lado num universo, cai de outro lado num outro universo. E em ambos universos você está lá, olhando para a moeda que caiu. Agora vamos misturar isso com a coisa do site preto: É basicamente isso. Em cada um dos infinitos universos você está de frente para a tela e verá um nome. Mas qual nome irá aparecer? Há num porrilhão de universos a possibilidade de um nome determinado surgir. Igualmente, existem outros nomes que podem surgir. Mas o você no aqui-agora vai conectar uma espécie de “ponte” com algum universo entre as infinitas possibilidades e esta conexão vai trazer à tela um determinado nome.

-Como o nome vem parar na tela?

-Porque as pessoas que vão morrer são gente, possuem uma consciência que também está viajando mais rápido que a luz, na mesma onda quântica que você e eu estamos. A mente da pessoa que vai morrer, que vai desencarnar, está – querendo ou não, ligada com as outras, incluindo a sua. Não sei explicar o porque de acontecer com você; mas o fato é que a sua consciência antecipa ou define arbitrariamente o universo em que a probabilidade ocorre, e o aqui-agora instantaneamente se torna o universo em que estamos. Assim, o cara não morreu de verdade. Ninguém morreu. Fomos nós, nossa onda quântica é que migrou para aquele caminho, para aquela possibilidade. Tal qual um carro que pega um desvio numa estrada. Em outros universos, essas pessoas estão vivendo suas vidas normalmente. E nem sabe que existimos.

-Nossa cara. Nunca tinha pensado nisso… Acho que você acaba e explicar o mistério da série Lost, hein?

Clovis apenas sorriu e deu uma golada na cerveja. Depois pensou um pouco e completou:

-Talvez nós sejamos como a colher. Talvez nós nem sequer existimos. Podemos ser fruto da construção mental de alguém.

-Deus?

-Talvez. Quem sabe somos o produto de um sonho ou delírio de uma entidade atemporal, adormecida na escuridão do cosmos.

-Tá, mas você falou que tinha uma outra possibilidade. Como nós causamos, querendo ou não, a morte do casal, eu suponho que isso anule a hipótese do assassino psicopata de métodos discretos.

-Hum… Não anula não. Imagina que alguém que esteja nos vigiando perceba que estamos indo para a casa da pessoa. Bastaria que este sujeito estivesse ameaçando as pessoas há algum tempo. E se ele estivesse fazendo isso antes mesmo de colocar o nome no site para que você visse? Se ele estivesse te vigiando, saberia que estávamos indo pra lá. Ele poderia ter feito alguma ameaça. Assim, quando as pessoas viram a gente vindo na moto a toda pra cima deles, devem ter se desesperado e o resultado foi fatal.

-Mas como o cara saberia que ia dar nisso, meu? Você viu o acidente, o caminhão pegou eles porque furaram o sinal. E se eles tivessem parado como todo mundo faz?

-Mas quem te garante que não havia uma bomba no carro para ser detonada nessa possibilidade?

-Será? – Paulo ficou pensativo.

-Pode ser. -Respondeu Malucão, ligando o computador.

Minutos depois, os dois estão de frente para a famigerada tela preta.

Ambos dão reload no site misterioso continuamente. Mas a tela continua preta.

-Porra de tela preta…

-Pois é. Um saco isso. Aposto que se você sair de perto vai aparecer mais um nome.

-Cara isso me deu uma ideia. E se a gente não olhar mais o site? Será que as pessoas continuarão a morrer?

-Será que uma árvore faz barulho quando não há ninguém na floresta para escutar ela cair? -Riu Paulo. – Eu acho que sim. É provável que as pessoas continuem a morrer normalmente.

-Eu tenho outra teoria.

-Fala cara.

-Cara você não vai rir?

-Não, cara.

-Promete?

-Porra, meu. Eu não ri da sua onda quântica nem dos universos paralelos, véi.

-E se o cartão que você achou fosse mesmo o cartão da morte?

Paulo desata a rir.

-Porra, você falou que não ia rir!

-Ok, ok. Mas você há de convir que essa é a pior teoria de todas. Até a da mulher-vetor é melhor. – Paulo pega o telefone e liga pra pizzaria. Aproveita para pedir o cartão. Enquanto espera o atendente, Clóvis continua.

-Não, não, cara. Escuta. Vamos entender uma coisa: Você estava no cemitério, certo?

-Certo.

-Aí achou o cartão com o endereço. O nome era Azrael.

-Calmaí só um minuto.

O atendente finaliza o pedido da entrega da pizza.

Paulo desliga o telefone  e faz sinal para o amigo prosseguir. Malucão desenvolve uma estranha teoria de que talvez o cartão seja da morte. E o site esteja ligado a ela de alguma forma.

Cara Azrael é o nome de um anjo da morte, como eu te disse. Tenho lido sobre o assunto, cara. É uma crença antiga, de antes de Cristo, Paulo.

-Ok. Vamos supor que seja mesmo o cartão da morte. Mas qual seria o sentido da morte ter um site?

-Hummm. Nessa você me pegou! Eu também não saberia dizer porque a morte usa um cartão, já que em teoria, todos que ela encontra morrem.  -Disse Clóvis sorrindo. – Mas se não é da morte, é de alguém. Então quem?

-Não sei.

-Poderia ser algum tipo de piada divina. Se for, devem estar rindo da gente em algum lugar.

Paulo não pode acreditar, mas também não consegue explicar aquilo.

Eles continuam prostrados na frente do site preto até que a pizza chega.

Os dois amigos se empanturram de pizza com cerveja té ficarem completamente bêbados. Brindam a própria demissão, blasfemam, confabulam, contam piadas e xingam o chefe.

Horas depois, Malucão está emborcado no sofá, dormindo bêbado.

Paulo está dormindo também. Surgem os flashes. A mãe dele no caixão falando coisas desconexas. O homem de terno preto. As pessoas sem os olhos. Ele acorda com um grito.

Malucão se assusta.

-Puta que pariu. Quer me matar me da um tiro, mas susto não, Paulo! Odeio levar susto, porra.

-Foi mal, cara. Eu tive um pesadelo. Uma porra de um pesadelo que vem me perseguindo desde…

-Desde? – Pergunta Malucão.

-Desde que achei o maldito cartão preto.

Os dois ficam sérios. Entreolham-se. Paulo percebe que Malucão está pensando em diversas coisas.

-Fala.

-Nada, é que… Talvez esteja ligado, não?

-Você acha?

-Pode ser. Me conta o sonho.

-Bom, estou numa rua, uma avenida. É um lugar desconhecido. O céu é vermelho. Tem muitas pessoas em volta, andando como bonecos. Mas eles não tem olhos.

-Como assim?

-São buracos, buracos no meio da cara. É tipo assim, como se roubassem os olhos das pessoas, mas mesmo assim elas vão andando… Vão seguindo. E aí aparece a minha mãe. Ela está lá na cena do velório. Na capela do cemitério. Deitada no caixão. Ela me fala alguma coisa. Mas eu não entendo, ela também aparece sem os olhos.

-Nossa, cara. Credo!

-E tem mais: Ao longe, no fim da rua, surge um cara. Ele não está na calçada como as pessoas sem olhos. Ele tem olhos, mas anda na rua. Ele vem na minha direção. Ele tem mais ou menos uns 60 anos, cabelo branco, cavanhaque branco. Ele está vestido num terno preto. Um terno bonito. É alinhado. Lembra o Sean Connery.

-Porra, é o James Bond?

-Não. Não é o Bond. É um cara. Um cara sério. Ele tem um olhar estranho. Eu sinto o medo aumentar a cada passo dele. Tento correr, mas é como se eu estivesse em câmera lenta. Eu olho pra trás e vejo ele vindo, chegando, chegando… Eu sinto que ele vai me pegar. Aí acordo todo suado, às vezes gritando.

-Cara você já pensou se este sonho aí que se repete pode ser algum tipo de mensagem?

-Mensagem? De quem?

-Mensagem do além, talvez. Veja, eu interpretaria essas pessoas sem os olhos como as pessoas ao seu redor. No fundo esta avenida é uma alegoria da vida. As pessoas andam nela, como robôs, sem olhos, não sabem o futuro, nem pra onde estão indo. Apenas seguem. Mas veja que estranho: Você tem olhos. Você sabe. Você sabe para onde elas vão. Você realmente tem mostrado nos últimos dias saber para onde as pessoas vão: Pro caixão.

-É. Faz sentido, Malucão. Mas e o cara?

– O cara anda na rua. Ele está fora da avenida. Ele está fora da vida. Ele está num lugar que não é reservado para as pessoas. Eu diria que ele é a morte, cara.

-No duro?

-No duro. Ele vem na sua direção e ele tem os olhos. Ele sabe pra onde as pessoas vão. Só você e a morte tem olhos para saber que as pessoas vão morrer. E há também o lance da sua mãe. Pode ser que ela queira te dar uma informação do alem. Mas você ainda não esta preparado para ouvir. Por isso não entende. Pode ter a ver com a morte de terno preto.

-Mas cara, a morte não é uma caveira com manto preto e uma foice?

-Depende. Isso numa morfologia medieval. Mas pensa comigo: Se você fosse um ser atemporal, imaterial, por que razão tosca você estaria com uma foice na mão hoje em dia? A foice era algo daquela época. Era a percepção daquele tempo. Os índios imaginam um índio, os gregos imaginavam um deus usando toga. Hoje em dia, você vê um executivo. A figura é coerente com o seu tempo e talvez isso explique o cartão. Na antiguidade era uma foice. Um instrumento de trabalho no campo. Hoje, numa cidade cosmopolita cheia de empresas, qual é o elemento mais presente? O cartão.

-Hummm. Caraca. Será mesmo?

-Pode ser. Agora, uma coisa que eu queria te mostrar é isso aqui. Eu andei dando uma olhada na questão dos números, cara. Eu estava encucado com os números.  Hoje enquanto estávamos no táxi vindo pra cá, eu estava mexendo com eles.

-Eu vi.

Malucão saca um bloquinho.

-Tinha que haver alguma razão para aqueles números, saca?

Poderiam ser números cabalísticos? Uma data? Uma hora? Talvez até uma chave secreta de banco, não?

-Nada disso. -Disse Malucão sorrindo.

-Ou quem sabe são números escolhidos ao acaso, para afastar os incautos e evitar que pessoas entrem acidentalmente no site da morte?

-Nada disso, cara. Mas também não está longe. Os números realmente tem um significado. Vou te mostrar. Calma aí.

Paulo liga o som e coloca para tocar uma musica do Guns n´Roses.

Malucão começa a escrever no papel. Escreve, escreve, anota coisas. Apaga.  Paulo vai até a cozinha.  Bebe uma garrafinha de vodka ice.

– Veja só isso. Tem mesmo alguma coisa aqui. Os números não são escolhidos ao acaso.  Eu custei a perceber, mas está aqui. Veja só. Primeiro que são quatro dígitos. O quatro é um numero maldito em diversas culturas. Tanto que no Japão quase nada é vendido em quatro unidades. Sabia disso? Não? Pois é. Mas espere só até ver isso. Senta aí.

Paulo sentou no chão para ouvir. Clóvis virou o papel e começou a mostrar os números escritos.

-Se você pegar qualquer número formado por quatro dígitos não repetíveis, por exemplo, 1562. Aí você ordena eles em ordem crescente. Isso eu poderia chamar de “yin”. Então você pega o mesmo número e reordena ele em modo descrescente. Isso eu chamaria de “yang”. Vemos aqui uma simetria matemática, certo? É a representação do bem e do mal. Mas a morte é boa ou ruim? Não sei. Vamos dizer que a morte é neutra. Logo, se eu subtrair um do outro, o bem do mal, eu chegarei na morte.

No papel estava circulado a primeira operação:

6521 – 1256 = 5265

Clóvis continuou:

-Mas 5265 não é a morte. Certo? Pois bem. É aqui que está o mistério. É só repetir os passos. Ordenar de forma crescente, ordenar de forma decrescente e subtrair um do outro. O resultado, você repete de novo. Então, em apenas quatro (olha o numero quatro aí de novo!) operações, olha só o que dá: 6174! Confere aqui.

Paulo olhou os números.

“6552 – 2556 = 3996
9963 – 3699 = 6264
6642 – 2466 = 4176
7641 – 1467 = 6174”

E ficou impressionado.

Clóvis não conseguia conter sua empolgação: – Isso é sinistro, cara. Sempre vai dar 6174, independente do numero que você escolher. O que pode acontecer é que as operações chegam a até sete subtrações e sete é um numero cabalístico.

-… – Paulo estava sem fala. Apenas olhava para o papel com os olhos arregalados.

-Veja, meu amigo Paulo. Tudo isso me leva a crer que quem está por trás disso é alguém muito, muito inteligente. Ou…

-Ou o que? – Indagou Paulo.

-Eu concluo que o 6174 é o numero da morte. É a síntese numérica da diferença do bem contra o mal, em um combate eterno. A morte é perene. No fim, só resulta ela. Todos nós encontraremos com ela. No fim, só resulta 6174. Então no nome do site o que temos é o numero e o nome. O número é o significado e o nome é o nome. Não foi ao acaso. Foi de propósito cara. De propósito, e isso é arrepiante pra caramba!

Motivados pela bebida, pelo medo e pelas teorias de Malucão, os dois resolvem montar guarda no site, para ver se outro nome aparece. Malucão fica dando reload no site por vários minutos. Paulo vai tomar um banho. Depois senta-se ao lado do amigo.

O relógio passa as horas. Nada acontece, apenas a tela preta. Após tediosos minutos de tentativas frustradas, Malucão pegou no sono.

-Olha a morte aí porra! – Gritou Paulo.

Malucão toma um baita susto.

-Poooorra! Eu falei que odeio levar susto, seu viado!

Paulo está quase rolando de rir.

-Foi mal cara. É que tava muito engraçado ver você com esta cara de mongol dormindo em pé na frente do site.Vai, deita lá no sofá. É minha vez de montar guarda.

Malucão deita no sofá e dorme copiosamente. Paulo fica olhando a tela. Apertando o F5 continuamente. Mas a tela está preta. Ele olha as horas. Duas da madrugada. O sono começa a querer cobrar seu preço. Paulo luta para ficar acordado. Os olhos pesam uma tonelada. O dedo já está dormente de clicar no F5. O tempo vai passando, arrastado.  A tela preta, escura, convida para um cochilo. Paulo não resiste, luta contra o sono o quanto pode, mas também acaba dormindo. O relógio passa as horas.

O silêncio da madrugada só é quebrado pelo som do ronco de Clóvis no sofá.

Subitamente, a tela se acende no rosto do rapaz.

A luminosidade desperta Paulo. Ele abre os olhos e vê embaçado, vários nomes surgirem na tela de uma só vez. São tantos que preenchem toda a tela. Paulo arregala os olhos, assustado…

CONTINUA A QUALQUER MOMENTO

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30 comentários em “O cartão negro – parte 5”

  1. caracas
    philipe
    vc é 10 cara
    ja te falei
    to adorando
    cara
    falando em f5 eu to no f5 faz tempo só esperando
    vc ttem bom gosto pra musica
    Daqui a pouco você vai sacar um maconhão aí e cantar “stairway to heaven” no violão.só errou um pouco
    cantar no violão?
    adoro essa musica
    até ja aprendi a tocar
    Paulo liga o som e coloca para tocar uma musica do Guns n´Roses.
    bom gosto viu
    vc escrevendo parece real
    vc faz algumas coisas que na vida real aconteceria
    como parar de falar pra atender o cara da pizzaria no telefone
    sou seu fan viu?

  2. Eh, ta foda… agora eh um onibus ou um aviao que vai pras cucuias…

    Esse post tem tudo a ver com aquela historia do cara que se viu mais velho na argentina dançando um tango com uma gostosa e viu a propria morte… ja foi mencionado Matrix aqui… falta incluir alguma coisa do Efeito Borboleta! 🙂 Conto bom eh assim, em partes (para dar curiosidade) e ouvindo a opinião do publico! 🙂

  3. Entao esse nome seria de que acidente?
    um ataque terrorista?, uma catastrofe natural?, ou um acidente de aviao, navio,onibus e ele tentaria impedir?
    bom o mais plausivel seria esses nomes serem de algum super acidente seja ele qual for.
    Cara so sei qui a historia ta ótima e mais ela reaviva aquele sentimento de ficar acompanhand a historia e nao deixa vc parar de ler enquanto nao termina.
    Tipo bem qui vc poderia colocar rapido ae.kkkk
    e olha eu tenho um fim aparece o nome dele na tela mas ele nao quer se matar
    entao a morte vai e mostra o nome do amigo dele entao paulo pega a moto do amigo e corre o mais rapido que pode e o amigo rouba um carro e vai atras e acorre um acidente e morre os dois na casa de paulo o computador ligado na tela preta e o nome dos dois la do malucao e do paulo 😉

  4. Nossa, parece até o pokemon, hahahah, a gente ficava rezando para que chegasse logo o outro dia, cada dia esse história me surpreende mais e mais, cara, que imaginação fudida voc~e tem cara, seus contos são incríveis, em algumas coisas me lembra o Nelson Rodrigues, putz velho, sou sua fã!

  5. Nossa, parece até o pokemon, hahahah, a gente ficava rezando para que chegasse logo o outro dia, cada dia esse história me surpreende mais e mais, cara, que imaginação fudida você tem cara, seus contos são incríveis, em algumas coisas me lembra o Nelson Rodrigues, putz velho, sou sua fã!

  6. Continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua!!! 😆 Li os 5 posts de uma vez e to morrendo de curiosidade!! :ohhyeahh:

  7. opa, já tem uma previsão da quantidade de partes que esse conto vai ter???

    tá muito foda de bom cara!!!

    referências internéticas, lost, física, teoria das cordas, Death Note…

    show de bola, muita coisa boa junto!!

  8. Muito bom cara! Só achei um pouco entediante a parte do malucão viajando no LSD. hehehehe
    Brincadeira! Mais ficou bemmmmm fringe as teorias do cara.  

  9. O negócio é sinistro, com números de quatro dígitos NÃO repetidos em QUALQUER ordem a coisa funciona assim: A sequência com O MAIOR número subtraída de a sequência de MENOR número, se repetida algumas vezes acaba em 6174…

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